Good Gone Girl

2 Capítulo 2 – O Lado Bom De Estar Solteira


Notas iniciais
Obrigada a quem comentou: — Sophia — Theury — Bella — Matry-chan — Nathalia S — Uma leitora qualquer — Mente Bugada Gente, não acredito que eu ainda me lembro de mais da metade de vocês. Obrigada por sempre me acompanharem e me aturarem mesmo abandonando tanta histórias que vocês gostam ♥ Bisou Belle.Époque

CAPÍTULO 2 – O Lado Bom De Estar Solteira.

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Ellie está alugando um apartamento junto com uma amiga. Depois de ter brigado com a colega de quarto dela (algo a ver com umas peças de sutiã que estavam sumindo), ela percebeu que era muito estressante, para alguém tão organizada, morar numa república e resolveu alugar uma casa dentro da cidade universitária.

Sua companheira de apartamento estava lá quando chegamos. Era uma garota de cabelos cacheados, pintados de vermelho, pele morena e olhos castanhos escuros grandes e redondos. Ela me cumprimenta como se nem percebesse o inchaço e o vermelho do meu rosto o que me faz perguntar se ela realmente não reparou ou se ela simplesmente não dava a mínima.

— Bell, essa é a Sasha. Minha companheira de apartamento – Ellie nos apresenta com um sorriso gentil. – Sasha essa é a Isabelle... Uma amiga do dormitório.

Parte de mim fica surpresa ao ser tratada como “amiga”, mas também gosta. Me faz pensar que não estou tão sozinha quanto achei que estivesse.

— Sua amiga está com cara de quem acabou de vir de um enterro – Sasha observa com um sorriso maldoso, enquanto toma uma xícara de café.

— Eu acabei de enterrar uma amizade de dois anos e um namoro de seis meses – eu digo como se pedisse desculpas pelo meu estado deplorável.

Ellie arregala seus olhos claros para mim enquanto eu me sento no sofá que ela havia me indicado. Solto um suspiro e me surpreendo ao ver que a vontade de chorar foi embora completamente – talvez meu rosto dolorido tenha parte de culpa nisso. Fico aliviada por eu não conseguir mais chorar.

— Como assim? Você terminou com aquele seu namorado também?! – Ellie pergunta surpresa. – Meu Deus, não me admira que você esteja chorando como se seu mundo fosse acabar.

Imagine se ela soubesse que as duas coisas estão relacionadas.

Eu sinto nojo só de pensar nisso.

— Vou fazer um chá para você – Ellie resolve mudar de assunto, se levantando do sofá. – Você já sabe onde vai ficar até se entender com Lauren?

Eu nego com a cabeça e quase digo que nossa briga não era do tipo que “sentar e conversar” fosse resolver. Era provável que, se eu olhasse para ela, eu quisesse dar os tapas que não lhe dei antes, e o mesmo valia para ele.

— Não faço ideia – admito. – Ainda nem entendi o que aconteceu...

Dentro de mim, havia uma sensação de que estava algo inacabado, o que deixava toda a história desse triângulo com um ponto de interrogação. Desde quando eles estavam me traindo? Como isso começou? Por que começou? Eu fiz alguma coisa? Por que ele não terminou logo comigo e por que Lauren concordou com tudo isso pelas minhas costas? Que tipo de amiga ela era?

Respiro fundo. Não quero pensar nisso agora, principalmente, porque eu tenho medo das respostas. Minha cabeça lateja só de pensar nelas.

— Se você quiser... Pode dormir aqui hoje e a gente procura outro alojamento para você – ela sugere. Percebo que está incluindo Sasha em seus planos também, o que deixa a ruiva um tanto incomodada.

— Prometo que não vou dar trabalho para vocês – eu digo.

— Tá, tá – a ruiva diz, revirando os olhos. – Mas você brigou tão feio assim com a sua companheira de quarto? Porque, assim... Se for uma briguinha boba, tipo acusar ela de ter roubado os seus sutiãs cof cof, às vezes, sentar e conversar pode ajudar...

Ellie olha feio para Sasha quando ela lhe alfineta e eu quase sorrio.

— Não quero vê-la de novo tão cedo – eu digo com sinceridade. – O que ela fez... Não tem conversa que resolva. Não há o que conversar...

As duas ficam em silêncio, provavelmente calculando os vários motivos que poderiam ter me deixado tão chateada, mas nenhuma tem coragem de me perguntar diretamente o que aconteceu. Não sei se elas não querem se envolver ou temem que eu tenha outro ataque de choro.

— Só quero deixar claro que roubar meus sutiãs da Victoria Secret’s é a coisa mais nojenta que eu já vi na vida! – Ellie solta de repente, com muita indignação. – E não admitir isso é mais nojento ainda!

Sasha dá de ombros e revira os olhos.

— Eu jamais saberei. Não uso sutiãs – ela diz, em um tom malicioso. Então ela olha para mim mordendo a bochecha interna. – Tudo bem então... Se você não quer ver sua companheira de quarto, eu posso passar lá para pegar as suas coisas. Que tal?

Eu me surpreendo com ela se oferecendo desse jeito.

Ela não parecia muito solidária com a minha meia história.

— Sério? Você faria isso? – eu pergunto. – Não vai te incomodar?

— Para a sua sorte.. Eu já tinha marcado um encontro com um amigo que dorme no mesmo dormitório que você – ela diz em tom malicioso, novamente. – Não vai me custar nada pegar as suas coisas quando eu estiver voltando.

Da cozinha, onde fazia o nosso chá, Ellie sorriu largamente:

— Isso seria maravilhoso, Sasha! Obrigada!

— Sim, obrigada – eu agradeço, apesar do constrangimento.

A ruiva dá de ombros novamente e pega umas chaves no balcão da cozinha. Ela nos manda um tchauzinho simpático antes de sair do pequeno apartamento. Há algo em seu estilo casual e blasé que me deixa admirada. Que me faz pensar no quão maneira e descolada ela é e que eu quero ser assim também.

— Ela parece ser legal – eu digo à Ellie.

— Ela é, apesar de soltar comentários maldosos – a moça responde, vindo para a sala e me entregando uma xícara quente com cheiro de folhas. – Ela também é muito sincera, o que eu aprecio.

Dou um gole no chá.

Em geral, eu não gosto de chá, mas há algo de reconfortante no como a bebida desce quente pela minha garganta. Então era por isso que devia se oferecer uma bebida quente a quem está triste? Fazia todo sentido. O calor descia pelo meu corpo de uma maneira relaxante e aconchegante.

— Então... Agora que estamos sozinhas, você quer conversar sobre o que aconteceu? – Ellie pergunta com cautela. – Desabafar com alguém pode ajudar.

Eu penso bem antes de dizer algo.

Não quero que ninguém saia espalhando pelo campus que Lauren é uma fura-olho e que sou a corna mais burra e mansa da história (qualquer outra garota teria pulado em cima dos dois e lhes estapeado até a morte). Mas algo me diz que Ellie não era do tipo que saía fazendo fofoca. Além do mais, ela me ofereceu ajuda sem nem perguntar o que aconteceu.

Acho que posso confiar nela, não posso?

— Eu... Peguei Lauren e Michael... Se pegando no nosso quarto – eu confesso.

Nem bem termino a frase e já sinto meus olhos arderem novamente. Sinto que vou chorar de novo, o que me dá vontade de me dar um soco em mim mesma. Eu devo ser a garota mais idiota do mundo. Tomo mais um gole para ver se a vontade vai embora. Ela só piora.

— Não acredito... – Ellie murmura, estupefata. – Eu pensei que... Que vocês fossem melhores amigas!

Eu dou um riso amargo.

— Eu também – digo com sarcasmo.

Ellie vem para o meu lado e me abraça. Como ela é um pouco cheia, seu abraço é macio e quente. Quase como um travesseiro ou uma bolsa de água quente. Deixo minha cabeça apoiar no seu ombro, enquanto controlo para não cair no choro de novo.

— Eu sinto tanto, Isabelle... – Ela diz, acariciando minhas costas. – Sinto muito mesmo... Mas, com todo respeito, era Michael Furey, sabe? Ele gosta de fazer esses joguinhos de sair dando em cima de todas as garotas... Você foi tola em namorar um cara com a fama de Don Juan.

Por um lado, eu sei que ela tem razão.

Eu sabia que ele era do tipo que não tinha dó nem piedade ao sair pisando nas pessoas... E me irrita saber que eu me entreguei a ele, joguei o seu jogo, de tão bom agrado. Eu sou uma lesa, uma retardada, estúpida e ingênua... Todavia, em minha defesa, a coisa mais comuns e romântica dos livros é a capacidade da personagem principal mudar o cara mulherengo em um homem de uma mulher só.

E é tão romântico.

Por que isso não pode acontecer comigo?

— Eu achei... Que ele estava gostando mesmo de mim, sabe? – eu digo, me encolhendo porque eu sei que vou ouvir protestos. – Ele era tão... Romântico às vezes. E tão gentil comigo... Eu tive esperança que ele se apegasse a mim...

Já estou prestes a chorar de novo, quando Ellie exclama:

— Não! Você não vai chorar por ele! Não na minha frente! Bora, bora arrumar o que fazer! Mente vazia é oficina do diabo!

Ela se levanta do sofá, de repente muito agitada.

Ellie decide que vamos fazer o que “pessoas que terminam com namorados babacas fazem": comemos coisas gordurosas e assistimos filmes. Fico feliz por ela se importar tanto em tentar me animar.

Em algum momento eu durmo no sofá, no meio de um filme.

Chorar e ficar estressada cansa, então, quando eu durmo, Ellie não me acorda. E quando eu acordo, vejo que ela até me cobriu com um cobertor. Seu apartamento está completamente silencioso e acho que deve ser tão tarde que todo mundo está dormindo, por isso eu não me mexo. Digo a mim mesma para voltar a dormir, mas estou com fome. O que eu faço?

Sento-me no sofá e olho ao redor.

A sala de estar de Ellie é muito pequena e fica acoplada com uma cozinha americana minúscula (daquelas cujo um balcão separa a cozinha da sala de estar/jantar). Está tudo escuro, mesmo assim reconheço uma mala que está encostada contra a parede ao lado da porta de entrada. Sasha já havia trazido minhas coisas, pelo visto. Só que, como eu não tinha um quarto ali, ela não soubera onde deixar.

Como não quero mexer no que não é meu, como a cozinha dos outros, resolvo ligar para a pizzaria 24h do campus da universidade. O nome é “La Bella Parmeggiana” e Lauren, a traidora, já trabalhara lá no recesso de inverno, quando não conseguiu seu estágio no The Guardian.

Era 2h da manhã quando eu peço uma pizza de pepperoni, mas tudo bem, eu estava com fome e desesperada. Meia hora depois, um rapaz sonolento e mau humorado me entrega a comida (muito atrasado), mas mesmo assim eu o pago porque ele teve trabalho de me entregar às 2h da manhã.

Quando minha pizza chega, Ellie e Sashsa aparecem magicamente. Acho que a campainha as acordou e me sinto muito mal por isso.

— Quem era? – Ellie pergunta esfregando os olhos.

— Pizza – eu digo. – Acordei com fome. Querem um pouco?

Ellie nega com a cabeça, mas Sasha não precisa nem de um segundo convite. Ela pega a pizza da minha mão e a coloca na mesa de centro. Quando abre, ela suspira o cheiro de queijo e calabresa apimentada e diz:

— Pepperoni, minha preferida. Vou pegar guardanapos!

A loira que me acolheu ri e diz:

— Sasha nunca recusa comida. E então, como você está?

Eu mordo o lábio, mas forço um sorriso e digo:

— Eu andei pensando sobre isso e... Decidi que já passei por vários estágios do luto: negação, raiva, frustração... Acho que está na hora de eu começar aceitar que... Eu estou solteira e que...

Como se chama quando você perde uma melhor amiga?

— Sua ex-amiga é uma vadia! – Sasha grita da cozinha.

— Sasha! – Ellie repreende. Então me olha como quem pede desculpas: — Ela soube do que aconteceu quando foi pegar as suas coisas... Meio difícil esconder o que todo mundo chama de “barraco”...

É. Eu devia ter adivinhado. Solto um suspiro.

— Sabe o que eu acho? – Ellie pergunta retoricamente, como se tivesse tido uma ideia brilhante. – Eu já volto!

Ela some em seu quarto por uns dez segundos e volta com um caderno branco em suas mãos no mesmo instante em que Sasha volta para a sala com copos cheios de refrigerante e uma caixa de guardanapo.

— Pra quê isso? Vai nos dar uma aula? – a ruiva pergunta indignada.

— Não! – Ellie responde. Então me olha. – Nós vamos fazer uma lista do porque é bom ser solteira... O que você acha, Bell?

Eu acho que eu não tenho problema nenhum em ser solteira... Mas só por diversão e por não ter o que fazer, eu aceito a ideia de Ellie. E Sasha diz que aceita só porque ela é profissional “na arte de ser solteira”.

Nós nos sentamos ao redor da mesa de centro como se fôssemos japoneses, nos servimos de pizza com a mão para não sujar talheres (ninguém queria lavar louça às 2h da manhã) e decidimos que cada uma vai dizer uma coisa boa em ser solteira. Aparentemente, nós três éramos.

— Você começa – diz Ellie. – O que você queria fazer, mas que deixava Michael muito puto? Pense bem.

Eu dou uma mordida no meu pedaço de pizza e penso sobre isso.

— Eu odiava quando eu era legal com algum amigo, fazendo trabalho ou só ajudando com algum problema pessoal mesmo, e Michael ficava bravo... Ele sempre ficava enciumado, mesmo se eu não desse motivo.

— Huum... Isso é coisa de homem inseguro – Sasha comenta maldosamente.

— Então... Número 1: Você pode ser legal com quantos homens você quiser e ninguém vai ficar te repreendendo por isso! – Ellie diz, anotando no caderno, e mordendo a sua fatia (até ela acabou comendo, já que Sasha havia se metido na minha pizza).

Uma sensação confortante toma conta de mim. Posso me acostumar com isso, já que eu sempre sou legal com todo mundo, mesmo fazendo com que as pessoas confundam: ser legal com estar dando em cima.

— Ok, número 2: Você fica livre na balada para ir aonde quiser e com quem quiser! – Ellie sugere.

Eu franzo o cenho e digo:

— Eu não saio muito para a balada.

Ela e Sasha me olham com ingnação.

— Hora de começar a mudar isso – Sasha diz, ainda incrédula. – Uma das melhores coisas de ser solteira é você aproveitar festas, bebidas e, principalmente, outros garotos... Sério, quando você começar a viver, sua vida vai mudar para sempre.

Ela estava dizendo que esse tempo todo eu não vivi?

— Já que é a minha vez, eu digo: Você pode comprar mais presentes para você ao invés de gastar com outra pessoa – Sasha diz num tom esperto. – Sério mesmo. Nada me agrada mais do que ver minhas amigas pobres no dia dos namorados e eu comprando roupas para mim.

Ela se dá um tapinha no ombro como se saudasse a si mesma pela sua esperteza. É, acho que Sasha não bate muito bem da cabeça mesmo, mas isso me faz sorrir. Ellie ri também e dá um empurrão nela enquanto a chama de maluca.

— Sua vez – a loira diz, servindo-se de outra fatia.

— Hum... Acho que... Eu vou poder ficar quieta no meu canto sem precisar ouvir alguém dizer: “tá com TPM”. É isso o que mais me irrita. Eles falam como se tudo fosse culpa da TPM – eu digo. – Às vezes, coisas acontecem e eu fico triste, como qualquer pessoa normal.

Sasha e Ellie concordam com a cabeça.

— Verdade. Eles usam TPM como desculpa para tudo. Até se estamos brigando porque não aguentamos mais alguma coisa, para eles, é só TPM – Ellie concorda revirando os olhos.

Eu como outra fatia. Acho que é minha terceira, mas não estou contando.

— Você não vai precisar dividir o seu tempo entre amigos X namorado X família – Ellie sugere. – Isso sempre ferrava meus namoros porque não sei dividir meu tempo.

Eu ri, mesmo que esse nunca tenha sido meu problema. Quer dizer, minha mãe mora na França com a minha irmã, meu pai está nos Estados Unidos, então, não os vejo muito. Minhas únicas relações eram aqui no campus mesmo, mas eu só tinha uma amiga e um namorado para tomarem meu tempo. Não era tão difícil me dividir assim.

— Okay, agora, minha vez – Sasha diz, pegando a última fatia de pizza. – E prestem atenção, vocês que estão começando agora, porque é a maior vantagem de ser solteira: Você pode ter quantos paus-amigos você quiser.

Ellie ri e apoia o rosto numa mão. Eu não sei o que dizer porque eu não sou do tipo de pessoa que tem “paus-amigos”, por mais que sexo também não seja um tabu para mim. Na verdade, eu nem sei como se faz para encontrar um cara que aceite só transar comigo. Sempre achei um mistério como essas garotas conseguem.

— Como se faz para ter um pau-amigo? – eu pergunto.

— Você chega no cara que você sabe que é um cafajeste e fala: “e ai? Tá a fim de transar? Sem compromisso” – Sasha responde como se realmente fosse uma profissional. – Ah, mas o mais importante: quando você perceber que ele está levando a sério, sai fora.

— Meu Deus, que ideia você está dando para a garota — Ellie a recrimina, apesar de estar se divertindo.

Eu ri também, porém, estou pensando no que Sasha disse.

Talvez fosse disso que eu precisasse. De um “pau-amigo”.

Não é exatamente brincar com alguém, mas é sem compromisso.

Sem corações partidos.