*Daniel*

Enfim havíamos chegado à caverna onde provavelmente estava Kane.

O lugar continuava igual. Era grande e a pouca luz que havia vinha da entrada. Cheiro de chuva pairava no ar e uma brisa úmida refrescava meu rosto. Havia teias de aranha no teto da caverna e um pequeno laguinho raso no centro, cuja água era límpida. Na terra que cercava o laguinho havia flores azuis e plantas.

O chão era escorregadio, então guiei Kathy com cuidado até o fundo da caverna. Quando chegamos à parte mais escura, avistei o ovo.

– Está ali. Fique aqui, Kathy. – Falei soltando delicadamente sua pequena mão.

– Dani, você está bem? –Kathy perguntou.

– Sim... Por quê?

– Eu não sei se é impressão minha, mas parece que a sua temperatura está aumentando.

Agora que ela disse, percebi que eu estava com mais calor do que antes. Meu corpo inteiro parecia estar queimando, principalmente meu braço. Era como se a queimadura se expandisse por baixo da pele.

Antes que eu respondesse Kathy, o meu comunicador começou a tocar e eu atendi.

– Daniel, cadê vocês? – Era Robin. Ele parecia mais preocupado do que o normal.

– Nós acabamos de entrar na caverna. Boa notícia: Kane está aqui! – Respondi animado. Robin pareceu não ficar feliz com isso, então continuei. – O que foi? Você parece mais sério do que o normal.

– Que bom que vocês acharam Kane. Daniel, aquele homem conseguiu atingir você com o fogo?

Eu hesitei. Não queria preocupar Kathy, então respondi disfarçando a dor:

– Um pouco aqui no braço, mas não foi nada... Já quase não sinto mais.

– Isso foi há quanto tempo? – Ele perguntou mais preocupado do que antes.

– Não sei... Pouco antes de vocês chegarem... Mas eu estou...

– Vocês tem que voltar logo para a Torre! – Ele me interrompeu. – O fogo daquele homem é mágico, vai te queimar por dentro!

– O quê? – Perguntou Kathy. – Por isso sua temperatura parece estar aumentando? Robin, como você sabe do fogo mágico?

– Rosie foi atingida. – Ele respondeu olhando para o lado. Ao fundo pude ouvir Ravena esfolheando livros enquanto Jen murmurava coisas e digitava algo nos computadores da sala de primeiros socorros. – Nós rastreamos o seu comunicador e sabemos onde vocês estão. Ciborgue está indo buscar vocês de carro.

Ele desligou na minha cara. Eu tentei ligar para eles e falar que não preciso de um carro, mas já estava começando a ficar zonzo.

– Por que você não disse antes? – Kathy conseguia fazer uma fusão perfeita de raiva com preocupação. – Senta aqui, é melhor você não se mexer muito.

– Eu estou bem, sério.

– Claro que sim, você está tão bem quanto a lareira da minha casa. Agora senta aí! Posso ser cega, mas ainda sei lutar. Ou você senta ou dou um jeito de arrancar o seu braço.

A baixinha pode ser fofa com aquele cabelo loiro e aqueles olhos cinza delicados, mas ela parecia prestes a explodir em qualquer momento. Resolvi sentar, mas não foi por medo dela. Foi porque eu estava cansado.

Só percebi que eu estava mais exausto do que eu pensava quando sentei ao lado de Kane. Na verdade, eu mais caí do que sentei. Minha cabeça girava e meu corpo ardia.

Segurei o ovo com cuidado, analisando-o. Ele era grande – mais ou menos do tamanho de um ovo de avestruz –, acinzentado e pesado. Sua casca era lisa, mas ao observar com atenção era possível perceber leves traços que formavam formas aleatórias.

Contra a luz do luar, pude ver de leve o contorno do filhote dragão dentro do ovo. Ele estava encolhido como um bebê humano que se mexia bastante, tentando se espreguiçar. Estava se mexendo muito, até demais. Daqui a pouco ele iria quebrar o ovo sem querer. Espera... A menos que ele quisesse...

– Ele está nascendo! – Falei surpreso.

– Por que agora? Ele não podia esperar um pouco? – Kathy respondeu. – Vai em frente, seja a “mamãe” dele.

Coloquei o ovo no chão com cuidado e ele começou a rachar. Formou-se primeiro uma rachadura pequena, que depois foi crescendo e se ramificando. As partes da casca começaram a se separar, deixando à mostra um pedaço de sua cabeça.

Kane parecia um filhote de dinossauro azul escuro com asas de morcego. Com dificuldade, ele tirou a cabeça de dentro do ovo e depois as patas. Pouco tempo depois, ele já estava quase andando como um dragão normal. Então comecei a olhar apenas para seus olhos, sem sequer piscar os meus.

Ele veio andando devagar em minha direção, até encostar-se à minha perna e começar a abrir os olhos. Quando seu olhar encontrou o meu, eu senti que tudo à nossa volta sumiu e o tempo parou. Seus olhos eram negros como a noite, brilhantes e profundos como o céu em uma noite estrelada.

Kane começou a me farejar e eu estendi a mão, onde ele esfregou sua cabecinha. Mesmo sem trocar uma palavra, eu entendi o que ele quis dizer com isso: eu era seu novo dono.

Logo depois Ciborgue chegou e nós voltamos para a Torre.