Going Back In Time Party
2 Ligações
Rachel Berry recebeu e leu sua carta ainda de manhã, e isso apenas porque verificar a correspondência fazia parte de sua rotina diária. Primeiro, ela acordava e, do jeito em que se encontrava, pedalava por pelo menos meia hora em sua bicicleta ergométrica, a mesma que antigamente usava em seu quarto em Lima. Enquanto se exercitava, ouvia suas canções preferidas da Broadway, tanto de musicais recentes quanto dos mais antigos, os seus preferidos. Feito isso, passava mais meia hora no banheiro preparando e fazendo seu ritual de beleza – uma aspirante a atriz de teatro não podia deixar a beleza descuidada. Feito isso, colocava a máquina de suco para trabalhar, assim como a torradeira, e, vestida com uma roupa leve, descia para o térreo do pequeno prédio em que morava para verificar a correspondência, e foi nesse momento que percebeu a carta de Artie.
Deixou a máquina de fazer suco trabalhando, assim como a torradeira, e se sentou ali mesmo, no hall, para ler seu conteúdo. Conforme os olhos percorriam as letras, ela ia ficando mais emocionada. Ficou mais alegre do que podia imaginar com a proposta de Artie e deparou-se chorando enquanto voltava para o seu apartamento. Ao entrar, bateu a porta às costas e, com uma mão trêmula na boca, como se para reprimir o barulho que fazia enquanto chorava, entrou na cozinha. Deixou a carta em cima do balcão.
– O que está havendo? – perguntou sua companheira de apartamento, Liv. Rachel não a havia percebido ao entrar no ambiente, mas ela já tomava seu café e tomara todo o cuidado de não deixar que as torradas que sua amiga abandonara ao se aventurar em sua rotina diária esfriassem. Como Rachel não respondeu, ela tornou a perguntar: — Seus pais... Está tudo bem com eles?
– É claro que está! – Rachel respondeu empolgada, tomando uma cadeira à mesa. – Nunca estiveram melhores!
– Isso é bem emocionante mesmo – Liv disse, sarcástica.
Liv era uma mulher dos seus vinte e seis anos, mas tinha corpo e aparência de uma adolescente. Tinha o rosto angelical rosado e cachos de cabelos dourados de causar inveja. Rachel a conheceu enquanto procurava alguém para dividir apartamento em Nova Iorque, pois achava os alugueis da região muito caros, e Liv também tinha essa vontade. As duas fizeram amizade em pouco tempo, já que Rachel era bastante sociável e Liv, não muito diferente.
As duas, agora, faziam workshop de um musical até então sem nome sobre A Branca de Neve. Rachel e Liv faziam parte do coral, portanto, nenhuma delas era a estrela, mas Rachel já considerava isso um bom começo, muito embora se sentisse triste vez e outra por não ter conseguido o papel principal. Conseguira o papel no coro, mas na verdade tinha feito audição para a Branca de Neve.
Rachel acordou de um devaneio e encontrou o olhar espantado de Liv.
– Eu devo estar parecendo muito estranha agora – disse.
– Um pouco.
– Acabo de receber uma carta e...
– Uma carta...?
–... simplesmente não posso ignorar o que está escrito nela.
– Deve ser bem difícil ignorar algo depois de lê-lo.
– Vou ter que sair numa viagem, Liv.
Liv tornou a encarar os olhos arregalados de Rachel e quase engasgou com sua xícara de café.
– Você só pode estar brincando!
– Não estou.
– Temos workshop, Rachel! Eles não vão pagar o seu salário, por menor que ele seja, se você não comparecer aos workshops!
– Eu sei! Mas a carta...
– Eu não vou dar conta de pagar esse aluguel sozinha, você bem sabe disso!
– Não vou te deixar na mão, pode ficar tranquila. Tenho dinheiro suficiente para pagar a minha parte, é só me dizer de quanto precisa...
– Trezentos dólares.
– O quê?!
– Achei que você já soubesse quanto pagamos de aluguel.
– E-Eu sei... – Rachel sabia, mas a menção do valor fez com que estremecesse. Tinha esse dinheiro, mas receava não poder fazer sua viagem até Ohio se o concedesse à amiga naquele instante. – Eu vou te pagar – murmurou com dificuldade. – Mas depois a gente resolve isso, não posso ignorar o pedido dessa carta...
– O que ela pede?
Rachel fitou os olhos inquisidores de Liv e percebeu que a amiga estava pronta para argumentar sobre qualquer motivo que ela desse para largar o workshop e encarar uma viagem de última hora. Ela própria sabia que a ideia parecia um absurdo, mas não podia simplesmente ignorar o pedido de Artie como se ele jamais tivesse sido feito. Por isso, optou apenas por dizer:
– Não posso dizer.
– Era só o que me faltava!
– Preciso partir, Liv. E vou fazer isso ainda antes do almoço – disse Rachel e levantou-se da mesa.
– Ótimo, vá em frente, ignore a tudo e a todos. Mas saiba que você corre o risco de perder esse papel em A Branca de Neve assim que o diretor não te ver lá!
– Eu sei – Rachel respondeu com um grito, já no quarto. – Mas sei que sou talentosa e que vou conseguir outro mais rápido do que você pode dizer “Evita”!
– Ah, claro! – Liv disse, dando de ombros.
Rachel começou a fazer suas malas naquele mesmo instante, mal podendo se aguentar de ansiedade. Liv, na cozinha, irritada porque a amiga fora tão pouco esclarecida quanto costumava ser, apenas murmurou:
– Evita.
Levantou-se e pôs-se a lavar a louça.
~//~
Quinn Fabray estava de volta para a república em que estivera hospedada, próxima a Yale, e deparou-se com a carta no correio. Não se lembrava de estar esperando alguma coisa, fosse a resposta de uma entrevista de emprego ou algo do tipo, então imaginou que fosse uma daquelas propagandas de revista de negócios que ela tanto odiava. Pegou a correspondência sem muita pretensão e largou-a em cima de sua mesa de estudos, enquanto se destinava a fazer outras coisas.
Foi só no fim da tarde, quando já não havia mais luz no céu e a noite já começava a cair, que ela tornou a se lembrar da carta. Fora se sentar para ler mais um daqueles livros de arte, usados em suas aulas de atuação, e viu o envelope ali, o seu nome escrito numa caligrafia que ela parecia recordar de algum lugar, só não sabia de onde. Deixou o livro de arte de lado e abriu o envelope lentamente, respirando fundo. Não se preocupou em descobrir quem a havia mandado.
Assim que terminou de ler, tornou a respirar fundo, apreensiva. Sabia que a ideia de Artie era absurda e sabia, também, que pegar férias em tempos como aqueles era totalmente inviável. Mas viu ali uma oportunidade de rever seus amigos, principalmente os mais importantes.
E tinha uma pessoa em especial que ela estava bastante ansiosa para ver.
Naquele mesmo instante, correu para seu quarto a fim de arrumar algumas coisas em uma mala. Não queria demorar a voltar para Ohio, não depois de tanto tempo. Sentia muita falta daquele ambiente e mal podia se aguentar de ansiedade. Queria fazer a viagem o mais rápido possível. Se conseguisse, até mesmo naquele dia. Só não podia deixar fazer parte daquela festa.
Uma mala abarrotada e bem fechada já era o suficiente para Quinn. Com tudo pronto, ela sentia-se pronta para partir, mas antes precisava fazer uma ligação. Discou o número e levou o celular ao ouvido. Esperou tocar, até que alguém atendeu.
~//~
– Soldado Hudson! – anunciou o mensageiro do quartel, um adolescente esmirrado, de cara espinhenta, assim que encontrou Finn Hudson em sua sala de vigia. Finn passava a maior parte do dia observando monitores de computador, como um Big Brother, tentando encontrar qualquer coisa de errado que acontecesse em todo o perímetro do quartel. Um trabalho chato, mas de certa confiança. Ele esperava que um trabalho bem feito pudesse levá-lo a cargos maiores no exército.
– Pois não? – disse.
– Tem uma carta para o senhor! – disse o garoto e estendeu a mão, oferecendo um envelope selado.
– Para mim?
– É o seu nome no envelope.
Finn agarrou e abriu o envelope em poucos segundos. Leu a carta sem demora e arregalou os olhos, estupefato. Teria que solicitar férias antecipadas e urgentes para seu superior, mas se dissesse que o motivo para isso era a festa de Artie, ele seria levado como uma piada. Teria que inventar uma desculpa melhor que aquela.
– Qual é o seu nome...? – Finn perguntou ao garoto.
– Brendon Lussus.
– Brendon, quando sair, você pode fechar a porta?
– Claro, senhor! – disse o menino e partiu em disparada.
Finn esperou alguns minutos, para ter certeza de que estava novamente sozinho, e então agarrou o telefone que tinha a seu dispor. Precisava fazer uma ligação antes de realmente solicitar as férias para o general.
~//~
Depois de um voo que não demorou muito, Rachel chegou ao aeroporto principal de Ohio. De lá, só precisava pegar um taxi para chegar à casa dos pais. Meia hora depois, estava à porta de sua antiga casa, e nesse momento seu coração foi tomado por nostalgia. Pagou o motorista, deixou o carro e correu para a porta sem se demorar mais.
– Rachel? – disse Hiram, seu pai, surpreso, à porta. – Você aqui?
– Isso explica as ligações! – disse Leroy passando pelo marido, puxando Rachel para um abraço.
A garota abraçou cada um dos pais com lágrimas nos olhos. Sentia muita falta deles, e agora percebia que sentia falta também desses abraços.
– Qual o motivo da visita, minha filha? – perguntou Hiram, que também chorava de emoção.
– Matar a saudade de alguns amigos e do lugar em que eu cresci. Eu mal podia esperar para revê-los! E esse lugar... Céus, como eu sentia falta de tudo isso!
– Também sentimos muita falta de você, mesmo que a gente se fale todo dia por telefone. Você podia ter nos avisado, querida, pois aí teríamos preparado algo...
– Vocês falaram de ligações assim que cheguei – Rachel falou enquanto cada um dos pais agarrava suas malas. – Que ligações foram essas?
– Ah, eu já ia me esquecendo! – Leroy começou a dizer. – Seus amigos te ligaram, e parecem muito ansiosos para te ver também!
– Quais amigos?
– Finn Hudson e Quinn Fabray – ele respondeu com tranquilidade. – Agora entre, filha. Temos muito o que conversar!
Finn e Quinn?, Rachel pensou, franzindo o cenho. Não conseguia acreditar que ouvira mesmo esses nomes.
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