Quinn espreguiçou-se ao acordar pela manhã, como sempre costumava fazer. Deixou que um suspiro rompesse pela boca, quase como um sinal de alívio por ter passado tanto tempo adormecida e na mesma posição, e só então se deu conta de que não estava em seu próprio quarto.

- Como é que é? – falou para o nada. Não demorou muito e já estava sentada, sem nenhum sinal de sono, como se o espanto o tivesse feito ir embora. – Mas...

Definitivamente aquele não era o seu quarto, primeiro porque ela odiava paredes cinzas – ou brancas? – e toda aquela decoração de móveis negros e brancos e cinzas, neutros demais, combinando perfeitamente entre si, mas não sendo tão bonitas aos olhos. Se tivesse um quarto daquele tamanho e os mesmos recursos que o seu dono tinha, ela teria todo o cuidado de dar um ar mais artista ao ambiente, adicionando pinturas e estantes com livros ao invés de prateleiras sem graça e vazias, como se fossem apenas objetos de decoração.

Então ela apoiou as mãos na cama, deu um impulso para terminar de se levantar e ouviu um grito. A princípio, pensou que ela própria tivesse gritado e não tivesse dado conta disso, mas, mesmo que sua voz fosse grave, não era tanto quanto a do grito. Quinn sentiu o corpo inteiro estremecer ao começar a reunir os fatos e se dar conta do que tinha acontecido. Ainda assim, torceu para que estivesse profundamente enganada quanto aos pensamentos.

- Sam? – ela disse entredentes ao virar a cabeça e encontrá-lo no outro lado da cama, tão próximo dela que podia ser facilmente confundindo com algum tipo de amante.

Sam, que parecia bastante confortável, apesar da dor que sofrera no peito ao ser empurrado por Quinn, primeiro se espreguiçou, esfregou os olhos e só então decidiu voltar sua atenção para a garota que o olhava assustada, as sobrancelhas curvadas para cima. O primeiro pensamento que ele teve foi “Essa é a garota mais linda que eu já vi!”, mas então percebeu que ela não estava tão feliz quanto ele, e isso fez com que o sorriso que estava prestes a esboçar jamais tivesse existido.

- Aconteceu alguma coisa? – perguntou.

Quinn abriu a boca para falar, mas as palavras faltavam. Levou um tempo para finalmente conseguir dizer:

- A-Aconteceu? Quer dizer, parece que aconteceu alguma coisa aqui, mas... Céus!

Sem pensar duas vezes, Quinn levantou-se da cama, o corpo nu movendo-se pelo quarto, e, no quebra-cabeça de peças de roupa em que havia se tornado aquele quarto, começou a procurar aquelas que lhe pertenciam. Sam a acompanhou com o olhar, satisfeito mas ao mesmo tempo intrigado. Esperou que ela dissesse algo antes de voltar a falar.

- Nós pelo menos... – Quinn começou a dizer, mas Sam franziu o cenho, sem entender. – Nós nos protegemos?

- C-Claro que sim! – o homem respondeu prontamente.

- Ótimo! Não queria uma dor de cabeça mais forte do a que já estou tendo.

Quinn vestiu-se mais rápido do que qualquer outra garota seria capaz de fazer. Num piscar de olhos, Sam viu a mulher magra, loira e de pernas grossas com quem passara a noite mudar de nua em pêlo para pronta para a passarela de alguma Fashion Week. Queria rir do acontecido, mas sentiu que não devia.

- Ainda vamos conversar sobre isso, Sam – Quinn disse e abriu a porta para sair do quarto. – Pode ter certeza de que vamos. – E então saiu.

Sam sorriu satisfeito no lugar e apoiou a nuca nos braços, ainda deitado. Contemplou o teto e sorriu, tão contente que estava por ter reconquistado Quinn Fabray e ter ido tão longe com ela nas últimas horas. Seu momento de calmaria só foi interrompido quando, em meio ao silêncio, o vibrar do seu celular se fez ouvir, alto e claro.

- Quem pode ser? – perguntou-se enquanto se dobrava na cama para encontrar o aparelho. – Será que...?

Interrompeu a frase assim que encontrou o celular. O nome Mercedes Jones era mostrado no display.

~//~

A pessoa que recebeu Kurt quando este chegou à sua casa – embora não tenha sido propriamente um recebimento, levando em conta as leis de cordialidade – foi uma Quinn Fabray muito afoita que, correndo, não se deu o trabalho de parar para um abraço quando o encontrou na porta, dizendo um “Bom dia!” quase ininteligível. Kurt deu de ombros, sabendo que ele e ela nunca foram muito amigos de verdade, deixando de se surpreender com a atitude.

Surpresa mesmo foi encontrar o saguão de entrada e a sala de estar da casa onde morara durante grande parte de sua juventude reviradas pelo avesso, como se um tornado tivesse feito uma pausa por ali em seu caminho. Os olhos de Kurt se arregalaram de tal maneira que pareceram cômicos. Se ver móveis fora do lugar e enfeites de decoração – a maioria deles fora presentes seu para o pai e a madrasta – espalhados pelo chão não fosse suficientemente espantoso, entre uma boneca de porcelana e um pires importado da Dinamarca havia corpos adormecidos, ou talvez mortos. Esquadrinhando o local, Kurt encontrou um Noah Puckerman desmaiado a um canto, uma garota que ele não conhecia em outro, um Artie, ainda em sua cadeira de rodas, dormindo sobre o próprio colo e um Finn que surgiu pela porta que servia de passagem para a cozinha, um avental preso ao corpo.

- Chegou bem a tempo de me ajudar com a arrumação – o homem disse e voltou para a cozinha.

- Esse trabalho não vai ser meu, Finn – Kurt disse ao segui-lo, uma mão próxima ao peito, ainda chocado. – A bagunça foi tão bem feita que tenho certeza de que meu pai e Carole vão pensar que uma manada de elefantes passou por aqui, e não os convidados de uma festa.

- Se me ajudar a arrumar tudo, talvez eles jamais saibam.

- Acorde os corpos baixados durante a guerra e terá mais ajuda do que eu seria capaz de propiciar.

Finn encolheu os ombros, conformado.

- Mas não é sobre isso que quero conversar – Kurt emendou.

- Fiz mais alguma coisa errada?

- Quero falar sobre Rachel Berry.

- Esse não é um assunto que vou conseguir discutir agora, Kurt. Você sabe tão bem quanto eu que a oportunidade de eu poder vê-la ontem não aconteceu. Você sabe que eu a convidei, mas parece que... – Finn parou seu discurso, sem saber o que falar.

- Ela está com medo, Finn.

- Medo? Será que tem algo a ver com aquela vez que tentei avançar o sinal, mas ela...

- Não tem nada a ver com isso! – Kurt assegurou e amparou o irmão, que encurvou tanto o corpo que estava próximo de enfiar a cabeça na pia. – Ela só tem medo de revirar o passado e descobrir que tudo o que ela sentiu naqueles anos não é mais o mesmo. Tem medo de se decepcionar.

Finn refletiu um instante.

- Mas ainda é como antes.

- Então deixe que ela saiba disso.

- Como? Ela está fugindo de mim! Não vou conseguir me aproximar se ela continuar se esquivando.

- Mas é justamente por isso que estou aqui. Vou ajudá-lo com isso.

- Como? – o homem perguntou, interessado, virando com rapidez o rosto na direção do irmão.

- Ouça com atenção.

E então Kurt contou o seu plano.

~//~

- Sou assistente de produção em um musical sobre a Branca de Neve na Broadway – Blaine disse depois de uma longa golada em seu copo de café.

Rachel, com seus olhos profundamente negros e agora tão brilhantes, fitou Blaine por alguns segundos. O homem, diante daquele olhar, chegou a se sentir intimidado, tentando imaginar o que se passava na cabeça da garota ao ter ouvido aquilo. Pensou, também, que ela pudesse estar passando mal e se não seria uma boa ideia chamar uma ambulância se fosse esse o caso.

- Não brinca! – ela disse por fim, a voz que já era fina soando esganiçada. – Eu... Eu...

- Rachel...?

- Eu também trabalho com a Broadway! Sou atriz!

- Eu imaginei que fosse. Você sempre foi a melhor cantora do Glee Club. Não conseguia pensar em você fazendo outra coisa, além de cantar no teatro. Além do mais, você sempre foi tão dramática...

- Sou do coro, fico na parte de trás do palco e dificilmente apareço na peça. Sempre sonhei com o estrelato, mas, como ainda não o tenho, imagino que uma experiência dessas PODE me ajudar no futuro!

- E está mais do que certa – Blaine concordou e bebericou mais um pouco do café.

- Mas eu poderia pular toda essa parte se você me ajudasse.

Blaine engasgou com a bebida e quase caiu para trás com a cadeira. Instantaneamente, seus olhos se encheram de água, então ele teve que largar o copo e esfregá-los para fazer a visão voltar ao normal.

- O quê?! – perguntou, incrédulo.

- Você é produtor de um musical da Broadway, é casado com o diretor desse musical, deve ser a pessoa mais influente no meio que eu já deva ter visto pessoalmente! Blaine, aqui estão a minha chance de ser ajudada e a sua de me ajudar!

- Rachel, você ouviu errado...

- Não ouvi nada errado!

- Eu sou assistente de produção de um musical da Broadway e, não, não sou casado com o diretor do musical, somos apenas namorados.

- É quase a mesma coisa.

- É bem diferente.

- Me ajude, Blaine, você não vai se arrepender! Você conhece o meu talento, sabe do que sou capaz, sabe de todas as coisas que fiz, então ninguém melhor do que você para convencer um diretor de tudo isso! Você dorme na mesma cama que ele! Não tem como falhar!

Blaine estava estupefato.

- E não vou fazer um mal trabalho – Rachel terminou.

- Preciso falar com ele antes de te confirmar alguma coisa, Rachel.

- Faça isso.

Blaine assentiu e voltou a tomar o seu café. Rachel ficou a observá-lo, sorridente, como que com expectativa.

- Não vou ligar pra ele agora – Blaine disse de repente.

- Tudo bem. Acho que posso esperar.

- Ótimo. – Blaine começou a arrumar as coisas que largara em cima da mesa e se levantou. – Bem, preciso ir. A conversa foi muito boa, mas, por mais que eu esteja longe de Nova Iorque, ainda tenho trabalho a fazer.

- Tudo bem. Foi muito bom te ver, Blaine.

- Foi sim – ele disse e partiu.

E ali ficou Rachel, observando a reação das pessoas a sua volta, um copo de café à frente tão intocado quanto o foi o assunto que a levara a procurar por Blaine.