Going Back In Time Party

9 Depois das Bebidas, O Sol


- Vou sair dessa casa! – Santana anunciou na manhã seguinte, um dedo indicador erguido no ar em sinal de advertência a quem mais estivesse ouvindo. Como estavam todos tão bêbados quanto ela, ninguém na casa dos Hummel foi capaz de ouvir ou sequer entender uma palavra de seu discurso. Em sua maioria, estavam todos deitados aos cantos, garrafas ou copos de plásticos com resquícios de álcool nas mãos.

Aliás, até Santana estava assim minutos atrás. Não se lembrava de como tudo acontecera, mas se lembrava de ter acordado e se deparar sobre a mesa da cozinha, os braços e a cabeça apoiados em um dicionário que muito provavelmente ela inventara de ler em um momento impróprio. Foi depois disso tudo que decidiu que iria embora e, irritada como estava por causa da dor de cabeça, fizera questão de anunciar sua saída. Agarrou a primeira bolsa que encontrou – uma que não era sua – e rompeu pela porta da frente, por pouco não rolando alguns degraus abaixo na sacada da casa dos Hummel.

Já era manhã há algum tempo, então o sol já brilhava forte no céu. Essa claridade irritou tanto a vista de Santana que, ainda mais irritada, a garota esbravejou com a dor. A cabeça girou e ela teve a impressão de ter girado também. Nunca mais bebo nessa vida!, procurou prometer, mas sabia que jamais cumpriria tal promessa. Por ora, parecia o certo a se fazer. Levou uma mão acima dos olhos, fazendo sombra, e só assim conseguiu chegar até a calçada sem sofrer as consequências de uma visão comprometida.

- Vai ser uma difícil volta para a casa – ela sibilou, mas, se houvesse alguém ao redor, ninguém entenderia qualquer coisa.

Santana dobrou à esquerda na rua e a pequena curva foi como uma volta ao mundo. A mulher rodopiou nos próprios calcanhares e dessa vez não teve como evitar a queda que se sucedeu.

- Eu sou uma idiota! – disse e apoiou as mãos no chão para se levantar. – Juro que nunca mais vou beber em toda a minha vida! Agora como é que eu faço para ir para a casa...?

Santana olhou de um lado para o outro e tentou relembrar o caminho que fizera para chegar até ali. Não conseguiu. Seguiu sua caminhada e passou a torcer para que o destino a levasse para o lugar certo.

~//~

Brittany estava acordada há algum tempo, mas, até então, estivera fazendo um aquecimento sozinha em seu quarto. Tinha um espelho grande no lugar das portas de um guarda-roupa, coisa que a ajudara muito em todas as coreografias que aprendera em sua vida. Agora, ela o usava para verificar se o corpo ainda estava em forma. Com o emprego que tinha, qualquer vacilo com a saúde seria um grande problema, então todos os detalhes eram importantíssimos.

O aquecimento durou cerca de meia hora. Além de servir para deixar o corpo pronto para uma rotina de exercícios, Brittany sentia que ele servia para deixá-la mais animada para enfrentar o dia. Mais do que um café da manhã, o aquecimento era como uma injeção de ânimo, algo que ela precisava fazer pelo menos uma vez por dia, senão sentiria que não tinha sido produtiva. Já estava acostumada com aquilo.

Sentada na cama, calçou os tênis e esticou os braços para trás uma última vez. Estava pronta para sua caminhada diária.

- Para onde vai, filha? – sua mãe perguntou assim que se deparou com a filha à porta.

- Vou caminhar, mãe – Brittany respondeu enquanto ajustava o aparelho de mp3 do celular.

- Mas você acabou de acordar! Sente-se e coma alguma coisa! Você, melhor do que eu, sabe que nenhuma rotina de exercícios nunca é boa o bastante quando não se tem nada no estômago.

- Você tem razão, mas só dessa vez – a garota concordou enquanto se dirigia à mesa. – Ainda discordo de você no que diz respeito às estrelas. Sei que as estrelas que somem são lâmpadas de pisca-pisca que pararam de funcionar e que não foram trocadas.

A mãe olhou por um instante para a filha e sorriu, dando de ombros. Não se importava com o fato de a filha ser tão ignorante sobre certos assuntos, desde que ela estivesse bem e por perto.

- Panquecas? – ela ofereceu enquanto remexia a massa na frigideira.

- Não – Brittany recusou com um gesto. – Essa é uma opção de café da manhã muito pesada para quem precisa seguir uma dieta saudável.

- Eu ponho menos açúcar e você pode usar uma calda de frutas...?

- Não, mãe. Pode deixar que eu preparo alguma coisa.

Brittany levantou-se e foi até a geladeira. Desde que começara com aquela dieta para manter a boa forma, não se alimentava de alimentos que fossem muito gordurosos, e panquecas certamente que se encontravam na lista de coisas proibidas. Para adaptar-se à falta de alimentos tão saborosos, ela havia procurado outros meios de obter o mesmo prazer ao comer, mas comendo coisas mais saudáveis. Por exemplo, naquela manhã, ela poderia muito bem substituir a panqueca por uma salada de frutas, e frutas era o que não faltava naquela geladeira.

Brittany apanhou mamão, maçã, banana, laranja, carambola e melancia. Ali havia mais frutas do que ela dispunha em sua própria casa, então, pelo menos daquela vez, teria um café da manha digno de uma rainha. Agarrou uma faca grande e ameaçou cortar a primeira das frutas quando, de repente, sua mãe a impediu de ir adiante.

- M-Mãe?

- Deixe que eu faça isso, querida.

- Mas...

Antes que pudesse terminar a frase, sua mãe já tinha tomado a faca de sua mão e já cortava o mamão em cubos perfeitos e pequenos. Brittany assistiu aquilo estupefata. Aquele era para ser um gesto de gentileza, mas ela sabia que a mãe nada mais estava fazendo do que procurando evitar que a filha se acidentasse com o utensílio de cozinha.

Mal sabia ela que Brittany estava mais acostumada a fazer aquilo do que ela podia imaginar.

- Com licença – ela disse e tomou a faca novamente. A mãe deu um suspiro espantado, mas Brittany não voltou atrás. – Pode deixar, eu preparo o meu café da manhã hoje.

Sua mãe sorriu, mas não com alegria. Voltou-se para frente e procurou terminar as cheirosas panquecas que muito provavelmente seriam servidas para ela própria, uma vez que não havia mais ninguém naquela casa para devorá-las.

- Eu ainda estou surpresa por você estar aqui – falou com timidez.

- É mesmo?

- Sim. Sabe, eu penso em você todo dia, filha, mas nunca imaginei que você fosse aparecer à minha porta tão cedo. Foi uma surpresa, mas a mais agradável de todas! Antes de ir me deitar, eu me belisquei para ter certeza de que esse não era um sonho.

Brittany sorriu com simpatia para a mãe e voltou sua atenção para as frutas. Já tinha cortado mais de metade de tudo quando sua mãe voltou a falar.

- Mas por que você voltou, Brittany?

- Sempre voltamos, mais dia, menos dia.

- Isso não responde a minha pergunta.

Brittany terminou de cortar tudo, adicionou o suco de laranja e fez a mistura; estava perfeita. Depois da primeira colherada, prosseguiu:

- Eu tinha muita saudade daqui, mãe, mas nunca soube disso. Achei que, quando deixasse Lima para seguir meu sonho, eu estaria livre de todas essas memórias que presenciei durante meus primeiros anos de vida. Nunca estive tão enganada. – Fez uma pausa para mais uma colherada. – Um amigo meu de Clube Glee me enviou uma carta pedindo que eu voltasse para uma comemoração de reencontro. Foi nesse instante que eu vi que sempre senti falta de tudo e de todos, por mais que minha vida estivesse perfeita.

- Sente falta de alguém em especial?

- Sim, senti muita falta de você, mãe.

- Não estou falando de mim.

Brittany franziu o cenho.

- Não sei do que está falando.

- Deixa pra lá.

Brittany terminou o café da manhã e aqueceu o corpo uma vez mais. Despediu-se da mãe e partiu pela porta. O dia estava perfeito para prática de atividades físicas.

~//~

Santana ainda rebolava pelas ruas de Lima como se caminhasse por um chão cheio de obstáculos. Era como naquelas provas de programas de televisão de domingo, onde o chão, que eram plataformas, girava e os competidores, em busca de dinheiro, tentavam passar por ele, mas nem sempre conseguiam. Santana se enxergava nessa prova, mas com um problema: não tinha a motivação do prêmio. Talvez chegasse bem e viva em casa se vencesse aquela prova. Querendo ou não, esse era um grande prêmio.

Estava a ponto de começar a cantar em busca de concentração – isso jamais funcionaria, mas Santana não tinha mais noção do que era real depois de tantos copos de bebidas entornados -, quando se deparou diante de uma miragem. Quer dizer, só podia ser, porque, até onde se lembrava, deixara sua companheira na casa dos Hummel, o que, de longe, significaria o maior erro que cometera em toda sua vida. Mas talvez estivesse enganada quanto a isso, senão, quem poderia ser aquela menina que vinha correndo em sua direção?

- Lucia! – Santana gritou, os braços abertos e prontos para receber sua garota. – Que bom que está aqui! Eu não via a hora de...

E então seu corpo não conseguiu mais se manter erguido sobre os saltos altos.

- Santana! – Brittany gritou enquanto corria para socorrê-la. Chegou a tempo de pelo menos impedir que o nariz da moça fosse quebrado no chão. – O que aconteceu com você?

- Lucia... Eu juro que nunca mais vou beber em toda a minha vida... – Santana disse antes de adormecer nos braços de Brittany.

- Santana... – Brittany disse e alisou seus cabelos, tirando-os da frente do rosto.

Ali acontecia uma situação que nenhuma das duas um dia pensou que fosse resultar no primeiro encontro entre elas depois de tanto tempo.