Gods World

14 Haylow - Uma Triste História


Notas iniciais
Me desculpem, sei que demorei para postar outro capítulo, mas aqui está ele.

– O que diabos foi isso? – Perguntei, olhando em volta. Piper e Nyssa estavam agachadas ao lado da cama da Haylow, Jason estava um pouco afastado e Leo estava sentado no chão, na minha cama. Zara flutuava na frente da minha cama – ela podia fazerisso?

Espera. Leo estava nochão? Zara na frente da minhacama? Abaixei a cabeça e reparei que eu estava na cama que era do Leo. Lancei um olhar fulminante para ele, mas ele deu de ombros e apontou para Haylow. Eu me levantei e me aproximei dela.

– O que aconteceu? – Reparei que Haylow estava pálida, e parecia estar sentindo muita dor. Ninguém respondeu minha pergunta, mas Piper apontou para uma das pernas da Haylow. Quando olhei não sabia como reagir. O tronco de cobra desaparecia aos poucos, dando lugar a uma perna de verdade. Cada milímetro que sumia parecia causar a Haylow realmente muita dor.

– Nós vamos precisar adiar um pouco a continuação da missão. Pelo menos até as duas pernas dela acabarem de mudar. – Leo disse, enquanto batia no chão ao seu lado. Ignoreiisso.
— Nós vamos esperar quanto tempo for preciso. Não tem problema, tem? – Eu respondi, jogando o sonho que tive com Petrick o mais fundo possível na minha cabeça. Segurei a mão de Haylow com força, tentando mostrar para ela que tudo estava bem.

Depois de alguns minutos, Jason quebrou o silêncio.

- Que horas são?

- Duas e vinte. – Nyssa respondeu.

- Podem ir dormir se quisssserem. – Haylow disse, entre arfadas. – Jesssssie vai ficar comigo, não vaaaai?

- Claro que vou. – Eu respondi sem hesitar. Haylow era o primeiro monstro que parecia gostar de mim, e eu realmente gostava muito dela. Eu iria ficar ali mesmo que ela não tivesse pedido.

Todos foram deitando aos poucos, sobrando só eu, Haylow e Leo, que se aproximou de nós.

- Você não quer que eu fique com ela? Volte a dormir.

- Não precisa, eu fico aqui.

Ele me analisou por alguns segundos. – Está tudo bem, Jessie?

- Sim. – Menti. – Está tudo perfeito. Agora vai dormir e pare de me encher. – Eu tentei esquecer o sonho, mas ele simplesmente não saia da minha cabeça, principalmente a parte do ‘O deus Apolo está em perigo, vocês precisam salvá-lo...’

Ficamos em silêncio até ouvir Leo começar a roncar – coisa que ele fazia muito alto- e então Haylow falou comigo.

- Eu sssei o que você ssssonhou.

- Como...?

- Petrick também aparecccceu para mim. Eu o mandeeei falar com você.

- Apolo está mesmo em perigo?

Ela assentiu devagar.

- Não ssssei bem o que acontecccceu, Petrick não ssssoube exxxplicar. Mas alguém armou pra ele.

- Você tem ideia de como?

- Apolo cossstuma ssseguir ssssua irmã, àsss vezesss, em sssuass caçççadas. Sssegundo Petrick, Ártemiss essstava caçççando um cervo prateado quando desssscobriu Apolo. Ela ficou irada e ia, provavelmente, bater nele ou algo do tipo, masss antesss que pudesssse o cervo prateado correu na direççção de Apolo e o derrubou. Uma névoa densssa sssurgiu no ar e, quando tudo voltou ao normal, o cccervo e Apolo haviam sssumido.

– Sumido? Eles simplesmente fizeram puf?

– Ssssimplesmente fizzzeram puf. – Haylow concordou. – E Apolo deve essstar presssso. Nós precccissssamos achá-lo.

– Uou, espera um pouco. Apolo é umdeus! Não pode simplesmente se livrar da prisão?

Ela balançou a cabeça. – Deusssses, quando presssos, não podem fugir. Isssso aconteccceu com Hera a algum tempo. Jassson, Piper e Leo a sssalvaram.

Haylow, então, se contorceu e soltou um gritinho.

– Isssso... Dói... Tanto!

Eu apertei a mão dela mais forte.

– O que aconteceu, Haylow? Quer dizer, o que aconteceu pra você ficar, bem... Assim?

Ela demorou tanto pra responder que estava quase fazendo a pergunta de novo.

Ela suspirou. – Quer dar uma volta ao passssado?

Eu franzi o cenho, sem entender, e Haylow agarrou minha mão. Tudo em volta de mim ficou branco, e eu comecei a correr no ar. Não intencionalmente, era como se o ar me puxasse para frente cada vez mais rápido. A única coisa da qual eu tinha consciência era de Haylow apertando minha mão.

Então tudo voltou ao normal. Ou pelo menos foi o que eu achei até olhar em volta.

Eu estava parada na frente de uma casa branca grande e bonita, com um enorme jardim na frente, cheio de flores e uma grama verdinha. Uma criança, de aproximadamente cinco anos, brincava ali. Ela era loira e seu cabelo era bem comprido, chegando quase na cintura. Ela possuía olhos cor de mel penetrantes e bochechas rosadinhas. Parecia um anjo. Mais para a entrada da casa estava uma mulher e um homem, sentados em um banco. Logo imaginei que eram seus pais. Eles sorriam e se abraçavam a cada brincadeira que a criança fazia.

Olhei para Haylow e vi que seus olhos estavam lacrimejando.

– É você, não é? E aqueles são seu pais.

– Sim, Jessie. Essa era a minha antiga vida. Perfeita, não? Me acompanhe agora cinco anos para o futuro. – Ela disse, com a voz que deveria ser dela antes da transformação. Nada de voz de cobra, só a voz de uma garota. Suas pernas, também, estavam inteiramente humanas agora.

Ela segurou minha mão e eu fui novamente sugada para o branco. Alguns segundos depois estava parada na frente da mesma casa. Mas ela estava diferente.

O jardim não era mais verde e florido, e sim amarelo e cheio de flores mortas. Não havia mais criança brincando nem pais se abraçando. A casa parecia estar morta.

– O que aconteceu aqui? – Eu perguntei.

Haylow apontou para a frente.

– Só observe.

Saiu, então, da casa, a mesma menina que eu havia visto brincando, mas agora ela estava mais velha, com dez anos, imaginei. Atrás dela saiu a mulher que eu havia imaginado ser sua mãe. As duas pareciam estar sujas e maltratadas. O cabelo da menina, antes brilhante e bonito, agora caía até sua cintura num loiro opaco e triste. Sua face estava manchada de lágrimas, mas sua mãe não parecia dar muita importância a isso.

– Você precisa ir, Haylow. Não pode continuar faltando. – A mulher disse, num tom severo.

– Mas eu não quero ir, mamãe. Eu não gosto de lá, as pessoas não gostam de mim. As outras crianças me machucam.

– Não reclame, Haylow. Isso irá te ajudar a ser forte. Você vai precisar disso um dia.

A menina choramingou e se agarrou à mãe.

– Por favor, mamãe! Não me mande para lá.

A mulher a pegou pelos cabelos e a puxou, jogando-a longe.

– Não choramingue, Haylow! Não quero nem mais um pio. Levante-se, fique apresentável, e vá para a escola. Agora.

Haylow levantou, ainda chorando, e se pois a caminho da escola. A Haylow-Monstro foi atrás e eu a segui.

– O que aconteceu lá? – Perguntei.

Haylow abaixou a cabeça.

– Minha mãe... Não sei bem o que houve. O meu pai nos deixou. Antes eu tinha raiva, mas agora sei que ele se foi por ser um deus, não podia ficar. Minha mãe sabia disso, mas não aceitou muito bem. Ela passou anos trancada dentro de casa depois que ele se foi, o que aconteceu alguns dias depois do dia em que eu estava brincando no jardim. Ela não me deixava mais sair para brincar, me prendeu dentro de casa. E se prendeu lá também. Ela passou a me tratar como uma escrava. Uns três anos depois meu pai apareceu para ela. Disse que era errado fazer aquilo comigo, e a aconselhou a me mandar para a escola. Ela o fez, mas eu realmente teria sido mais feliz fazendo coisas para ela. Todos na escola me odiavam. Olhe.

Nós havíamos chegado na escola, e a Haylow-humana andava em círculos, parecendo tentar se convencer a entra. Porém, antes que pudesse, um grupo de crianças se aproximou dela. Duas meninas a empurraram para o chão, puxando seu cabelo, enquanto alguns meninos a chutavam. Lágrimas escorriam pelo rosto dela, mas em nenhum momento ela gritou, pediu que parassem ou revidou. Só ficou parada e deixou as lágrimas escorrerem. Eles, então, a soltaram e entraram na escola, mas não sem antes um dos meninos gritar:

– Volta pra sua mãe-bruxa, esquisita.

Haylow-humana sentou no chão e abraçou os joelhos, enquanto soluçava. Eu queria poder me aproximar dela, abraça-la e dizer que tudo ia ficar bem. Ela era só uma criança, não devia estar passando por aquilo. Eu fui na direção dela, mas Haylow-monstro me impediu. Depois de alguns minutos ela se levantou, deu meia-volta e voltou para casa.

Ela entrou pela janela, ao invés de entrar pela porta. Haylow-monstro e eu a seguimos. Ela se sentou na cama e ficou olhando o nada por um tempo. Depois, pegou uma tesoura da gaveta e cortou seu cabelo na altura das orelhas. Quando terminou, pegou uma bolsa e colocou algumas roupas dentro. Levantou o colchão, pegou um dinheiro que estava guardado ali e colocou na bolsa também. Colocou, então, a bolsa nos ombros e foi na direção da janela, pronta para sair. Mas então hesitou.

Voltou em direção a sua cama, pegou um lápis e uma folha que estavam jogados ali, escreveu uma carta e a colocou presa na janela. Depois pegou todo seu cabelo do chão e jogou no lixo. Arrumou seus bichos de pelúcia, organizou sua cama e só depois de deixar tudo em ordem, saiu pela janela.

Haylow-monstro se sentou na cama e fechou os olhos, e eu fui até a janela, onde fiquei olhando enquanto uma pequena menininha loira se afastava, com sua pequena mala nas costas. Quando não conseguia mais vê-la, peguei a carta que ela havia escrito e a li.

“ Querida mamãe,

Sei que vou estar longe quando você ler isso, mas eu não consegui ir embora sem te dizer tchau. Eu sei que você não gosta de mim e que sou uma decepção para você, por isso estou indo. Não quero mais te causar problemas. Mas eu sempre te amei, mamãe, e ainda te amo. Eu arrumei o meu quarto, para te deixar orgulhosa de mim, mas sei que essa foi a única coisa útil que já fiz. Eu espero que você consiga ter uma vida melhor agora que eu não vou mais estar te atrapalhando. Um dia, talvez, nós nos encontremos de novo. Eu te amo muito, mamãe.
Da sua filha,

Haylow.”

Eu tinha acabado de prender a carta de novo na janela quando a mãe dela entrou no quarto. Ela olhou ao redor e então botou os olhos na carta. Ela se aproximou tão rápido para pegá-la que eu tive que me afastar correndo para não ser atropelada.

Lágrimas silenciosas escorriam pelo seu rosto quando ela terminou de lê-la.

E então, olhando pela janela, disse as palavras que deveria ter dito a muito tempo:

– Eu te amo, Haylow. Sinto muito por ter errado com você.


Notas finais
Se alguém achar erros de ortografia, por favor avise. Eu vou reescrever esse capítulo.