Go Rogue!

46 Capítulo 46 – Existe um caminho


Capítulo 46 – Existe um caminho

Os rebeldes se aglomeraram no hangar de Yavin 4, aguardando a nave Imperial roubada pousar no chão. O pouso foi um pouco desajeitado, mas bom o suficiente para não ferir ninguém. Os soldados ergueram seus blasters em direção à entrada, aguardando ver o que surgiria diante de seus olhos. Draven estava parado em frente a eles, também aguardando com expectativa. Só depois de ver ele acreditaria que aquela nave realmente continha sobreviventes da Rogue One. A porta da nave abriu e passos vacilantes foram ouvidos lá de dentro. O piloto Imperial desertor Bodhi Rook surgiu diante deles, olhando para o chão como se estivesse em outra dimensão, perdido. Estava muito machucado, tinha queimaduras no lado esquerdo do corpo, que pareciam ser de uma explosão próxima, muito próxima, e cortes no braço e perna direitos, além de boa parte do cabelo relativamente longo e dos óculos de proteção em sua cabeça terem desaparecido, e tinha vários rasgões na roupa. Por um segundo o general achou que Rook o olhava, mas o piloto revirou os olhos e caiu no chão desacordado.

— Paramédicos! – Draven gritou, não demorando um segundo para ver médicos e driods médicos se aproximando da nave – Mantenham as armas – falou para os rebeldes que ameaçavam abaixar a guarda.

Olhou dentro da embarcação. Os dois nativos de Jedha estavam desacordados num canto da nave, encostados na parede. O cego parecia morto, ou quase, estava ainda mais pálido que de costume, e um ferimento grave de explosão podia ser notado mesmo através do tecido escuro de sua roupa. O outro também estava desfalecido e um pouco pálido, também com queimaduras de explosão e vários danos em sua armadura vermelha, mas com aparência bem mais viva que a de seu parceiro.

Uma seringa de analgésico estava jogada no chão perto da cadeira do piloto, provavelmente usava por Rook. Um vidro de bacta estava vazio na mão de Baze Malbus, provavelmente usado por ele e Chirrut îwme. Por que não usar o kit médico todo se tinham um a bordo? O restante teria sido danificado na destruição? A própria nave não estava com a melhor aparência possível por fora e Draven estava surpreso de ter chegado até Yavin. Era tudo que restava? Mais nenhum vivo? Um choro o fez avançar para o corredor, um choro feminino, baixo, mas desesperado.

— Você não pode... Não depois de aguentar tudo isso. Não pode nos deixar aqui... Justamente você, Cassian. Não pode!

Jyn Erso chorava debruçada sobre o corpo de um Cassian inconsciente. Sua voz deixava claro o quanto estava exausta e também ferida e fraca. O kit médico estava aberto e completamente gasto ao seu lado no chão. Draven avançou mais um passo, tentando não chamar atenção suficiente para ser notado. A camisa de Cassian estava rasgada no centro, seu torso exposto, o ombro direito enfaixado, e pelo volume nas bandagens todo o algodão e bacta restantes do kit deviam ter sido usados ali, vários hematomas e marcas de queimadura espalhados na pele, e imediatamente Draven pensou em ossos que poderiam estar quebrados. O que havia acontecido com ele?! Outra seringa de analgésico vazia estava jogada ao seu lado. Voltou sua atenção para Erso. Ela também estava ferida, cortes atravessavam suas roupas e marcavam sua pele, além de queimaduras muito similares às de Cassian.

— Erso – chamou.

Jyn, de costas para ele, fez menção de olhá-lo, mas pareceu decidir que isso não era importante no momento. Draven ainda não confiava nela. E Scarif lhe dava motivos de sobra. Uma equipe rebelde enorme fugira com ela numa nave Imperial apreendida para uma missão suicida não autorizada, ainda levando seu principal agente da Inteligência. E o único membro oficial da base que havia voltado, parecia estar morto. Nem mesmo seu leal droid Imperial estava à vista, provavelmente destruído na batalha. E por que raios ela estava chorando? Culpa? Nervosismo? A vida de Cassian não podia ser tão importante para alguém que o conhecia há tão pouco tempo. E assim era a guerra, a vida de ninguém podia ser importante, ou a sua poderia desaparecer num piscar de olhos.

— Erso, vire-se sem movimentos bruscos.

Draven se aproximou, com seu blaster em mãos, e algemas nos bolsos, caso necessário. Mas passos apressados e repentinos invadiram a nave junto com os paramédicos. Olhando para trás, ele não viu mais os nativos de Jedha, apenas a armadura vermelha do maior deles, deixada pra trás com danos que tornavam impossível de repará-la.

— Jyn – a voz suave de Mon Mothma não passava de um sussurro, mas demonstrava urgência.

A general se abaixou ao lado da jovem, envolvendo protetoramente um braço em seus ombros e olhando para Draven com acusação e decepção, depois olhando de volta para Jyn. Jyn a olhou, ainda chorando. Seu rosto demonstrava a pura exaustão, medo, e um claro pedido de ajuda. Aquela garota ia desmaiar! Os médicos trouxeram uma maca, e Jyn olhou hesitante quando colocaram Cassian nela, instintivamente segurando firme a borda da maca com uma das mãos.

— Jyn – a senadora voltou a chamar, fazendo-a encará-la – Ele estará bem. Você fez bem, o manteve vivo. Manteve todos vivos pelo que vimos. Você também deve ir.

— Ele primeiro.

— Faremos todo o possível – um droid médico respondeu.

— Esperem – Mon Mothma chamou quando tentavam afastar Cassian – Os dois juntos. A equipe toda junta se for possível. Tratem todos imediatamente!

Ela levantou Jyn com a ajuda de um dos médicos e caminhou com ela até outra maca, convencendo-a a se deixar ser levada junto com Cassian.

— O que faz aqui com esse blaster e esses homens, general? Já causou estrago o suficiente.

A mulher falava baixo, mas Jyn pode ouvir, e soube que era com Draven.

— Se não tivesse desobedecido ao consenso do Conselho, e ainda induzindo seu principal agente a fazê-lo pelas nossas costas, Galen Erso estaria vivo, Jyn não estaria órfã, teríamos a mensagem, teríamos os dados necessários, uma missão segura teria sido planejada, e mais sobreviventes poderiam ter voltado nessa e em outras naves. Está rebaixado.

Jyn olhou em volta, seus amigos estavam sendo levados para dentro, exceto Bodhi, ele desapareceu logo que abriu a nave. Chirrut e Baze logo também sumiram dentro da base sendo levados pelos médicos. Cassian estava sendo carregado ao lado dela. Mon Mothma resurgiu caminhando ao lado dos dois. Pensando na discussão que ouvira, Jyn foi levada pelos corredores de pedra do antigo templo até o medbay. Nenhum de seus amigos estava à vista. Mas Cassian estava na maca a sua frente. Removeram a camisa dele, estavam desfazendo os curativos que ela colocou logo que decolaram de Scarif, tirando suas botas e cortando o tecido das calças. Ele estava acordado duas horas atrás, depois de desmaiar três vezes, Jyn precisava vê-lo de olhos abertos de novo.

— Cassian... – murmurou baixo.

Jyn sentiu suas próprias botas serem removidas e o que restava de suas roupas também ser cortado para que pudessem tratá-la. Ouviu os médicos e droids em volta de Cassian falando sobre cirurgia, danos graves, costelas quebradas, tanque de bacta.

Uma médica virou a cabeça de Jyn para cima gentilmente, soltou seu cabelo e colocou uma máscara de oxigênio em seu rosto. Ela insistiu em olhar para Cassian outra vez, e uma mão delicada afagou sua testa. Jyn procurou os olhos da pessoa.

— Ele estará aqui quando acordar – Mon Mothma prometeu.

Jyn não sabia porque, mas confiava nela. Cassian recebendo uma máscara de oxigênio e uma enorme quantidade de médicos em volta dele foi a última coisa que Jyn viu antes de desmaiar.

******

Jyn acordou com vozes femininas falando baixo ao redor dela, e agradeceu mentalmente por não haver luzes muito fortes onde quer que estivesse. Não lembrava de nada, só tinha consciência de seu corpo estar molhado agora e de estar com frio. Mãos cuidadosas a secaram com uma toalha, levando algum tempo para secar seu cabelo com gentis movimentos circulares, e trocaram sua roupa hospitalar por uma seca. Apagou por mais alguns instantes e sentiu que não estava mais numa maca e sim numa cama, mais larga e mais macia. Havia uma máscara em seu rosto e algo redondo e gelado de metal foi pressionado em seu tórax. As vozes continuavam falando.

— O coração está estável. A respiração também. Ela não precisa de soro.

— Acho prudente manter o monitor cardíaco até ela acordar – a voz de um droid.

Sem mais conversa, Jyn sentiu sua roupa ser afastada com cuidado e fios serem anexados a seu peito. O apito constante de um monitor estava presente na sala, agora sendo acompanhado pelo monitor dela. Abriu os olhos e sua visão estava borrada por alguns minutos. Sua roupa foi arrumada e um coberto quente foi colocado sobre ela. Quando conseguiu focar o teto de metal da grande sala do medbay, virou a cabeça para olhar em volta.

Jyn não tinha estado em muitos centros médicos na sua vida, mas podia considerar o de Yavin 4 de tamanho médio. Havia seis camas, três de cada lado, mas todas vazias com exceção da dela, que era a do meio. Toda a estrutura do local era feita com placas de metal, havia duas portas circulares de lados opostos que Jyn não sabia pra onde iam dar, uma porta dupla, ambos os lados marcados com uma cruz vermelha no metal prateado, provavelmente uma sala para atendimento de emergências graves ou cirurgias. Toda a luz branca e azulada do local era artificial, e não muito forte, apenas claro e confortável o suficiente para se enxergar, trabalhar e repousar ao mesmo tempo. Antes que terminasse sua exploração silenciosa, perdeu a paciência que seu cérebro pedia pela busca de informações e tentou fazer contato.

— Tripulação... – Jyn conseguiu murmurar.

— Sargento Erso? – Uma médica perguntou – Pode nos ouvir?

Sargento? Jyn a encarou.

— Fomos informados de sua nova posição oficial na Rebelião.

Jyn não sabia o que Mon Mothma havia falado, ou como ela conseguira aquela informação, mas isso não tinha importância para Jyn agora.

— Tripulação... Capitão... Cassian Andor – estava um pouco difícil falar depois de tanto tempo dormindo.

— Temos seis camas, mas apenas três tanques de bacta em cada quarto – a mulher respondeu pacientemente – Seu piloto e os dois guardiões estão sendo tratados em tanques no quarto ao lado. A condição dos três era grave, e do capitão Andor ainda mais, então dividimos os cuidados. Os três já estão estáveis, mas permanecem sedados para concluir adequadamente o tratamento. Você poderá vê-los quando estiverem bem.

— Cassian.

Por que não o havia mencionado? Jyn sentiu o peito doer quando possibilidades tenebrosas invadiram sua mente, de Cassian morrendo durante a cirurgia, provavelmente para colocar ossos no lugar, ou mesmo antes da cirurgia começar. Ou até dentro do tanque de bacta.

— Ele está se recuperando.

— Cirurgia...?

— Foi bem. Está tudo no lugar.

Jyn notou a hesitação dela em falar o real motivo, provavelmente numa tentativa de mantê-la calma e longe de qualquer ideia que a fizesse entrar em choque.

— Onde?

— Olhe com calma a sua direita.

Jyn virou a cabeça para o lado oposto devagar. Três tanques de bacta estavam do outro lado do quarto. Cassian estava no primeiro deles. Desacordado, vestido apenas com a roupa íntima branca oferecida pelo centro médico, ainda com marcas de algumas queimaduras e cortes pelo corpo, incluindo o tiro de blaster no ombro direito, além de uma cicatriz abaixo do peito, provavelmente da cirurgia. Uma máscara de oxigênio estava em seu rosto e fios presos no peito monitoravam o coração. Em uma situação normal Jyn se sentiria embaraçada por vê-lo tão exposto e vulnerável, e não podia negar que ele era bonito, mas se sentiu aliviada. Ele estava bem. Estava vivo. Estava seguro. Estava inteiro. Jyn o olhou da cabeça até os dedos dos pés, o que jamais faria em condições não preocupantes como aquela, necessitava ver com seus próprios olhos que ele não havia perdido nenhum pedaço depois daquela queda horrível na torre. Soltou o suspiro que estava segurando. A promessa de Mon Mothma estava sendo cumprida.

— Algum dano irreversível?

— Provavelmente não.

— Quanto tempo?

— Chegaram aqui há três dias. Tiramos você do tanque alguns minutos antes de acordar. Ele está lá desde a cirurgia de três dias atrás. Apresenta bons sinais de cura. Seus amigos também. Nunca vamos entender tal milagre, mas todos vocês tem chances muito altas de saírem sem sequelas dessa missão, talvez apenas algumas cicatrizes.

— Eles não perderam nada? – Jyn questionou, tentando esconder a apreensão em sua voz.

— Não. Estão perfeitamente inteiros. Você também. Só precisam se recuperar.

— Quando ele vai acordar?

— Vamos removê-lo do tanque assim que apresentar melhoras seguras o bastante para que esteja fora. Provavelmente o manteremos assim por pelo menos mais dois ou três dias.

Jyn apenas assentiu com um aceno de cabeça.

— Vamos checar suas funções vitais. E pode receber um sedativo pra voltar a dormir se desejar.

— Não. Quero dormir por mim mesma.

— Tudo bem, mas estaremos monitorando pra ajudar caso não se sinta bem a qualquer momento.

Jyn assentiu outra vez e ficou em silêncio enquanto era examinada. As médicas e o droid decidiram novamente que ela não precisava de soro no momento, mas manteriam o monitor e a máscara por mais algumas horas, como uma precaução. E a alimentariam dali a algum tempo. Deixada sozinha, e observando Cassian, Jyn pegou no sono outra vez.

******

Ela acordou sem máscara e sem monitor, e novamente sozinha. Olhou novamente na direção de Cassian. Seu instinto a fazia checar se ele continuava ali a cada vez que algo acontecia. Não sabia de que estava com medo, mas a presença dele, ainda que desacordado e debilitado, lhe trazia segurança, conforto. Algumas marcas e machucados estavam menores ou mesmo tinham desaparecido. Pela força do hábito, Jyn tentou agarrar seu colar, mas não havia nada. Doeu pensar no que poderia ter acontecido com ele, e sentia falta do peso familiar em seu pescoço. A porta foi aberta, interrompendo seus pensamentos, e Mon Mothma entrou por ela, sozinha, carregando um pacote de conteúdo desconhecido. Ela caminhou até a cama de Jyn, e a saudou com um sorriso, em seguida olhando para Cassian.

— Ele apresentou bons níveis de melhora enquanto você dormia, talvez precise de apenas dois dias – a mulher falou a encarando outra vez – Baze Malbus não está mais no bacta. Mas ainda não acordou.

— Ele...

— Está bem. Apenas dormindo e se recuperando.

As duas se encararam por algum tempo. Havia tanto que podia ser dito ou perguntado que nenhuma parecia saber exatamente por onde começar.

— Jyn... Não sei por onde começar a agradecer pelo que fez.

— Quebramos ordens.

— Não. Tiveram a coragem que nenhum de nós teve. Especialmente você. Depois de tudo que lhe fizemos...

Jyn queria perguntar sobre o que ela a ouvira dizer a Draven, mas isso seria uma longa conversa. E ela sentia que Cassian deveria estar nela. Então continuou em silêncio.

— Não importa mais... – Nada vai trazê-lo de volta, ela pensou.

— Preciso saber o que você pretende fazer agora. A levaremos a qualquer lugar que quiser e lhe daremos meios para viver. Ou a acolheremos de braços abertos se quiser continuar aqui.

— Meus amigos...

— Também serão bem vindos pra ficar.

Jyn não tinha pensado nisso ainda. Não tinha nenhum lugar em mente porque simplesmente não havia nada para ela em lugar algum. Não havia um propósito para sua vida. A única coisa que vinha a sua cabeça para responder a tais questionamentos eram os acontecimentos das últimas semanas, a Rebelião, seus amigos, Cassian. Talvez ela pudesse ficar. Talvez pudesse construir algo parecido com uma vida aqui, mesmo com uma guerra acontecendo em volta dela. Estaria contribuindo para afetar o Império. Sentiu algo estranho, que ela não conseguia reconhecer, quando percebeu. Era muito cedo para chamar Yavin 4 de casa, mas a presença de Cassian e dos outros, a gentileza e cuidado de Mon Mothma, o acolhimento e o apoio que ela recebeu de todos os membros mortos da Rogue One, isso a fazia se sentir em casa como não sentia há mais de uma década.

— Não nada pra mim lá fora, e ninguém me esperando em lugar algum – falou com o medo de simplesmente dizer quero ficar.

Jyn nunca ficava. Se não estivesse fugindo do lugar, estaria fugindo das pessoas, especialmente as que pareciam ser boas para ela, porque eram as mais perigosas, as que mais a machucariam quando a deixassem. Sentia-se estúpida por querer acreditar que não aconteceria o mesmo em Yavin, mas era a melhor aposta que ela tinha agora.

— Isso é um sim? Quer dizer que quer continuar conosco?

— Sim – falou finalmente.

Mon Mothma sorriu.

— Seu cargo como sargento é oficial, há documentos que provam isso. Cassian acordou antes da cirurgia. Eu estava aqui e o vi com meus próprios olhos.

Ela não pode evitar uma respiração profunda e arregalar um pouco os olhos.

— Ele perguntou por você, e pelos outros, queria saber se estavam vivos.

— O que disseram a ele?

— A verdade. Que estavam sendo cuidados, e ficariam bem. Ele nos contou que o tenente Sefla a condecorou como sargento e insistiu que oficializássemos seu cargo. Nos contou como você enfrentou o capitão-tenente Orson Krennic pra nos enviar os planos e como o levou até a praia, mesmo mancando. Ele foi sedado depois disso, os médicos temeram que a agitação prejudicasse o coração dele. Então seguiu até a cirurgia.

— E agora?

A ex-senadora retirou o conteúdo do pacote que carregava, revelando a Jyn um conjunto de roupas, todas aparentemente novas. Camisa, calça, colete, coldre, botas, e Jyn se conteve para não proferir mil agradecimentos emocionados quando a mulher pôs seu colar em suas mãos.

— Cassian disse que é muito importante. Me certifiquei de que estava bem guardado – falou diante da reação emocionada da rebelde – Use quando sair daqui, é seu – indicou as roupas e tudo o mais – Haverá outros itens no seu quarto quando sair daqui. Seu blaster e as demais armas também estarão lá. E há mais um ponto.

Mon Mothma pegou o colete, lhe mostrando uma placa metálica com pontos coloridos, como o colete de Cassian. Jyn sabia que indicava patentes e que o de Cassian era de capitão.

— Indica a patente de sargento?

— Não. De tenente. Oficializamos sua patente como sargento, mas eu não ousaria desperdiçar seu potencial. Você tem total qualificação pra ser uma tenente. Só peço que não se incomode em comparecer a algumas reuniões e orientações sobre isso. Pra ter lutado sozinha por sua vida desde tão pequena, você é uma excelente líder, e a Rogue One soube unir uma equipe e fazê-la funcionar como ninguém. Cassian também será provido. E seus amigos receberão uma patente se decidirem ficar.

Jyn sentiu dificuldade em absorver tudo aquilo de uma só vez. Como uma vida como a que levava, se ela podia chamar aquele caos de vida, podia se transformar assim dentro de poucas semanas? Jyn nunca fora boa em agradecer por nada. Nunca houvera muito pelo que agradecer em sua vida.

— Obrigada – sentiu-se idiota por dizer apenas isso, mas Mon Mothma sorriu, a emoção em sua voz a havia entregado de qualquer forma.

— Vou deixar tudo aqui – a ruiva informou, reempacotando suas coisas e as deixando na cabeceira da cama – Espero ansiosa pela recuperação de todos. Descanse bem, Jyn – ela acariciou sua testa com um sorriso, ao qual Jyn retribuiu, e deixou o medbay.

******

Dois dias depois Jyn só não estava a ponto de enlouquecer de tédio por sua persistência em observar Cassian no tanque de bacta como um cão de guarda. Ela tinha medo que os médicos o tirassem dali e o levassem para fora do alcance de sua visão a qualquer momento. Outro motivo é que mais de uma década sem dormir a fazia dormir facilmente quando se deitava, por horas e horas. Talvez tivesse cinco anos da última vez que dormiu à vontade e sem medo de algo ruim acontecer a qualquer hora que fechasse os olhos. Ela já estava bem, com todos os ferimentos curados, mas ainda com dor e cansaço, por isso os médicos decidiram mantê-la por mais tempo.

Jyn ficou mais disposta quando Bodhi e Chirrut foram tirados do bacta no dia anterior, e Baze acordara pela manhã. Ele sorriu quando viu Jyn. Que bom que você também está aqui, irmãzinha, ele lhe disse. Os dois conversaram por alguns minutos, e trocaram as informações que tinham. Chirrut e Bodhi estavam fora de perigo agora, apenas dormindo e em observação. Bodhi estava com o cabelo curto. Baze lhe disse que boa parte queimou na explosão e os médicos cortaram o restante. E que foi muita sorte ele ter perdido apenas centímetros de cabelo e não parte da cabeça. Então os droids e médicos insistiram que Jyn voltasse a seu quarto. Ela não protestou ao ver que Baze estava claramente com sono.

E agora ela estava deitada em sua cama, observando Cassian ser retirado do tanque de bacta. Como queria estar ao lado dele também... Checaram os sinais vitais dele e sentiram seu coração, como tinham feito com ela. Em seguido o levaram para outro lugar e o trouxeram de volta minutos depois, seco e vestido, e o deixaram na cama à direita de Jyn, com máscara e monitor. Ela esperou por horas até ter certeza de que era noite e ninguém apareceria para mantê-la na cama, para se levantar e caminhar até Cassian, arregalando os olhos ao ver os dele abertos. Mas confusos, como se não reconhecessem o lugar ou ela. Então ele franziu o cenho, parecendo angustiado.

— Você está seguro. Está em casa – Jyn sussurrou, acariciando os cabelos escuros.

Cassian a olhou, e seu semblante ficou tranquilo. Sem uma palavra, ele dormiu de novo. Ela não conseguiu dormir por mais duas horas, apenas deitada em sua cama olhando para ele. Devia ser manhã quando Jyn despertou.

— A tenente Erso está dormindo e está bem. Ela será liberada hoje, e você os demais em alguns dias. Nenhum de vocês deve ficar com sequelas, foi um milagre – ela ouviu uma médica dizer.

— Há quanto tempo estamos aqui?

— Seis dias, capitão Andor. Você foi tirado do bacta ontem de manhã. Pelos danos que sofreu esperávamos que dormisse por mais tempo.

Jyn entreabriu os olhos e havia um médico checando os sinais vitais de Cassian. O capitão parecia cansado, mas bem. Apenas quando o médico saiu, os deixando sozinhos, Cassian fez esforço para sentar e olhou em sua direção.

— Jyn... – ele pronunciou como se falasse para si mesmo.

— Achei que ele nunca fosse sair – ela respondeu, surpreendendo Cassian.

A tenente sentou-se, alongando seus músculos e descendo da cama, indo até ele. Enquanto estava acordado, Cassian tinha pensado em muitas coisas, mas principalmente nela. E após saber que Bodhi, Baze Chirrut estavam bem, ele pode aliviar seus pensamentos de parte de seus temores. Sua preocupação agora é que não queria que as coisas ficassem estranhas entre eles depois de Scarif. Eles deveriam estar mortos, mas sobreviveram. Haviam se beijado no elevador e se abraçado para morrer na praia. Ao invés de começar uma conversa ele decidiu concluir o momento que haviam começado na praia, que eles mal tinham visto acabar quando Bodhi apareceu entre a vida e a morte com outra nave roubada e Baze ajudou Jyn a arrastá-lo para dentro antes de perder a consciência ao lado de Chirrut. Cassian só a esperou sentar ao lado dele para encará-la por um milésimo de segundo e puxá-la para um abraço.

— Por favor, Jyn... – falou baixinho antes que o mecanismo de defesa no cérebro dela a orientasse a resistir, eles não estavam pensando em Scarif, agora estavam.

Para sua surpresa, ela não resistiu por mais de dois segundos. Deixou-o apertá-la contra ele, e talvez tivesse fechado os olhos, como ele estava fazendo. E Cassian sentiu-se privilegiado. Pelo que conhecia de Jyn, ela nunca se permitiria ficar tão vulnerável e leve com alguém. Em Jedha ele ficou preocupado por perceber que estava fixado nela sem motivos, mas não sentia mais necessidade de procurar motivos, ele só a queria, ela o fazia se sentir vivo. Sentiu-a respirar contra ele e aos poucos relaxar completamente, e também fechar os braços em suas costas.

— Faz mais de dez anos que ninguém me abraça – ela sussurrou.

O instinto de Cassian foi apertá-la mais forte. A Rebelião não era exatamente uma família amorosa cheia de carinho para distribuir, mas ele fora bem cuidado, não passara fome, sede, frio ou intensa solidão, não quando estava na base e quando era mais jovem pelo menos. Jyn estivera sozinha desde a infância. Saw a acolhera e treinara bem, mas Cassian não precisava perguntar para saber que a milícia de Saw não era um ambiente saudável para uma criança, por mais que ele protegesse Jyn antes de abandoná-la.

— Você acha que pode se acostumar com isso?

— Talvez – Jyn respondeu.

— Você vai ficar?

— Vou.

Ele respirou aliviado.

— Eu tenho certeza – ela disse, querendo deixar claro que decidira aquilo livremente – Estive pensando desde que acordei. Não há nada pra mim lá fora. Ou alguém em esperando. Todos estão mortos.

— Jyn...

— Exceto você. E nossos amigos. Se eles ficarem. E se você...

— Jyn... – se afastou um pouco para encará-la – Eu não... Aquilo não tem nada a ver com estarmos pra morrer.

Devia contar a ela?

— Em Jedha... Quando o pessoal de Saw nos pegou, e de repente eu percebi que tinham levado você pra outro lugar... Eu fiquei preocupado. Porque percebi que eu estava fixado em você, embora não houvesse motivos pra isso, fora você ter salvado minha vida na praça.

— Eu queria te matar – ela disse – Depois de Eadu. Eu estava confusa, mas em Scarif você voltou pra mim pela terceira vez. E você não precisava.

— Jyn... Eu...

— Não foi culpa sua. Você não puxou o gatilho. Foi de Draven. Eu sei.

— Como...

— Quando chegamos, acho que ele queria em prender ou me arrastar pra interrogatório. Acho que pensou que você estava morto e me culpou. Mon Mothma o afastou e a ouvi brigando com ele.

— Mas eu fiz de novo. Eu escolhi tarde demais. Depois de desistir da atrocidade que eu ia te fazer, eu tentei parar o bombardeio. Mas me disseram que já estavam atacando. Eu errei com muitas pessoas. E errei com você.

— Não. Você voltou. Você correu pelo meio do fogo pra me buscar, você salvou minha vida na torre. Achei que estava morto – ela falou com temor.

— Quando? Na torre? Ou na fuga pra cá?

— Ambos. Quando aterrissamos você parecia morto.

— Estou aqui agora – Cassian falou em seu ouvido, a abraçando outra vez – Estamos vivos, Jyn.

Ele sentiu sua camisa molhar onde o rosto de Jyn estava escondido entre seu ombro e seu pescoço.

— Estamos – ela murmurou com o choro.

Cassian fechou os olhos, se permitindo fazer o mesmo. Pensou no que sentiu naquela praia, ele queria viver mais do que quis em toda sua vida, mas não podia, e aquilo doeu, ter o futuro que ele poderia criar com Jyn arrancado dos dois daquele jeito. Ainda assim ele estava em paz, mas triste.

— Fique comigo – Cassian sussurrou seu pedido – Eu vou cuidar de você. Eu não vou te deixar ou enganar como os outros.

Jyn chorou mais alto. Cuidar. Ela nem sabia mais se lembrava como era isso. Os últimos que haviam de fato cuidado dela eram seus pais.

— Eu vou. Eu prometo.

— Isso é uma guerra, Cass.

— Eu sei. Mas estamos em casa aqui. Estamos bem. Vou encontrar um jeito de fazermos missões juntos, nossa tripulação, os Rogue One. Draven é meu chefe, não dono da minha vida.

— Não é mais.

— Explique.

— Mon Mothma o rebaixou. Por agir em desacordo com o conselho e usar você pra isso.

— Eu posso viver com isso.

Desde Eadu vinha culpando Draven mentalmente, junto com a culpa que ele mesmo sentia. Como pudera fazer aquilo com Jyn? Como tivera coragem de lhe dizer coisas tão cruéis? Ele não era o único que tinha perdido tudo.

— Desculpe, Jyn! Desculpe...

— Cass...

— Eu não podia ter te dito aquilo.

— Não importa mais. Não importa... – respondeu afagando os cabelos castanhos escuros – Tudo bem – Jyn falou, agora se afastando para segurar o rosto dele com as mãos e afagar sua bochecha – Mon Mothma esteve aqui.

— Você a viu?

— Sim. Ela oficializou meu cargo.

Jyn abaixou as mãos até as dele, e Cassian as segurou, com na praia. E sorriu. Ela atendera suas súplicas desesperadas. Ele nem lembrava direito de estar consciente em algum momento, mas em algum lugar em sua mente guardara a informação de ter pedido isso a Mon Mothma desesperadamente.

— Sargento Erso... – ele falou, como que absorvendo a informação.

— Tenente Erso.

Cassian a olhou surpreso e sorriu, um enorme sorriso.

— Você não mereceria menos que isso, Jyn.

— Ela disse que vai promover você. E dar uma patente a Bodhi, Chirrut e Baze, se eles quiserem ficar.

— Espero que fiquem. Independente de nossos laços são a melhor tripulação que já tive.

— Você devia dormir.

— Estou bem.

— Cass, você chegou aqui quase morto. Eu fiquei dois dias sentada na minha cama dizendo pro meu cérebro que você ia sair bem daquele tanque.

— Vão liberar você hoje. Fique no meu quarto se não te derem um imediatamente.

— Assunto pra outra hora. Vá dormir, capitão – Jyn falou suavemente, o beijando devagar.

Cassian fechou os olhos, aproveitando o momento repentino. Estava duvidando que Jyn fosse realmente deixar o medbay, mesmo sendo liberada. Ele gostaria disso.

— Certo?

— Certo – Cassian lhe respondeu quando ela se afastou.

— Me diga que não há câmeras aqui – ela murmurou.

Cassian riu, riu de verdade como não fazia há meses, mas não o bastante para chamar atenção de alguém do lado de fora. Beijou a testa da tenente e a olhou.

— Não. Fique tranquila.

Jyn o fez se deitar novamente, e Cassian fechou os olhos com o afago em seu cabelo.

— Jyn... Meu quarto. O caminho e o código – ele falou sonolento.

******

Jyn não deixou o medbay, como ele havia previsto. A única mudança quando Cassian acordou é que ela havia trocado de roupa. Enquanto dormia, por muito tempo ele não sonhou nada, havia apenas a escuridão e o cansaço que parecia puxá-lo na direção do colchão, mas quando os sonhos vieram novamente eram flashes de sua vida desde o momento em que vira uma foto de Jyn pela primeira vez na sala de comando da base. Agora acordado, Cassian estava decidido a cometer talvez a maior loucura de sua vida, a mais perigosa e que poderia causar mais dor no futuro, mas doeria mais se ignorasse. Olhou em todos os cantos, constatando que não havia ninguém ali além dele e Jyn.

— Você acordou – ela disse sentando-se na beirada da cama.

— Case-se comigo – Cassian falou antes que pudesse se arrepender.

— O que?! – Jyn arregalou os olhos por um instante, parecendo considerar se ele estava delirando.

— Estou bem, Jyn. Eu sei o que estou dizendo... Quero você comigo.

Cassian sentou-se. Sendo Jyn, ele estava esperando uma longa conversa agora, ou um não, ou que ela fugisse sem dizer mais nada. Os dois se encararam e só então notou que ela não parecia ter dormido bem. Estivera acordada durante a noite? Refletindo sobre sua vida talvez?

Os olhos verdes pareciam tentar ler sua alma, e Cassian permitiu. Então Jyn desviou o olhar. Uma pontada de angústia o tomou, mas em seguida ela riu. Jyn sabia o quanto seu sorriso era lindo?

— Sua resposta, tenente.

A rebelde o encarou mais uma vez e o abraçou. Então riu de novo.

— Sim... Sim!

Cassian a abraçou de volta, rindo junto com ela. E a visão assustadora que costumava vislumbrar de todos os possíveis futuros que teriam pareceu muito mais leve agora.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.