Glass Masterpiece
3 3º capítulo
Quando o meu cérebro estava com capacidade para funcionar novamente, já me encontrava a atender uma mulher que precisava de um livro para se entreter no lar de idosos.
A minha avó morreu num lar. Ela era a pessoa que melhor me conhecia. Ela sabia exatamente o que eu estava a pensar quando os seus olhos azuis encontravam-se com os meus e olhavam para alem das janelas da minha alma. Foi difícil recuperar apos a sua morte… mas aqui estou eu, pronta para seja o que for que estiver no meu caminho.
Os dias na livraria não se diferenciam muito uns dos outros, à exceção do aparecimento de algum cliente particularmente interessante trazendo um pouco de cor ao cinzento do meu dia. Ou quando Robin estava estranhamente bem humorado e sentava-se a conversar comigo, partilhando historias da sua juventude.
Uma vez, contou-me que roubou um cavalo do seu vizinho, enquanto este estava fora, só para dar uma volta com a sua namorada que sonhava andar a cavalo. “Mr.Clarks era um romântico louco, quando era jovem” pensei. Ele intrigava-me. De todas as vezes que acabava de contar uma aventura semelhante, os seus olhos preenchiam-se com uma inexplicável tristeza e dor. Ele encarava o chão. Levantava-se, suspirando pesadamente e desaparecia no armazém. Robin escondia algo. No entanto, sempre que eu o queria abordar acerca do segredo, ele olhava-me de uma forma que servia de pista para me manter calada. Os seus olhos tornavam-se negros, as sobrancelhas tornavam-se mais carregadas sobre os mesmos, e os lábios numa linha reta de desgosto. Quando o meu patrão não queria falar sobre algo, o melhor a fazer era não insistir.
“Mr.Clarks” chamei, enquanto entrava no armazém “hoje é quarta, tenho de sair mais cedo para ir fazer voluntariado” informei e dirigi-me para a saída.
“Adeus Fran, vemo-nos amanha. Cuidado com os sem-abrigo loucos.” Revirei os olhos perante o seu comentário. Ele não tolerava ciganos ou sem-abrigo. Basicamente, não suportava quem cheirasse mal.
Percorri uma serie de ruas ate chegar ao ponto de encontro dos voluntários.
Às quartas-feiras nos distribuímos comida e cobertores pelos sem-abrigo nem beco da vila.
Dedico-me ao voluntariado há pelo menos 2 anos, com a ideia de que se ajudar os outros, talvez apareça alguém que me ajude a mim.
“Hey Fran!” Violet saudou.
A Violet é obrigada a fazer voluntariado pela mãe, para não se meter em sarilhos. Ela é muito barulhenta e vive todos os segundos como se fossem os últimos. Por vezes, recebo telefonemas dela no fim-se-semana a tentar arrancar-me do sofá, argumentando que eu estou a desperdiçar a minha juventude. Ri-me com as memórias frescas do fim-de-semana passado e acenei-lhe.
“Oh Deus! Hoje vamos outra vez visitar os nossos amigos do coração!” disse com sarcasmo a transparecer nas suas palavras.
“Não é assim tao mau, tens de admitir!” tentei, como sempre, suavizar a situação.
“Pois. Talvez. Se eu passar a tarde toda a olhar para ele!” comentou, inclinando a cabeça para indicar o rapaz com cabelos negros que se encontrava perto da carrinha.
“A serio Violet? Babas-te todas as quartas. Pensei que já tivesses ultrapassado…Ele vem connosco todas as semanas há pelo menos, meio ano.” Tentei acordar a minha amiga do seu sonho cor-de-rosa com o rapaz de olhar verdejante. Tarefa esta, que parecia impossível.
“5 meses, Francesca” corrigiu por entre suspiros. “ E eu não tenho culpa que ele seja atraente” finalizou revirando os olhos e foi para a mesma carrinha.
Observei o rapaz por momentos. Ele é alto, bem estruturado. Uma t-shirt branca adorna o seu torso musculado e um par de simples calças pretas sobre as compridas pernas. Nota-se que é obrigado a estar aqui, todavia isso não lhe serve de pretexto para ser rude, como no caso de Violet. Enquanto ele ajudava a arrumar tudo o que precisávamos na carrinha, reparei que olhava pelo ombro e em seu redor, do mesmo modo obsessivo do rapaz da livraria. Os seus olhos preocupados moviam-se rapidamente, passando por scan tudo o que via.
Quando fui apanhada a observar, decidi juntar-me a Violet na carrinha para seguirmos ate ao nosso destino.
A viagem estava silenciosa. À exceção dos sussurros entre Aurora e Camila – outras duas raparigas, pouco mais velhas que eu – que me impediam de disfrutar do silencio, juntamente com o sentimento de estar a ser observada.
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