Girls On Fire
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Decidiu não olhar para nada, exceto para a porta do quarto, atravessou o apartamento em passos largos, andando o mais rápido que podia, quando num desses trocar de passos, já próxima da porta, sentiu um dos pés chutarem fortemente alguma coisa. Alguma coisa não, alguém. Porque assim que ela chutou e caiu de cara no chão por cima da “coisa”, ela gemeu um “Aiii!”.
A ruiva se levantou rapidamente, sua toalha havia caído e ela nem ligava. Estava pelada, no escuro e ela estava com raiva e com medo. Uma mão se fechou no seu tornozelo e ela não pode evitar dar um grito agudo de susto, coisa que raramente acontecia.
- Sou eu.
- Ai meu Deus, puta que pariu! Eu quem? Essa voz... É você Santana? – Ela tateava no escuro, olhava para baixo e com a ajuda da claridade de um relâmpago, por um momento ela enxergou a silhueta da latina sentada no chão, abraçada as duas pernas, com a cabeça entre elas, encostada no batente da porta do seu quarto e ela sentiu um misto de raiva e pena da morena. – Você só pode tá me zuando! Eu quase morri de medoooo! Eu ia te atacar com um taco de baseball! Ai eu to pelada! Cadê minha toalha? Tá muito escuro aqui – Ficou de quatro e começou a engatinhar próximo de onde havia caído quando havia tropeçado e rapidamente encontrou sua toalha.
A latina não falava nada. Apenas inspirava e expirava profundamente com os olhos fechados. Jessie foi aos poucos se aproximando da morena e tocou sua mão.
- San, eu não quero saber COMO você entrou aqui, depois você me explica isso, só quero saber o PORQUE de você estar aqui, nessas condições!
A latina continuava a respirar profundamente, mas começou a falar pausadamente entre as inspirações, palavras soltas.
- Muito medo. Barulho. Trovões e água demais. Tudo escuro de repente. Meu coração, dói.
O coração da ruiva na hora se acalmou, mas ao mesmo tempo ela ficou preocupada. Passou a mão no ar até que encontrou um dos lados do rosto da morena. Acariciou suas bochechas e tentou falar o mais calmo possível, lembrando-se de como as freiras falavam com ela quando a encontravam em algum esconderijo.
- San, porque não me falou que tinha medo da tempestade? Poderia ter ficado comigo desde aquele momento que Kurt havia ligado! – Falava acariciando os cabelos da morena que matinha a cabeça baixa novamente.
- Eu. (respira) Achei (inspira) que não ia (respira) acontecer isso! Fazia (inspira) tanto tempo (respira). – A latina começara a soluçar e Jessie ficou mais preocupada.
- Tá bem, você me explica depois. Agora vem comigo, ficar aí no chão não adianta nada! Não precisa abrir os olhos. Apenas se levante e me dê as mãos – Jessie segurou as duas mãos da latina e começava a levantar. Santana relutou, mas começou a estender os joelhos e ainda de olhos fechados deixou-se guiar pela amiga. A ruiva ia falando calma e pausadamente algumas palavras para acalmá-la.
- Você vai sentar na minha cama agora, se quiser pode se deitar. Está bem escuro aqui – Colocou Santana na beirada da cama e lá ela ficou sem se mover. Jessie tentou encontrar alguma roupa naquela escuridão e vestiu seu pijama rapidamente. Voltou pra perto da latina. – Olha, eu preciso procurar meu celular, algumas velas... qualquer coisa que ilumine. Você pode ficar aí um pouco?
Santana segurou firme o pulso da amiga assim que ela ameaçou sair de perto.
- Fica aqui comigo. POR FAVOR – sua voz falhou nesse momento e Jessie percebeu que era melhor obedecê-la.
- Tudo bem... não vou sair daqui! Vou deitar aqui do seu lado. Você deveria fazer o mesmo, pode se deitar. – foi puxando as coisas da latina que mecanicamente se deitou, ainda de olhos fechados.
A ruiva não sabia o que fazer com o ataque de pânico que a latina estava demonstrando. Ela nunca imaginou que essa garota durona ficaria assim perante uma tempestade. Começou a acariciar os cabelos da morena enquanto falava:
- O que posso fazer pra te acalmar? Quer ouvir música? Droga, meu celular deve ter ficado no banheiro... – Ela ia se mexendo, mas sem intenção de sair do lado da latina, quando a mesma segurou firme seus braços novamente e pediu:
- Só me abraça. Vai passar. É o que minha mãe fazia.
E prontamente Jessica obedeceu. Aproximou-se mais da latina e passou os braços por ela, apertando-a num abraço forte. Ela percebeu que a garota tremia e seu coração batia descompassado. Respirou fundo sentindo o perfume do shampoo da latina nos cabelos soltos.
- Tá tudo bem bebê... daqui a pouquinho a chuva vai parar – Ela não sabia porque tinha falado com a garota como se fosse a mãe dela, mas sentia muita vontade de fazer o desespero dela passar. Santana só balançava a cabeça enquanto seu peito tinha espasmos de soluços causados pelo choro que agora havia passado. – Posso contar uma história pra você dormir? Acho que ela passou o dia todo girando dentro de mim e preciso colocar para fora. – a ruiva sentia uma agonia perante a fragilidade que a latina demonstrava. Resolveu deixá-la a vontade, contando a história que ela não havia contado para ninguém. Estariam equalizadas, cada uma com seu segredo.
Santana pela primeira vez abriu os olhos. Seu olhar estava muito próximo aos olhos cor de esmeralda. Jessie podia ver o medo neles com a pouca claridade que vinha de fora, e a latina podia sentir a respiração da ruiva em seu pescoço. Sentia o calor que emanava do seu corpo e sentia-se segura naquele abraço forte.
- Quero ouvir. – Disse isso apenas e voltou a fechar os olhos.
Jessie afrouxou um pouco o abraço mas continuou com os braços ao redor da cintura da morena. Estavam deitadas a latina agora estava com a cabeça apoiada no peito da ruiva, que começou a alisar as costas e ombro da latina enquanto iniciava sua história. Ela sabia que Santana não tinha cara de quem gostava de histórias de contos de fadas, mas era inevitável não tratá-la e querer cuidá-la como quem cuida de uma criança assustada.
Era uma vez uma moça muito bonita. Ela era loira e seus olhos eram azuis como o céu num dia lindo. – Santana sentiu um aperto no peito, pois imediatamente lembrou-se de Brittany – Seus pais eram de diferentes nacionalidades. Sua mãe era uma mulher ruiva vinda da Irlanda e seu pai um homem bem loiro, vindo da Itália. Essa moça muito bonita chamava-se Bellatrix, e ela chegou com seus pais ao Brasil quando tinha 7 anos de idade.
Bellatrix, desde que havia chegado, começou a estudar num colégio dirigido por freiras, porém ela voltava todo dia para casa, não era um internato. Seus pais eram muito religiosos e cuidavam da filha única como quem cuida de um tesouro de incomensurável valor.
Quando essa mocinha havia recém completado 16 anos, ao voltar da escola começou a botar os olhos num rapaz moreno, pele clara e olhos verdes que trabalhava numa quitanda, próxima a seu colégio. O moço parecia mais velho e parecia corresponder aos olhares da mocinha que todos os dias passava procurando por ele. Um dia ela criou coragem e entrou na Quitanda com o pretexto de comprar algumas frutas para sua mãe. Na verdade, o que ele queria era ver o moço de perto. Quem sabe até falar com ele? E foi isso que aconteceu! Justamente ele veio atendê-la. Cheio de palavras educadas e galantes fez a mocinha inocente derreter-se mais ainda pelo seu charme.
Ele a convidou para um passeio no dia seguinte, ao que prontamente Bellatrix aceitou. O homem pouco falava, mas a comia com os olhos, deixava a moça constrangida e a fazia sentir calor em partes que nunca havia sentido. Assim ficaram durante um mês. Ela saia do colégio e passeava com seu “namorado”. Seus pais não percebiam seu atraso, estavam sempre ocupados com o trabalho. Tinham uma empresa de tecidos e ficavam na fábrica até tarde.
Um dia o moço veio com papo de casamento. Que queria morar junto, e a mocinha logo deslumbrou-se. Seus pais não iam gostar que ela namorasse um quitandeiro quando ela com sua beleza poderia arrumar qualquer rapazote rico da sociedade, mas o moço disse que iria pedir a mão dela aos pais. Dizia isso com toda a coragem que podia reunir. Mas pra ele fazer isso, havia uma condição.
-- Santana agora estava mais relaxada, e mesmo com o barulho da chuva e os trovões abriu os olhos para observar a expressão da contadora da história. Continuavam abraçadas e Jessie podia sentir o coração da latina mais calmo, enquanto a mesma acariciava seu braço livre, enquanto o outro acarinhava os cabelos longos e macios da morena. Jessie sorriu e perguntou se estava tudo bem. Santana pediu que ela continuasse, o que a ruiva fez prontamente.
A condição dada pelo moço, era que Bellatrix precisava provar seu amor, entregando seu corpo a ele. Só assim ele saberia se o casamento era a atitude certa a tomar. A mocinha ficou assustada. Ela havia aprendido na escola e sua mãe sempre a lembrava de que ela só poderia ter relações com alguém depois do casamento. A proposta de seu namorado ia contra seus princípios. Mas ela estava muito apaixonada e confiava cegamente nas palavras do moço. Ela se entregaria a ele e depois se casariam. Não haveria problema.
- Duvido que ele vá cumprir sua palavra! Quem ama espera! Eu espero! – Santana agora havia se esquecido totalmente da chuva e estava presa a história, o que fez Jessie sorrir e concordar com a afirmação. Ela também achava que quem realmente ama respeita o limite do outro.
E assim aconteceu. A mocinha entregou não só seu coração, mas também seu corpo, sua pureza a um rapaz que ela sequer conhecia profundamente. Ele não demonstrou carinho, e ela só sentiu dor. Segurou um grito quando ele a penetrou sem mais delongas. Parecia que nunca ia acabar. Era muito ruim a sensação daquela coisa entrando nela. Não queria mais estar ali, queria voltar atrás. Começou a chorar o que fez o rapaz se excitar mais ainda. Ele se movimentava dentro da moça cada vez com mais força, e sem mais demoras gozou dentro dela. Ela apenas observou ele sair de cima dela e não disse nada, sabia que as coisas não tinham que ser assim. Retirando seu membro de dentro dela, olhou para a moça, agora não era mais inocente, o brilho no olhar estava apagado e disse com ar de superioridade: “Agora você é minha”.
A mocinha observou o rapaz sair do quartinho que estavam, sem sequer um beijo de despedida, apenas disse: “Amanhã nos vemos”. Sequer olhou pra trás. E lá ela ficou. Com sua culpa, seu arrependimento e seu sangue em pequenas manchas no lençol encardido. Voltou para casa se sentindo péssima e por todo o caminho só o que fazia era chorar.
No dia seguinte, ainda abatida pelos acontecimentos, voltando da escola, sem pensar muito, acabou fazendo o mesmo caminho de sempre, consequentemente passou pela Quitanda e viu “seu” namorado engraçando-se com outra mulher. Essa também morena, quadril largo, toda jeitosa. Ao seu lado um menino de uns 4 anos, rodeava os dois e gritava “Papai”.
Bellatrix naquele dia chegou em casa e não saiu do quarto. Só queria chorar. Chorar para lavar sua humilhação. Queria se ferir, se castigar por ter sido tão tola e caído numa velha história romântica. Prometeu não mais procurar o rapaz. Iria esquecer essa história. Com sorte acharia um rapaz que se apaixonasse por ela, e que não ligaria para o fato dela não ser mais “pura”.
Passaram-se três semanas, e durante uma das aulas, a mocinha loira, graciosa, preferida das professoras sentiu um mal estar. Enjoos eram frequentes. A madre superiora a chamou em sua sala e perguntou se ela havia tido relações com algum homem. Ela negou, mas só conseguia chorar. A madre, mulher sem compaixão e cheia de preconceitos não teve piedade, mandou logo chamar os pais da mocinha e contou-lhes a “tragédia”. Moça tão boa, bonita, futuro brilhante pela frente. Se deixou corromper, se sujou porque era uma inconsciente, irracional, tarada por sexo. Em nenhum momento perguntaram para a moça como havia acontecido o ato, quem havia sido o rapaz que havia “lhe feito mal”. Apenas a acusavam. Somente a mulher era a culpada. A crucificaram como a imagem de Jesus Cristo que havia em sua casa. Parou de ir a escola, a barriga começou a crescer. As amigas se afastaram. Os pais propuseram: Dê um fim nesse bebê. Esqueçamos disso. É sua chance. Senão, não será mais nossa filha e aqui você não mora mais!
Não, ela já amava essa criatura que se mexia dentro dela, a acordava durante a noite, causava-lhe enjoos. Ela queria o bebê. Era um pedaço dela. Não o tiraria.
Seus pais então cumpriram sua palavra e tiveram coragem de renegar sua única filha, herdeira de uma boa fortuna. Ela não merecia piedade. Assim que o bebê nascesse, ela teria que sair de casa e que fosse “para o diabo que a carregasse”.
Ela chorou. Sua companhia era seu bebê, seu filhinho. Ele a salvaria. Não precisava dos pais, nunca a amaram. Amavam o dinheiro, não ela.
- Santana e Jessie agora estavam com os olhos marejados, mas a ruiva continuou a história, percebendo que se sentia mais leve por estar contando isso pra alguém.
E num dia de frio incomum, em meio a uma chuva fortíssima, a linda moça de olhos azuis sentiu as primeiras dores do parto. Gritava por ajuda. Seus pais não estavam em casa, a empregada, mais sua mãe que a biológica é que a acudiu. Chamou a ambulância e acompanhou a moça fragilizada até o hospital.
Depois de horas de contrações e dores fortes, o bebê finalmente nasceu, e diferentemente do que Bellatrix achava, era uma menina. Uma menina de lindos olhos verdes.
A empregada da casa a aconselhou: Deixe-a na porta de alguma mansão. Você não terá condições de dar uma vida digna a essa princesa. Deixe-a e um dia você a procura. Aproveite sua vida de mordomia na casa dos seus pais.
Não, ela tinha uma ideia melhor. Voltou a sua casa, pegou todas as roupas que podia carregar. Juntou todas as economias que um dia guardou e saiu. Despedindo-se apenas da “empregada”. A mulher que havia lhe ajudado no momento mais difícil de sua vida. Despediram-se aos prantos e ela se foi, sem olhar pra trás e sem esperar os pais para dar um adeus.
Pegou o primeiro ônibus disponível para outro estado. Tinha 17 anos. Um bebê nos braços e pouca fé na humanidade. Chegou em São Paulo. Sabia andar por lá. Passava as férias na casa da tia, uma italiana que vivia no Brasil a mais tempo que seu irmão, pai de Bellatrix. Mas ela não iria para lá. Seria mais uma humilhação.
Alugou um quartinho numa pensão com as economias que lhe restavam, e saiu em busca de um abrigo para ela e sua filha. Ela sabia que nenhuma casa aceitaria uma moça tão nova com uma bebê tão pequena para ser empregada. Começou a rezar pedindo por uma solução e acabou caindo no sono. A resposta veio enquanto ela dormia.
Assim que acordou foi ao mercado. Comprou a mais bela cesta de palha que pode encontrar. Forrou-a caprichosamente com panos e cobertores fofos. Olhava para sua bebê fofinha dormindo tranquilamente no berço adaptado e sussurou: “Vamos ficar juntas”.
Caminhou vários quilômetros a pé, até chegar a seu destino. Um lar de crianças, administrado por freiras que ela encontrou na lista telefônica ao ir pesquisar na biblioteca. Retirou do bolso o bilhete que havia escrito no quarto:
“Seu nome é JESSICA
Cheia de riqueza
Ela é muito amada. Cuidem-na e um dia virei buscá-la”
Depositou um beijo na testa da bebê ainda adormecida, colocou o cesto na soleira da porta e apertou a campainha. No mesmo momento correu e escondeu-se entre algumas colunas do prédio, de onde, com lagrimas nos olhos podia ver sua bebê ser resgatada por freirinhas assustadas e indignadas com tamanha judiação.
Voltou para o seu quarto alugado e lá não encontrava sossego. Após 3 intermináveis dias ela voltou ao mesmo local onde deixara a filha, agora sozinha, com rosto angelical e olhar inocente Recuperara sua dignidade. Era uma mulher sozinha no mundo e daria conta de se virar novamente. Homem algum poderia levar embora sua pureza de alma. A freirinha que lhe atendeu foi muito compreensiva, porém desconfiada e a encaminhou a sua Madre Superiora (Bellatrix torceu para que ela não fosse como a madre do seu antigo colégio). Não era. Deu um voto de confiança a moça que pouco falou sobre sua vida passada, apenas queria agora viver uma vida para Deus. Queria tornar-se uma noviça e cuidar das crianças daquele orfanato.
A Madre explicou a rotina do dia a dia e disse que ela deveria esquecer o mundo lá fora por um tempo. Ela concordou. Sou mundo agora estava lá dentro. Seu nome a partir de agora era Esperança. E foi esse sentimento que ela teve quando viu a freirinha trazendo nos braços a mais nova órfã, ainda recém-nascida, deixada na porta com apenas um bilhete com a promessa de um regresso. Ela imediatamente pediu para segurar a linda menina nos braços e com lágrimas nos olhos, chegou bem perto da sua orelhinha, para que ninguém pudesse ouvir e sussurou: “Oi Jess, mamãe disse que nunca nos separaríamos”
Jessica terminou a história já sem muitas lágrimas, apenas um olhar vago de tristeza e um sentimento de contentamento. Santana observava a amiga com os olhos úmidos. Apenas balançava a cabeça pensando na história que ouvira. A chuva havia acalmado perceptivelmente. Os trovões haviam cessado. As meninas apenas se olhavam, respirando calmamente. A latina abriu a boca para comentar algo, porém observou que a ruiva não parecia disposta a conversar. Apenas falou sem encarar a morena:
- Amanhã conversamos, nessa noite, acho que só preciso um abraço apertado. – Deu um sorriso fraco se aconchegando no ombro da morena.
Santana sorriu e retribuiu o favor que a amiga havia lhe feito mais cedo, passando os braços pela cintura da ruiva delicadamente, apertando o abraço e encaixando o rosto em seu ombro. A respiração de ambas foi acalmando gradativamente e assim adormeceram.
Notas finais
Aguardo comentários! ;)
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