Girls On Fire
57 Capítulo 57
Notas iniciais
As duas meninas apareceram na cozinha e todas pareceram felizes ao vê-las. Quinn ficou satisfeita, ao notar que a ruiva parecia melhor. Talvez isso se devesse ao fato dos hematomas estarem um pouco mais fracos no seu rosto, deixando sua expressão mais suave.
Tomaram café enquanto Bellatrix contava a sua aventura para chegar o mais rápido possível a New York e todas riam. A mulher era bem engraçada.
– Desculpa, mas você disse que trabalha no convento? – Maribel estava sem entender e Quinn concordou. Também estava confusa.
– Isso... eu não só trabalho, como também moro lá!
– A senhora ajuda as freiras a cuidarem dos órfãos? – Quinn perguntou tentando ao máximo ser delicada.
– Ajudo sim! — ela sorriu olhando pra filha que observava pra ver o que estava acostumada já: a revelação. – Ajudo minhas colegas... sou freira também.
– Mas... como? – a loira olhava pra Jess tentando ver se ela lhe dava alguma explicação.
– Longa história... tudo por culpa minha! – a ruiva tinha tirado o dia pra se culpar de todos os problemas do mundo.
– Sua culpa? – Santana olhou divertida pra ela – Você não pediu pra nascer, amor! – pegou na mão dela, tentando deixá-la mais a vontade.
– Eu fiquei grávida da Jessica quando ainda era muito nova e meu pai não me aceitou. Minha única saída foi deixar meu bebê num orfanato mantido por freiras. E pra me manter próxima dela, virei noviça. Não foi culpa de ninguém, só da minha ingenuidade! – ela explicava pra Maribel que parecia encantada com a história.
– Jessica, mi querida, tienes una madre muy corajosa! – a mãe de Santana sorriu pra garota – Muitas teriam desistido da filha pra aproveitar a vida! E pelo visto, você herdou essa coragem dela!
A ruiva apenas sorriu com o elogio, mas não conseguia se animar por dentro.
– Que tal se fossemos dar uma volta? Ver a luz do sol? –Quinn propôs tentando quebrar o silencio depois da história de Bellatrix. Ela mesma havia ficado tocada com o que acabara de ouvir. Sentiu-se uma covarde ao pensar que suas situações eram parecidas, talvez a mãe de Jessie tinha sofrido um maior abandono, ficado sem amigos, e mesmo assim não tinha deixado seu bem mais precioso pra trás, como ela fizeram. Odiava pensar em Beth e imaginar como as coisas poderiam ser diferentes se tivesse ficado com ela.
– Huum, eu acho uma ótima ideia! Quero conhecer as redondezas daqui! Dizem que há uma praça belíssima aqui por perto.
– É... é bem bonita mesmo, mãe! – a latina sorriu para a mulher e depois olhou pra namorada – Vamos dar uma volta? Tomar um pouco de sol? Mostrar a vizinhança pra minha mãe? – ela perguntou toda animada.
– Hum, ainda estou com sono... vão vocês! – deu um sorriso tímido pra Santana que a olhou intrigada — Vou dormir um pouco mais!
– Ahhh não, você não vai ficar sozinha aqui meu bem! – Bellatrix se aproximou da filha, percebendo que ela não estava 100% bem – Vou ficar com você!
– Todo mundo tem que ir, senão não vale! – Quinn tentou convencê-las mas Jessie apenas balançou a cabeça em negação e se levantou da mesa tentando escapar dos olhares. Santana foi atrás dela.
– Sunshine... eu preciso de você comigo! Vou desmontar inteira sem você por perto!
“Mentira, mentira! Todos conseguem muito bem viver sem você! Orfã problemática, azarada na vida. Nasceu pra sofrer”
– NÃO! – Ela deu um grito e tentou tapar os ouvidos com as mãos. Queria expulsar aquela voz maldita dentro da sua cabeça, mas acabou espantando Santana, que achou que aquele grito aflito fora pra ela.
– Não o que? – Santana ficou desconcertada com aquele grito, não entendia o porque, tentou falar o mais calmo que pode com a garota enquanto as outras observavam de longe – Não quer ficar comigo? – ia se aproximando da ruiva que cada vez mais se afastava enquanto murmurava.
– Não...não...não... — começara a chorar e não conseguia encarar os olhos tristes que tomaram conta da latina ao ouvir aquilo – Por favor, me deixa sozinha... só um pouquinho... – ela implorava e a namorada via sofrimento naqueles olhos verdes, agora sem brilho.
– Eu prometi que não ia te deixar... – ela falou com a voz triste, mas se afastando da ruiva, que cada vez mais se encolhia contra a parede. Sentia os olhos arderem pelas lágrimas que começavam a querer surgir.
Observou a ruiva entrar correndo no quarto e bater a porta atrás de si com a mão livre do gesso.
– Santana... é complicado... – Bellatrix assistiu a cena e sabia que nada podia fazer. Jessie estava segurando aquilo por muito tempo. Parecia ter controlado a sua racionalidade tempo demais. Conhecia aquela reação que acabara de ver. Esses surtos eram frequentes. Num passado não muito distante. – Deixe-a pensar...
– Até uma hora atrás estava tudo bem... eu não entendo... – a latina falava para as três mulheres que a observavam. Quinn a puxou para um abraço. Reconhecia aquele olhar. Santana estava realmente ferida depois daquela reação – Ela pediu meu abraço...me queria por perto...
– Eu não imaginei que propor um passeio fosse causar isso... – a loira falou culpada.
– Jessica passou por muita coisa nessa vida. Eu me culpo por várias. Mas creio que New York é a culpada pela mais dolorida – Bellatrix falava de modo calmo tentando acalentar a latina – Você não tem culpa de nada Santana, não compre essa guerra para si! Eu já chorei muito vendo essas reações dela, me culpei por várias, sofri junto com ela. E aprendi que essa menina é forte! E somente ela conseguirá sair dessa mais uma vez. Podemos ajudá-la, mas o fardo mais pesado, infelizmente, ela tem que carregar sozinha.
– Vou ficar aqui! – ela sentou, com o olhar perdido. Parecia que não tinha ouvido nada que a mulher tinha lhe dito – Por favor, vá dar uma volta com ela Bella... – Santana indicou sua mãe, que na hora negou com a cabeça.
– Que isso filha? Me dispensando assim? Acha que tenho cabeça para um passeio, te vendo assim, desolada?
– Por favor... – ela sentia sua cabeça pesar – Quinn fica aqui comigo, não se preocupem... – olharam pra loira que mesmo estranhando, assentiu e tentou dar um sorriso tranquilizador para as mulheres.
– Vamos então... mas por favor, fiquem bem!
– E se a Jessie demorar muito pra sair do quarto... não importa como, abram aquela porta! – Bellatrix falou de um jeito que deixou as duas meninas espantadas.
Assim que as mulheres saíram, Santana permaneceu calada. Deitou-se no sofá e caiu no choro, tampava o rosto com um braço e tremia com seus soluços. Quinn assistia aquilo sem saber o que falar. Apenas sentou-se na poltrona e observou a amiga lavar a alma. Pareceu passar uma eternidade até que a latina se sentiu mais calma, não tinha mais lágrimas pra chorar. Os olhos ardiam e sua amiga loira permanecia imóvel no sofá, com o olhar perdido.
– Por que Santana? – a loira falava baixo, olhava para a parede — Porque o amor, a coisa que dizem ser a cura do mundo, nos faz tanto mal na maioria das vezes?
– Eu... – a latina tinha se espantando com essa pergunta, sentia a voz rouca – Eu não sei... eu só sei que preciso dele pra viver!
– Você precisa? – agora a loira a encarou – Sabe, isso muito me surpreende! – Santana fez uma cara de interrogação, então ela continuou – Nunca imaginei que nós duas sofreríamos por isso. Você é tão segura de si, não ama mais ninguém além de você!
– De onde você tirou isso Fabray? Que monstro egoísta você pensa que eu sou? – ela agora tinha sentado e encarava a loira através da visão embaçada que o choro lhe proporcionara – Juro que se você dissesse que isso resolveria, arrancava essa bosta de coração do peito, só pra ele parar de doer!
– Isso não adiantaria...
– Ah sério? Estava quase indo pegar uma faca lá na cozinha... – a latina falou com ironia, sentindo as lágrimas virem a tona mais uma vez – Eu amo ela Quinn... e estou realmente preocupada!
– Sempre achei que você não tivesse coração... – a loira falava sem perder a calma. Poderia estar sendo cruel, mas precisava fazer isso, queria provocar alguém pra sentir-se melhor.
– Observando nosso histórico, creio que a rainha da crueldade aqui é você Quinn Fabray... nem vou citar tudo que você já fez, deve estar tudo aí, rondando sua consciência!
– Eu acho que amo a Rachel... mas só consigo machucá-la. Tudo que faço a ofende. – ela deixou escapar e pareceu tirar um peso enorme de si.
– Mas que droga! Isso de novo? Você tem a garota em suas mãos! Aja decentemente! Ela te ama também, tá na cara isso! — ela bateu na própria testa indignada — Se eu soubesse que você ia ficar aqui me enchendo o saco mais ainda, preferia ter ficado sozinha!
– Eu preciso conversar com alguém! – a loira falou aflita.
– Eu sei, mas não precisa ofender enquanto conversa! Porra Quinn, eu to sofrendo igual um cachorro abandonado! Não fode mais ainda me falando dos seus problemas!
Ficaram em silêncio se olhando, ambas com lágrimas nos olhos.
Porque a vida é como uma onda feroz que chega de repente, assim que você terminou de montar seu castelo de areias na beira da praia e o observa orgulhoso. Ela vem, destrói o que você demorou muito tempo pra arrumar, enfeitar, cativar. Leva tudo, sem dó. Mas só os persistentes são capazes de recomeçar, de desafiar o mar e montar tudo outra vez, na esperança que dessa vez será diferente!
Ouviram a porta do quarto destrancar, e os pensamentos filosóficos foram embora. Ambas olharam ansiosas naquela direção e viram a ruiva sair com ar envergonhado, meio entorpecida. Sequer olhou pra onde as garotas estavam sentadas. Pegou um copo d’água na cozinha e já estava voltando para o quarto sem parecer se dar conta da presença das meninas quando a campainha tocou. As 3 ficaram estáticas, uma olhando pra outra.
– Jessie, abre aí! É a Tracy! – a chefe das meninas batia forte na porta.
A ruiva arregalou os olhos que encontraram os olhos castanhos preocupados da latina. Suspirou fundo e foi abrir a porta. Junto com Tracy estavam mais 3 garotas, colegas de trabalho. Hailey, Abby e Audrey tinham uma expressão séria no rosto. Assim que entraram, as amigas fizeram um círculo ao redor da ruiva e a abraçaram apertado.
– Jess, sou sua fã cara! – uma delas falou tentando descontrair, dando um tapinha no ombro da ruiva que continuava séria.
– A melhor namorada do mundo, com certeza! – Abby sorriu pra ela, lhe dando um beijo no lado do rosto que tinha menos hematomas.
– Quero assinar esse gesso! – Hailey lhe entregou um pequeno buquê repleto de pequenos girassóis – Achei que você fosse gostar!
Assim que a ruiva pegou as flores na mão, seu olhar triste cruzou com o de Santana que estava em pé, no meio da sala e assistia aquilo calada. Girassóis a lembravam de como a latina lhe fazia feliz, iluminava sua vida.
As meninas foram em sua direção e também a abraçaram com sinceridade. Tinham sabido da história toda através de Tracy e imaginavam o quanto isso poderia ser traumatizante para uma garota. Se preocupavam mais com Jessie, pois sabiam do seu histórico, não sem também pensar na latina que tinha visto tudo aquilo e não parecia estar menos fragilizada que ela.
– Jess... que cara é essa? – Tracy olhou para a ruiva depois de abraçá-la e notou as pupilas extremamente dilatadas, negras, quase tampando a íris de cor verde.
– Nada... – ela desviou o olhar e caminhou até o sofá enquanto sua chefe a observava desconfiada. Santana viu aquilo e ficou curiosa também.
– Olá Quinn! – a loira maior cumprimentou – E aí, as nossas garotas estão se comportando bem?
– Huuum... – ela olhou pra Jessie isolada numa ponta do sofá enquanto Santana a observava triste do outro lado – Digamos, que estamos levando...
– Obrigada por ligar pra minha mãe... – a ruiva falou devagar, olhando pra Tracy.
– Ela já chegou? – a loira falou animada – Cadê aquela mulher louca? Eu sabia que ela ia vir literalmente voando pra cá!
– Foi dar uma volta pela vizinhança junto com a minha mãe! – a latina entrou na conversa.
– Ah que bom! As duas aqui com vocês! Será bem melhor assim!
– Vocês já almoçaram? – Quinn parecia ser a mais sã das 3, e se tocou que o horário de almoço estava passando e elas não haviam comido nada.
– Ah sim, fomos a um restaurante antes de passar aqui! – Hailey falou tranquilizando.
– Trouxemos até um bolo! – Abby falou tentando parecer animada – Ué... cadê o bolo?!
– Eu não acredito que as cabeças de pastel deixaram o bolo no carro! – Tracy se levantou – Deixa que eu pego! – e saiu do apartamento antes que alguém pudesse responder alguma coisa.
– O bar não é o mesmo sem vocês... – Abby continuou, tentando ser simpática.
– Eu não quero mais trabalhar lá – Jessie falou tão naturalmente que todas a olharam espantadas – Tem homens demais... gente nojenta.
Ninguém sabia o que dizer, no fundo Santana compartilhava daquele medo que a ruiva estava sentindo. Não tinha saído na rua ainda, mas sabia que qualquer ser do sexo masculino a deixaria desconfiada.
– Cedo pra pensar nisso... – Audrey, que estava sentada ao lado de Quinn falou pela primeira vez. Tinha se mantido calada, apenas observando a amiga ruiva, sentada com o olhar perdido, parecendo alheia a toda aquela conversa.
Tracy agora voltaram com uma caixa média nos braços, seguida por mais duas mulheres.
– Olha quem eu encontrei lá embaixo! – ela indicou Bellatrix e Maribel – Assim que me viram com o bolo quiseram me seguir!
– Só me diz que não foi você que fez, aí posso comer tranquila! — a freira provocou a amiga, se lembrando de um dia em que fora convidada para tomar café na casa dela e o bolo não havia crescido, além do café ter ficado amargo.
– Ai você não vai esquecer aquilo nunca né? – a loira sorriu, indo para a mesa, arrumá-la.
Bellatrix assim que entrou avistou a filha calada. Ela ter saído do quarto era um bom sinal, apesar da apatia aparente que ela demonstrava pelas visitas. Santana dava alguns olhares de soslaio pra ela e se sentia cada vez pior por não receber nenhuma resposta.
Todas se reuniram na mesa e comeram bolo, conversavam sobre amenidades. Jessie pegou um pedaço depois de tanto insistirem. Comeu calada, apenas observando as outras conversas. A tarde passou e mesmo que não parecesse, aquela visita fez bem para as meninas que puderam esquecer de toda a tensão que estava pairando naquele apartamento antes das colegas de trabalho chegarem.
Já estava no fim da tarde quando elas se despediram. Precisavam ir ao bar, o trabalho as aguardava. No mesmo tempo que saíam, Kurt e Rachel chegavam da Universidade. Cumprimentos, conversinhas, um pedaço de bolo aqui, outro ali, tudo parecia bem e Jessica realmente queria se sentir assim, mas a maldita voz não saía da sua cabeça, mesmo depois dos remédios...
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