Girl In Luv

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O cheiro de sopa de algas se espalhava pela casa toda enquanto no fogão a velha senhora fazia sua mágica e o almoço ganhava forma. Como de custume, ela tinha um avental amarrado em volta do corpo robusto e trazia os cabelos grisalhos presos em um coque frouxo. Cozinhava com gosto enquanto no rádio uma balada antiga tocava. Fazia anos que não se esforçava tanto para preparar uma refeição como aquela e o casanço já começava a pesar em seus ombros. No entanto, apesar da fadiga trazida pela idade não pode evitar mostrar um sorriso quando a porta da sala abriu e os netos entraram puxando duas grandes malas consigo.

– Chegamos.- Jin colocou as malas no chão enquanto descalçava os sapatos. SunHee estava prestes a fazer o mesmo quando os braços da avó envolveram seu pescoço a deixando sem ar. As mãos dela ainda estavam sujas de farinha e conseguia sentir o cheiro da cebola picada em seu avental, no entanto, não parecia haver lugar melhor para se estar. Finalmente estava de volta ao lar.

–Aigoo! Eu estava tão preocupada que acontecesse alguma coisa com você no caminho! – a mulher falava com pressa atropelando as palavras no processo – E você! – exclamou virando-se para dar um pequeno tapa no braço do neto – Não podia ter trazido ela antes? Por que demorou tanto? Aish...

Jin abriu a boca para se defender, mas a avó já tinha voltado a atenção para a mais nova. Desde que recebera a notícia da viagem de SunHee tinha dedicado seus dias a preparar doces e aprender novas receitas. Parte dele sentia uma pontada de inveja pela atenção que a irmã recebia, mas a alegria por ela estar ali era imensamente maior.

–Venha. Você precisa me contar tudo sobre a sua vida na América. Por que não telefonou mais vezes, hein?

Assim os três seguiram para a cozinha enquanto a velha mulher enchia a neta de perguntas. “Então as coisas lá são mesmo como nos filmes?” “Os jovens são assim tão mal-educados?” “Como era a escola?” “O marido de sua mãe a tratava bem?” As perguntas jorravam como uma cascata. Para cada resposta que dava duas outras novas questões surgiam.

–Havia algum rapaz bonito? – Jin não foi capaz de disfarçar o desgosto ao ouvir a pergunta.

–Aish, não fale coisas assim.- resmungou fazendo ambas caírem na gargalhada.

A casa não parecia em nada diferente desde a última vez em que estivera ali. Tanto a sala quanto a cozinha eram bem amplas e misturavam de maneira harmoniosa a tradição com a modernidade. As paredes eram pintadas em tons que lembravam o outono e havia alguns arranjos de flores espalhados em lugares estratégicos. Em um canto ao lado de um quadro com a foto da família tinha uma grande estante repleta de livros. Sua parte preferida do lugar. Certa vez a avó lhe contara que a maioria daqueles livros pertenceu ao filho, o pai de SunHee e Jin. Como nunca teve a chance de conhecê-lo, ler as mesmas coisas que ele trazia uma sensação de proximidade.

Estavam arrumando a mesa quando ouviram o barulho da campainha.

– Eu vou ver quem é.- disse Jin indo até a entrada.

Quando ele voltou tinha dois rapazes em seu encalço. SunHee tentou puxar seus rostos da memória que tinha dos amigos de infância do irmão porém ambos lhe pareceram desconhecidos. Um deles lançou um sorriso extremamente caloroso em sua direção o que fez com que congelasse no lugar por um instante até perceber que na verdade o motivo de seu sorriso era o grande prato de ramem que carregava até a mesa.

–Vovó, Namjoon e Hoseok estão aqui.

Os dois garotos se curvaram em saudação e Jin a apresentou antes de convidá-los para almoçar. Ao que parecia ambos eram presenças constantes ali, tanto que a avó nem se incomodava com suas presenças em um momento tão familiar como a chegada da neta. Internamente a jovem se sentiu grata por ter a atenção desviada de sua vida particular, temia que logo começassem as perguntas a respeito dos motivos de sua viagem de última hora, coisa sobre a qual não desejava falar perto do irmão.

SunHee não pode deixar de se surpreender com a popularidade de seu irmão. Embora Jin nunca tivesse problemas em fazer amigos nunca passou pela sua cabeça que ele se daria bem na faculdade. Na verdade, ela sempre pensou que se tivesse que chutar que tipo de papel ele encenaria em um lugar assim seria algo como o típico cara que sofre bullying. Será que Jin havia se juntado a alguma gangue no tempo em que ela esteve fora?

Sentaram-se ao redor da mesa e assim que começaram a comer ficou evidente que o garoto que sorrira tão abertamente para o prato de ramem, apresentado como sendo Hoseok, tinha saído de casa na presa e nem se quer tomara seu café da manhã. Ou, ao menos, foi isso que SunHee presumiu ao vê-lo comendo tão avidamente.

–Aish...Vá com calma. Parece até que tem que ir em algum outro lugar. – Jin comentou com implicância.

– E tenho. Começo a trabalhar daqui à duas horas.

No que SunHee entendeu da conversa que se seguiu o rapaz tinha sido contratado para trabalhar em um restaurante na região e estava comendo tanto para não correr o risco de cair na tentação durante o expediente. A refeição foi breve mesmo que farta e tão repentimamente como chegaram os visitantes foram embora arrastando um ansioso Jin para alguma lan house onde ele e Namjoon passariam o resto da tarde jogando.

– Você não vai se chatear se eu for, né?- questionou receoso pela resposta da irmã. Do lado de fora se ouvia a impaciência dos amigos chamando por ele.

–É claro que não. Estou cansada da viagem longa e vou apenas ficar desfazendo as malas.

Ele precisou de uma maior gama de argumentos para convencer a avó, mas por fim restaram apenas ela e a neta. Assim que ouviu a porta da entrada fechar SunHee virou para encontrar um olhar firme que a encarava do outro lado da cozinha. Agora que ambas estavam a sós percebeu que, afinal, não poderia fugir do assunto para sempre.