Girl In Luv

17 Me conte sobre Sarah


Notas iniciais
Oi pessoal :D Desculpe por essa demora toda, mas agora estou aqui com esse capítulo tão esperado. Quando acabarem de ler não se esqueçam de escrever o que acharam nos comentários, valeu? Bjs e boa leitura.

O mundo de SunHee parecia girar ao contrário conforme ela escutava as palavras da avó repercutindo em sua cabeça. Explicar. Eis aí um verbo terrível. Terrível, por que toda vez que aparecia em uma frase SunHee era obrigada a lembrar, inventar... Reviver. O reconhecimento de que tudo aquilo era realmente real a apavorava. Havia certas coisas que necessitava guardar para si. Algumas lembranças eram muito duras para serem expressas a esmo. E havia uma em especial que ela escondia fundo. Era uma lembrança triste e desconfortável que lhe causava certo remorso quando parava para lembrar e toda vez que isso acontecia ela sabia que se não estava com Yoongi agora era por causa dela.

Ela não se deu conta de que estava em pé até atravessar a porta da cozinha as pressas e ouvir a avó gritando o seu nome. Virou-se por tempo o bastante para murmurar: "Você não tinha o direito" e então voltou a correr para o seu quarto deixando para trás sem nenhuma hesitação avó e irmão perplexos.

Ninguém precisava saber.

***

Ele não negava que estava igualmente transtornado com a prensa da avó para cima dos dois. Mas sair correndo daquela maneira? Jin acreditava que tinha uma irmã forte. É claro que ele tinha conhecimento da sua fragilidade devido a morte da sua amiga, mas havia algo mais naquela história mal contada. Era algo bem perturbador para SunHee, disso ele tinha certeza. E provavelmente tinha haver com aquela carta.

Em menos de um minuto depois da saída dramática da irmã ele pegou aqueles papéis da mão de sua avó — que ainda permanecia boquiaberta pela reação da neta – e foi para o seu próprio quarto. Estava decidido a ler a carta e decifrar o motivo de toda a discórdia.

— Você vai falar com ela? – perguntou a avó amuada. De repente todo o ímpeto que ardia em seus olhos ao confrontá-los momentos antes desaparecera.

Jin a olhou com ternura. Afinal de contas, sua avó ainda precisava dele.

— Daqui a pouco. Quero ler isso aqui antes – disse abanando a carta em sua mão — e tentar entender o que ela não esta contando.

Com essas palavras ele também se retirou da cozinha. Era incrível como a história tinha mudado de curso em tão pouco tempo. Ainda naquela manhã havia acordado com uma forte ressaca estirado no sofá. Mas, como havia pensado, aquela ainda seria uma longa manhã na residência dos Kim e tudo só pioraria quando lesse aquela carta.

***

Querida SunHee,

Eu sinto muito. Pelo o que aconteceu em New York e por todo o resto. Sei que tudo ficou estranho na nossa amizade depois daquilo. A culpa foi minha. Nunca tive o direito de despejar os meus problemas em cima de você, independente da minha condição.

Você teve todos os motivos óbvios para se esquivar de mim daquela vez e, uma pequena parte de mim, ainda deseja esse afastamento. Teria sido mais fácil para você — e pra mim. Qualquer pessoa no seu lugar poderia ter feito isso. Mas você ficou. Ainda busco entender o que se passa na sua cabeça...

De qualquer maneira, eu venho aqui te escrever essa carta por dois motivos. O primeiro é para agradecer por ter me dado a coragem que me faltava para lutar. Daqui há uma hora vou entrar na sala de cirurgia e, talvez, eu me cure. Ou não. Quem dera eu tivesse a metade da sua positividade, mas a verdade é que eu já desisti de tudo há muito tempo. Eu já coexisti com o câncer há tanto tempo que honestamente acho que seria estranho viver sem ele. Eu sei o que você vai dizer sobre isso. ‘Sarah, eu vou te bater se continuar a falar essas bobagens. ’ Posso até imaginar o seu sotaque ao me ameaçar. Mas o que posso fazer? Na nossa dupla sempre fui responsável pela visão pessimista e é por isso que estou escrevendo a primeira carta da minha vida. Sinta-se honrada.

O segundo motivo é mais como um último conselho de alguém que realmente se importa com você. Vai soar ridículo vindo de alguém que até um mês atrás preferia fugir para a praia e morrer do que voltar para o hospital, mas... Não se permita a viver com medo.

Sei que você vai tentar se defender dizendo que não é medrosa. Sei também que vai pensar em todas as coisas perigosas que já fez, mas não é disso que estou falando. O seu medo é outro, e não falo como alguém de coração partido, mas como uma amiga. Você tem medo de amar. Foi por isso que saiu da Coréia quando estava prestes a assumir o namoro com aquele amigo do seu irmão. E foi por isso também que você ficou tão hesitante quando soube do meu câncer. Você tem medo de ser magoada e é por isso que se afasta antes das coisas ficarem sérias. Foi por isso também que insistiu que eu fizesse essa cirurgia idiota com tão poucas chances de sucesso. O único motivo de ainda permanecer ao meu lado é que apesar desse medo, você é uma amiga incrível. E eu fico feliz que ao menos tenho um pedaço do seu coração dessa maneira. Então, pense sobre o assunto.

É isso. Acho que já disse tudo o que não tive chance de falar pessoalmente. Obrigado por todos os sorrisos e por toda a paciência e positivismo. Não sei se teria chegado tão longe sozinha. E, acima de tudo, obrigado por ficar.

Beijos, Sarah P.

***

Foi preciso ler mais de uma vez para que as coisas começassem fazer sentido e ainda assim ele precisava pedir uma explicação à SunHee. Em parte porque queria ouvir a sua versão, e em outra porque tudo parecia meio vago. Ficou dez minutos parado em frente a porta do quarto dela até ter coragem o bastante para bater. Como o esperado ela não respondeu.

— SunHee. – chamou com cuidado.

Um objeto- talvez um livro – bateu contra a porta. Ótimo. Agora ela jogava coisas dessa maneira.

— SunHee, vamos conversar.

— Sai daqui ou a próxima coisa a bater na porta vai ser bem maior.

— Que seja. O quarto não é meu.

Cumprindo a sua palavra, outro objeto foi arremessado. Jin suspirou tentando buscar paciência.

— Pare de ser infantil.

— Falou o cara que levou um porre noite passada e saiu socando os amigos.

Ele não se deixou afetar pelo comentário maldoso.

— Eu só quero conversar. Isso aqui não é a inquisição espanhola. – tentou.

— Garanto que foi a mesma coisa que os espanhóis disseram para fazer os camponeses abrirem suas portas antes de joga-los em fogueiras.

Sempre com uma resposta pronta.

— Então deixe a porta fechada, mas me escuta ou então a vovó vai saber o que tem na carta. Ela não sabe ler inglês, mas eu sim.

A ameaça pareceu funcionar já que ela ficou em silêncio.

— Eu li o que tinha na carta.

— É? Bom pra você. Fica com ela e sai de perto da minha porta.

— Não até você me dar as respostas que quero.

Para mostrar que não estava brincando ele começou a ler a carta em voz alta. Quase que imediatamente a porta se abriu e SunHee apareceu com uma expressão indecifrável.

— Entra.

Ele não esperou um segundo convite. Sentou-se na beirada da cama enquanto ela sentava na cadeira da escrivaninha logo em frente com os braços cruzados sobre o peito numa atitude defensiva. Parecia que afinal, mesmo com toda a arrogância ela ainda era só uma garotinha.

— Por que toda essa raiva?

SunHee riu com desdém.

— E você ainda pergunta!

— Pensei que fosse responder as minhas perguntas.

— Não me lembro de ter falado isso.

— SunHee...

— A culpa é sua. Sua e da vovó que ficam mexendo nas minhas coisas.

Para dar ênfase ela olhou de relance para as mãos de Jin segurando a carta que devia estar segura em seu diário.

— Não fui eu que peguei. Você sabe.

— Mas você leu, não é?

Jin não se incomodou com a acusação.

— Alguma hora alguém ia ter que te ajudar com isso.

— E por que você não cuida primeiro de se ajudar? Beber não vai resolver nada.

De novo voltando a aquele ponto...

— Eu não sou alcoólatra. — esclareceu com desconforto em prestar explicações.

— Será? Não foi o que me pareceu.

— Eu só bebi porque estava cansado. Cansado e incomodado.

— Pessoas normais teriam ido dormir nesse caso. – comentou sarcástica.

— Eu teria feito isso se pudesse. Mas é difícil dormir quando sua irmãzinha esta por aí mentindo e se encontrando com o seu melhor amigo.

Ele fez uma pausa esperando para ver qual seria a reação de SunHee, mas ela permaneceu inalterável. Provavelmente já esperava por aquilo.

— Foi por isso que bateu nele?

— Não. Se eu estivesse sóbrio nunca teria feito aquilo, mas não é como se ele não merecesse. – falou — Quando vocês dois iam me contar que estão namorando?

— Não estamos.

Jin não disfarçou a surpresa.

— Mas vocês não saíram juntos ontem?

SunHee deu de ombros, mas ele notou uma leve mudança no seu olhar.

— As coisas mudam.

— Faz tanto tempo assim que estavam juntos? – questionou abanando a carta em sua mão — Aqui diz...

— Eu sei o que a carta diz.

— Então...

Ela tomou fôlego antes de responder. As palavras de principio pareciam meio embargadas e hesitantes.

— Alguns meses antes da minha viagem eu e o Yoongi começamos a namorar. Na época ainda não era certo se eu ia me mudar mesmo e era pra ser apenas por uns seis meses, mas...

— Mas durou dois anos. – concluiu interessado – Eu pensei que você não gostasse mais de morar aqui.

— Não era isso. Quando eu contei para ele você pode imaginar a reação que recebi.

Ele podia. Yoongi provavelmente deve ter se mostrado desinteressado e acabou falando bobagens. Aquele babaca...

— O que ele disse? – perguntou mesmo assim.

SunHee deu um pequeno sorriso triste.

— Basicamente, ele falou que quando eu fosse não me preocupasse m voltar porque ele não precisava de alguém egoísta a esse ponto ao lado dele.

— Isso me soa artificial vindo dele.

—Também acho. É claro que não acreditei, mas fiquei brava o bastante para insistir em ir. E depois veio a Sarah e eu não podia abandonar uma amiga daquele jeito. E além do mais, nós perdemos contato. Até agora.

Para Jin era um pouco difícil ouvir aquela história que se passou bem debaixo dos seus olhos. Mas ele ouviu atento e até a instigou a falar, ele sabia que só assim poderia ajudar a irmã.

— E, vocês ainda se gostam da mesma forma?

— Eu já não sei de muita coisa. Acho que nunca soube muito em se tratando dele.

Um pequeno momento de silêncio instalou-se sobre eles e Jin percebeu que SunHee esperava que ele absorve-se as informações.

— Ok. Entendi, eu acho. – falou – Agora quero que me conte sobre a sua relação com Sarah.

A irmã mudou de posição inquieta. Ela não queria falar sobre isso, notou.

— Não há muito que dizer. Éramos muito amigas e ela morreu.

— Mas há mais. Não há?

— O que mais pode haver que seja pior do que a morte dela?- retrucou.

— Não sei. E é isso que quero ouvir de você.

Mais uma longa pausa recaiu sobre eles até SunHee criar coragem o bastante para falar.

— Sarah era... Ela gostava de muito mais do que como amiga.

Jin não percebido que estava prendendo a respiração até aquele segundo quando soltou todo o ar de seus pulmões.

— E você...?

— Não. Eu nunca pude retribuir os sentimentos dela. Nós acabamos brigando por causa disso.

— Então é isso que ela quer dizer na carta... – murmurou.

— É. Ela se arrependeu por ter se declarado e depois tentar exigir que eu retribuísse. Nossa amizade ficou um pouco balançada por causa disso. Nada parecia igual a antes. Eu me sentia mal, mas não podia fazer nada. Ela era minha melhor amiga e a única coisa que me pediu eu não pude dar.

De repente falar sobre Yoongi parecia milhares de vezes mais fácil.

— Essa coisa de New York...

— Nós estávamos passeando por lá quando ela me contou. Eu não soube como reagir.

— Mas você ficou com ela até o fim. – concluiu lembrando-se do que leu na carta.

— Sarah ainda era a minha amiga e eu não podia deixar que morresse com nós duas brigadas daquela forma. É irônico que ela tenha morrido durante a cirurgia que a convenci a fazer. – comentou rindo sem humor.

— É por isso que você tem agido tão estranho? – questionou Jin finalmente chegando no tema que tanto queria.

— Como posso seguir em frente sendo que ela esta morta por minha causa e ainda por cima ela me agradeceu por incentiva-la a faze isso. Ela mesma sabia que ia morrer e ainda assim fez isso porque EU pedi que fizesse. Sendo que a única coisa que ela me pediu eu jamais fui capaz de dar.

Foi então que as lágrimas que até então ela escondera começaram a rolar livres pelo seu rosto. Jin se levantou e foi até onde ela permanecia sentada. Ajoelhou-se na sua frente e com a mão direita secou as suas lágrimas. Sua voz era terna e confortável agora que sabia o que estava acontecendo.

— Shiu... Você não leu a carta? Ela entendia você e não te culpava. Ela quis fazer a cirurgia. Sarah teve todas as chances para recusar, mas ainda assim seguiu em frente. Ela sabia que você não podia retribuir porque na verdade já estava apaixonada. Embora nem mesmo agora você admita isso. – disse Jin a envolvendo com braços firmes e aconchegantes como somente um irmão mais velho tinha. E, embora ela estivesse incerta sobre tudo o que ele disse — em especial sobre estar apaixonada-, SunHee sentiu dentro do peito uma pecinha voltar para o lugar. Não era muita coisa, mas era o suficiente para poder a recomeçar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.