Ginger

1 Capítulo Único


Num dia chuvoso de Inverno predominam as cores escuras e frias, não só pela estação, mas por causa do tempo, também. Era, portanto, muito fácil distinguir uma jovem de cabelos fogosos e olhos brilhantes em meio à multidão morta.

Com um cigarro numa mão e um guarda-chuva na outra, seguia pela cidade movimentada, a bolsa com a câmera que lhe custou os olhos da cara a tiracolo. Parou em frente ao cemitério local. Que melhor cenário para fotografar do que um cemitério em dia de chuva? Apagou o cigarro no muro acinzentado e atirou a ponta para o chão, para depois entrar.

Mal entrou viu várias pessoas: umas choravam em cima das campas dos amados, outras deixavam flores nas campas dos conhecidos e havia, ainda, mais um pequeno grupo que se limitava a observar as lápides sujas dos entes queridos. Pousou o guarda-chuva, agora fechado, à entrada e avançou pelo ambiente deprimente.

Os cabelos ruivos, tão vivos, traziam uma certa nostalgia a quem observava a jovem, que caminhava a passos lentos pelo chão de corpos pútridos. Quem via direito, percebia que os fios vermelhos não eram a única característica contrastante com aquele cenário: os olhos, duas esmeraldas, brilhavam com intensidade. Mas apenas os mais atentos notavam que, apesar de brilhantes, esses olhos nada tinham de vivos.

Para além de ser uma ótima fonte de inspiração, e de vir a resultar em fotografias de beleza incomparável, aquele ambiente adaptava-se bastante ao estado de espírito da ruiva de pele cálida.

Um pequeno sorriso cínico adornou os seus lábios, enquanto esta admirava as sepulturas de pedra. Eram tantas as semelhanças entre ela e as pobres pessoas debaixo daquele solo. Não eram assim tantas; havia muitas mais diferenças, apesar de estas não serem relevantes, nesse momento. No entanto, de certa forma, conseguia identificar-se com todas aquelas almas.

Umas tinham sido assassinadas; também ela. Outras morreram devido a doenças incuráveis; também ela. Outras morreram de causas naturais; também ela.

Ela não era um demónio, nem um fantasma e esta história nada de sobrenatural tem.

Havia sido assassinada por quem amava, traída, as costas apunhaladas incontáveis vezes. Havia sido vítima da própria ingenuidade e descrença daqueles que a rodeavam. Pior de tudo, havia sido vítima da doença incurável que era o amor.

Aquele que muitos desejam, a febre que eventualmente apanha todos e a que muitos procuram, por vezes forçosamente, e que mais felicidade efémera traz, é a pior das doenças. Seguida de uma lenta drenagem de toda a felicidade e vontade de viver, a febre do amor ataca quando menos se espera. Não há vacinas, apesar de muitos acreditarem que lhe são imunes ou fortes o suficiente para o combater e sobreviver.

O coração da jovem já não pulsava com a mesma vivacidade de antes de ser atingida pela doença. Sentia-se a morrer aos poucos e a sua vontade de permanecer naquele mundo diminuía a cada segundo que passava.

Mas, ao mesmo tempo, a cada momento daquela tarde melancólica que capturava com a sua câmera, sentia-se renascer.

Fotografia era a sua paixão.

E, ao pensar isso, percebeu que tinha sido novamente afetada pela febre do amor. Mas como poderia algo tão bonito como a fotografia partir o coração da rapariga, outra vez? Impossível!

Ledo engano. Por muito inocente que o amor e a paixão pareçam, de inocentes nada têm. A ingenuidade sai-nos sempre cara.

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