Gimme shelter
2 Dúvidas
Notas iniciais
"CAPÍTULO I — DÚVIDAS"
"Would things be easier if there was a right way?
Honey, there is no right way"
(Hozier — Someone new)
O barulho das balas se movendo na direção de suas vítimas ficava cada vez mais para trás enquanto Sienna corria, tentando abrir caminho pela mata fechada. Ethan, um dos únicos amigos que fizera após o início do apocalipse, estava logo atrás dela, gritando palavras de incentivo para que a garota não parasse de correr.
Ambos sentiam os galhos cortando seus braços e seus pulmões ardendo, mas não podiam parar. A floresta poderia dar-lhes alguma vantagem contra os homens que atacaram a comunidade de forma brutal.
Conforme ganhavam distância do lugar que antes chamavam de lar, os gritos de desespero e o sentimento de angústia também iam sendo deixados pelo caminho. Apenas quando o cheiro de fumaça não podia mais ser sentido, Ethan agarrou o braço da menina, fazendo-a parar de repente. Sua pele clara, agora estava coberta por uma fina camada de fuligem e os cabelos castanhos, antes ajeitados em um rabo de cavalo, pendiam pela face se misturando com o suor e sujeira obtidos durante a fuga.
O amigo passou uma parte da manga comprida sob os olhos dela, buscando afugentar uma ou duas lágrimas que ameaçavam cair. Sienna fungou. Ambos se encaravam, mas não falavam nada. Não havia o que dizer.
A comunidade de Silver Lake ficara para trás, provavelmente acabada, mas não era apenas isso o que tirava a paz de Sienna. Seu pai, a única pessoa que ainda a fazia ter alguma conexão com tudo aquilo que ela conhecera como normal, também se perdera em meio ao fogo e destruição.
Pensar em não vê-lo de novo a fazia sentir um desconforto nunca sentido antes. Algo que a corroía de uma forma tão dolorosa quanto a morte de sua mãe, anos antes de tudo começar. A diferença é que, com apenas 8 anos, sua visão da morte era muito diferente. O fato de “não ver” uma pessoa, não representava exatamente o fim do mundo.
Agora, com 18, Sienna sabia que perdera mais do que o homem que esteve ao seu lado em todos os momentos de sua vida, em tempos como aquele, ela havia perdido também a sua garantia de permanecer sã.
Os pensamentos conturbados de Sienna foram interrompidos por um Ethan com expressão preocupada. Ela sabia que ele se sentia culpado pelos acontecimentos das últimas horas, por tê-los afastado e abandonado seu pai. Mas ela tinha maturidade suficiente para saber que a situação na qual se encontravam não podia ser responsabilidade de ninguém menos do que dos homens que apontaram suas armas para a cabeça de toda pessoa inocente que ousasse respirar.
O amigo sugeriu que passassem a noite na clareira e, assim que amanhecesse, partiriam em busca de abrigo. Sienna, ainda sem falar, assentiu e, usando um amontoado de folhas como travesseiro, deixou que Ethan pegasse a primeira vigia, entregando-se a um sono sem sonhos.
—*-*-*-*-*-*-*-
Quando acordou, Sienna não se encontrava sobre o amontoado de folhas e, infelizmente, Ethan não estava ali também. A garota acordara em um quarto, situação que não vivia há muito tempo. Flashbacks do que ela pensava ser do dia anterior pipocavam em sua cabeça, lembrava vagamente das voltas do relógio, do barro vermelho e das vozes ao seu redor.
Quando tentou abrir os olhos, precisou se acostumar com a luz que vinha da janela, pela claridade, já passava do meio dia. O quarto tinha um estilo clássico, como se tivesse sido decorado há décadas. As paredes possuíam um papel de parede amarelo que ela julgou como sendo “horroroso”, os móveis eram feitos com uma madeira escura e pesada, provavelmente construídos para durarem por muitos anos. Ao seu lado, um criado-mudo com algumas flores roxas, — talvez a única coisa que Sienna realmente apreciara naquela decoração – uma jarra com água e um copo.
Sentiu sua garganta seca.
Tentou levar sua mão direita até a água, mas não obteve o sucesso que esperava, todos os músculos de seu corpo doíam e sua lateral direita parecia ter sido atropelada por um trem. Ao tentar movimentar-se na cama, percebeu que sua perna esquerda estava engessada e um equipo estava acoplado ao seu braço, fornecendo soro de forma intravenosa.
Piscou uma ou duas vezes, sentindo sua cabeça girar. Com certeza esse não era o melhor dos seus dias, e ainda precisava descobrir aonde estava e, como um bônus, a pessoa responsável por aquela falta de senso estético na decoração do quarto.
Como se adivinhassem seus pensamentos, a porta se abriu, revelando um homem com não mais do que 30 anos, ele usava uma jaqueta de couro puída e tinha um cabelo comprido que lembrava um cantor de rock dos anos 90.
—Boa tarde...
—Sienna. – Ela disse com uma voz fraca.
—Sienna! Sou Jesus. — Ele sorriu e ela arqueou uma sobrancelha, mas não comentou nada. — Espero que esteja se sentindo melhor, tivemos que improvisar, uma vez que perdemos nosso médico recentemente. — Ele parecia desconfortável em falar isso, mas logo emendou: — Viemos apenas lhe desejar as boas vindas à comunidade de Hilltop. Esta é Maggie.
Apenas naquele momento ela percebera a presença de uma mulher encostada no batente da porta. Ela tinha um cabelo curto que combinava com o rosto fino, os olhos verdes pareciam gentis e sua postura tranquila. Ela sorriu-lhe de forma doce, com um aceno positivo com a cabeça.
Sienna tinha diversas perguntas para fazer, realmente não sabia por onde começar, mas se limitou a questionar:
—Hilltop?
—Somos uma comunidade de sobreviventes. — Dessa vez era a mulher que respondia. — Será bem vinda a permanecer conosco, temos suprimentos e recursos suficientes. Todos aqui contribuem de alguma forma e, se quiser, podemos achar um lugar para você ajudar quando estiver melhor, ou pode apenas continuar seu caminho. Não tenha pressa em tomar a decisão, pode conhecer o lugar quando estiver disposta.
Sienna apreciara o tom de voz de Maggie, transmitia uma confiança que há algum tempo ela não sentia. Jesus ainda era uma incógnita, mas tinha sua simpatia peculiar. A vida pós apocalíptica era ingrata, sabia como zombar daqueles que não possuíam os recursos para sobreviver, por isso a garota sorriu para ambos, tentando transmitir naquele gesto sua gratidão pela ajuda oferecida.
Seu reconhecimento pelo auxílio deles apenas cresceu quando trouxeram-lhe o que comer; apenas quando sentiu a primeira bocada da refeição, foi que se deu conta da fome que sentia. Seus músculos ainda doíam de forma intensa mas, pela primeira vem em algum tempo, era extremamente grata por estar viva naquele momento.
Nem bem sua refeição acabara e Sienna pediu para conhecer os arredores. Apesar de não perceber qualquer perigo iminente, suas experiências passadas a faziam querer obter o máximo de respostas sobre o lugar em que se encontrava antes de, bem como Maggie dissera, tomar qualquer tipo de decisão.
Jesus se oferecera para levá-la em um tour pela comunidade, então, acomodada em uma cadeira de rodas, a garota explorou e analisou tudo, sempre atenta aos relatos do homem que a conduzia. O lugar parecia grande e organizado, diversos trailers eram dispostos ao redor do enorme casarão pelo qual saíram.
A comunidade de Hilltop estava bem estabelecida, dominando a fabricação de artigos de ferro, hortaliças e grãos, e estabelecendo a criação de gado. As pessoas que residiam por ali também aparentavam ser gentis e solícitas, com diversos homens e mulheres e, até mesmo, algumas poucas crianças.
—Hilltop é comandada por Gregory, ele não costuma se envolver com as questões sociais- explicou Jesus-, mas é ele que vem tomando as decisões desde que isso tudo foi construído. Sobrevivemos até o aqui, então tem dado certo até o momento.
—Um líder que não se envolve com “questões sociais” não me parece tão apropriado.
Jesus sorriu.
—Tem razão. É por isso que Maggie está aqui. — Confidenciou. — Ela apenas não sabe disso ainda. Acho que já passamos da fase de “apenas sobreviver”, precisamos almejar outras coisas.
A garota balançou a cabeça, concordando.
—Ela transmite confiança, não posso negar.
Sienna sorriu com a perspectiva de permanecer naquele lugar. A ideia de ter um teto sobre sua cabeça, alimento e de conviver com essas pessoas que, à primeira vista, pareciam honestas e ativas, com certeza agradava a garota.
Certamente nada disso apagava as marcar de seu, nem tão distante, passado, mas poderia amenizar e a fazer seguir em frente de uma forma ou de outra. Os últimos quatro anos não haviam sido fáceis para ninguém, especialmente para ela com a perda de tudo que um dia lhe fora importante: o esporte, Ethan, sua vida... seu pai.
Agora tudo o que podia fazer é agradecer por ainda se dar ao luxo de respirar, e tentar viver novamente com os resquícios das coisas boas que ela sabia ainda existir em algum cantinho de seu peito, sabendo que é isso o que seu pai desejaria a ela.
—
Lhe fora oferecido uma das acomodações no casarão que, apesar do papel de parede de mal gosto, ela agradeceu. Maggie lhe ajudava com o gesso sempre que necessário e achava que em poucas semanas Sienna já poderia circular pela comunidade.
—Não posso dar-lhe certeza disso porque não sou o Dr. Carson, mas meu pai ensinou-me alguma coisa antes de partir. — Deu um sorriso fraco enquanto acomodava a perna engessada de Sienna sobre uma almofada. — Acho que deve resolver.
—Perdi meu pai também. — Disse Sienna tentando passar um pouco de conforto. — Nós morávamos em uma comunidade parecida com essa mas... sofremos um ataque. Foi horrível. Os tiros. O fogo. — Desviou o olhar. — Durante a fuga ele acabou ficando para trás... não acredito que tenha sobrevivido.
Pousando uma das mãos no próprio abdômen, Maggie colocou a outra no ombro de Sienna, tentando mostrar-se solidária àquela situação. Ambas perderam pessoas, ela sabia como era não poder sentir aqueles que ama ao seu lado, sentir a esperança de um dia voltar a ser feliz sumir de sua vida como fumaça e, pelo olhar da garota, podia ver que todo o caos pós-apocalíptico não a perdoara.
—Você pode fazer de Hilltop seu lar, se quiser. — Disse Maggie. — Eu sei que criar raízes em um lugar desconhecido não é algo simples, mas eu também não conhecia ninguém aqui quando cheguei e hoje me sinto responsável por cada vida desse lugar.
Sienna assentiu e sorriu fracamente, conversando com a mulher, ela podia entender o que Jesus dissera mais cedo: Maggie poderia se tornar uma boa líder porque se importava. Sentia o olhar gentil dela sobre si como um abraço amigável, oferecendo todo o conforto e confiança que podia.
A mulher sabia o que dizer no momento certo, apresentava as possibilidades e dava sua opinião de forma sutil, sem a pressionar a tomar alguma decisão até que estivesse pronta. Sienna apreciava isso. Mesmo que ambas não tivessem mais do que quatro ou cinco anos de diferença, Maggie passava um sentimento maternal, um brilho que ela lembrava, de forma vaga, também existir em sua mãe.
Calmamente, a moça passou a refazer os curativos de Sienna, limpando as escoriações, aplicando soros de limpeza e colocando nova gaze e fita. Seus movimentos eram ágeis e delicados e passaram a estabelecer uma conversa aleatória sobre as plantações e criações de Hilltop, ela percebeu que Maggie apenas buscava a distrair do assunto pesado da perda de seu pai — ou apenas não queria lembrar das próprias perdas.
De qualquer forma, ela agradecia pelas amenidades que conversavam e começava a se sentir quase como se os problemas além dos muros não pudessem a atingir. Em um momento de inocência, Sienna questionou a morena sobre a falta do médico. Maggie estava de costas, limpando os resquícios de embalagens de curativos que deixara sobre a cômoda e, ao ouvir a pergunta, sentiu sua postura enrijecer-se.
Sienna perguntou a si mesma se havia falado algo de errado pois ela demorou um ou dois minutos para virar-se e, olhando para o chão, mordeu o lábio inferior em um claro sinal de nervosismo.
—Acho que podemos deixar esses detalhes para depois. — Dizendo isso, recompôs-se e levantou o rosto, a encarando nos olhos e sorrindo de forma nada espontânea. — Apenas preocupe-se em se recuperar, ok? Teremos tempo para que saiba tudo sobre Hilltop.
Sienna assentiu devagar, mais dúvidas formando-se em sua mente inquieta enquanto observava Maggie sair do quarto com um aceno final.
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