Ghost Town
6 A dor de uma perda
Notas iniciais
Narração de Jason
Eu não sei o que deu na minha cabeça, mas sim, eu beijei a Pearl e sim, eu gostei. Acho que depois do que aconteceu posso dizer que estou gostando mesmo dela – ela beija bem pra caramba. Quando ela saiu, fiquei a observando pela janela e vendo seu jeito de andar, que me lembrou muito de Anne. Quando Pearl sumiu de meu alcance, fui para meu quarto – ainda preciso me acostumar com o fato de ter um quarto – e fiquei pensando na minha vida antes disso tudo e em como eu amava tudo, amava Anne. Ela era uma garota que conheci quando tinha meus 15 anos.
20 de outubro de 2004
Lá estava eu, em mais um dia de aula no meu primeiro ano do ensino médio. Entrei na sala de matemática e me sentei na carteira ao lado do meu melhor amigo, Michael, como sempre costumo fazer nas aulas que temos juntos. Com uns 10 minutos de aula, talvez menos, alguém bate na porta. Era a diretora. A professora saiu e ficou do lado de fora conversando sobre alguma coisa que não dava pra escutar por que a sala estava uma bagunça, então a professora entrou na sala com uma garota nova ao seu lado.
–Pessoal, silencio! – Todos se calaram quando viram novidade – Esta é Anne, a nova aluna. Espero que vocês a recebam bem!
Quando aquela garota entrou na sala eu pude notar seus lindos olhos castanhos, eram de um castanho não tão claro, mas não tão escuro. Não deixei de notar também seu cabelo loiro-escuro que batia um pouco abaixo dos ombros. Pude perceber seu jeito tímido quando a professora a apresentou para toda a turma. Depois de alguns segundos um pouco constrangedores ela avistou uma carteira vazia no fundo da sala e se sentou lá, olhando um pouco envergonhada para as pessoas da sala. Ela passou por mim e pude sentir seu perfume, um perfume doce que talvez eu nunca esqueça.
A aula até que passou rápido, então o sinal finalmente bateu. Olhei pra trás procurando a tal Anne dos olhos lindos, mas ela já avia saído – acho que ela estava doida para sair logo daquela sala. Peguei meus materiais o mais rápido possível para tentar alcançar a apressadinha.
–Ei! Espera. – Falei quando avistei Anne andando rápido pelo corredor – Anne!
Ela olhou para trás com um olhar desconfiado.
–Sim?
–Oi. Eu... – fiquei um pouco distraído com seu rosto, delicado e fica ainda mais bonito com seu olhar. – Desculpa, é que... Bom, eu...
–Você ta bem? – ela falou com um sorrisinho envergonhado.
–To, é que eu to... um pouco nervoso com sua presença.
Anne não respondeu, apenas olhou pro chão e pude perceber seu rosto ficando corado.
–Desculpa, não era bem isso que eu ia falar.
–Tá, tudo bem...
–Ia falar pra você almoçar comigo hoje. Sabe, não comigo apenas. Tipo... não só eu e você e tal. – fiquei um pouco, bem, confuso – Quero saber se você não quer almoçar com meus amigos e eu?
–Nossa! Muito gentil de sua parte. Gostaria, sim!
–Legal, é... Então...
–Te vejo no refeitório? – ela tentou completar minha frase.
–Sim!
Ela riu e saiu. Fiquei parecendo um idiota falando com ela, nunca tinha ficado tão nervoso perto de uma garota como eu fiquei perto de Anne.
Algum dia de 2015
Depois do dia que a conheci, nunca mais nos separamos. Começou como uma simples amizade, mas depois de um ano mais ou menos começamos a namorar. Tudo estava indo muito bem, até que essa droga que parece o fim do mundo aconteceu e estragou todo meu futuro com Anne.
25 de novembro de 2010
Estávamos tentando achar combustível para nosso carro, parece que os postos estão totalmente vazios. Cooper ficou no carro com Chloe, já que ele é apenas uma criança de 7 anos de idade e não aguenta ficar ao ar livre sem correr feito um louco e tentar achar alguma coisa que pode servir para matá-lo. Sai com Anne e Michael para achar esse combustível e pegar alguns suprimentos para nosso pequeno grupo, que já não come há 2 dias. Tem poucos meses desde que o país surtou e uma espécie de doença fez com que as pessoas voltassem em forma de monstros carnívoros que tentam matar qualquer coisa viva que aparece. Andando pela rodovia conseguimos achar um pequeno posto de combustível – vazio como o esperado – e nele uma pequena loja de conveniência.
–Jason, espera.
–O que foi, Anne?
–Pega minha arma e vai na frente, vou ver se tem combustível nesses carros aqui – ela apontou para alguns carros abandonados que estavam no acostamento.
–Não vou te deixar aqui fora sozinha. Vamos todos lá pra dentro e depois que pegarmos o que for necessário, analisamos esses carros aqui.
–Mas Jason...
–Anne, melhor fazer o que Jason pediu. Não é boa ideia se separar agora. Nem que seja por alguns minutos. – Michael disse tentando convencer a teimosa.
Ela, mesmo assim, tentou me dar a arma e eu acabei aceitando. Fomos entrando na loja, mas antes batemos na porta da frente para ver se nenhum Walker viria – Escutei um cara uma vez, quando estava escondido na floresta, chamando essas coisas assim e é um nome interessante. Nenhum deles veio, então entramos sem medo. A lojinha estava quase intacta, algumas coisas quebradas, mas aparentemente ninguém tinha tentado levar tudo que estava ali. Pegamos tudo que cabia a mochila e o que não cabia também, não nos importando com o peso que carregaríamos até o carro que estava consideravelmente longe.
–Amor, olha isso. – Anne apontou para uma porta que parecia a despensa da loja – Vou ver se tem alguma coisa interessante aqui dentro.
Eu apenas concordei sem dar muita atenção, pois estava me sentindo seguro demais ali dentro. Me enganei completamente.
–Acho melhor eu... – ela falou já abrindo a porta, e alguma coisa a interrompeu. Só percebi quando me virei.
–Anne! – Michael gritou do outro lado da loja.
Quatro walkers saíram de dentro dessa despensa e dois deles foram pra cima de Anne. Fiquei parado tentando analisar a situação por dois segundos antes de pegar a arma que estava em minha calça e começar a atirar naqueles monstros que estavam tentando morder o rosto da Anne. Quando consegui matar um deles, o outro continuou tentando morder Anne enquanto os outros dois foram em direção de Michael. Foi nessa hora que tive que escolher, sem querer, quem eu iria salvar. Apenas eu, entre nós três, tinha uma arma, e mesmo todos tendo facas, ainda não sabíamos nos defender completamente desses monstros. Se eu fosse salvar Anne, talvez não daria tempo de me virar e atirar nos dois walkers que estavam indo em direção do Michael. Se eu ajudasse primeiro o Michael, talvez Anne não conseguisse pegar sua faca a tempo e acabasse sendo mordida.
–Merda! MERDA!!!!!
Percebi que Michael tinha um pouco mais de tempo para pegar a faca, então decidi ajudar Anne.
–Não, Jason! – ela tentou me parar, mas já era tarde.
Quando eu atirei no Walker que estava em cima dela, ouvi os gritos de Michael do outro lado na loja, e ele não conseguiu se salvar a tempo. Vi as duas coisas mordendo, ao mesmo tempo, o braço do meu melhor amigo. Uma das pessoas mais importantes pra mim estava sendo comida viva bem na minha frente, e eu não podia fazer nada a não ser acabar com seu sofrimento. Cheguei perto o suficiente para conseguir dar o tiro de misericórdia.
–Sinto muito, irmão. – falei olhando pra ele, e vi que ele estava olhando pra mim e que entendeu tudo o que estava acontecendo ali.
Depois de atirar, peguei Anne e sai o mais rápido de pude da loja, deixando pra trás um amigo. Não consegui conter minhas lágrimas, o sofrimento de matar meu irmão. Quando cheguei no acostamento, Anne parou.
–Vamos, Anne. Precisamos voltar rápido. – ela me olhou de um jeito que me deixou preocupado – O que houve, amor?
Ela levantou a manga da blusa e revelou uma mordida.
–O primeiro que saiu conseguiu morder meu braço antes que você o matasse. Por isso tentei te impedir de me salvar, eu já estava morta.
Não consegui falar mais nada, apenas sentir. Senti raiva, medo, tristeza, ódio, tudo junto. Senti meu rosto ficar quente e minhas mãos gelaram. Minha visão ficou embaçada e logo depois senti meu rosto ficar molhado com minhas lágrimas. Não podia acreditar que havia perdido algumas das pessoas mais importantes na minha vida, e o que me deixou com mais raiva foi que tudo aconteceu por minha causa. Se eu tivesse dado mais atenção para o que Anne disse, eu teria conseguido controlar a situação na loja. Talvez se eu tivesse ouvido seu pedido para achar combustível do lado de fora da loja, ela não tivesse morrido e nem Michael. O famoso “efeito borboleta” apareceu e destruiu minha vida pela metade.
Anne não queria morrer sem antes falar com Chloe e Cooper. A levei, devagar, para nosso carro, onde ocorreu a despedida. Ela também queria que ela mesma acabasse com aquilo, e não queria que eu visse. E as últimas palavras dela foram:
–Eu te amo, Jason. Quero que você lute para viver, por mim. Mesmo quando sentir medo, lute. Quando se sentir triste, lute. Não deixe que nada nem ninguém tire isso de você. Proteja Cooper e Chloe e fiquem juntos até o fim. E o mais importante: quando encontrar uma garota legal, dê uma chance. Quero que você seja feliz, não importa o que aconteça. Dê uma chance para o mundo, e ele te retornará da melhor forma possível!
–Eu também te amo muito, Anne. Jamais será esquecida. – Só consegui falar isso, então ela virou o rosto e pediu para que eu saísse. Dei meu ultimo beijo em Anne Carter, o mais apaixonado que pude.
Ela se foi, ele se foi. Meu melhor amigo e o amor da minha vida se foram no mesmo dia e por minha causa. Jamais me esquecerei do dia que Anne saiu da minha vida para sempre.
Algum dia de 2015
Eu vejo um pouco da Anne na Pearl, talvez seja por isso que gostei dela tão fácil assim. Essa pode ser a chance de fazer o que Anne me pediu: dar uma chance para a garota nova. Preciso dar essa chance e tentar viver depois de minha perda. Preciso voltar à vida.
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