Ghost Stories
2 Bem Vindo Ao Meu Mundo
Notas iniciais
– Espero que tenha algo para comer.
– Tem uns pães ai. Manteiga na geladeira, requeijão, o de sempre. Se vira. – diz Heather, minha companheira de moradia.
– Eles vão dar as mesmas coisas para sempre? – resmungo.
– Prefere passar fome?
– Nós somos imortais. Não precisamos disso.
– Se você for um espírito masoquista, vai na fé. Você sabe que eu gosto de comer, sobra mais para mim, todos saímos felizes – ela sorri triunfante e provocativa.
Moramos em uma casa-iglu que os Vefus construíram. E para uma casa que o governo deu, ela até que é ótima. Quarto, cozinha, banheiro e uma sala mediana.
Pagamos a casa por meio de ações que realizamos na vila, e até na Terra. ( capitalismo em Spicity não existe, o que é bom, porque o dinheiro é traiçoeiro ). Como por exemplo, colher frutos nas florestas, caçar peixes e alguns animais em lagoas e fazendas. Por isso que vivem dando depoimentos por ai dizendo que avistaram vultos, e coisas assim nesses lugares isolados. Por mais bobo que parece ser, eles estão completos de razão. Somos nós.
E antes que você pense algo, os OVNIS não tem relação com a gente. Nem os extraterrestres. Se eles existirem.
Mas depois que me vi em forma de alma, não duvido mais de nada.
Todos ajudamos, a comunidade é bem unida e organizada. É o lugar perfeito para se morar. E alguns até abdicam da curiosidade de “o que vem depois disso” para ser para sempre espírito, e assim dão continuidade a sociedade. Mas eu simplesmente não consigo. Isso é tão errado. Eu não me sinto parte disso.
Faço um pão básico, e bebo um suco natural de laranja.
– Quais são as tarefas para hoje? – pergunto mastigando um pedaço.
– Você não tem modos, não? Eu hein. – ela revira os olhos – bom, eu não olhei a lista. Então vá você, e veja se acha algo legal para mim.
Encaro ela com uma cara inexpressiva.
– Você é uma baita de uma preguiçosa.
– Sabe que eu te adoro, não é? – diz enquanto corre para me abraçar.
Heather tem 19 anos. Vive em forma de alma desde os 15. Nos conhecemos assim que eu vim para cá. Três anos de convivência. Não vou dizer que ela é como uma irmã para mim, porque isso é um clichê chato, e eu odeio clichês. Mas é mais ou menos isso. Ela é minha melhor amiga ( não tenho muitos ) e sabe de boa parte da minha história... que eu lembro.
Falar sobre minha morte é complicado... eu não me sinto morto o suficiente para falar disso. É estranho, eu sei. Lembro que no dia em que morri, foi um dos melhores dias que tive. Eu e minha família tínhamos ido em um show de um artista desconhecido que eu adorava, estava frio ( eu amo ) e minha família estava num clima maravilhoso. Risadas e mais risadas. E então... branco. Não lembro de nada. Voltávamos para casa e então não vem mais nada em minha mente.
E estou a três anos nessa. É frustrante.
– Tá, tá, tanto faz – solto ela envergonhado – vou lá ver. Depois volto.
Vou para o quarto, abro o guarda-roupa e pego um casaco cinza, daqueles que parecem um blazer. Coloco-o por cima da blusa branca que já estava, e coloco uma calça jeans. Logo depois um tênis preto com detalhes alaranjados. Vou até o espelho. Um garoto de olhos castanho-escuro, pele bem esbranquiçada, espinhas, sardas rosadas e cabelo preto encaracolado. Arrumo as sobrancelhas e parto.
Saio de casa rumo a praça. A vila é bonita, cheia de árvores, e com várias casinhas. Em compensação, ela é pequena, dar pra andar ela toda, e não demora muito tempo para isso. A praça é do lado da minha casa, então logo chego.
As listas estão pregadas numa lousa pregada em uma árvore. Chego perto e leio.
– Vamos ver... Hum...
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ATENÇÃO: TODAS AS ATIVIDADES DEVERÃO FEITAS COM EXTREMO CUIDADO. NÃO DEIXEM RASTROS, NÃO DEIXEM OS VIVOS DESCONFIAREM DE SUA PRESENÇA. CASO CONTRÁRIO, SERÁ ADVERTIDO. BOA SORTE, CONTAMOS COM SUA COLABORAÇÃO.
– Colheita de frutos da Amazônia
– Caçar e trazer carne de porco
– Assistir a uma peça de teatro, analisar e trazer observações sobre atuação
– Acompanhar a rotina de uma pessoa por um dia e trazer anotações sobre seu comportamento.
– Comprar materiais para construção de estabelecimentos. * Caso escolha essa atividade, dirija-se a central do governo para orientação *
Não sei o que escolher. Colher frutos é chato e entediante. Não sou de caçar, acho meio violento. Teatro é legal, mas sou desastrado, e chamo atenção fácil. Comprar material é mais difícil do que parece, então o que me resta é acompanhar um vivo por um dia. Somos invisíveis para os vivos, mas podemos ser ouvidos. E tocados, quando o vivo faz por querer. Então temos que ter cuidado. Sempre escolho ir para metrópoles, porque caso aconteça algo, sempre há bastante barulho para abafar o meu.
Uma coisa que eu não entendo é porque eles pedem tantas informações sobre a vida dos vivos. Acho que eles pretendem expandir a nossa sociedade espiritual, eu só não sei como. Não são um governo comunicativo. Devem haver varias coisas que eles escondem. Coisas que eu não pretendo saber.
Saio da praça, mas sigo um caminho diferente de casa. Entro na rua a direita e sigo reto. Passando por algumas casas bonitas , e algumas estranhas, chego a residência de Aiden. Um garoto alto, branco, olhos castanhos bastante claros, cabelo estilo corte militar.
– AIDEN! – grito.
– O que você quer, planetinha? – ele aparece na janela frontal da casa.
– Há. Você é engraçado. Posso andar com você no intervalo? – ironizo.
– Renove suas frases, Sat. Ta ficando feio.
Reviro os olhos.
– Só venha logo.
– Vai fazer o que hoje? Pegar umas amoras? – Aiden provoca.
– Tem coisas mais emocionantes do que isso. Vou acompanhar a vida de alguma pessoa.
Ele ri.
– A ultima vez que você fez isso, você ganhou sua segunda advertência. – ele para de rir completamente – tem certeza de quer tentar de novo?
– Tenho. E dessa vez, não vou escutar uns gritos e um “ QUEM TA AI? SAI DA MINHA CASA EM NOME DE CRISTO ” depois.
Ele gargalha alto novamente.
– Você é impossível. Tudo bem, vamos nessa.
Seguimos a rua reto em direção a Ponte. A Ponte é um laboratório onde podemos nos deslocar entre Spicity e Terra. A construção é grande, ocupa bastante terreno. Ali as pesquisas são feitas, tem análises sobre os documentos que são trazidos da Terra sobre os vivos, e etc. Ali também são feitas poções e até alguns artefatos de magia, que só os espíritos mais confiáveis e experientes e treinados usam. Como por exemplo, teletransporte instantâneo ( meu sonho ter um desses, você pode se mover rapidamente de um lugar pro outro, e até voltar pra cá em situações de emergência ), apagador de memória ( pros vivos ) e outros bem legais.
Entramos e um homem com vestes de segurança nos aborda.
– Viagem?
– Sim – eu e Aiden respondemos em uníssono.
Seguimos o homem até a sala. É grande, varias pessoas podem se deslocar ao mesmo tempo. Entramos e sentamos no chão frio.
Olho para ele com um olhar de quem diz “ está preparado? ” e com outro ele me responde que sim. Então fecho os olhos e começo a pensar nos prazeres da Terra. Lembro de tudo que consigo sobre minha vida nela, e do que gostaria de conhecer se tivesse a oportunidade. Então começo a escutar barulhos de carros, pessoas conversando e até gritando. O cheiro é horrível. Minhas mãos tocam um chão cheio de pequenas pedras. Reconheço só pelo tato. Então logo chego a conclusão de que estou na Terra, e muito provavelmente numa cidade grande. Do jeito que eu gosto. Como diz aquele ditado:
“ Um bom filho à casa torna ”
Olha. Eu sou um ótimo filho.
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