Ghost
4 Capítulo 3 – In a solitary style
Notas iniciais
Ficar sozinho é mais torturante
Do que se fazer sozinho, porém no final
A solidão sempre é a mesma.
Finalmente sexta, mal podia esperar para contar tudo a Ella, vê-la, abraçá-la. Que saudades eu estava dela. Tudo bem que a vi quarta, mas apenas ontem Gerard falou comigo, preciso contar como ele segurou minha mão, como me levou até a sala 32 e depois, como me pediu desculpas.
De sexta, eu aproveitava que a minha ultima aula era educação física e que tomávamos banho depois para me trocar com a roupa que iria ver Ella, assim não precisava passar em casa para tirar o uniforme da escola. Eu até gostava do uniforme da escola, usávamos preto e vermelho, eu amo preto com vermelho. Uma combinação perfeita, porém não para visitar uma amiga como Ella.
– Olá, Lilith, como foi a escola? – Regina, a recepcionista, perguntava ao entregar o crachá de visitante pra mim.
Era natural falar com Regina, a via toda quarta e sexta quando vinha visitar Ella, já a conhecia um pouco. Ficava conversando com ela nos dias que chegava um pouco mais cedo que o horário de visitas e o hospital estava vazio, fazendo ela não ter muito trabalho e nós conversarmos.
Regina era absolutamente bonita, a pele negra, os olhos aveludados e com as ondas castanhas de seus cabelos caindo sobre os ombros. Seu sorriso era completamente branco, os lábios carnudos e as maças do rosto salientes. Nesses meses, ela se encontrava ligeiramente acima do peso por causa do bebê que esperava.
– Foi boa, Regina, obrigada. E o bebê?
– Ah, ele está ótimo, tenho ficado com vontade de comer muito McDonalds – ela sorriu simpática.
Concordei com a cabeça mostrando um sorriso tímido, acenei enquanto seguia em direção a sala de Ella, sala 18 (seu número da sorte) no segundo andar – onde ficavam algumas das salas dos pacientes com doenças graves. Como câncer, tumores, alguns que sofreram acidentes bem graves ou que sofreram acidentes que a conseqüência foi grave, como o coma – o caso de Ella.
Abri a porta com a plaqueta prateada indicando-a como a número 18. Sorri ao ver Ella, mesmo que cheia de equipamentos e tubos. O cabelo negro espalhado pelo travesseiro, os lábios entreabertos com o tubo neles para ela respirar, seus olhos fechados e os braços ao lado do corpo.
Ella tinha os olhos verdes e a risada gostosa, faria você rir junto a ela. Os melhores conselhos e o melhor abraço do mundo. A pior lasanha e o pior vestido florido. Ella era minha melhor amiga desde sempre e crescemos juntas. Minha mãe era melhor amiga da mãe de Ella e meu pai era amigo do pai dela. Faziam tudo juntos no que resultou em eu e ela sempre juntas, nós tínhamos que ficar juntas, apoiar uma a outra.
Sentei-me na cadeira que tinha ao seu lado, peguei-lhe a mão esquerda com minhas duas mãos, bem forte. Eu sentia a vida que ela ainda possuía, eu sentia em cada parte do meu corpo que Ella ainda estava ali. Eu nunca a abandonaria. Eu sabia que ainda não era naquele momento... Ela ainda tinha muita coisa pra viver.
– Ella, senti tanta saudade de você, queria que você estivesse aqui comigo... – resumi toda a história do dia anterior para ela, até que chegou na parte que eu não queria contar, mas Ella me obrigava a falar sobre isso, desde que aconteceu pela primeira vez e ela viu – E sobre as facas, Ella, eu estou tentando parar, eu juro pra você que sim, mas depois da visão de Gerard, ficou mais difícil! Eu estou tentando, juro que sim, Ella! Mas às vezes eu só queria que você ficasse aqui comigo, sabe? Pudesse me abraçar – suspirei tentando manter a calma.
A pele dela estava fria, os dedos não se mexiam entre os meus. Sem perceber, uma solitária lágrima desceu pela minha bochecha, deixa-a escorrer até meu pescoço e se perder no algodão da minha blusa. Apenas uma, era o máximo que eu deixava acontecer, as outras nunca vinham, pois não deixava. Chorar não mudaria nada, nunca mudou e nunca mudará.
A vida não é feita de segundas chances, não desperdiçaria a minha chorando.
Beijei a mão de Ella entre as minhas e comecei a fazer carinho no cabelo dela por alguns minutos, lembrando das nossas brincadeiras, do seu sorriso e de como tudo era antes do acidente. Não gostava de pensar nessas memórias, mas as libertaria agora com Ella, o único momento em que eu ficara vulnerável.
– Eu te amo muito.
Deixei a mão dela no mesmo lugar de antes, sai da sala já indo à direção da escada para descer de andar, até que eu notei algo ali. E esse algo também me notou. Algo com cabelos vermelhos desalinhados e olhos traiçoeiros. Gerard veio até mim.
– O que você está fazendo aqui? – perguntou com o cenho enrugado, estranhando a minha presença no hospital.
– Vim visitar uma amiga – balancei o crachá na minha mão de um jeito bobo – E você?
– Meu tratamento.
Gerard era e estava tão bonito e de um jeito tão dele. Suas feições não eram comuns, muitas garotas não o achariam bonito, não era o estereotipo de beleza americana, mas continuava atraente, tinha algo em seu rosto obscuro e sinistro. Ele era absolutamente desejável.
– Tchau, Laila – despediu-se com um sorriso de canto.
– É Lilith – respondi nervosa, depois de tudo, ele ainda erra meu nome.
Abriu o sorriso ainda mais.
– Eu sei disso – disse enquanto andava até a sala no final do corredor.
Ele sabe disso. Claro que sabe disso.
No caminho até minha casa, parei no Starbucks para comprar um frappuccino para mim, escolhi com base em baunilha e de chocolate. Uma lembrança de Gerard para ir embora comigo até em casa – faço isso até hoje, acredite. Cheguei em casa sozinha – mais uma vez – e fui direto ao meu quarto, precisava ficar sozinha com meus pensamentos.
Pra mim, pensar é como uma segunda válvula de escape do mundo, porém eu não podia ficar com o pensamento fixo em apenas uma pessoa senão... Bem, poderia acontecer uma visão. Detesto colocar limites em meus pensamentos para não ver nada, queria poder deixá-los decolar dos cabelos negros de Ella até a maconha que John fumava.
Eu menti quando disse que estava agindo normalmente. Eu menti quando disse que tinha comido ou dormindo normalmente. Tenho deitado na cama, ficado com insônia, não tenho dormido alguns dias, ficado sem comer e parado de falar – o pouco que já falava. Não podia esperar até ir à escola e ver que Gerard continuava lá, eu contava as horas para vê-lo. Não parava de pensar nele, tudo o que eu fazia me levava a pensar em Gerard. E isso dói. Muito.
Foram apenas três. Um na coxa, um na barriga e outro no braço, mas todos num lugar onde minhas roupas cobririam. O da barriga ficou grande, tenho medo que fique a cicatriz, não foi leve, foi profundo e doloroso. Não tive como conter as lágrimas, porém, me senti menos pesada durante algumas horas.
De frente para o espelho, tirei minha camiseta e passei as pontas dos dedos pelo grande corte perto do meu umbigo, depois para as cicatrizes, apenas duas, uma embaixo do meu peito esquerdo – o que facilitava escondê-la, nunca aparecia com o meu peito a cobrindo e pelo pequeno tamanho dela. A outra cicatriz do lado direito da cintura em diagonal, esta era maior, do tamanho do meu dedão. A cicatriz abaixo do peito foi depois da visão de meu pai e a cicatriz da cintura foi depois da visão da minha mãe. Ambas foram profundas, porém em épocas distintas. A cicatriz abaixo do peito foi quando tinha 13 anos e a cicatriz da cintura foi com 15.
Agora, talvez fique a cicatriz do ultimo corte. O corte da visão de Gerard, ao lado do umbigo, na vertical, profundo... doloroso.
Talvez eu não seja tão forte assim e precise me cortar inteira para tirar a dor. Talvez eu não seja forte e esteja presa a um vicio. Prefiro pensar que eu sou forte, mas preciso me fortalecer. Cortar meu corpo me fortalece.
Eu tento parar, tento não mexer mais nas facas, mas parece que se eu não me cortar, a dor não vai ficar mais leve. Diminui bastante, chegava a me cortar quase todo dia aos 14 anos até Ella me achar cortando um dos braços – e eram cortes leves, não como os de atualmente. Ela me fez prometer que eu pararia com os cortes, eu a fiz prometer que pararia com as bebidas. Parece que nós duas fugimos das promessas.
Deitei na minha cama tentando relaxar, eu queria tirar a dor de mim. Eu sabia como tirar essa dor. A dor das visões... Eu podia fazê-la passar por algumas horas, eu não agüentava viver com ela. Olhei para o teto do meu quarto.
Às vezes eu queria ser uma pessoa normal.
Deslizei minha mão até o criado-mudo, abri a gaveta e senti a lamina fina e gelada. Tudo era automático, eu já estava no automático. Peguei a faca, com a mão livre acariciei a pele da minha barriga tentando achar uma a parte macia e eu fechei os olhos, lembrando de Gerard perdendo a vida. O barulho da maquina avisando que seu coração havia parado... O seu olhar.
E como no automático, fechei os olhos deslizando a lâmina fria na minha barriga, as lágrimas vieram, gemi com a dor, sentia o sangue saindo, se esparramando sobre toda minha barriga. Não sabia se eram lágrimas pela dor física ou mental que sentia. Ardia bastante, não foi tão profundo, mas foi grande.
Eu não sou tão forte assim.
Senti uma gota de sangue escorrendo em particular para cair no lençol da cama, coloquei meu dedo indicador sobre ela a levando de volta para o corte. A dor havia diminuído, não como se nunca estivesse lá, mas como se fosse confortada. Assim cai num leve sono, um olho acordado e o outro dormindo, apenas um pequeno descanso.
Deus, se você está ai mesmo... Por favor... Eu lhe imploro, faça isso parar.
Não orava, mas pedia toda hora que essa maldição saísse de mim.
Just a simple touch, just a little glance, makes me feel like flyin’, but where are you tonigh?¹ Meu celular tocava me acordando. Limpei a faca na minha blusa, a coloquei no lugar dela de novo, onde ninguém pudesse achar, levantei com a mão do corte impedindo algumas gotas de sangue, peguei meu celular e vi no visor quem ligava. Papai.
– Pai – atendi.
– Lility? – ele chamou para confirmar e sim, quando ele falava meu nome, colocava o y no final como se meu nome fosse “Lility”. – Oi, estranha. Querida, sua mãe está indo para casa, preciso que você cuide dela, sua irmãzinha está chutando demais, sua mãe já deve estar chegando ai.
– O.K. – respondi.
– Tchau, Lility, eu te amo. – disse meu pai.
– Tchau, pai, até mais tarde.
Desliguei primeiro que ele. Cuidar da mãe de novo? Algo está errado com essa gravidez. Minha “irmãzinha” – como meu pai falava – estava causando muitos enjôos e dores para minha mãe. O médico falava que estava tudo bem, mas eu desconfio disso. Algo está errado. Eu sei disso.
Minha mãe sempre falou que quando estava grávida de mim, não tinha contrações nem dores, nem sequer chorei quando nasci. Parece que todas as dores que eu tirei dela, minha irmã está causando. A propósito, deve ser a idade, mas 37 não é tudo isso, certo?
Sim, minha mãe me teve com 20 anos. Meu pai e ela ainda eram jovens, se casaram cedo demais, ela com 19 e ele com 24, estavam apaixonados e mamãe sempre sonhou em casar cedo. O importante é que minha mãe não casou grávida, ela esperou até o casamento para deitar-se com algum homem – uma coisa que sempre admirei nela.
Eu gosto muito da história deles, gostava de quando mamãe contava a história enquanto cozinhava para papai. Conheceram-se quando minha mãe tinha 11 e meu pai tinha 16, ela diz que ele gostava muito dela pela ingenuidade que tinha, mas não falava nada com medo dos seus amigos gozarem da cara dele. Até que mamãe chegou aos 15 e papai aos 20, só então que ele pediu-a para sair, mas meu avô não deixou mamãe sair com papai, eles tinham 5 anos de diferença, afinal de contas. Namoraram as escondidas, eles apenas davam as mãos. Papai foi paciente e a esperou completar 17, depois pediu para meu avô se podia namorar mamãe – eles já estavam namorando, só que meu avô ainda não sabia. No final, deu tudo certo.
A história é um pouco boba, mas quando mamãe a conta, parece que nada mais importa pra ela. Eu consigo ver seu sorriso e o brilho de seus olhos azuis, eles cintilam, ela não é mais a Sr.ª Whintre, ela é apenas uma mulher feliz falando.
Eu amo o sorriso de minha mãe...
Limpei o corte na minha barriga, coloquei outra blusa e deixei a antiga no cesto de roupa suja.
– Lilith? – ouvi a voz de minha mãe me chamando, a voz dela era madura e meiga, aveludada e desafiadora, mas não tinha nada disso agora, era uma voz doente, uma voz preocupada.
Sai do meu quarto, fui até a escada e vi minha mãe ali no começo da escada, com uma mão na barriga e outra segurando o corrimão.
Mesmo com a imensa barriga que carregava, continuava linda, as ondas platinadas de seu cabelo caiam graciosamente pelos ombros indo até seus braços, os lábios carnudos e perfeitamente delineados cobertos com o batom vermelho. Os olhos azuis vivos tinham certa preocupação, porém ainda tinham o ar superior com as sobrancelhas levantadas. Mamãe era linda, seu rosto era desafiador, era uma mulher.
Entendi o porquê me chamava, desci as escadas e envolvi seu braço nos meus ombros a ajudando a subir as escadas. Fomos até o quarto dela, a coloquei deitada na cama de casal, tirei as sapatilhas que usava e as coloquei ao lado da porta de seu closet, depois peguei os chinelos, os deixei perto da cama e por fim, coloquei a bolsa dela sobre o criado-mudo junto com as chaves do carro e os óculos escuros.
Sua pele, geralmente bronzeada, estava um pouco pálida e ela ainda fazia carinho na barriga. 7 meses.
Fiquei ali parada por alguns minutos fitando mamãe até que ela deu batidinhas no colchão, do lado que meu pai dormia indicando que era pra eu deitar ali. Deite-me em silencio, virada para ela.
– Você sabe por que se chama Lilith, querida? – ela me encarou pegando minha mão direita. Respondi que não com a cabeça. – O folclore hebreu medieval diz que Adão teve uma mulher antes de Eva, o nome dela foi Lilith, mas ela foi expulsa da presença de Deus e de Adão, depois foi dada como mãe de outros seres caídos...
– Demônios. – a interrompi indicando a palavra.
– Não, Lilith, seres rejeitados e caídos, não demônios... – mamãe sorriu meigamente – Mas você sabe por que Lilith foi expulsa?
– Não.
– Por que ela não aceitava ficar embaixo nas relações sexuais, – mamãe riu gozadora – pensava que não podia se submeter aos homens, o homem e a mulher tinham que ficar no mesmo patamar. Por que ela sabia que havia vindo da mesma matéria prima que Adão e se rebelou. Existem muitas histórias sobre Lilith... Algumas fazem o símbolo de Lilith ser a lua, por que como a Lua, Lilith era cheia de fases. E também foi dela que brotou as lendas vampirescas. Estranho, não? Ela se tornou o modelo de demônio hebraico, acreditavam que ela tinha 100 filhos por dia, que tinha um esmagador no peito por sempre ficar por baixo e outras coisas ridículas.
Não entendia o porquê minha mãe estava falando essas coisas pra mim. Tudo bem eu ter um nome de demônio, agora de vampiro e de mulher com um esmagador no peito que sempre fica por baixo?! Não entendia mesmo. Mas deixei que continuasse por que nada se compara ao olhar de minha mãe quando ela contava uma história, eu não queria decepcioná-la, para manter aquele sorriso, eu precisava me afastar.
– Lilith não é um símbolo vulgar, Lilith. Ela é uma mulher que se rebelou e foi expulsa por isso, por não concordar com os outros. Expôs a opinião e não foi perdoada, uma mulher que mesmo caída, não desistiu de nada. Eva nasceu com a submissão, Lilith nasceu com a igualdade. Por isso eu te dei esse nome, uma mulher de opiniões e forças, com a rebeldia exata para correr atrás do que quer, não se deixar vencer por nada. Ser a rainha, a Deusa da Lua. Lilith é o seu nome, por que eu sabia desde o começo que você era diferente.
– O que a senhora quer dizer com isso?
Mamãe sorriu olhando pra mim, com certeza, queria ser como ela. Os lábios vermelhos contornavam os dentes brancos, seus olhos azuis brilhavam, parecia ainda mais nova. Tão bonita. Apertou minha mão direita e antes que eu pudesse me tocar, minha mãe caiu no sono.
Chegava a ser engraçado, fazia tanto tempo que eu não abraçava mamãe... Uns três ou dois anos. Cheguei mais perto dela e a abracei bem forte com cuidado pela barriga, o cheiro dela era algo que me acalmava, o conforto de mãe. Meu Deus, como eu sentia falta disso. Da minha própria mãe, eu sentia falta dela. A abracei um pouco mais forte, esperando que o tempo congelasse para poder fazer isso sem lembrar da dor ou de qualquer coisa que a ligasse com a sua morte.
Eu, na verdade, não queria admitir que realmente doía enfrentar tudo isso sem mamãe. Mas o resultado seria satisfatório para ambos. Papai e mamãe.
Perdi a contagem do tempo, não sabia se já se passavam horas ou minutos, não importa, eu precisava desse conforto e ele era bom, era gostoso, era... Era minha mãe. Fiquei pensando apenas nela e em papai. Levantei o rosto para encará-la. Dizem que eu pareço muito com ela, eu sei que o físico é quase o mesmo, mas eu teria o mesmo rosto? A mesma beleza? A mesma alegria que ela? Ou até mesmo a mesma felicidade?
Eu espero que sim, porém não me iludo. Somos parecidas apenas no físico.
Beijei-lhe a testa, voltei ao meu quarto, já era de noite, meu pai já deveria estar chegando, sentei-me na cama e abri a gaveta do criado mudo. Ali do lado da faca estava a aliança dourada com os nomes deles gravados. “Noah Whintre & Myah Whintre”.
Eu sou só uma garota, não uma heroína e é isso que realmente dói.
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