Nunca gostei de gatos. Depois da dominação, ficou pior ainda. Mas tento viver a vida o mais normal possível. Meu normal consiste em fuçar em lixos e morar em uma casa abandonada na Rua nove.
Tento ser o mais discreta possível. Fico bem longe do castelo dos gatos, castelo que os humanos construíram. Nunca vi uma construção tão rápida quanto esta. De algum modo, eles não conseguem penetrar em minha mente. Vestida com uma blusa preta e uma calça jeans rasgada, corro pela Rua seis. Observo as casas em mal estado, as famílias pobres que servem os gatos. Aqui em Aéria a população é dividida em três partes: a classe baixa, que é onde me escondo. Aqui moram famílias pobres que dão o mínimo que tem para o gato. A classe média é onde os quase ricos ficam. Eles vivem bem e os gatos melhor ainda. E tem a classe alta, que é onde o castelo fica e as famílias mais ricas e os gatos mais mimados. Caminho pelas ruas desertas da classe baixa. Fuço em uma e duas lata de lixo, mas não encontro nada. Esta cada vez mais difícil encontrar algo por aqui. Ando em direção da segunda parte de Aéria. Era mais arriscado, mas há esta hora todos deveriam estar dormindo. Vejo uma lanchonete e vou para lá, vasculhando o lixo. Odiava fazer aquilo. Encontro um hambúrguer em perfeito estado que alguém jogou fora. Como, como se fosse a ultima refeição. Nunca se sabe. Continuo andando e chego ao limita da região dois. Estava prestes vasculhar outra lixeira, mas uma sirene toca. Assusto-me quando vejo as luzes das casas se acendendo. Corro e me escondo em um beco. Se me vissem ali, com certeza saberiam que não sou um deles, que eu deveria estar cuidando do meu gato.
– É um fugitivo. – Escuto alguém dizer, enquanto me escondia atrás de uma lixeira. Fugitivo da onde?
Fico ali até as coisas esfriarem. Eram quatro horas da manhã quando as pessoas voltaram para suas casas. E embora eu estivesse muito curiosa, decidi voltar para a região 3 e ficar por lá. Sempre ficar no mais seguro.
Corro para a divisa. Quando estou quase chegando ouço passos atrás de mim. Me viro e não vejo ninguém. Estranho. Continuo a correr, tinha a sensação de estar sendo seguida. Chego na região três e viro em um beco. Meu seguidor vira também e eu o coloco contra a parede. Puxo a adaga do bolso e coloco em seu pescoço. Era um garoto que parecia ter a minha idade, tinha cabelos pretos e olhos azuis, vestia-se todo de branco.
– Por que esta me seguindo? – Pergunto apertando a lamina em seu pescoço.
– Não me mate...Sou igual a você. Não me mate.
– Igual a mim?
– Eles também não me afetam. – O rapaz suspira. – Por favor.
O encaro e me afasto.
– Por que estava me seguindo? – Pergunto novamente.
– Por que... Eu não tenho onde ficar. Preciso me esconder.
Olho o garoto, pensativa. Ele estava com certo medo de mim, o que era bom.
– Vamos- digo andando. Ele me segue com passos rápidos. Finalmente chego na casa abandonada.
Se tratava de uma casa velha e pequena. Subo o muro e vou para o telhado. O garoto faz o mesmo. Ali havia uma abertura. Entro e acabo caindo no segundo andar. Ali era apenas um porão vazio. Desço as escadas e espero o garoto.
– Bem, é aqui. – Digo. – Não é lá muita coisa... Mas faz meses que estou aqui. É segura.
– É um bom lugar... – O menino murmura, observando a casa. Tinha uma estante bloqueando a porta, e tabuas de madeira nas janelas. No chão havia apenas um colchão velho, e uma geladeira antiga, mas que ainda funcionava.
– Agora podemos conversar melhor. – Falo. Estava curiosa sobre esse garoto. – Qual é o seu nome?
– Peter. E o seu?
– Emma. – O encaro. – Tenho dezessete anos. Você?
– Também...
– E de quem esta fugindo? – Pergunto e ele me olha assustado. – Não sou idiota. É você, não é? O fugitivo que os gatos procuram?
– Sim...
Suspiro. Aquele moleque ia me trazer problemas. Mas também havia o sentimento de querer ajudar.
– Como...Por que fugiu?
– Você não sabe? Eles prendem pessoas como nós, que não podem ser controladas. Às vezes eles levam... E a pessoa nunca mais aparece.
– Então o perigo que corremos é maior do que eu imaginava...
E estava prestes a começar.
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