Geração X

1 Capítulo I - O Início


Notas iniciais
Espero que gostem, boa leitura.



I — O Início

28 de dezembro de 2040, Salem Center, Nova York

Uma chuva fraca caía sobre a cidade destruída, e apenas um vulto encapuzado andava nas ruas desertas. Suas madeixas ruivas caiam-lhe em cachos sobre os ombros cobertos por um sobretudo, enquanto seus olhos azuis fitavam o chão sujo sob seus pés. Seu nome era Charlotte Grey, e ela era uma mutante. Há anos vinha vivendo escondida, lutando por sua sobrevivência assim como os outros da sua raça. Apagada pela fama de sua mãe, o devido reconhecimento por suas ações nunca lhe era dado. Mas isso não importava mais. Os tempos eram outros.

Um ruído metálico familiar fez com que a garota virasse-se lentamente com uma expressão sarcástica no rosto “É hora do show”. Ao mesmo tempo em que a imensidão azul de seus olhos se transformava em um mar de fogo, seu sobretudo fora arrancado de seu corpo pela mesma força telecinética que fazia seus cabelos voarem majestosamente. Seus jeans rasgados revelavam cicatrizes recentes, enquanto sua regata cinza e imunda marcada com números expunha para onde os chamados “mutunas” deveriam estar todos presos. Um rosto frio e inexpressivo fixava seus enormes olhos amarelos na menina, à medida que processava seus dados. Uma voz metálica vinda de dentro do robô sentenciava seu veredicto “Mutante não identificado. Charlotte Grey. Descendente da telepata Jean Grey, membra do extinto grupo mutante denominado Os X-Men. Objetivo: eliminar”. Assim que terminara de pronunciar essas palavras, uma mão gigantesca começou a se levantar na direção da garota. O calor que emanava de suas palmas era quase insuportável, mas ao se jogar para o lado, a telepata conseguira se salvar por poucos centímetros. Caixas, latas de lixo, tábuas, carros, motos e tudo mais ao alcance da mutante voava rumo à cabeça da sentinela em uma velocidade surpreendente. Rajadas psiônicas saídas do corpo da menina se chocavam contra o tronco de metal do robô, o fazendo recuar aos poucos, porém consumindo também a energia da jovem. Antes que pudesse perceber, a sentinela já havia se recuperado e a cercava contra uma parede, pronta para atirar. Ao cobrir os olhos com o braço, ela percebera que não havia tempo para mais nada. Quando, ao longe se pôde ouvir o som de um raio caindo. A garoa havia parado, mas os ventos se tornavam mais intensos a cada momento. O barulho assustador do trovão indicava que mais um raio havia caído, dessa vez eletrocutando o robô, a ponto de obrigá-lo a cair de joelhos. Uma garota de pele morena como a de um espanhol surgiu ao lado de seu pescoço, voando com a ajuda dos ventos, enquanto um sorriso formava-se em seus lábios ao encontrar a telepata. “Charlotte Grey” – disse ela. “Susan Munroe. Não me escreve, não me telefona. Já faz quanto tempo? Dez? Quinze anos?” – perguntou a ruiva. “À propósito, não tem de quê” – respondeu a outra enquanto a ajudava a levantar, estendendo a mão “Vamos acabar com isso”. Ao dizer isso, a sentinela já estava de pé novamente, e disparava suas rajadas contra as duas garotas. Sem hesitar, ambas se puseram em posição de luta, enquanto criavam juntas uma confusão de raios e disparos psíquicos. Por mais que tentassem, tudo que conseguiam era atrasar um pouco o avanço do robô, que a cada ataque descobria uma nova maneira de se defender. E foi quando, com um som de metal se rasgando, a cabeça da sentinela caiu ao chão com um estrondo. Pulando dos ares e parando na frente da carcaça inútil do robô, ao fincar o que pareciam serem garras no solo, um homem não muito mais velho do que as outras meninas esboçou um sorriso ao se levantar devagar. “Desmond, seu estraga prazeres! Nós estávamos indo muito bem até você aparecer” – falou a telepata num tom infantil. “Claro, claro. Depois de você ser transformada num monte de pó ruivo, eu ia te dar os meus parabéns. E é assim que você recebe os velhos amigos?” – respondeu o rapaz encostando-se numa parede, iluminado fracamente por um poste, enquanto ria de cabeça baixa. “Muito engraçado, Des. Nós realmente tínhamos tudo sob controle. Mas, em todo caso, agradecemos a ajuda”, disse Susan em um tom calmo. Antes que ele pudesse responder, um bater de asas se fez ouvir cada vez mais próximo, e logo uma garota de madeixas castanhas e pele alva pousou ao lado do trio. “Bom, parece que vocês estiveram bem ocupados ultimamente” – falou, ao mesmo tempo em que fechava suavemente suas asas enormes, que lembravam as de um anjo. “Que é que é isso? Algum tipo de reunião de ex-alunos? Com a diferença, é claro, que infelizmente não dá pra eu tirar sarro de como uma de vocês ficou parecendo uma baleia nos últimos anos” – disse o garoto, numa mistura de um suspiro desanimado com uma risada um tanto forçada, ao ver a menina se aproximar. “Se isso era pra ser um elogio, devo dizer que as suas cantadas continuam ruins como sempre, Des. E também como é estranho ver que você, assim como a gente, também ganhou algumas rugas” – respondeu a garota, com um sorriso nos lábios. “Você sabe que eu não sou o meu pai, Samantha” – grunhiu o garoto de volta. “Hã, então tá. E como foi a Holanda, Sam?”, perguntou a garota ruiva. “Tediante como sempre, Char. Mas com uma situação muito melhor do que aqui, com certeza. Salem Center tem se tornado um centro de caça aos mutantes” – respondeu a jovem alada, ao sacudir a cabeça com um suspiro. “O que me preocupa mais nisso tudo são as crianças. Elas não têm culpa de terem nascido como nós, mas são as que pagam o pior preço”, comentou a morena, quase num sussurro. Caminhando na direção contrária a dos outros, a telepata recolheu seu sobretudo que jazia esquecido no chão ali próximo. A noite era fria e a neblina dava uma atmosfera tensa ao lugar, mas a filha da deusa africana dos ventos, não sentia a menor vontade de mudar isso. Sem olhar para trás, Charlotte disse em voz alta o que todos provavelmente estavam pensando naquele momento, com exceção de Desmond “Eu queria poder fazer alguma coisa. Alguma coisa como o que os nossos pais fizeram. Eles morreram defendendo um ideal, e ninguém liga pra isso. Talvez retomar a academia seja o mínimo que a gente possa fazer”. “E eu pensando que o que você mais queria era ser o oposto da sua mãe. Mas a mansão foi destruída muito tempo atrás, e eu duvido que você tenha alguns milhões de dólares aí nesse seu sobretudo” – respondeu Susan, ao tentar parecer ao mesmo tempo realista e consoladora. Ninguém tinha dúvidas de que ela sempre fora a mais adulta das três. “Hey, mas se o problema é dinheiro, acho que vocês devem ter algum problema de memória. Vocês não acham mesmo que Warren Worthington III ia torrar todo o dinheiro e bater as botas sem deixar uma poupança pra filha, né? Não sou tão boa assim com matemática, mas acho que eu sei quando se pode construir uma mansão”, disse Samantha, subindo o tom de voz à medida que se explicava. Com sorrisos de orelha à orelha estampados nos rostos das três, elas se abraçaram mediante a ideia de retomar a velha escola do professor Xavier. “Des, você também vai querer ser diretor, certo?” – perguntou a andarilha dos ventos entre risos, esquecendo-se por um momento com quem falava. Ao sair do transe que prendia o olhar do garoto nas ruínas das cidades alheio a conversa, ele só conseguiu pensar em uma coisa para dizer “Ser babá de criança pelo resto da minha vida? Não, muito obrigado”. Levantando da calçada em que estava, o garoto bateu seus jeans despreocupado, como se o tivessem convidado para um chá da tarde. Lentamente, ele começou a andar na direção contrária à das meninas, chutando a cabeça da sentinela ao passar pela carcaça inerte. Parando por um momento, virou o rosto levemente, com um sorriso pela metade “Mas... Vocês podem contar comigo”. “Até pra dar aula?” – perguntou a ruiva, quando ele já recomeçava a andar. “É, eu acho que eu poderia ensinar àqueles pirralhos como chutar alguns traseiros”. E, com isso, ele começou a sumir da visão do trio, as deixando sozinhas novamente. Passado algum tempo em silêncio, as mutantes continuaram encostadas nas paredes, observando um grupo de vaga-lumes que voltaram a voar por aquelas bandas, depois de muito tempo sumidos, quando Samantha enfim perguntou “E, como a gente vai se chamar?”. “Como assim?” – perguntou Susan. “Ora, nossos pais eram os X-Men. E a gente?”, ela respondeu, se inclinando suavemente para frente, enquanto suas asas se debatiam à medida que se empolgava. “Que tal... Geração X?” – sugeriu Charlotte com um estalo de dedos, depois de alguns minutos de reflexão. “Mas já não existia um grupo com esse nome um tempo atrás?”, perguntou a dona de uma voz qualquer. “Nunca vão lembrar disso”.



Notas finais

Mais aventuras em breve, agora com a mansão pronta. Reviews ajudam o autor e o incentivam, então conto com vocês.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.