Notas iniciais
Here we go! '3'

Por Pamela:

Minha resposta fez o rosto de Herval se iluminar. Um lindíssimo sorriso inundou seu rosto, e, acariciando-me a face delicadamente em contemplação, se preparava para me beijar. Por um momento eu me vi fora de órbita. A luz do sol que atravessava a janela do quarto fazia com que o rosto de Herval me parecesse cada instante mais lindo e mais apaixonante. Cada ruguinha de expressão ali deixada pelo tempo só me fazia ter certeza de que nós tínhamos vivido intensamente nossa história... rugas são as marcas das emoções!

— O que foi, Pam? – Uma carícia suave no meu cabelo me fez voltar à terra. Ele sorriu ao perceber que eu prestava atenção no que dizia e continuou: – De repente parecia que você tava distante...

No, no... eu estava mais perto do que você pensa! Fiz um mergulho pra dentro de você... – Herval franziu o cenho sem entender e eu comecei a brincar com seus cabelos. – É impressionante como você faz eu te amar mais a cada minuto... como você é incrível, Herval... – Falei deixando o dedo percorrer seu rosto e ele sorriu docemente. – I can’t live without you...

Me neither!— E ele estava prestes a me beijar quando fizeram-se ouvir batidas na porta. Herval suspirou e levantou indo ao banheiro. Já eu, coloquei sua camisa, a que eu mesma tirei na noite anterior, e fui abrir a porta.

Good morning, mommy! — Meu cérebro mal processou quem estava diante de mim, e eu já senti Joaquim me abraçar.

Good morning, baby... — Logo atrás dele estava Kate com Branca nos braços. – Hey...! how are you?

— Ela dormiu a noite inteira! E por isso mesmo está faminta agora. Desculpa se te acordamos...

Oh no! Eu já estava acordada, don’t worry. E também essa é a vida de mãe! Acordar cedo para cuidar dos seus filhotes... – Dei um beijo no rostinho de Branca e os deixei entrar.

— Eu vim só me despedir, tô indo pro colégio com a Dorothy. – Joaquim falou.

Okay... boa aula, my love.

— Cadê o papai?

— Ele está tomando banho agora... mas eu digo a ele que você veio aqui se despedir. – Ele assentiu, me abraçou mais uma vez e foi embora. – Kate, v-você pode esperar um pouco só pra eu... jogar uma água na cara pra despertar?

Sure! — Deixei-a lá e fui para o banheiro. Herval tinha entrado no banho e ao me ver dentro o banheiro, me chamou para acompanha-lo.

— Agora não, baby, Kate está aí com Branca e eu tenho que amamenta-la.

— Mas tem também que despertar! Vem cá. – Saiu do box apenas para me puxar para lá também. – O dia vai ser longo e um bom banho ao lado do seu amor de manhãzinha é a melhor maneira de se começar um dia. – Razão ele tinha de sobra, então eu acabei cedendo.

...

As diversões em família eram constantes. E os estresses também! Vez ou outra o Joaquim tinha uma crise de asma, fraca, mas não deixava de preocupar, e tínhamos que ficar o tempo todo de olho em Branca. Era o tempo todo trocando fraudas, alimentando-a, distraindo-a, tentando fazê-la parar de chorar... todo mundo sabe que é estressante ter bebê em casa. Magnífico, mas estressante.

Então foi assim nossa rotina pelos próximos dois meses. Nossas vidas estavam maravilhosas, Herval passava a maior parte do tempo em casa, totalmente atencioso tanto comigo quanto com Branca e Joaquim, este por sua vez, estava animado com a irmã. Estávamos inclusive impressionados pela maneira esplêndida com que ele lidou com o fato de nós, seus pais adotivos, termos uma filha biológica agora. Ele não sentia ciúmes e nem parecia se sentir deslocado. Nós éramos uma família feliz! Apesar de todos os obstáculos do dia a dia, éramos sim uma família feliz...

Exceto apenas pelo fato de eu basicamente ter dado uma pausa na minha vida para viver para Branca. Não que eu esteja reclamando, claro que quando se é mãe, você tem que abdicar de muita coisa para cuidar do seu filho, só que isso... não era muito fácil para alguém como eu e na minha idade. Tive que abdicar de qualquer boa roupa porque eram inapropriadas para as brincadeiras com as crianças ou porque poderiam sujar, manchar... também nada de make-up! Foco apenas em Branca que vez ou outra tinha uma febrinha, cólicas, como todo bebê... dentre outras coisas, e em Joaquim também! Além do fato dele ter asma, nós não podíamos vacilar. Todo mundo sabe que quando se tem um bebê na família, toda a atenção passa a ser voltada para ele e isso pode ser muito ruim para as outras crianças. So... dá para imaginar a minha mente e o meu corpo nesses primeiros meses. Completamente destruída! Cansaço e sorriso eternos... dá para entender?

Eu não tinha parado para pensar em como eu havia me excluído da minha própria vida. Se você pensa que aquela noite maravilhosa com Herval foi só a primeira de vários dias sucessivos, está enganado (a). Sempre que tínhamos chance, aproveitávamos, claro, mas não se tem muita “inspiração” para tal, quando se tem que acordar durante a madrugada para atender ao chamado de um bebê aos prantos, e nem quando se olha no espelho e não se consegue reconhecer a si mesmo.

Depressão pós-parto talvez? Definily no! I was happy! Minha filha era uma benção, um milagre que aconteceu na hora certa. Ela também fora uma peça importante para que eu e Herval reatássemos, para que percebêssemos que era idiotice estarmos separados nos amando tanto, eu só... não me sentia tão confortável em mim mesma... digamos que... a autoestima meio que tinha abaixado um pouco. Nada de depressão!

Convenhamos! Toda mulher depois dos 40 começa a duvidar de si mesma se não está se cuidando. Às vezes eu... me sentia insegura em relação a Herval. Principalmente por... eu tê-lo deixado “na vontade” por algumas vezes com a desculpa de estar cansada. O que não era mentira, mas também não era 100% verdade... se eu não me sentia à vontade comigo mesma, imagine só nua na frente de um homem como Herval. Mesmo que ele tivesse sido meu marido por longos anos e não tivéssemos essas frescuras...

Okay, isso pode ser um pouco confuso e até um pensamento idiota, mas pense comigo: como você – sendo uma pessoa famosa, referência de beleza e sucesso profissional, e tendo sempre se vestido impecavelmente, andado sempre disposta e com a imaginação sempre fervente para as melhores surpresas para seu hubby or boyfriend — se sentiria ao se ver afastada do trabalho que tanto lhe deu prestígio, dos seus melhores looks and make-ups que sempre te deixaram linda, da sua antiga disposição, bom-humor and great sex with your love por conta de baixa autoestima? Well, se tiver a resposta para essa pergunta, saberá exatamente como eu me sentia.

So... certa noite, eu estava no quarto de Branca colocando-a para dormir, quando Kate apareceu na porta com uma cara não muito boa. Ela queria com certeza falar algo importante e eu apenas fiz um sinal com a mão para que esperasse e ela saiu. Coloquei Branca no berço e acariciei seus poucos cabelos negros como os de Herval, lhe dando um “boa noite” e também saí. Depois que a deixei sozinha, fui encontrar Kate na sala, aflita, andando de um lado para o outro.

What’s wrong with you, Kate? — Ela me olhou e respirou fundo antes de responder.

— É minha filha.

— Você tem filha? – Ela nunca me disse.

— Tenho. De 24 anos. A-a-a história é longa, mas... é sobre ela que eu quero falar.

— E o que ela tem para te deixar preocupada assim?

— Anne morava com o pai dela em Manhattan, mas... parece que eles tiveram uma discussão feia e ela fugiu de casa.

Oh no...

Yeah, e-e-e ela não tem pra onde ir agora. Não fez amigos por lá e... acabou de me ligar pedindo ajuda. Ela quer voltar a morar comigo, mas...

— Você está aqui... – Ela concordou.

— A Branca ainda nem fez 4 meses e você precisa de mim aqui. Além de que eu também preciso desse emprego! Não posso simplesmente voltar para os EUA para ajudar a Anne porque é impossível... então... eu sei que é pedir demais, but, v-v-você poderia recebe-la aqui? Só por um tempo, só até eu arranjar um lugar pra nós duas ou ela se acertar com o pai... please!