Por Pamela:

Ativando aquele antigo método de defesa contra brigas, passei a evitar Herval. Assim, evitaria também mais frustrações de sentimentos, porque eu já estava cheia de tanto ciúme e de tanta discussão. Quanto menos nos encontrássemos e nos falássemos, menos riscos corríamos de briga. Assim, querendo liberdade, passei a me enfurnar na Marra e na Parker. Paradoxal esse pensamento, mas eu achei que estava funcionando...

– Oh Megan! Que saudades, my little girl! Quando você vai vir me visitar, han? – Perguntei a Megan no telefone, enquanto estava na Marra.

– Em breve, mom! Afinal São Paulo e Rio são coladinhos!

– Mas parecem que estão cada um em um continente diferente! – Ela ri.

– Sempre dramática, Pamela Parker-Domingues... por falar em Domingues, como vai o Herval?

– Espero que bem!

– Ué, como assim?

– Já não estamos tendo uma convivência muito normal há algum tempo, dear... a história é longa, mas eu não quero falar sobre isso, quero saber de você! O que está achando da vida de casada?

– Maravilhosa! Se eu soubesse que casar era tão bom, já tinha me casado umas 20 vezes! – E ela me arranca um sorriso, mesmo eu não estando tão bem...

– Sinto lhe informar, mas não vai ser sempre essa maravilha... ou espero que seja! Que Davi seja o hubby perfeito.

– Ele é, mom! The one! Ele só reclama porque eu mal o deixo seguir com as obras da ONG que ele vai abrir aqui.

– Você o mal deixa? Why?

– Advinha, Mra. Domingues! – E sorri sacana. Por que insistir no “Domingues”? Me lembrar Herval naquele momento não era uma boa opção!

Oh my God, Megan! A lua de mel de vocês já acabou, okay? Controle-se sua bad girl!

– Não acabou para mim, sweet mom! Até porque a melhor parte do casamento, é a lua de mel, não é?

– Oh, sem dúv...

– Pamela, já é 13h, eu tô indo á na cantina comer alguma coisa, você não quer me acompanhar? – Ernesto pergunta da porta, me interrompendo.

– Quem é, mom? – Megan pergunta do outro lado da linha.

Wait a minute, Ernesto... – Ele confirma e se retira. – Megan, eu preciso desligar agora... mas você liga mais tarde?

Yeah! Sem dúvida, mom! Vá lá com seu fã número um!

Stopped! – Desliguei o telefone e fui ter com Ernesto.

Quanto mais tempo eu ficava na Marra, mais tempo tinha com ele e isso fez com que eu conhecesse outras facetas de Ernesto. Ele não era simplesmente um garoto, eterno fã da princesa Shelda, com um senso de humor inigualável! Ernesto sabia se portar como um homem responsável quando preciso e realmente se tornou uma grande companhia enquanto meu casamento ruía.

O processo de evitar Herval parecia o estar incomodando muito, o que era bom em partes, já que eu queria também castiga-lo por cogitar certos tipos de coisa! Só era uma tortura ficar sem beijá-lo, sem tocá-lo... fazia falta dormir sobre seu peito e doía o meu, ter que criar uma parede imaginária entre nós dois.

Até que certo dia eu estava tomando café da manhã ao lado de Dorothy e Joaquim, conversando com Ernesto sobre uma ideia que ele teve, pelo telefone. Herval havia dormido mais que de costume, chegou desejando bom dia a todos e veio me beijar. Impulsivamente eu levantei da mesa caminhando para o quarto. O ato foi profundamente ofensivo, eu sei, mas não havia outra saída, não sou hipócrita e não iria lhe beijar estando irritada.

Segui conversando com Ernesto até chegar no quarto e sentir aquela mão inconfundível segurando meu braço.

– Pamela, eu preciso falar com você. – Diz gravemente.

– O-oh, Ernesto... daqui a pouco a gente se fala, okay? – Falei, desligando o celular e desvencilhando meu braço da mão de Herval. Ele tinha poderes sobre mim e eu não podia me deixar fraquejar.

– Eu sinto muito, mas agora não dá pra conversar, Herval. – Fui em direção a minha bolsa e peguei-a.

– Por que você tá fugindo de mim?

– Eu não estou fugindo. Estou indo trabalhar, porque sem mim a Marra não anda!

– Você tem ido todo santo dia pra lá, Pamela.

– É preciso. Excuse me... – Pedi passagem e ele não me deixou sair do quarto. – Herval, please, me deixe ir trabalhar.

– Não sem antes falar comigo.

– A gente não tem nada pra falar...

– Por que você tá tão fria comigo? – Fiquei calada. – Como você acha que eu estou me sentindo esse tempo todo?

– Como você acha que eu estou? Não se vitime, Herval Domingues... você sabe muito bem o motivo de eu estar agindo assim. – Consegui passar por ele na porta e segui para sair de casa.

– Mas eu tô quieto há mais de um mês! – Me segue. – Você sequer tem me visto de cara feia por ciúmes de ninguém!

– Porque eu estou fazendo você ficar quieto por mais de um mês! – Enfatizo. Percebi Joaquim sem entender e tentei disfarçar. – Eu não quero brigar. E o Quim também não precisa ver isso... – Sussurro e vou me despedir de Joaquim e de Dorothy e saio. Herval continua me seguindo.

– Conversa direito comigo, olha nos meus olhos.

– Eu estou atrasada, Herval...

– Você não está vendo que você tá afastando a gente? – Entro no carro e lhe olho pela janela.

No. Você que nos afastou. E isso não é de agora. Faz tempo, Herval... acho que tá tá ficando tarde pra...

– E como eu faço pra consertar isso? – Ele pergunta, me interrompendo. Eu só subo o vidro do carro e saio deixando-o para trás. Não podia deixa-lo me ver chorar por não saber como consertar.

Não aguentando mais essa situação, comecei a chorar no carro mesmo. Aquele afastamento me fazia mal, só que brigar com Herval me fazia ainda mais mal, dá para entender? Eu simplesmente não podia parar para conversar porque uma conversa civilizada era a última coisa que nós teríamos! Estávamos no meio de uma crise e uma crise se assemelha a um campo minado.

Qualquer piso no lugar errado e...

CABUM!

Percebendo a visão meio turva, resolvi encostar o carro num canto até que eu me acalmasse. Deixei a cabeça cair sobre o volante e as lágrimas me tomavam o rosto sem receio. Escorriam livres como que guardadas por muito tempo. Realmente... eu as guardei muito e precisava extravasar agora.

Depois de respirar fundo e enxugar o rosto, fui para a Marra. Na minha sala, Ernesto já me esperava com algumas coisas em mãos, mas foi apenas eu o ver na minha frente, para desabar de novo, deixando-o confuso.

– O que foi, Pamela...? – Perguntou, vindo me abraçar.

– Eu... eu não sei mais o que fazer, Ernesto... eu não aguento mais essa situação... – Ele me levou até uma cadeira.

– Você tá falando do Herval, né? – Confirmei entre soluços. – Caramba... eu tô me sentindo cada vez mais culpado com essa história...

– Não, Ernesto. Você não tem culpa de nada. O problema não é exatamente você... é o ciúme dele que sufoca! Isso que tem afastado a gente...

– Por que você não o chama pra conversar? Mesmo que role briga, Pamela, não se pode fugir e um obstáculo se tem que enfrenta-lo!

– Não sei se tenho forças pra isso...

– É claro que tem! Se vocês se amam, não podem conviver dessa maneira, em algum momento vocês vão ter que se falar. Você vai precisar buscar entender o lado dele e vice-versa. – Enxuguei as lágrimas e quis mudar de assunto.

– Vamos focar no trabalho, é melhor.

– Não. Me desculpa, mas eu não vou deixar você trabalhar desse jeito... a gente tem tempo pra ver isso. Vai pra casa...

– Trabalhar me faz bem.

– Não nesse caso. O que vai te dar paz é conversar com ele. Volta pra casa... fala direito com o Herval... vocês vão se entender! – Suspirei sabendo que ele não sossegaria até que eu voltasse pra casa e eu sinceramente não estava com vontade de contestar.

Thank you, Ernesto... – Disse, lhe abraçando e saindo da sala para voltar para casa. Só que ao chegar lá, Herval não estava em casa. Dorothy avisou que ele havia ido para a Plugar e eu resolvi esperar ele voltar para ter uma conversa com ele.

E quanto mais as horas se passavam, mais aflita eu ficava com a possibilidade de termos uma das mais feias brigas que já tivemos nesses sete anos de casamento.