Geração Pamerval - A história do início ao fim
79 Capítulo 79
Notas iniciais
Por Herval:
A Pam havia dormido. Eu achei que seria bom, porque afinal ela sentira dor de cabeça e provavelmente ainda precisava descansar. Então, vendo que ela dormiria muito, sentei numa poltrona que lá havia e fiquei olhando-a atentamente, agradecendo aos céus por sua vida e prometendo também aos céus, que cuidaria dela como de uma pedra preciosa.
Como já estava de noite, e eu pouco havia dormido na noite anterior, cedi ao sono que ousava invadir meus olhos. Mas fiquei numa espécie de sono produtivo, porque embora estivesse descansando, minha mente trabalhava incessantemente em maneiras de tratar da Pam, em pensar em como ela havia sofrido aquele acidente, e fui cumprindo um percurso de pensamentos até chegar naquele momento em que ela estava dormindo e não podia estar fazendo isso!
Nem percebi quanto tempo se passou até eu perceber isso, mas me levantei mediatamente e fui tentar acorda-la.
–Pam... Pamela, acorda, meu amor... – Sussurrei, tocando em seu ombro, mas ela não despertou. – Pamela! Pamela, abre os olhos! – Falei num tom um pouco mais alto e já sentindo o ar me faltar. Ela não respondeu, era o que eu temia. – Pamela!!!! – E dessa vez me vi gritando seu nome e continuando sem resposta. Meus olhos encheram d’água e dando passos para trás, agarrei meus cabelos, desesperado, e me culpando internamente.
Ela não podia ter dormido! Eu não podia ter feito ela pegar no sono! Aquela dor de cabeça era o indício de algum problema! Eu deveria ter notado... Ela bateu com a cabeça! Era óbvio, era claro e evidente que aquela dor significava alguma coisa e que eu não podia tê-la deixado dormir... Eu, que acabara de prometer aos céus que cuidaria dela, fora quem a fez ficar assim. Desejei imediatamente que me castigassem todas as forças o universo! Que o céu desabasse sobre a minha cabeça e me fizesse pagar pelo mal que eu a fiz.
Olhei para a porta e ela se abria, o médico havia ouvido eu gritando.
–O que está acontecendo aqui?! – Ele entrava acompanhado de mais dois enfermeiros.
–E-Ela dormiu, doutor... Ela sentiu uma dor de cabeça e eu a fiz dormir... A culpa é minha! Agora ela não tá acordando...!! – Falei gesticulando incessantemente.
–Levem-na para a sala de radiografia! Agora! – Dirigiu-se a mim: — Sr. Herval, acalme-se! O senhor não teve culpa de nada, não tinha como prever! Mas estou com umas suspeitas aqui, nós vamos fazer uns exames nela, e eu lhe informo de seu estado. Agora vá para a sala de espera, ligue para alguém ou peça um calmante na recepção, sua mulher precisa do senhor forte para lhe apoiar! – Disse, e se retirou.
Eu o obedeci, mas sem a menor noção de nada. Cheguei a sala de espera, me sentei num sofá e o mundo a minha volta parecia não existir. Eu me sentia como se estivesse numa constante queda, num buraco escuro e sem fim... Sentia-me algemado e carregava nas costas a culpa por estar assim. Peguei o celular do bolso, olhava para ele e não via nada. Só queria a minha Pamela acordada, bem, seria pedir demais? Não sei como o fiz, mas quando dei por mim, já estava com o celular no ouvido, esperando que atendessem a um desesperado.
–Hello... – Ouvi uma voz sonolenta.
–Megan?
–Yeah... Herval? – Despertou de imediato. – Algum problema com mom?!
–Eu sei que tá tarde, Megan, mas... Por favor, vem pra cá... Agora...
–Mas o que aconteceu?!
–Só vem pra cá... Eu preciso de você...!
–Okay, okay, já estou indo... – E então tirei o celular do ouvido, jogando a cabeça sobre o encosto do sofá, completamente derrotado, incapaz de fazer qualquer coisa.
Eu fiquei brincando com o celular e olhando a todo minuto a hora. E em exatamente 35 min, o médico vinha em minha direção. E graças a Deus, foi exatamente no momento em que a Megan chegou.
–E então, o que ela tem, doutor? – Perguntei, apertando a mão da Megan.
–Como eu temia: um coágulo no cérebro. – E instantaneamente aquilo me queimou por dentro.
–What?! – Megan me olhou, talvez querendo que eu lhe dissesse que aquilo era uma mentira, uma brincadeira de mal gosto.
–Devido a pancada na cabeça, ela havia ficado desacordada, ali deve ter se formado o coágulo, que é quando um vaso sanguíneo é danificado, isso resulta em poucos glóbulos que são de natureza pegajosa, e pra recolher juntos, formam o que chamamos de coágulo. Esse tipo de resposta é muito normal, como o coágulo que se forma, assegura que o sangue fica selado no vaso danificado e não é capaz de vazar para fora. Isso ajuda a parar o sangramento imediatamente.
–Boiei... – Disse Megan.
–Basicamente, o sangue fica acumulado no vaso danificado e precisa ser tirado dali. Ela acordou por sorte, e não poderia ter dormido novamente, senão algo poderia acontecer, e se esse vaso se rompesse, ela poderia até ter tido um AVC! – Ele explicou melhor.
–Preferia ter ficado boiando mesmo... Oh my God! E agora?!
–E agora nós vamos retirar esse coágulo, é um processo delicado, a remoção de um coágulo, aumenta muito as chances do paciente ter um AVC e... – O interrompi.
–Então não tem escapatória? Dormindo ela poderia ter tido um AVC, se não remover, ela não acorda e se remover ainda corre o risco de ter o maldito AVC?! – Me indignei.
–Infelizmente, sim... – E eu que achava que não tinha como me enfiar mais fundo no buraco em que eu estava, lá estava eu, descendo ainda mais rápido. – Mas nós vamos fazer o possível! O procedimento é delicado sim, mas não impossível de se realizar! Peça a Deus, para ele guiar as nossas mãos... Eu lhe mantenho informado. Com licença... – Saiu dali nos deixando sem chão.
Olhei para a Megan e ela chorava, silenciosamente, mas chorava. Cada segundo que se passava, meu coração apertava mais. Imaginar que a Pam corria risco de vida mais uma vez era como experimentar a sensação de ser amarrado, chicoteado brutalmente e ainda sentir jogarem álcool em cima das feridas! Eu não podia imaginar a reação do Quim... Ele era tão pequeno, era tão apegado à Pamela... Seria uma queda muito grande e ele era só uma criança de 4 anos! Dorothy com certeza enlouqueceria e Brian, que vivia com certeza um dos momentos mais mágicos de sua vida, passaria por aquela situação conosco... Eu percebi que a intensidade com que a Megan chorava, era redobrada e então a envolvi nos braços lhe abraçando bem forte, tentando lhe e me confortar.
Sentamo-nos no sofá, um ao lado do outro, nós nos mantínhamos de mãos dadas e de corações na garganta. Era madrugada! Os olhos ardiam de tanto sono e a cabeça latejava de tanta preocupação, cada médico que eu via passar, pensava que era o que estava cuidando da Pam e a cada minuto que eu via passar no relógio, minha preocupação aumentava. Uma hora depois, nos apareceu o médico.
–A situação é mais delicada do que o previsto...
–Porque o senhor está dizendo isso? – Perguntei.
–Ela, nesses últimos tempos tem se alimentado adequadamente, tem vivido saudavelmente? – Eu pensei por um instante e agora que eu percebia, a Pam não estava comendo direito, apenas beliscava as refeições, andava meio calada...
–Não doutor... – Respondi receoso.
–Era o que eu temia... Devido a isso, seu sangue está muito fraco! Isso aumenta ainda mais o risco! A hemorragia pode ocorrer mais facilmente e em maior intensidade. Antes seu maior risco era ter um AVC e perder os movimentos de um lado do corpo, agora, ela corre sim risco de vida.
Meu mundo caiu. Era como se me arrancassem o coração do peito. Aquele cara não podia estar dizendo a verdade! Ele não podia! Megan me agarrou, num abraço, e chorando deveras, mas eu não movi um músculo para retribuir o abraço. Todo em mim pesava, a cabeça girava e a visão estava embaçada pelas lágrimas.
–Nós continuaremos tentando fazer o possível! – E foi embora. Megan tentou pronunciar alguma coisa, me soltando, mas eu não lhe dei ouvidos, comecei a caminhar, buscando a saída do hospital, ouvindo-a ao longe me chamar, mas sem ligar. Ao sair, havia algumas pouquíssimas pessoas do lado de fora, pessoas que chegavam para ser atendidas e eu as olhava, e elas pareciam girar, tudo girava! Olhei para o céu, que já clareava e questionava a Deus porquê. Por que aquilo estava acontecendo?! Por que logo com a Pam?!
Atirei-me no chão de joelhos, atolado num turbilhão de pensamentos, medos, sensações, sentimentos e revoltas. Pouco me importava se estavam vendo, eu só queria pôr pra fora aquela dor que me consumia até a alma. Pamela só seria salva por um milagre, eu não pude protege-la, e agora sua vida corria um grande risco.
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