Geração Pamerval - A história do início ao fim
143 Capítulo 143
Notas iniciais
Por Pamela:
— Herval, pelo amor de Deus, será que dá para você parar com isso...? – Disse, fechando a porta atrás de mim, sutilmente, depois de avistá-lo colocando uma de suas malas, a menor por sinal, em cima da cama.
— Eu já estou parando! É justamente o que estou fazendo, dando uma pausa, um stop, – Mantinha-se de costas para mim e só então virou: – um... tempo. Eu tô dando um tempo de tudo isso, de todas essas brigas, essas provocações, essas mentiras, essa droga toda que tem nos rodeado...
— Que mentiras? Eu não menti para você. Nunca!
— Está mentindo agora. – Disse, caminhando para o closet.
— Herval... eu não tenho nada com Ernesto, já falei! – Cogitei segui-lo, mas ele logo voltou, carregado de roupas. – O que você viu não foi...
— Eu sei muito bem o que eu vi, Pamela! Minha visão é perfeita e o meu português também! O que eu vi chama-se: traição!
— Ernesto forçou uma barra! Eu não esperava que ele aparecesse lá, quando bateu na porta, achei que fosse você!
— Olhou para ele, viu a mim e o beijou? Ah, qual é, Pamela...?! PARA! Pelo amor de Deus, não já chega não?! Volta lá para o seu amante, ele deve estar te esperando! – Disse jogando as roupas na mala abruptamente.
— Isso é ridículo! Você está arrumando a mala para ir embora por causa de um beijo idiota?!
— Tra-i-ção! Não é pelo beijo simplesmente, é o ato de trair! Burlar regras básicas de respeito ao parceiro! TRAIÇÃO!— Enfatizou.
— Eu não queria! Se você prestasse mais atenção, veria que eu estava tentando fazê-lo parar! Me largar!
— Ah claro... eu vi o quanto você queria que ele te largasse...
— Isso é desnecessário, Herval... – Tentei ignorar, mas já começava a me machucar muito.
— Desnecessário é você estar aqui tentando fazer eu entrar na sua onda de novo! – Voltou para o closet, retornando em seguida com mais roupas.
— O QUE EU ESTOU TENTANDO, É FAZER VOCÊ PARAR DE SER IDIOTA E ME ESCUTAR! – Ele jogou mais roupas na mala e bufou irritado.
— Um idiota, claro! Só um idiota mesmo para cair nesse seu papinho de: “Ah, o Ernesto é só meu amigo...” “Esse seu ciúme não tem o menor cabimento...” — Suspirei impaciente. – Me diz para que que eu vou te escutar? Para você me enganar de novo? Para continuar com aquele lá, pelas minhas costas?! Para rir da minha cara mais uma vez?! Tô fora!
— Herval, olha nos meus olhos. Você realmente acha que eu estou todo esse tempo te traindo com o Ernesto?!
— Eu não tenho que achar ou deixar de achar nada. O QUE EU SEI É QUE EU VI VOCÊ SE AGARRANDO COM ELE NA PARKER!
— MAS EU NÃO ESTAVA... – Algo me deixou fraca e eu não continuei a frase. Apenas abaixei o tom e segurei seu rosto, já chorando. – Herval, você precisa acreditar em mim...
— Eu já acreditei em você. – Ele segurou meus pulsos firmemente. – Mas eu não sou idiota, Pamela. Eu não nasci para fazer papel de otário! – E me repeliu com um empurrão leve.
— Você precisa me dá ouvidos...! Deixa de ser cabeça dura! – Ele me dava as costas para provavelmente ir buscar mais roupas e eu caminhei em sua direção, sendo surpreendida por sua meia volta, tom de voz alterado e lágrimas nos olhos. Ele estava sofrendo tanto quanto eu, então por que não deixava de ser cabeça dura e me escutava?!
— POR QUE VOCÊ FEZ ISSO? SE NÃO ME QUERIA MAIS, DIZIA! PEDIA O DIVÓRCIO! Não precisava fazer isso comigo...
— Herval, me escuta! – Falei, começado a me impacientar. – Ernesto me pegou desprevenida, eu não tenho nada com ele, está me escutando? NADA!
— Se não tem, está prestes a ter. – Eu não me aguentei. Enfiei a mão na sua cara, me arrependendo logo depois, claro, mas fiquei calada; e ele custou a me olhar novamente. – Eu fico aqui imaginando... se todas as vezes em que você aparentemente estava fugindo dele, na verdade não era showzinho para eu acreditar que ele estava tentando te agarrar... – Isso foi a gota.
— EU NÃO SOU ESSA VAGABUNDA QUE VOCÊ ESTÁ PENSANDO! EU JAMAIS FARIA ISSO COM VOCÊ! – Comecei a lhe socar e estapear o máximo que minhas forças me permitiam. Ele tentava se defender, me segurar, impedir que lhe machucasse, mas nada que eu fizesse se compararia ao que ele estava fazendo. – EU SEMPRE TE AMEI E TE RESPEITEI! SÓ QUE VOCÊ É IMBECIL DEMAIS PRA PERCEBER ISSO!
— Para! Para e escândalo! Para! Para! – Conseguiu me segurar, prendendo-me em seus braços. Eu me debatia, tentando me soltar, ele não podia duvidar do meu amor, da minha dedicação, do meu respeito por ele!
Só que Herval não me soltava. Nossas respirações estavam descompassadas, minha garganta doía horrores e eu via a nossa dor refletida nos seus olhos. Dor que antes foi amor... eu me vi atraída por sua boca; era certo que todas as palavras duras que ele estava me dizendo, doíam-me mais até que um tapa, mas eu o amava... por um beijo seu, eu esquecia tudo aquilo! Para voltar a tê-lo em meus braços eu seria capaz de qualquer coisa! Segurei sua camisa firmemente e com muita dificuldade minha respiração normalizava. Seus olhos me estudavam e eu realmente esperei dar um fim àquele show ali! Ele também parecia lutar contra si mesmo, mas por fim eu venci a minha fraqueza de mulher apaixonada.
— Me solta! Seu... desgraçado! — O empurrei, fazendo-o cair sentado na cama. – Será que você já esqueceu de tudo o que a gente viveu?! De quando você foi baleado?! De quando eu fiquei em coma?! Do dia em que nos casamos! Da chegada do Joaquim a esta casa... nada dessa droga toda faz a sua ficha cair?! Nada te faz perceber que eu te amo demais para te trair?!
— Esse fantasma me persegue há anos, Pamela! Há anos!!— Se levanta, segurando firme em meus braços. – Como você acha que eu sempre me senti?! Primeiro eu tinha que te admirar em segredo, não podia tocar, chegar perto, porque era a mulher do cara que eu queria botar na cadeia; depois vocês se separaram, mas ele ficou o tempo todo em cima! Eu tive que conviver com o medo de te perder a cada milissegundo! No início porque eu achava que você poderia voltar para o Jonas, foram 20 anos de casamento e eu era só... um affair de viagem... depois, ele colocando sua vida em risco a todo tempo; isso me consumiu muito, sabia?! Me enlouqueceu! Não dá para viver com um medo desse a todo instante!
— Então por que não deixou que me matasse? – Perguntei fria e ele me soltou e bagunçou o cabelo com impaciência.
— PORQUE EU SEMPRE TE AMEI!! POR MAIS QUE ISSO TUDO ME PERTURBASSE, OS TEUS BRAÇOS SEMPRE FORAM O MEU CALMANTE! TUDO VALIA A PENA SE EU PODIA TE VER SORRIR DEPOIS...! – Ele respirou fundo, cansado e continuou. –Depois veio o Ernesto! Ele sempre esteve com você, te fazendo rir mais do que eu conseguia, sendo prestativo, apaixonado... e apesar de toda essa porcaria, eu sempre acreditei que no final nós ficaríamos juntos!
— E ficamos, não ficamos?! Olha eu aqui! Com você!
— Até quando...? – Suspira, cansado. – Até quando você vai estar aqui, Pamela? O Ernesto é mais novo, é mais animado, engraçado, faz tudo o que você pedir, pode te dar o mundo e eu...
— E você é o meu hubby! O homem que o meu coração escolheu para ser dono! – As lágrimas eram incessantes. – Para quê eu quero o mundo, se o meu mundo é você?!
— Eu sou a Terra, Pamela, cheguei num ponto irreversível de destruição. Ele é Marte, está sendo descoberto agora e... eu até entendo o motivo que te faça o querer...
— JÁ CHEGA!— Berrei de saco cheio, próxima à mesinha de cabeceira para o caso de me sentir mal de novo. – Não me vem com esse papo nerd de Terra, Marte...! Nós somos pessoas! E eu não quero ninguém, Herval! Ninguém! — Suspirei. – O que foi que aconteceu com você... o que foi que aconteceu com aquele dono de uma ONG superbacana, que quando nos conhecemos estava disposto a enfrentar o grande Jonas Marra para ficar comigo?! Cadê aquele cara que não se importou que Jonas pudesse me oferecer o mundo, o cara que disse que a vista da favela era tudo o que tinha para me oferecer e ainda assim contava em me conquistar?!
— Não foi com ele que você se casou, Pamela...
— FOI SIM! – E de repente, tudo que havia em cima da mesinha: porta-retratos, livro, chaves, celular e abajur, vai ao chão com a minha súbita ira e ele se assustou. – FOI COM ELE QUE EU ME CASEI! FOI COM AQUELE HOMEM CONFIANTE! OUSADO! ROMANTICO! FOI A ELE QUE EU DEDIQUEI A MINHA VIDA! FOI COM ELE QUE EU CONSTRUÍ UMA FAMÍLIA! FOI A ELE QUE EU SEMPRE TIVE PRAZER EM ME ENTREGAR! FOI POR ELE... – Sinto a vista escurecer. – ...que eu... larguei tudo na Parker, inclusive A DROGA DO MEU ORGULHO, PRA VIR AQUI TENTAR SALVAR O MEU CASAMENTO! UM CASAMENTO DE 7 ANOS COM AQUELE CARA! AQUELE! Não esse... que está na minha frente. Com esse eu realmente não casei... você eu não conheço... – Senti então meu estômago revirar. Eu senti calafrios, respirava ofegante e suava frio, quando ele me olhou uma última vez, ajeitou a mala, fechou o zíper e com ela em mãos, disse:
— Se eu sou um estranho... então não tenho mais nada para fazer aqui. – O meu corpo fraquejava, meu coração doía e minha mente estava à mil. Era o fim então... não havia adiantado de nada a minha corrida até lá, o meu autocontrole durante o caminho, nada.— Eu vou para a minha antiga casa. Depois, bem depois a gente conversa. Adeus... – Ele saiu do quarto e parecia levar a minha alegria, junto. Eu subitamente bati a porta. Ainda enterrada em meu desespero, andava de um lado para o outro, quando Dorothy bateu na porta.
— Darling, precisa de ajuda...?
— Eu só preciso ficar sozinha, Dorothy... – Falei derrotada e de repente toda a discussão passou diante de mim. – Ah!!!!!!! – Esbravejei, estilhaçando um vaso de cristal, na porta.
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