Geração Pamerval - A história do início ao fim
101 Capítulo 101
Notas iniciais
Por Pamela:
–E o que te interessa saber? – Respondi com outra pergunta, ainda que rude. Eu não podia acreditar que aquilo estava acontecendo.
–Interessa que você é minha mulher! Está jantando com outro homem que não sou eu e ainda segurando a mão dele de forma suspeita! – Ernesto tentou tirar a mão debaixo da minha, mas eu não deixei.
–Oh please! Você me deixou aqui plantada todo esse tempo! Não venha querer cobrar direitos que não tem, okay?!
–Pamela, você sabe dos meus problemas com a Plugar! Eu tive um imprevisto, tive que ficar lá mais tempo... achei que você entenderia!
–Claro! Se você tivesse me avisado, talvez eu entendesse. Agora, sem dar a menor satisfação, Herval?! Francamente... – Todo esse tempo, me mantive segurando a mão de Ernesto. Agora não mais para lhe provocar, mas talvez porque eu me sentisse segura? Não sei dizer...
–Vamos pra casa, lá eu te explico tudo direito. – Espere um pouco... eu percebi um tom autoritário ali?
–Vá você... eu ainda não terminei o meu jantar. – Disse voltando a olhar para Ernesto, que estava completamente sem jeito. Coitado. Não merecia passar aquele vexame...
–Pamela, por favor... sem joguinho. Eu não quero brigar, eu quero conversar com você. Mas a sós, sem esse garoto atrapalhando.
–Mas... o-o que que eu tô fazendo? – Ernesto me questionou.
–Nada, Ernesto... aliás está sim! Animando a minha noite! E o único que está atrapalhando alguma coisa aqui, é você Herval! – Falei, ainda mais rude. Será que estava pegando pesado? Acho que não, mas que estava doendo, magoando, estava...
–É? Ok, tudo bem. Você não quer ir pra casa, não vá. Eu tô tentando consertar a nossa vida, se você não quer contribuir, eu não posso fazer nada. – Golpe baixo! Mas a briga que com certeza teríamos, não saia da minha mente. Eu não queria brigar, mas do jeito que estava, não dava pra ficar.
–Sem chantagem emocional, Herval! Você que prometeu o que não pôde cumprir!
–Mas Pamela, você precisa... – Ele perdeu o controle do volume da sua voz.
–Xiiiiiu!! Sem escândalos! – Adverti-o.
–Então vamos pra casa! Você prefere ficar aqui com esse cara, a ir tentar resolver um problema sério com seu marido?! – Disse, tentando controlar o tom.
–Okay... – Respondi impaciente, jogando o guardanapo de pano, que por sinal era vermelho, em cima da mesa, e me referi a Ernesto: — Ernesto... eu... eu sinto muito, eu preciso ir, mas... muito obrigada! O pouco tempo que tive com você agora, foi muito bom, fez com que a minha noite não se perdesse por completo...
–Isso é provocação... – Herval murmurou, enquanto passava a mão no cabelo, me esperando.
–Sorry... até logo, Ernesto... – Me levantei e me aproximei de Herval, deixando o garoto abismado.
–Vamos... – Ele tentou pegar no meu braço.
–No, eu vou no MEU carro! – Disse apressando os passos.
Aquilo não podia estar acontecendo. Nós não podíamos estar prestes a iniciar uma discussão. Eu não queria aquilo, não queria de jeito nenhum! Já estava magoada demais, se trocássemos mais algumas palavras, eu falaria o que não queria e ele também. O caminho e volta para casa foi conturbado, pelo menos dentro da minha cabeça. Eu fazia uma força enorme para me manter firme, não podia cair, não me deixaria abater de jeito maneira!
Assim que cheguei em casa e desci do carro, vi o farol do seu se aproximando. Não sei o que me deu, talvez o desespero de fugir do que com certeza me faria muito mal, só sei que corri para dentro de casa com um misto de sensações e sentimentos, onde o predominante era a raiva, e sem me importar se havia alguém, se perceberiam o meu estado... entrei no quarto, batendo a porta com toda a força que tinha no braço, e só para garantir, tranquei e joguei a chave em algum canto.
–Pamela! Pamela abre a porta! – Era sua voz. Aquela voz que na maioria das vezes disse “eu te amo”, disse palavras doces e promessas de uma vida feliz, agora gritava meu nome de uma maneira que não me agradava nem um pouco. – Pamela!! Abre isso aqui! – Ele esmurrava e chutava a porta, parecia querer derrubá-la, mas quem estava caída era eu, ao pé da cama, sem conseguir conter as lágrimas, me debulhava nelas.
–Vá embora daqui!! – Berrei. Tudo o que eu queria era sumir!
–Eu não saio daqui, enquanto você não abrir a porta pra gente conversar! Por favor, Pamela... não faz isso com a gente... – Não! Ele não me convenceria de que a culpa era minha! Tapei os ouvidos de maneira a tentar espremer minha cabeça e a enfiei entre os joelhos. Não o escutaria, não aceitaria! – Pamela! – Socou mais forte e eu ainda podia ouvir a sua voz.
Era uma dor tão forte que tomava conta do meu peito... como se tivessem cavado um buraco ali. Era assim que eu me sentia ao brigar com Herval, ele era parte da minha vida! Era insuportável aquela situação, mas eu também não suportaria viver um flash back do meu casamento com Jonas.
–Sai daqui! Me deixa em paz!! – Não sei de onde tirei fôlego para gritar tão alto, mas foi quase que um rugido. Meus dedos agarraram brutalmente meus cabelos aquilo era muito mais do que a minha sanidade podia suportar! Eu já sentia a cabeça latejar e as pálpebras pesadas de tanto que chorava.
–Pamela, você sabe que a gente precisa conversar! Não seja infantil! Abre essa porta! – Ele insistia. Pra que me torturar mais? Que fosse embora logo de uma vez!
–Eu... não... quero... – Eu não falei, eu sussurrei, entre soluços, enquanto sentava na cama.
–Pamela! – Ele batia na porta cada vez com mais força e aquelas batidas eram insuportáveis dentro da minha cabeça. – Pamela abre essa porta agora!! Conversa comigo direito! Olhando nos meus olhos!! – Eu não! Preferia fugir, me esconder, se o olhasse nos olhos, talvez não fosse firme, eu me deixaria levar pela fascinação que eles exerciam em mim.
–Respeita a minha decisão! Eu não quero falar com você! Vai embora!! – Eu estava sem ar, a cabeça doía, a mente fervia e de mim, o que seria?
–Pamela, eu precisei ficar na Plugar! A gente recebeu um...
–Não me interessa!! Você não quer dividir esse problema comigo! Então que se exploda! Mas bem longe de mim! – Eu estava descontrolada, gritava e gesticulava, como se ele estivesse me vendo. De repente senti uma dorzinha incômoda na cabeça, seria a cirurgia? Mas eu já estava bem... se fosse, bom seria! Assim morreria logo de uma vez e não precisava passar por aquilo.
–Que gritaria é essa aqui? – Era a voz de Dorothy. Oh no, será que Joaquim havia escutado?!
–Eu só quero conversar, Dorothy... a gente não pode ficar assim... eu me atrasei para o jantar que tinha marcado com a Pam, mas eu precisei! Eu tô tentando explicar isso pra ela!
–Acontece que eu não quero saber! – Afinal o que é que toma conta da gente quando estamos com raiva, han?! Tive vontade de falar as piores barbaridades possíveis para Herval, mas preferi engolir algumas delas.
–Herval... deixe ela se acalmar, amanhã vocês conversam... não vale a pena, vocês estão de cabeça quente. – Aleluia! Madrinha o faria me deixar quieta.
–Mas... Pamela...! – Ouvi um barulho pequeno na porta, talvez ele houvesse encostado a cabeça nela, derrotado. – É assim que você trata o nosso amor? O nosso casamento? – Ah não! A culpa pra cima de mim de novo não!
–Faça essa pergunta a si mesmo, Herval Domingues! Eu simplesmente não quero um novo Jonas Marra na minha vida!! – Foi a última coisa que eu consegui dizer antes de enterrar a cabeça no travesseiro e chorar descontroladamente.
Aquela era uma das piores sensações o mundo! Depois daquela frase, eu me sentia vilã e vítima, o coração arrancado e a espada usada para tirá-lo. Todos os momentos mais lindos que passamos juntos, passou diante dos meus olhos, era como se tudo aquilo jamais fosse se repetir! É possível alguém se sentir tão infeliz?
–Pam... Pam, sou eu, Dorothy... abre a porta pra mim, Darling... Herval não tá mais aqui. Ele foi para o quarto do Joaquim... te prometo que ele não volta a te importunar hoje.
–Eu quero ficar sozinha, marinha... eu preciso ficar sozinha. – Suspirei, enquanto limpava os olhos e o nariz.
–Pamela Parker-Domingues, eu sei muito bem do que você precisa agora, então abra já essa porta e me deixe entrar aí pra te dar um abraço!
Domingues? Por que ela falou aquele sobrenome? O mesmo sobrenome que me trouxera tantas alegrias, agora soava como ofensa pra mim. Eu só queria paz... só isso, era pedir demais?
–Pamela... – Ela insistiu. Eu precisava mesmo de um abraço, de um novo porto seguro, já que quem o era pra mim, estava tentando cair em cima de mim! Encontrei a chave jogada no chão, perto de uma poltrona e fui abrir a porta. Assim que o fiz, foi como se meu corpo perdesse todas as suas forças. As lágrimas que tinha tentado controlar, vieram todas à tona, desesperadas. Dorothy me olhou tão complacente, abrindo os braços, que eu só consegui me jogar neles e sentir que finalmente alguém me resgataria daquele naufrágio. – Ah Darling...
Seus braços me envolveram e me confortaram. Sua voz era doce e a minha faltava à garganta, essa por sua vez, doía incessantemente! Só não doía mais que o coração. Esse sim estava em pedaços e sem acreditar que aquilo não era um pesadelo e sim a vida real!
–Chora dear... chora que as lágrimas lavam a alma! – Wow! Então minha alma estava passando por uma verdadeira faxina! Nem percebi quando Dorothy me levou para a cama, só me dei conta de que estava lá, quanto senti suas mãos me afagarem os cabelos, enquanto ela cantarolava alguma canção para mim e eu, deitada em seu colo, continuava a me desmanchar em lágrimas.
–Não é justo, madrinha... não é justo... é como se o nosso amor estivesse escorrendo por entre os nossos dedos...!
–Se la vie, mon cher... se la vie...!
–Mas...
–Existem amores que vencem até a morte! Mas não vencem a vida.
Sério que ela estava tentando me ajudar daquele jeito? Mas era o que eu precisava... a sinceridade e o realismo de Dorothy sempre me fizeram manter o pé no chão! E a vida é assim, não dá pra fugir da vida real.
Enquanto Dorothy estava ali comigo, eu posso dizer que me senti protegida, segura, como se pelo menos por enquanto nada de mal fosse acontecer, mas quando ela foi embora... a solidão me veio como um tapa na cara e me fez chorar por mais algumas horas. Entrei no banheiro para lavar o rosto, olhar pra mim e quem sabe me incentivar a ser forte, mas não deu. O meu reflexo no espelho foi exatamente o que eu estava por dentro, um borrão. A maquiagem toda desfeita e o rímel escorreu pelo rosto junto com as lágrimas. Eu estava com a cara inchada, nariz vermelho e coração sangrando...
–Por que...? – Percebi sair da minha boca e depois de um longo silêncio, vi alguma imagem se formando no espelho... daddy? Era o senhor? – Daddy! – Foi uma imagem instantânea. Ele apenas revelou uma expressão triste e negou algo com a cabeça, antes de eu estender a mão para tocá-lo, ele desapareceu me deixando sozinha novamente... eu e a minha vontade de sumir!
Como me troquei? Não sei. Como cheguei a cama? Não sei. Como consegui dormir? Sei menos ainda! Tudo o que sei é que “quando acordei, eu decidi: não vou sofrer mais não. Tantos dias sofri sem saber o porquê! Eu quero ver flores nos campos, os raios do sol! Quero que passem as nuvens negras.” Por mais que eu amasse Herval, por mais que eu tivesse planejado viver até o último dia da minha vida ao seu lado, eu não derramaria mais tantas lágrimas, eu não merecia tanto sofrimento! Levantei disposta a me livrar do que me causasse sofrimento, o que naquele momento se resumia a Herval Domingues.
Por sorte não prometi não chorar mais, apenas chorar pouco, porque acabaria quebrando a promessa... peguei com tanto pesar, a mala dele... uma lágrima me atormentava a cada roupa sua que eu jogava lá dentro. Minha visão ficava turva e eu só queria me livrar!
–Pamela, será que agora a gente pode conversar?
Por Herval:
Eu não preguei os olhos a noite inteira. Não dava pra dormir com o peso na consciência que eu estava! Mas também eu não tinha 100% de culpa! Pamela não podia jogar aquilo tudo pra cima de mim! Ela precisava me ouvir, ou eu explodiria.
Fiquei surpreso ao ouvir o barulho da chave abrindo a porta, mas fiquei mais surpreso ainda com o que eu vi depois dela ser aberta.
–O que significa isso, Pamela? – Minha mala? Ao lado dela?
–Significa que você vai embora dessa casa, vai embora da minha vida! – Ela estava com os olhos vermelhos, com certeza chorara tanto quanto eu. Ela não conseguiu me olhar por muitos segundos, logo se virou e caminhou para se afastar ao máximo de mim. Eu entrei no quarto e encostei a porta.
–Você não pode estar falando sério... – Aquilo pareceu um murro no meu estomago. Eu encostei as mãos em seus ombros e a percebi respirar fundo para ser forte. Para não se deixar abater. E soluçava o mínimo que podia.
–Mas estou.
–Pamela, o nosso casamento não pode terminar assim! Ou melhor, ele não pode terminar! – Eu já estava me desesperando...
–Pensasse nisso antes de...
–Fala isso olhando na minha cara! Nos meus olhos! – Ela não podia arrancar meu coração do meu peito daquele jeito, de costas para mim! Lhe agarrei pelos braços, virando-a e a chacoalhei, dizendo essas palavras. Ela só mordia o lábio inferior e tentava desviar o olhar. – Olha pra mim!! Fala que o que a gente tinha, acabou! Fala que você não me ama mais! Fala que você realmente acha que eu sou um novo Jonas Marra na sua vida! Fala!! – Quem fala que homem não chora é um completo babaca. Eu, naquele momento, não consegui conter as lágrimas nos olhos. A possibilidade de perder aquela mulher não podia passar na minha mente, era desesperador! Era como pedir a morte. Ela ficou em silêncio. Olhou nos meus olhos, mas não disse nada. Pamela me amava, era óbvio isso, não tinha razão daquela cena! – Eu não vou embora dessa casa. Eu não vou embora da sua vida porque você não quer isso! Você tá de cabeça quente!
–Eu não vou voltar atrás, Herval. – O que era aquilo? Masoquismo? Essa mulher gosta de sofrer, é isso? Ou era o cúmulo da burrice, ou me enganara direitinho... e estava me dando um fora pra ficar com o Ernesto. De desespero não vi mais nada na minha frente.
–Isso é por causa daquele moleque? É por causa dele que você tá querendo destruir um casamento de 5 anos?!
–Do que que você tá falando...?
–Do Ernesto! De quem mais seria?! Só pode ser esse o motivo! – Eu era só desespero. – Vocês já andavam se encontrando, Pamela? Por isso essa insatisfação toda dentro de casa e motivos pra briga? Só pode ser isso! E-eu vi você de mão dada a ele no restaurante! É isso! Eu me matando de trabalhar, morrendo de culpa por não te dar atenção, e é assim que você me trata...? Aquele desgraçado conseguiu te tirar de mim!! – Eu estava no auge aquele sentimento horrível, prestes a explodir, quando quem explodiu foi ela, num tapa na minha cara. Se doeu? Não sei, doeu meu peito, doeu meu coração.
–Nunca mais... repita o que você disse...! – Ela disse, chorosa, pausadamente. – Eu nunca te desrespeitei, Herval. Eu sempre te amei com todas as minhas forças! – Com a mão na cara, eu percebia a burrada que tinha acabado de fazer. Se a nossa situação já estava difícil, agora eu não sei nem como definir!
–Pamela... – Como consertaria aquela droga?!
–Sai daqui! Sai daqui agora! – Começou a me empurrar para fora do quarto.
–Pamela, eu...
–Fora!
–Me desculpa, eu não...
–Sai!! Eu não quero mais te ver na minha frente!! – Conseguiu me botar pra fora, e antes de bater a porta, gritou: — Você foi a pior coisa que já aconteceu na minha vida!!
Doeu. Doeu mesmo. Eu dei a minha vida a ela, o meu amor, o meu empenho e era assim que ela me agradecia. Tudo bem... ela se arrependeria por tudo aquilo, assim como eu me arrependi por tê-la acusado de traição, na verdade, eu não a culpo por ter falado aquilo, mesmo que tenha cortado meu coração ao meio, eu tinha fé de que a gente costuraria junto ele de volta.
Sem querer ser pretensioso, não fui a pior coisa que aconteceu na vida dela, mas a melhor. Antes de mim, Pamela não sorria como ela sorria pra mim... eu fui o melhor que eu pude e o melhor que ela mereceu, mas acontece que o excesso do belo é a tragédia, e o nosso amor era bonito demais, agora vivíamos a tragédia! Mas aquilo passaria, tinha que passar, caso contrário, minha vida acabava de acabar.
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