Gentleness

15 Começo (sempre foi assim)


— Então... Se cuida. – Ephir disse, ao se despedir de Nante no portão. Seus olhos desviaram do rosto do outro ao falar.

Nante esfregou a própria testa, como se isso fosse ajudar a passar a dor nela, e seus olhos desceram até o queixo de Ephir.

— Ephir, eu sinto muito mesmo.

Ele estava ser referindo a ter batido a cabeça no queixo de Ephir quando acordaram. A culpa ainda estava lhe consumindo por ter sido quem se assustou primeiro com a pegadinha da mãe de Ephir, que aliás, ainda devia estar rolando de rir. A cena deles saindo do clima meloso pra acordarem com um barulho de britadeira e baterem as cabeças seria inesquecível, mesmo que ela só tivesse ouvido os gritos de dor.

— Não foi bem sua culpa... Eu vou conversar com ela sobre isso. – O de cabelo caramelo franziu as sobrancelhas olhando pra baixo. Seu queixo estava latejando ainda, mas ele não iria demonstrar sabendo que isso deixaria o moreno ainda pior.

— Huh... – Nante começou, tentando cortar o curto silêncio. Ele não queria ir embora ainda. Estava tão feliz de estar com Ephir, em mais de um sentido agora. – Você tem certeza que está se sentindo melhor?

— Depois do limão com mel e dormir um pouco, sim, estou. – A expressão de Ephir relaxou.

Nante se lembrou de quando ainda estavam confortáveis cochilando juntos no sofá, e sorriu sem nem perceber.

— Acha que consegue ir pra escola amanhã?

— Meu atestado me dá direito a mais um dia. – Ephir hesitou um pouco e disse: – Acho que vou descansar enquanto posso... Se vocês não aguentarem a saudade, podem visitar. Trazendo pudim e os assuntos do dia eu provavelmente abro a porta.

Com “vocês”, Nante entendeu que ele queria dizer ele e Mo. Sentiu vontade de retrucar, mas se fizesse ficaria difícil pararem de implicar.

— Claro, claro. Não esqueça de tomar sua vitamina C. – Nante se inclinou para um beijo de despedida, mas de repente uma preocupação passou por sua cabeça. Ephir olhou pelo ombro dele pra rua, já iluminada pela luz laranja dos postes e com pessoas passando. Ele entendeu e lhe deu um abraço.

— Tinha esquecido a parte do preconceito? – Sussurrou.

A mulher cuidando da segurança do portão disfarçou estar encarando quando Ephir lançou um olhar pra ela. Nante retribuiu o abraço, se sentindo muito feliz por estar nos braços de Ephir por livre e espontânea vontade desse. Tão feliz que não queria pensar em mais nada.

— Tinha esquecido que as pessoas tinham essas bobagens. – Admitiu, frustrado. Não queria soltar.

— Tudo bem, vamos resolver isso aos poucos. – Ephir suspirou. Ele também não havia pensado muito sobre, anestesiado por sua mãe se importar tão pouco. Na verdade, nem todo mundo era indiferente, e isso seria um assunto importante pra conversarem depois.

Nante se afastou, não porque queria, mas porque a posição estava começando a ficar desconfortável, e afagou o cabelo de Ephir com um sorriso.

Isso deixou o de cabelo caramelo muito chateado. Ele não sabia se era porque não fazia sentido Nante deixar de beijá-lo mas expôr afeto assim ou porque aquele sorriso bobo era injusto pra uma despedida.

— Vai embora logo. – Ephir começou a empurrar ele pra fora, seu rosto começando a ficar vermelho.

— Huh?! Ephir, o que eu fiz?!

Ephir fechou o portãozinho na cara dele e suspirou, como se estivesse tentando deixar a fumaça escapar depois de seu rosto esquentar.

— Me manda mensagem, qualquer coisa. – Resmungou pro portão, antes de voltar pra dentro com borboletas no estômago, lhe distraindo do estresse.

De começo, Nante se sentiu perdido de novo, não num lugar, mas com o comportamento de Ephir. Só ao parar do lado de fora pra pensar na expressão que o outro tinha, ao lhe expulsar, um sorriso bobinho se espalhou em seus lábios e voltou pra casa muito feliz, sem nem ligar mais pra seu galo na testa.

Ele não morava perto de Ephir, mas morava perto da escola. Uma escola bem prestigiada, combinando com o bairro onde sua família vivia. Não eram do tipo que se agradava dele andando a pé, mas concordavam que era importante pra seu desenvolvimento como pessoa dar valor ao que tinha, então ninguém viraria uma mesa por isso quando ele chegasse. Já era comum ele querer voltar ou ir a pé pra escola, dispensando transporte escolar.

No entanto, chegar tão mais tarde que o horário da escola não era, mesmo avisando adiantadamente e por algo como visitar um amigo doente. Sabendo disso, ele tentou subir despercebido para seu quarto, mas...

— Nante. – Sua irmã mais velha chamou, da sala de jantar. Ela podia ver ele se aproximando da escada, mesmo de seu lugar na mesa. Café e alguns petiscos estavam em frente a ela, junto com um livro de medicina, para o qual ela havia voltado a olhar depois de pronunciar o nome dele.

— Sim? – Perguntou o jovem, tentando não aparentar o nervosismo que sentia. Ela fechou o livro e olhou pra ele, o que lhe causou um impulso de mudar de assunto do que quer que ela fosse dizer: — Tiane, você poderia estudar no seu quarto.

Os olhos pretos dela olharam pra ele, as pálpebras pesarosas passando um desinteresse calculado.

— Nossos pais não estão em casa, alguém precisava saber de que horas você chegaria. – Ela olhou pra seu relógio de pulso de marca. – Quase sete e meia. Onde estava?

— Eu liguei dizendo onde eu estaria.

— E você realmente precisa de tudo isso pra visitar um amigo doente? – O cenho de Tiane se franziu, e ela se levantou, as plataformas fazendo barulho contra o chão de cerâmica branca, graças ao silêncio na casa. – Você é apenas um estudante de segundo ano ainda, e não de uma escola qualquer. Não deveria ficar andando sozinho por aí de noite.

— Ele passou mal e eu ajudei a cuidar, o que tem de estranho nisso? – Retrucou, enfrentando ela sem dar um passo pra trás. Sua irmã estava quase em sua frente, mas continuou: — Eu vou fazer dezessete anos, e não posso ficar fora até um pouco mais tarde por algo assim? Quando tem gente mais nova que eu fazendo todo tipo de coisa?

— Não são da nossa família. – Ela parou em frente a ele, e pousou o dedo sobre o logo da escola na farda do mais novo. – E se você fosse sequestrado? Isso aqui é praticamente uma placa de “tenho dinheiro”.

— Deviam ter pensado em me colocar em uma escola mais normal antes, então. Agora é tarde, e eu já sei me virar. – Ele colocou a mão sobre a dela, tentando afastar.

— Ah, é mesmo? — As sobrancelhas dela se ergueram, e ela baixou um pouco a cabeça pra falar no ouvido dele, como se fosse um segredo o deboche em sua voz: — Isso é um pedido de transferência? Mais uma?

O garoto deu um passo pra trás, o rosto contorcido.

— Você sabe que não!

— Hmm. Seu cabelo está cheiroso demais pra alguém que supostamente passou o dia fora sem tomar banho, e sua testa está inchada. – Ela voltou pra mesa. – Você não tem algo pra contar?

O sangue de Nante congelou. Com dificuldade, ele forçou a voz mais calma que tinha: — Não, nada.

Ela abriu o livro de novo, perdendo interesse nele. O garoto, no entanto, ficou ali parado observando ela com cautela.

— Eu não vou te dedurar por enquanto, não se preocupe. – A voz dela, agora monótona, interrompeu a mente dele que estava a todo vapor.

— Ah... Eu...

— Jantou?

— ... Já. – Ele se virou pra começar a subir, mas ainda a olhou de canto. – Vou estudar. Cuidado com sua visão... Você não liga mesmo?

— Não, desde que você chegue em casa cedo. Não quero que a culpa fique pra mim.

Ele se sentiu tentado a agradecer, ou ir embora logo.

— ...E o que quer dizer por enquanto? – Nante perguntou, agarrando o corrimão da escada com força como se aquilo pudesse acalmá-lo.

Ela levantou os olhos do livro e pareceu que queria sorrir, com a expressão de divertimento que estava tentando conter.

— Quer dizer “ande na linha, maninho.”

Suspeito, mas pelo menos significava que mesmo que Tiane estivesse de olho nele, não faria nada desde que não causasse problemas pra ela. Às vezes ter uma irmã tão desinteressada era conveniente. Às vezes não. Onde ela estava traçando a linha?

— Se precisar de mim, estarei no meu quarto. – Ele disse, com um suspiro.

Seus passos foram lentos até fechar a porta do próprio quarto. Depois disso, Nante se jogou em sua cama de solteiro com mochila e tudo. Ele precisava ficar preocupado, mas antes de tudo, não conseguia nem acreditar naquele dia. Se ele acordasse agora, não ficaria surpreso se estivesse sonhando, porém ficaria muito triste. Não era um sonho que ele queria acordar, detalhes de irmãs chatas e testas doendo deixados de lado.

Ele pegou o travesseiro e sufocou um grito nele.

Ele. Estava. Namorando. Ephir.

Tudo bem que o título oficial era “sei lá o quê”, mas... Mas isso era só Ephir sendo estúpido. Cara, eles tinham se pegado no sofá. Ele tinha mais arranhões do que se tivesse sido jogado no meio de cinquenta gatos briguentos. E mordidas. Ah, muitas mordidas. Ainda bem que ele já tinha saído com a blusa de gola de Ephir.

O rosto corado de Nante começou a sair de onde havia se enfiado no travesseiro.

E eles dormindo no sofá? A mãe de Ephir só foi cruel com seus métodos, mas nada que não pudesse ser pior. Ah, e o abraço? Se bem que... Ele queria ter beijado Ephir mais uma vez antes de sair...

Nante começou a se sentir solitário e a pensar em como eles provavelmente sofreriam discriminação. Ele não queria que Ephir pensasse que se envergonhava de estar com ele, afinal era a coisa que ele mais queria já fazia um tempo... E ele definitivamente não queria abrir mão de demonstrar afeto por Ephir por causa de estranhos...

Mas o mundo podia ser bem cruel. E violento. Pessoas matando outras por orientação sexual não era incomum. E sua família era bem conservadora...

Era triste como ele precisava se preocupar com essas coisas.

Ainda assim, eles precisariam conversar sobre isso mais cedo ou mais tarde. Já agiam suspeitamente próximos há muito tempo, então a boa notícia era que desde que não comessem a cara um do outro em público, ninguém iria ver muita diferença.

E ele estava certo. Exceto por Mo, na quinta-feira quando Ephir voltou pra escola, eles não receberam mais olhares que o normal. Mesmo com Nante fazendo carinho na cabeça de Ephir enquanto ele dormia durante alguma aula, ou colocando o braço em torno do pescoço dele ao andar por aí, ou Ephir demandar colo pra colocar a cabeça durante o intervalo, ou as trocas de olhares durante as aulas, ou dividindo uma mesma cadeira pra lerem um livro juntos...

Nada fora do normal. Os colegas de classe e professores já viam esse comportamento fazia tempo.

Mo sentia vontade de bater na testa. Como ela tinha precisado falar com Nante sobre os sentimentos dele quando eles já eram assim? Embora, por mais comum que fosse, ela não poderia se dizer amiga deles se não tivesse percebido que algo estava diferente. Isso e o fato de Nante ter passado o dia anterior matracando e quase morrendo com as novidades sobre o que tinha acontecido e suas novas preocupações.

“Woow, parabéns, quer que eu acenda fogos?”, ela pensou, ao ouvir na quarta-feira ele descrever mais uma vez como o pedido de Ephir foi estúpido com um sorriso de orelha a orelha. “Eu vou acender um e jogar em cima de você, porque eu realmente não precisava da parte do sofá”

E agora ela tinha que lidar com um casal recém formado. Por mais que ela amasse eles, Mo tinha a impressão de que um casal até o terceiro mês de namoro era um saco. No entanto, o choque foi menor do que ela esperava, e os três estavam se divertindo no intervalo recontando histórias do passado do ponto de vista de quem agora sabia que daria num casal.

— Mas sabe, por um tempo eu realmente fiquei obcecado com Célio. Eu até considerei estar gostando dele, mas nem aquela cara de bebê compensa estar perto dos trinta anos. – Ephir comentou, com sua brilhante cara de pau enquanto bebia suco em caixa com a cabeça no colo de Nante.

Esse último olhou pro horizonte tentando imaginar como essa criatura tinha coragem de lhe dizer uma coisa dessas.

— Ah, eu sei. Você até queria um plano pra testar a gentileza dele. Que idiota. – Mo disse, e riu da cara ofendida de Ephir.

— Ah, me deixa! Foi uma situação que mexeu com meus traumas, ok? No fim das contas, ele que me empurrou pra Nante, e já até tinha um boy.

Nante abriu a boca, mas Mo foi mais rápida:

— Te jogou pra Nante? E um boy?

— É, uma pessoa que ele disse que era importante pra ele, mas que ele magoou e não queria que eu cometesse o mesmo erro ou algo assim. E ele disse isso depois de conhecer essa criatura ciumenta...

— Ei! Eu estava no direito de meus ciúmes!

— Nope. – Ephir estalou o “p”. Mo balançou a cabeça como se desistisse da humanidade.

— E outra – Nante olhou fixamente pra Mo, e então Ephir — , ele meio que me empurrou pra você também. Disse que se via em mim... Tem algo a ver com esse boy?

Ephir deu de ombros. Vai saber como Isel e Célio se resolveram depois de tudo. Ele só sabia que, depois da reviravolta entre ele e Nante, muita coisa era possível em uma semana. Inclusive, já era dia da aula da sua mãe de novo.

Eles ficaram tão distraídos rindo de histórias do passado, tipo o dia dos namorados depressivo que uma vez comemoraram juntos ou a aula de educação física que tiveram na piscina que nem perceberam uma aluna loira de terceiro ano observando de longe.

Notas finais
Eu queria segurar o capítulo até ter terminado o planejamento dos próximos, mas... Eu não sigo muito os meus planejamentos mesmo. Veja só um exemplo das minhas anotações deletadas do capítulo anterior: — Idk eu quero que em algum momento Ephir diga "estamos namorando" e a mãe dele fique "ah. Conheço meu filho, então nem tô surpresa" — e Nante "eStAmOS NaMoRAndO?????" — e ela "por que você tá surpreso?"