Geni e o zepelim
1 Capítulo único
Naquele dia de outono, o clima do lado de fora estava ameno, mas a humilde casinha de taipa em que os dois amantes se encontravam, fervia, tal como calhava aos dois corpos cheios de energia.
O homem esbelto, grisalho e de pele negra, se deliciava com a visão de Geni à sua frente. Visão que mais lhe parecia uma miragem. O espartilho preto definia a cintura da moça fazendo uma combinação irresistível com a roupa íntima vermelha-cor-de-sangue. A dama sabia bem sobre os efeitos que causava ao cavalheiro e adorava entregar-se àquele âmbito de idolatria.
Por fim, deitaram-se na cama satisfeitos.
Geni se levantou sem pressa e acendeu uma mortalha de fumo que apanhou de sua bolsinha em malha metálica de prata.
— Case-se comigo, Geni – pediu o homem à jovem mulher, não pela primeira vez – Não tenho muita coisa, mas te darei tudo que esteja ao meu alcance.
A moça riu-se após tragar o cigarro, fazendo a fumaça dançar de seus lábios.
— Bento... Sabes muito bem que eu não sou mulher de casar – ela o encarou com os seus olhos dourados e penetrantes – O meu querer é a liberdade, não me prenderei a uma vida doméstica às sombras de um homem e à doutrina de uma sociedade que só tem como ofício criticar.
— Eu te quero minha – Bento insistiu – Não me importa o que dirão.
— E não está bom assim? Contente-se com o que pode ter agora, ou se arrependa quando não tiver depois.
Ela descartou o tabaco no cinzeiro de barro e enroupou-se despretensiosa.
— Tenha um bom dia, senhor – Geni fez uma breve reverência e saiu, deixando Bento tão desnorteado quanto qualquer um que tinha a sorte de estar na companhia de tal dama ficaria.
As ruas da pacata vila estavam cheias, como de costume àquela hora da manhã. Os olhares ardentes em desejo se voltaram imediatamente para Geni. Isso alimentava o seu ego de tal modo, que a fazia sorrir de um jeito presunçoso que só ela poderia. Porém, assim como esses, havia também muitos outros olhares de repreensão ao vê-la chegar da estradinha de terra no buggy guiado por um gentil cavalheiro que lhe dava uma carona. Todos conheciam bem a sua fama naquela cidade. Logo as moças recatadas de família, comerciantes rejeitados e respeitados religiosos se prostraram a comentar sobre o comportamento da senhorita.
— Onde já se viu uma moça se portar dessa maneira?! – Uma mãe difamou-a para sua filha da sacada de casa.
— Como pode uma dama dessas querer ser tratada bem? Merece apanhar, para ver se toma bons modos! – sugeriu outro rapaz que saía do boteco da esquina.
— Uma mulher não pode dar-se assim para qualquer um — resmungou o padre da igrejinha para o seu companheiro de sacerdócio – é um ultraje!
Geni desceu do Buggy, indiferente a fofocas alheias, e deixou que o condutor beijasse o dorso de sua mão.
— Muito obrigada, senhor Santiago.
— Não há de quê, senhorita.
E pegou as rédeas do cavalo, viajando para longe.
Geni se dirigiu para um café onde sempre comia pela manhã e pediu seu desjejum. Dois rapazes bem vestidos que se sentavam à mesa ao lado, conversavam discretamente, mas fizeram-se ouvir pela proximidade da mesa da moça.
-... E parece-me que esta cidade também é alvo dos militares estrangeiros – disse o primeiro — O prefeito está desesperado.
— Também, com as eleições se aproximando, ele não poderia aterrorizar as pessoas com essa notícia, ou nunca mais estaria no poder novamente – retrucou o segundo.
— Contudo, caso ele não consiga resolver esse problema, já estou me preparando para sair da cidade com a minha esposa e meu filho para uma fazenda que tenho no interior. Não se pode confiar completamente na força do nosso poder.
— E muito menos na lealdade de um prefeito.
Os dois riram.
Geni achara aquela proza muito estranha, mas logo o garçom chegou com o seu pedido e a serviu, desviando a sua atenção dos rapazes que já se levantavam para sair.
Ela tomou seu café tranquilamente e por fim voltou para a pensão em que morava.
— Bom dia, Dona Teodora — Geni cumprimentou a dona da pensão com um sorriso sarcástico no rosto.
Teodora também não aprovava o comportamento de Geni, mas não podia reclamar quanto ao pagamento sempre em dia da hóspede.
— Bom dia, senhorita – A mulher respondeu com mau-humor.
— Mande preparar um banho para mim.
Geni subiu para o seu aposento: um cômodo simples de alvenaria rústica, com apenas alguns móveis, uma cama para dormir e um banheiro.
Guardou suas coisas em uma das gavetas da mesa lavatório com tampo de mármore e despiu-se despreocupada com a porta destrancada do seu quarto, começando pelos sapatos e terminando até em tirar as pulseiras que lhe enfeitavam os braços. O criado bateu na porta assim que ela terminou.
— Entre — ordenou.
O rapaz abriu a porta inocentemente com um dos baldes de água morna na mão, ainda em tempo de ver Geni vestindo o roupão de banho.
— M-me desculpe, senhorita, eu não sabia que... – ele se engasgou e quase derramou a água do balde.
— Romeu... – Ela o repreendeu cinicamente e insinuou com a cabeça para a banheira pronunciando as palavras seguintes com a maior ternura — minha água de banho, por favor.
O criado despejou os dois baldes de água rapidamente, sem olhar para Geni e perguntou muito tímido se ela precisava de mais alguma coisa.
— Não, muito obrigada, Romeu.
Ela esperou que o rapaz saísse e trancou a porta para se banhar tranquilamente.
Mais tarde, uma movimentação esquisita agitava as pessoas da vila. A população em peso estava do lado de fora observando o céu, parecendo esperar por algo extraordinário:
“O que está havendo ali?”, ouvia-se dizer entre as pessoas amontoadas, “O que é aquilo?”.
De repente, um enorme dirigível flutuante surgiu entre as nuvens e pairou sobre os edifícios da capital. A primeira reação dos moradores foi admiração. Ninguém nunca havia visto coisa parecida. Exceto, pelo prefeito, que estava apavorado com a situação. Mas logo todos assumiram a expressão do mesmo quando, instantes depois, o zepelim gigante armou-se com os dois mil canhões e apontou para os seus não mais admiradores. O medo foi tão eminente que ninguém ousou se mover. Alguns apenas rezaram e se arrependeram de seus pecados na tentativa de salvar sua alma e ser levado para o paraíso.
Eles esperaram. No entanto, os canhões não dispararam. Pelo contrário, recolheram-se todos e do zepelim desceu o seu comandante acompanhado de mais dois soldados. O homem louro e alto usava um uniforme militar com pelo menos uma dúzia de emblemas.
Enquanto ele caminhava em direção ao prefeito, a multidão abria caminho, amedrontada com a presença do homem. Neste exato momento Geni apareceu. O comandante a olhou de soslaio apreciando-a brevemente e em seguida voltou-se novamente para o prefeito que expressava claramente o seu medo, dada sua postura acuada.
— Senhor Prefeito – o homem o cumprimentou retirando o chapéu e revelando o seu corte militar.
— S-senhor Comandante – a voz do prefeito saiu mais fina que o habitual – C-como vai o senhor?
— Muito bem, obrigado – respondeu o primeiro rondando o prefeito como um predador que está prestes a atacar a sua presa – Já o senhor... Pelo visto não se pode dizer o mesmo.
O prefeito suava frio e encolhia-se a cada palavra do militar.
— Imagino que saiba o motivo de minha visita, sim? – continuou ele – O senhor entende o quanto o horror e iniquidade desta cidade me provoca a vontade de explodi-la.
O prefeito gelou. O padre, por sua vez, adiantou-se até o comandante e juntou as mãos com clemência.
— Pelo amor de Deus, tenha piedade de nosso povo!
O homem estudou o padre e deliciou-se abrindo um sorriso pretencioso. Analisou sem pressa a situação.
— Bom, se o senhor, um homem de bem, pede que eu considere, posso mudar de ideia.
O padre abriu um sorriso de orelha a orelha, orgulhoso de seu feito.
— Muito bem, meu rapaz, o senhor será muito...
— Mas isso, – o militar o interrompeu, antes que começasse a ladainha — caso aquela formosa donzela me servir esta noite – e apontou para Geni.
Todo o povo se espantou com a sentença do nobre comandante e logo se ouviram os murmúrios:
— Ele fala de Geni?!
— Mas não pode ser!
— Ela dá pra qualquer um!
Porém, ainda que desacreditados, todos se viraram para ela na esperança de uma resposta positiva.
O que se passava pela cabeça de Geni era uma névoa de pensamentos indecifráveis. Sua primeira reação também fora de espanto. De fato, logo ela, tão coitada e singela, cativara um guerreiro tão vistoso e poderoso. Acontece que ela também tinha os seus princípios. Observou com atenção e deduziu que um homem desumilde e desdenhoso como aquele, de longe lhe despertava algum apreço. Nem medo conseguia sentir, apenas nojo. De uma coisa ela estava certa: do forasteiro queria distância e logo empinou o queixo, esnobe.
— Pois, prefiro amar com os bichos a deitar-me com vossa nobreza— proferiu em tom de sarcasmo.
O povo espantou-se ainda mais ao ouvir tal heresia da boca de Geni. O homem, por sua vez, ficou furioso.
— Sendo assim... – ele pôs o chapéu de volta e começou a andar pesadamente em direção ao dirigível, mas o Bispo também interveio se aproximando do rapaz.
— Por favor, meu filho, fique um pouco mais, eu tenho certeza que a palavra de um velho e experiente homem de Deus convencerá a moça.
O comandante parou bruscamente fazendo o Bispo quase tropeçar em seu corpo, mas as palavras do clérigo fora suficiente para que o homem suavizasse sua expressão.
— Decerto – ponderou o militar – ficarei então até o anoitecer, se a dama não ceder, não terei mais piedade.
E caminhou até um botequim junto com os seus companheiros.
O Bispo logo tratou de encher os olhos de lágrimas para falar com Geni, que permaneceu friamente imparcial.
— Minha filha, como pode decidir tão rápido algo que põe em jogo a vida de toda essa gente? – ele gesticulou para a multidão que a envolvia – por favor, reconsidere.
— O que toda essa gente já fez por mim? – ela intonou sem alterar os ânimos – Não me lembro de outra coisa a não ser me apedrejar.
— Não se precipite, minha jovem! Você pode nos salvar, tenho certeza que o Senhor aprovará a sua generosidade.
— O senhor me desculpe, mas não faço questão da aprovação do seu Deus.
E ela estava prestes a se retirar quando o banqueiro a deteve se prostrando em sua frente.
— Eu te ofereço um milhão para que satisfaça aquele homem – ele retirou um cheque do bolso – agora mesmo!
Geni ficou tão ofendida com a oferta que não conseguiu conter a indignação.
— Fique sabendo que não estou à venda!
Quando perceberam a resistência de Geni, logo os outros trataram de tentar convencê-la.
— Não seja tão egoísta!
— Pense nas crianças, pobrezinhas, elas não têm culpa de nada.
— Não teme também por sua própria vida?
— Vá com ele, vá, Geni!
Ela tentou ignora-los e subiu para o seu quarto de pensão.
Geni se dirigiu para a mesa lavatório e encarou o seu reflexo no espelho, pensativa, tentando desvendar o mistério da imagem da mulher que entendia ser. Algo em sua consciência contrariava a sua vontade. Talvez ela devesse mesmo fazer aquele sacrifício por um bem maior.
Esse dilema tomou a cabeça de Geni em consumição, até o prefeito bater em sua porta.
— Com licença, senhorita? – pediu ele ao entrar cautelosamente no aposento.
Ela manteve a postura e deixou que ele começasse a falação.
— Não está sendo um dia fácil, sim?
— Chegue ao ponto, prefeito.
Ele desmoronou de sua pose e suspirou. Sabia bem que Geni não engolia discursos baratos, então tratou de ser direto.
— Eu sei que a senhorita tem os seus caprichos e não podemos obriga-la a nada, mas escute com mais atenção os nossos pedidos.
— Então é assim, – Ela se virou para o homem — o senhor comete os seus deslizes e eu tenho de concertá-los?
— Perdão?
— Não há necessidade de dissimular, eu ouvi sobre suas façanhas, prefeito.
— Bom... Eu sei que errei, não preparei a cidade para os possíveis acontecimentos por egoísmo, mas, entenda, isso não vem ao caso agora. Não cometa o mesmo erro que eu cometi – O prefeito falava em seu tom mais sincero e conseguia convencer a jovem cada vez mais.
— E o meu querer não vale de nada? – Geni retrucou, mas dessa vez não tão segura de sua decisão.
— Pelo contrário, vale muito, provavelmente mais do que eu, você e todos os outros gostariam. Pense bem, você vai nos redimir. A senhorita pode ganhar a admiração de todos aqueles de quem salvar a vida e dormir de consciência tranquila sabendo que o que fará é o melhor para todos nós.
Tiro certeiro. Geni se viu novamente em sua crise interna. Refletiu, refletiu e finalmente encarou o prefeito pela última vez, convencida. Então voltou-se para o espelho. Fechou os olhos, respirou profundamente e dominou seu asco antes de dizer:
— Peça que ele venha.
O prefeito abriu um sorriso esperançoso que Geni pôde ver através do espelho.
— Muito bem, com sua licença, senhorita.
A porta se fechou e ela esperou pela próxima visita.
Naquela noite lancinante, Geni entregou-se ao amante como quem se dá ao próprio carrasco. E ele fez por onde, lambuzou-se a noite inteira até ficar saciado. E antes que amanhecesse, partiu na manhã fria, junto com seus companheiros, no enorme zepelim prateado.
Geni suspirou aliviada, e até tentou sorrir, mas logo raiou o dia e a cidade, em gritaria, não permitiu que a mesma dormisse.
A vila voltou ao normal e, ao invés de ser tratada como salvadora, como fora prometido, Geni voltou a ouvir os mesmos comentários de sempre:
— Joga pedra na Geni!
— Joga bosta na Geni!
— Ela é feita pra apanhar.
— Ela é boa de cuspir!
— Ela dá pra qualquer um.
— Maldita Geni.
Depois desse dia, Geni reafirmou o que já sabia: respeito é muito mais importante que admiração. E nunca mais tentou agradar a ninguém além de si própria.
Fale com o autor