Gelo, por favor
7 Capítulo Final
Notas iniciais
Eu sou uma mulher madura.
Isso que repetia mentalmente algumas centenas de vezes cerca de três minutos, por que eu precisava dessa repetição para me convencer, para resgatar talvez alguma dignidade ou algo do tipo. Eu não conseguia sentir e queria entender o porque. Aquilo era errado ainda mais depois do que eu fiz.
Virei minha cadeira e me apoiei com os antebraços no balcão do bar e olhei para festa que estava rolando, algo que há um tempo não fazia, minha sorte era que ninguém me interrompia mesmo num lugar com várias pessoas conhecidas, eu tinha esses momentos quando eu precisava me concentrar para cantar.
Normalmente quando aconteciam as festas no bar de Rodrigo eu sentia várias emoções e sentimentos, mas não como hoje, nunca um nervosismo foi tão grande quanto o que eu sentia agora. Um incomodo vergonhoso. Tudo por que Rodrigo resolveu fazer uma comemoração, uma festa em homenagem a ninguém menos que Poncho, por sua volta.
Desde que ele chegou eu fugi de todas as formas possíveis, fugir do inevitável, sei que vai ter o momento do reencontro e pior talvez seja com o Rodrigo presente.
:- Vamos? — dei um sobressalto com o susto que eu levei. E ele apenas riu de mim.
:- Santi?
:- Quem mais seria? – Ele abriu um sorriso que fez rugas em seu rosto. – Venha já esta na hora. – ele me deu a mão.
E me levou para o pequeno palco do outro lado do bar, Santi é o meu guitarrista, faríamos uma pequena apresentação. Depois de tudo quase pronto para começarmos a tocar, Rodrigo subiu ao palco para a abertura como de costume me forcei a olhá-lo.
:- Alô!! Olá!! Testando, um, dois, três. – com o indicador deu dois toques no microfone para certificar que estava ligado. – Boa noite! – por fim disse e se eu estivesse de frente tinha certeza que estava sorrindo. – Quero a atenção de todos por que a banda vai se apresentar e só por ter uma vocalista como essa, já merece total atenção. – ele virou de lado e deu uma piscadela na minha direção e eu esbocei um sorriso curto o que arrancou risada da maioria das pessoas conhecidas presentes. – Como essa noite é em homenagem a um grande amigo de minha esposa, nada mais justo que esse show além da festa de hoje seja para ele, então como presente pedi que ele escolhesse a primeira música da banda. Meus sinceros votos de muita saúde Alfonso!
Todos do bar se voltaram a ele no meio da pequena multidão com aplausos e assobios, ele apenas cruzou os braços sem graça com uma mão com uma cerveja e agradecia com acenos de cabeça.
:- Dulce!!! – Ganhei o meu segundo susto da noite quando Santi novamente me chamou. – Esqueci de te dizer, droga que cabeça minha, vamos começar com essa aqui, foi a escolhida por Alfonso. – me entregou um papel com a lista das músicas que cantaríamos.
:- Para todos vocês, a primeira música.. – Rodrigo nos anunciou e saiu pelo canto do palco.
Nervosa como nunca eu me aproximei, não era o nervosismo da apresentação, eu conhecia as pessoas que estavam ali presentes, não era pela mudança na apresentação da banda, conhecia a música inclusive nos meus tempos de faculdade era uma das minhas favoritas. Era por encará-la e por ele ter escolhido essa canção.
Dei alguns passos para frente do pedestal e após apoiar minha mão esquerda nele e a direita no microfone no alto deixei meus olhos fechados e esperei o sinal que logo viria quando a banda estivesse pronta. No meio do meu nervosismo precisava me concentrar em algo e foi o que eu fiz.
Vieram as primeiras notas no piano, esse era o sinal. Então abri os olhos que focaram nele que me encaravam também.
:- I could stay awake just to hear you breathing watch you smile while you are sleeping while you´re far away and dreaming. I could spend my life in this sweet surrender, i could stay lost in this moment forever, well, every moment spent with you is a moment I treasure. – Cantei o encarando porque afinal de contas essa era a música que ele escolheu, voltei a fechar os olhos e deixei que o público continuassem a cantar. — I don´t wanna close my eyes, i don´t wanna fall asleep ´cause i´d miss you, babe…
Ok. Eu me rendo.
Cantei para ele e mal conseguia escutar os aplausos e gritos no final da música porque ainda o encarava, era como se estivéssemos num mundo próprio por que não conseguíamos desviar o olhar. Até eu ter uma atitude e quebrar essa conexão.
:- Uau! Que bonito cantam. – dei um suspiro e arrumei o pedestal – Aerosmith para começar essa noite é sempre uma boa pedida, não?
Dei um sorriso após a integração com a plateia e senti que conseguiria continuar com tudo, voltei a evitar como pude o olhar de Poncho apesar de saber que ele estava ali presenciando a apresentação da banda. Tomei uma decisão enquanto cantava para todos, assim que logo que a última música terminou e agradeci a atenção e todos voltaram a comemorar a festa.
Eu desci do palco e fui para o bar pedi para Maneco, o barman, uma garrafa de cerveja e fui até a saída mais próxima precisava respirar o sereno da noite para fazer o que tinha decidido.
:- Sempre disse que era uma cantora excepcional e hoje pude comprovar que seu talento é incrível e só melhorou com o tempo.
Escutei sua voz e estremeci ao me virar e ver ele do lado do portão de ferro que eu tinha saído, encostado na parede bebendo também uma garrafa de cerveja deveria ser a que ele não tomou enquanto me via.
:- Obrigada. – tudo o que fiz foi agradecer. Se eu queria fugir dele, acabei indo direto para o seu encontro, sem-querer.
:- Faz tempo que não nos vemos.. Desde.. – ele voltou a falar.
:- Não. Por favor, não continua.
:- Desde o que aconteceu. – ele continuou me desobedecendo, foi mais direto. – Desde aquele dia você me evita de todas as maneiras possíveis e hoje, — ele deu um sorriso que não sabia definir se era sarcasmo ou tristeza – você fugiu.
:- Não é fácil. Sinto vergonha pelo acontecido, não deveria.
Ele deixou que nosso olhar se sustentasse por alguns segundos, mas que pareceram horas e desviou o seu olhar antes que eu conseguisse identificar qualquer vestígio de sentimento, tomou o resto de sua cerveja e jogou a garrafa verde fora.
Se aproximou com alguns passos e notei agora sem as sombras da noite e da pouca distância que eu estava o quebrando como ele fez como a garrafa.
:- Está arrependida? – ele colocou as mãos no bolso e me encarou de lado querendo respostas.
:- Não me faça pergunta difícil. – eu engoli saliva – Estou ainda lidando com tudo, absolutamente tudo o que aconteceu nesses últimos tempos e está sendo difícil para mim. Te ver me deixaria pior.
:- Queria apenas conversar.
:- Você sabe que não. – neguei com a cabeça incomodada, via a sua intenção nos olhos. – Além do mais certas palavras machucam, assim como você está agora Poncho.
:- Não me importo. – ele ignorou o que eu disse, tirando as mãos do bolso. – Eu só queria ter a chance de...
:- Não. Poncho, não. Não merecemos isso. Não merecemos carregar esse peso, estou exausta. Eu trai o meu marido, você tem noção disso? Não, por que nunca se casou, existe muito nisso tudo, temos um filho, uma história, uma vida.
:- Eu tenho total consciência de tudo isso mesmo que não pareça.
E antes que eu pudesse falar qualquer palavra, ele se aproximou e me tomou pela cintura e já sabia o que aconteceria.
:- Não faz isso.. – tentei protestar em vão, num tom muito baixo, mesmo que já encarasse sua boca, antecipando o que viria a seguir.
Ele tomou meus lábios sem falar mais nada, primeiro calmo depois com mais intensidade e com uma mão por trás da minha cabeça e por debaixo do meu cabelo, ele dava mais ação para sua intenção. Tive que jogar a cerveja da minha mão e cruzar um braço em volta do seu pescoço me entregando, não tinha como resistir.
Toda a intensidade e euforia foi acabando e dando lugar a calma até o final do beijo. Que já tinha acabado e nós permanecíamos ainda agarrados um ao outro de olhos fechados, ele foi o primeiro a se mover, colocou suas mãos em volta do meus pescoço e os polegares nas minhas bochechas.
:- Não tenho armas para lutar contra o seu casamento. – ele agora falou calmo, abri os olhos para vê-lo. – Quis te dar um recado, ainda que ele tivesse duplo sentido podendo ser interpretado de várias formas. A música, que eu escolhi. Foi assim que me senti esse tempo que não nos vimos.
:- Eu cantei para você.
:- Eu sei. – ele afirmou com a cabeça para dar mais firmeza. – I don’t wanna miss a thing. – Cantarolou desafinado, e depois abriu um sorriso triste. – Passei alguns meses desmemoriado e você era o que eu tinha, minha conexão com o meu passado, com o que eu sou. Não queria te perder, passei todo esse tempo com medo entre lutar por você e te perder e hoje aqui cheguei a conclusão que não posso lutar por algo que não tenho mais. – com o polegar acariciou meu rosto e eu comecei a enxergar onde ele chegaria. – Você, não é mais minha namorada de faculdade, hoje é uma mulher casada. Só queria te ver novamente para nos despedimos.
Eu soltei um suspiro e abaixei a cabeça antes de puxá-lo para mais perto e abraçá-lo como nunca antes. Ele devolveu o abraço e eu passeava minhas mãos em suas costas.
:- Entendi enquanto cantava que você tinha tomado sua decisão, ao contrário do que pensa, te conheço bem ruiva. Vou respeitar sua escolha e vou me afastar.
Apertei os olhos e o abraço.
:- Não ouse se afastar de mim! – exclamei irritada dando um tapa em suas costas como castigo para ele.
:- O que você quer dizer com isso?
:- Quero você na minha vida, seu chato. Depois de cuidar de você, me dispensa assim.
Senti ele rir e isso me deixou aliviada, ainda que tensa por esse momento que tínhamos. Me afastou de seu corpo.
:- Então somos amigos ainda?
:- Claro que sim. – eu sorri e ele me correspondeu, não perderíamos um ao outro. Ele também parecia aliviado.
:- Então eu vou indo, está rolando uma festa em minha homenagem. – ele deu os ombros e foi se afastando devagar.
:- Poncho?
A ponto de abrir novamente o portão, ele se virou.
:- Nada vai se comparar o medo que eu tive de perder você quando o encontrei machucado. Nada. Eu só quero que saiba que eu gosto muito, muito, muito de você.
Ele sabia que eu gostava muito mais do que poderia dizer, muito mais.
:- Obrigado! Por ter me achado. Posso responder quem sou hoje. Sou Alfonso Herrera cineasta, louco por futebol, com uma família pequena, mas amada. Sou apaixonado por viagens, por câmeras, imagens, pela vida. E por você. – ele deu um sorriso fechado e ficou feliz por me deixar sem graça e abriu o portão e entrou.
Não demorou muito para que eu entrasse também, e logo o vi com alguns de seus amigos sorrindo e conversando. Dei um sorriso e fui para o bar para dar uma variada, pedi um uísque a último da noite antes de seguir com a minha decisão, ao meu lado estava um cinzeiro e vi o charuto de Rodrigo.
Estava na hora.
Segui em direção aos fundos onde só os funcionários do bar tinham acesso, fui chegando ao escritório de Rodrigo e vi que a porta estava entreaberta antes que pudesse bater ou fazer qualquer coisa escutei um ruído.
:- Andrea, não. – escutei a voz do meu marido.
:- Eu sei.
:- Não voltará acontecer... – ele deixou no ar e fiquei surpresa.
:- Eu entendo, foi um descuido nosso e nunca chegou a acontecer antes, vou viajar e me afastar de você. Claro vou manter contato com nosso filho, mas preciso me afastar.
Houve um momento de pausa e eu fiquei quase sem respirar para que eles não soubesse que eu estava atrás da porta.
:- Depois desses anos todos sinto algo especial por você. Eu me sinto confuso por que eu sei que você será alguém especial do meu passado, minha primeira namorada, minha primeira mulher e primeiro amor. Mas, não deu certo e eu segui com minha vida encontrei Dulce e sou louco por ela, eu a amo. – Eu nunca escutei esse tom de voz em Rodrigo.
:- Quando te vi em minha casa com Alfonso, bem próximos, senti ciúmes. Isso é completamente louco, não é possível.
:- Por que não? Acha que não pode gostar de duas mulheres ao mesmo tempo?
:- Não passei por isso antes. Não importa estou falando isso por que acho que precisava saber, já tomei minha decisão, vamos acabar com isso antes que comece. Não vamos contar isso a ninguém, não vou contar a Dulce.
Apertei os olhos e estava cega de ciúmes, estava a ponto de entrar naquela sala e dar um flagra neles. Mas, algo me impediu escutei uma voz de fundo diferente, do bar. Ponderei um segundo e depois dei passos para trás, me virei e fui andando de volta para o bar.
Estava decidida a contar para o meu marido o que tinha acontecido, mas me surpreendo ao descobrir que ele também tinha me traído. Amava o meu marido e estava louca de ciúmes sim, só Deus para saber a vontade de entrar naquele escritório e fazer um grande escândalo.
Só que percebi que não tinha o direito, não depois do que eu fiz. Não que seja tudo olho por olho e dente por dente, apenas alguns fatos não precisam ser mencionados por que não te levará a lugar nenhum. Tanto eu como Rodrigo erramos e optamos por seguir com nosso casamento, era ridículo pensar que eu sabia como ele se sentia.
Quando voltei para a festa vi que agora no palco estava um Poncho bêbado e cantando algum rock do U2 no karaokê.
Escutar sua voz de fundo me fez voltar e sentir fortemente minha ressaca moral. Depois que terminamos nosso namoro, Poncho foi por quase um ano, um idiota comigo quase voltamos nosso namoro, mas ele brincou comigo, me deu ilusões a toa e brigamos. Inclusive ficamos um ano sem se falar até voltar a ser amigos novamente.
Ver que ele hoje estava bem e era um homem maduro, me dava alegria, pensei enquanto o via e lembrava de nossa despedida. Voltei a me encostar no bar onde fiquei bastante tempo e ainda estava o meu uísque e suspirei por que decidi me entregar a minha ressaca moral e provocar daqui algumas horas uma ressaca física.
:- Deseja mais alguma coisa, Dulce? – Maneco atraiu minha atenção.
Voltei minha atenção para o palco onde Poncho estava cantando desafinado as músicas do karaokê, antes de fazer meu pedido.
:- Dos hielos en mi whisky por favor.
Dulce.
¨
¨Fin¨
Dedicado a Vane!
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