Gelo e Cinzas
26 Primeiro
Youko praguejou ao tocar no cabo da kunai. Não daria para remover naquele momento, por isso, apoiando uma mão no chão e outra na árvore, tentou ficar de pé.
— Olha só! — O mais alto dos três riu, apontando a espada para ela. — Nem consegue se levantar. E dizem que ela é a última Yukiryuu. Que decepção!
Os tornozelos latejavam, os pulsos queimavam sob as bandagens e a coxa ardia no menor dos movimentos. E mesmo assim Youko ficou de pé com um olhar assassino para o trio.
— Vamos levar ela viva — disse o segundo homem, um sujeito magro com cicatriz no rosto. — Nedzu quer ela intacta.
— Intacta? — O mais baixo dos três riu, rolando os ombros. — O chefe vai ter que nos perdoar.
— Vocês também vão ter que me perdoar — sussurrou Youko entre dentes. — Estão perdendo tempo. Já estão mortos.
— O que foi que ela disse? — O mais alto franziu o cenho.
— Disse que estamos perdendo tempo — repetiu o mais baixo com um sorriso torto no rosto. — Veremos, gracinha.
— Não. — O magro deu um passo à frente, os olhos estreitados. — Ela disse outra coisa.
Youko não se moveu, esperou o movimento de um deles para reagir. O mais alto avançou com a espada em mãos. Com um impulso doloroso, a kunoichi saltou para trás no instante em que a lâmina passou a centímetros de seu rosto. O segundo homem realizou uma sequência de selos.
— Suiton: Suiryuudan no Jutsu!
Um dragão de água surgiu entre as árvores e avançou rugindo contra ela. Youko não tentou desviar. Levou apenas o braço direito à frente do rosto para se defender. O impacto a lançou vários metros para trás. As costas bateram violentamente contra o tronco de uma árvore, espalhando a neve dos galhos.
Sangue escorreu pelo canto da boca de Youko. Ela sorriu.
— É só isso?
Antes que os homens compreendessem a provocativa, o gelo respondeu ao chakra de Youko. Em um rápido movimento de selos, cristais azulados irromperam do chão como lanças. O primeiro caçador tentou saltar, mas teve a perna atravessada por uma estaca de gelo. Caiu gritando. O terceiro e o segundo recuaram imediatamente.
— Maldita! — Gritou, estridente. — Não deixem ela formar nenhum selo!
Tarde demais. Youko não precisou de nenhum movimento de Jutsu para atacar. O gelo a atendeu instantaneamente com o frio explodiu ao redor da kunoichi.
A neve começou a girar em espiral, formando uma tempestade branca que reduziu a visibilidade. Youko desapareceu dentro da névoa como um fantasma. O primeiro homem mal teve tempo de procurar sua silhueta quando uma kunai atravessou sua garganta. Ele caiu emitindo um som gorgolejante.
O segundo homem engoliu em seco, girando em círculo com sua lâmina em riste, a respiração saindo em baforadas trêmulas no ar. A nevasca criada pelo gelo de Youko engolia o som de seus passos.
— Apareça, sua desgraçada! — ele gritou, a voz revelando o pânico que tentava disfarçar.
Com misto de espanto e compreensão, o segundo notou o sangue que manchava a neve em lugares diferentes, e deu um sorriso sádico. A kunoichi sangrava da ferida aberta da coxa. Os olhos dele seguiam o rastro escarlate na tentativa de localizá-la.
— Te peguei, coelhinho… — ele murmurou, ajeitando a espada na mão.
Com passos cautelosos e a espada em riste, ele começou a avançar em direção onde o sangue acumulava mais densamente. Youko não moveu do lugar, com respiração ofegante e sentindo o gosto metálico do sangue na boca, preparava-se para atacar assim que seu oponente estivesse próximo o suficiente.
Você está fraca, a voz de Itachi soou novamente, alerta. Estava certo. O esforço de utilizar a kekkei genkai cobrava seu preço nos últimos resquício de energia e chakra que restava. O som de uma bota esmagando a neve estalou a menos de um metro dela.
— Acabou pra você… — ele sibilou, mas não terminou a frase.
Com um longo suspiro, Youko se projetou para frente. Sua velocidade chocou seu oponente que não teve tempo para reagir, apenas dando-lhe o breve vislumbre de seus olhos escuros e cansados antes que a kunai, embebida no sangue de seu colega, atravessasse seu esterno. O impacto fez o ar escapar de seus pulmões num engasgo. Ele abaixou os olhos incrédulos para a arma cravada em seu peito.
— Acabou. — sussurrou ela, girando a kunai e a puxando de volta.
O homem cambaleou dois passos antes de cair na neve. O silêncio voltou a reinar e, aos poucos, a névoa, que cobria o local, se dispersou, revelando o sangue e corpos espalhados.
Capengando, a kunoichi dirigiu-se para uma árvore e desabou. A perna ardia em uma dor excruciante. Rasgou parte de sua calça onde a kunai perfurará, avaliando o corte. Era profundo e o sangue saia em profusão, deixando a calça empapada.
— Merda! — praguejou.
Rasgou o tecido de sua blusa e o amarrou acima da ferida com firmeza. Aquilo tinha que servir até chegar em alguma vila ou aldeia. Ignorando a dor, apoiou-se no tronco e ficou em pé. Não seria capaz de pular e correr, fraca e debilitada como estava, mas precisava tomar distância do local antes que os corpos fossem encontrados.
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A fumaça branca que subia aos céus denunciou a presença de um povoado. Do alto da encosta, Youko observou a cidade que se abria entre as montanhas e os pinheiros carregados de gelo. Era grande e movimentada.
Youko puxou o capuz sobre a cabeça. A política de não se esconder já não era uma opção. Pelo menos, não naquele estado de fraqueza, com a voz de Itachi avisando em sua mente todo momento.
Youko teve sorte. A cidade tinha um número considerável de moradores de rua, com roupas mais sujas e maltrapilhos que ela, o que ajudou a não chamar atenção. E caminhando pelas ruas, encontrou um dos cartazes com sua imagem.
Entrou numa estalagem de aspecto miserável, na esperança de comida e acomodações baratas. Os frequentadores não pareciam ter mais dinheiro que ela, e estavam tão péssimos quanto.
— Olá! — a voz feminina revelou uma jovem mais nova que Youko. De avental e segurando uma bandeja nas mãos, a jovem sorriu ao se aproximar da kunoichi. — Seja bem-vindo!
— Preciso de ajuda — apontou para a perna. — Teria como me ajudar com água quente e algo pra limpar essa ferida?
— Nossa! — A jovem ficou boquiaberta. — Isso tá muito feio! Olha, tem um médico aqui perto. Se você tiver dinheiro, posso chamá-lo para te ajudar.
— Tenho.
— Ótimo, venha comigo! — Youko a seguiu para o andar de cima, onde ficavam os quartos. O oferecido a ela era simples, mas confortável. — Pode se sentar na cama. Deseja comer alguma coisa enquanto chamo o médico, senhor?
— Sou uma mulher. — Sua voz saiu soturna. — E gostaria de comer alguma coisa.
Enrubescida pelo erro, a jovem saiu do quarto pedindo desculpas e com a promessa de que logo traria o médico. Youko aproveitou o momento a sós para analisar melhor o corte. Tocar no tecido que sujo que grudava na pele lhe causava dor aguda. Seis pontos, pensou, avaliando o comprimento da ferida. Com dificuldade, pôs-se de pé e rumou até a janela. A cidade era bem movimentada e barulhenta… surpreendentemente viva apesar dos horrores do Conclave. O aroma de comida que subia das ruas fez seu estômago roncar em protesto.
— Por aqui, doutor, por favor — a voz da jovem tomou a sala, assim como o cheiro de comida.
Youko virou para eles, mas estagnou quando seus olhos focaram no homem que acabava de entrar. A roupa era diferente, mas o cabelo branco e os olhos azuis eram inconfundíveis. O mesmo homem que havia tocado seu corpo, marcado sua pele com agulhas e choques.
Shiro.
Com uma maleta na mão, o homem parou na porta. Seus olhos percorreram a perna ensanguentada de Youko, mas quando focaram no rosto por debaixo do capuz, deu um sorriso de canto, sinistro. A kunoichi cerrou os punhos com força.
A jovem, alheia à tensão que habitava aquele quarto, deu um sorriso tímido.
— Vou deixá-los a sós. Já trago sua comida. — Disse, dando meia volta e fechando a porta.
Os olhos dos dois estavam fixos. Youko tensa, levando a mão ao cabo da kunai. Shiro despreocupado, pondo a maleta sobre a cama.
— A vida é engraçada, não acha? — Abria os fechos metálicos da maleta. — Sabia que íamos nos encontrar algum dia, mas não num quarto de uma pousada de esquina. — Então passou a mão sobre o forro acolchoado da cama. — Sente falta de ficar amarrada a uma cama?
Youko não reagiu, mas isso não impediu de apertar com mais força o cabo da kunai. Tampouco de seu estômago gelar com as lembranças.
— Você matou bons homens aquele dia. — Disse, pegando um frasco pequeno e algodão. — Nedzu ficou furioso. De menina dos olhos para uma desgraçada.
— Você matou seus homens! — Esbravejou. — E tantos outros inocentes… Guarde suas coisas. Não precisará mais delas a partir de hoje.
Shiro levantou o olhar com um sorriso sádico.
— Por quê? Lá embaixo há soldados me esperando. E com essa ferida, com esse rosto procurado por todos os lados, com Nedzu te esperando… Acha que vai me matar?
Youko não piscava. Tinha em mente o que fazer e para onde fugir. Rápida, retirou a kunai de sua bainha e ignorando a dor latejante, avançou para cima de Shiro. O homem se afastou da cama, tentou chegar à porta, mas Youko foi mais rápida. Antes que a mão dele alcançasse a maçaneta, ela passou o braço por seu pescoço, o apertando contra ela. Ele se debateu.
— Seria delicioso ouvir seus gritos. — A voz de Youko era tranquila contra a orelha dele, enquanto pressionava a arma no pescoço. — Te amarrar e humilhar. Fazer você sentir o que eu senti. E entregar pro seu chefinho preguiçoso seus pedaços.
Shiro arranhava o braço de Youko na vã tentativa de se soltar. Do lado de fora, era possível ouvir passos na escada. O desejo de pagar com a mesma moeda toda humilhação se chocou contra a urgência da realidade. A menina iria subir com seu almoço.
— Desgraçada — A voz de Shiro saiu engasgada.
Com um movimento rápido e desprovido de qualquer hesitação, Youko cravou a kunai com toda a força na lateral do pescoço dele, girando a lâmina antes de puxá-la de volta em um arco perfeito. O sangue irrompeu em um jato espesso e quente, sujando parede, móveis e chão.
O homem desabou, as mãos convulsionando uma última vez antes de ficarem inertes na poça vermelha que se alastrava. Houve uma batida suave na porta e o girar da maçaneta.
Sem perder um segundo sequer, e ignorando o fogo que ardia em sua coxa, atirou-se para fora da janela. Seu corpo caiu sobre o telhado coberto de neve, rolou pela inclinação e desapareceu entre as casas e becos antes que o primeiro grito pudesse ecoar pela pousada.
Shiro estava morto. Agora, restavam Nedzu e todo o Conclave.
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