Gelo e Cinzas
27 Não Depois de Tudo
A cidade até então barulhenta com suas atividades cotidianas foi tomada por apreensão e por um medo palpável. O assassinato na estalagem correu pelas ruas como fogo, fazendo com que a população se escondesse em suas casas. O gentil médico que estava de passagem pela cidade fora cruelmente assassinado. O algoz? A mulher do cartaz colado nas paredes.
Embora a autoria do crime fosse conhecida, isso não impediu que a jovem da estalagem fosse arrastada e tratada como cúmplice. Youko estava longe, se arrastando como podia, para saber das consequências de suas ações.
A capital estava perto, e lá encontraria Nedzu e Yamato. Lá poria fim em tudo. Parou sua caminhada. Não estava longe o suficiente da cidade, e os ninjas do Conclave estavam em seu encalço, mas sentia que se não descansasse pelo menos um pouco não teria mais força para continuar. Sentia o corpo quente e a visão nublada. Um sinal óbvio de febre.
Não tinha nada consigo que pudesse aliviar, mas conhecia bem as árvores e folhas que poderiam aliviar minimamente sua dor. Por isso, ao passar os olhos por aquelas árvores, não hesitou em tirar um pedaço da casca de uma bétula. Sentada sob a árvore, desamarrou o pano que usava para estancar o sangramento. Colocou a casca sobre a ferida aberta e, cerrando os dentes com força para abafar um gemido, voltou a apertar o tecido em volta da coxa.
— Ótimo... — murmurou.
Levou então um punhado de neve à boca. O frio quase queimou sua boca, mas engoliu mesmo assim, tentando aliviar a secura na garganta. Finalizado o breve descanso, pôs-se de pé. O fim da sua jornada não estava tão longe.
A princípio, avançou devagar, apoiando-se nos troncos sempre que a perna ameaçava falhar. Aos poucos, porém, encontrou um ritmo que conseguia sustentar. A capital e o Conclave estavam à frente. E Yamato poderia estar em algum lugar além daquelas montanhas. Ela não tinha tempo para sentir dor e não tinha tempo para pensar em Itachi. Ou, pelo menos, era isso que repetia para si mesma até ouvir algo na mata fechada.
O som de galhos e conversa a fez retesar em sua caminhada. Agachou-se contra sua vontade, vendo estrelas com a força que aplicava na coxa machucada. Mas não podia brincar com a sorte que já não lhe era bem quista.
Mas em meio à nuvem excruciante de dor, as vozes por um momento lhe pareceram familiar. Aproximou-se, cautelosa e a passos curtos. Esticou o pescoço para ver melhor o que considerava ser uma brincadeira de seu cérebro cansado. Entretanto, entre os pinheiros cobertos de neve, estavam Kisame e Itachi.
Seu corpo inteiro tremeu. A dor continuava latejando pela perna, mas foi abafada por uma onda de fúria tão súbita que quase lhe roubou o ar. Eles estavam ali, não na capital, não enfrentando o Conclave. Ali, diante de seus olhos, quase como um sonho febril. Kisame estava agachado diante de uma pequena fogueira. Itachi estava encostado no tronco de uma árvore de braços cruzados.Pareciam tranquilos. Despreocupado depois de tudo. Depois de terem partido sem acordá-la. Depois da noite que havia compartilhado com o Uchiha.
Youko sentiu a mandíbula se contrair e fechou a mão lentamente ao redor do cabo da kunai.
Ignorando a perna ferida, a kunoichi reuniu o último resquício de energia e disparou contra eles. A dor explodiu pela coxa no instante em que impulsionou o corpo, mas ignorou. Correu, a neve subindo com seus passos rápidos. E Itachi foi o primeiro a perceber.
Seus olhos ônix se abriram ligeiramente ao reconhecer a figura que surgia entre as árvores. Kisame já estava de pé, a mão na Samehada, ciente dos passos desajeitados que se aproximavam de pressa.
— Youko… — sussurrou o Uchiha, a reconhecendo.
Ela não respondeu. Atravessou a distância que os separava em segundos, a kunai erguida. O golpe foi desajeitado, alimentado por raiva e exaustão. Itachi desviou apenas o suficiente para que a lâmina passasse raspando por seu ombro, cortando o tecido do manto. Ele não contra-atacou. Apenas fitou os olhos cheio de ódio, o rosto manchado, o cabelo desarrumado.
— Você está machucada — disse ele,num misto de surpresa e constatação, olhando de cima a baixo notando cada detalhe.
— Você me deixou! — A voz de Youko saiu rouca, trêmula de raiva e febre. A kunai ainda estava erguida, os dedos trêmulos ao redor do cabo. — Você me deixou para trás! Teve o que queria e fugiu!
— Youko...
— Não! — Ela usou o antebraço para bater no pescoço dele com força e o prender contra a árvore. — Você disse que ia ficar. Disse que ia lutar comigo. — A voz dela quebrou, e as lágrimas que ela jurara não chorar mais finalmente caíram. — Eu disse que não queria ficar sozinha. Eu confiei em você, Uchiha!
Levou a ponta da Kunai ao pescoço do Itachi, que não se moveu, tampouco mostrou-se abalado. Youko olhou de esguelha para Kisame a suas costas. O espadachim tinha os braços cruzados.
— E olha onde encontro vocês… Tão perto do Conclave. — O olho com um esgar. Sua respiração estava pesada. — Enquanto vocês estavam aqui descansando... Eu estava lutando. Eu matei homens do Conclave. Matei o Shiro. E sozinha.
Ela finalmente o soltou com brusquidão. Deu dois passos para trás sem desgrudar os olhos dele. A perna quase cedeu. Youko conseguiu permanecer de pé, embora precisasse cerrar os dentes para esconder a dor.
— Pelo visto — disse, erguendo o queixo olhando de um para o outro — não preciso de vocês.
Kisame soltou um assobio baixo.
— Pesado isso aí, princesa.
Virou-se de supetão para Kisame, dardejando um olhar furioso para ele. O rápido movimento fez a perna falhar por um instante. Chiou de dor.
— Veja como está machucadinha, princesinha… Precisa de ajuda com essa perna?
— Cala boca! — Rugiu, lançando a kunai em direção ao espadachim, que desviou com precisão. — Voltem para akatsuki! Não preciso mais de vocês. Aproveitem que…
— Youko — Itachi a chamou, ríspido.
— Cala a boca! — gritou com fúria, cerrando os olhos. — Saiam de Yukigakure enquanto ainda há tempo.
— Você não vai chegar a lugar nenhum assim, Youko — disse ele, seus olhos até então preocupados e surpresos com ela agora sérios. — O ódio pode ter te trazido até aqui, mas não vai te carregar pelo resto do caminho.
Youko o olhou enojada.
— Você não sabe de nada. Sumam daqui!
Youko virou nos calcanhares e capengando, saiu do local.
— Não era pra você ter saído — começou Itachi. — Era pra ter continuado com Tanaka até se recuperar. Você está fraca, Youko.
Youko levou as mãos aos ouvidos, cerrando os olhos com força. A voz de Itachi a atormentou com aquela maldita frase e agora ouvia nitidamente da boca dele.
— Cale a boca, Uchiha! — virou-se para ele. — Você me deixou sozinha. Sabe como senti quando acordei e descobri que você e Kisame tinham ido embora? — capengou até ele, sustentando o olhar furioso. — Sabe, não me importaria se não tivesse dormido comigo. Se não tivesse se aproveitado.
Ele piscou.
— Eu não me aproveitei. Jamais faria isso.
Ele deu um passo na direção dela. Youko recuou imediatamente.
— Não chegue perto!
Itachi parou.
— Você estava exausta. Ferida. E tinha passado a noite inteira tentando convencer a si mesma de que morrer era a única coisa que podia fazer.
— Isso não justifica! — Youko cuspiu, o peito arfando violentamente enquanto a febre a queimava e a raiva borbulhava em seu estômago. — Isso não justifica você ter sumido! Não justifica você ter feito eu acordar sozinha! Não justifica você ter me feito acreditar que….
— Que o quê? — Itachi interrompeu, a voz subindo um tom. — Que eu me importava? Que eu não queria te perder?
— Sim! — Ela cuspiu a palavra como se fosse veneno. — Exatamente isso!
— Então você não me conhece.
— Eu te conheço o suficiente para saber que você foge! — Youko deu um passo à frente, a dor esquecida por um instante. — Você foge de tudo que é bom! De tudo que é real! De tudo que pode te machucar! Você fugiu de Konoha, fugiu do seu clã, fugiu do seu irmão, e agora fugiu de mim!
— Você acha que eu escolhi isso? — A voz de Itachi finalmente se quebrou. — Acha que eu queria ter que matar minha própria família? Que eu queria ter que abandonar Sasuke? Que eu queria ter que te deixar naquela casa enquanto você dormia?
— Então por que fez?! — Youko berrou. — Por que fez isso comigo?
— Porque eu não consigo perder você! — As palavras explodiram dele como um golpe, e até Kisame, que observava em silêncio, ergueu uma sobrancelha. — Porque se eu tivesse ficado, se tivesse visto você acordar, se tivesse te segurado e deixado você ir para a capital sabendo que você ia morrer... eu não ia aguentar.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Youko ficou imóvel, os olhos arregalados, a respiração presa.
— Você... — a voz falhou. — Você não pode...
— Não posso o quê? — Itachi deu um passo à frente, e dessa vez ela não recuou. — Não posso querer te proteger? Não posso fazer a única coisa que sei fazer para garantir que você continue viva?
Youko engoliu em seco, e permaneceu calada, com o peito arfando surpresa e mortificada demais para dizer qualquer coisa.
— Você quer que eu fique? Então eu fico. Você quer que eu lute? Então eu luto. Só não diga que quer morrer a todo momento quando ainda há muito para viver. — Ele estava tão perto agora que ela sentia a respiração dele contra seu rosto. — Não depois de tudo.
Seus olhos encaravam o de Itachi estupefata, com as lágrimas escorregando sozinhas.O silêncio despencou sobre a clareza na neve, pesado e sufocante. As palavras dele caíram como chumbo derretido, expondo a verdade crua. O ar parecia rarefeito demais, carregado por um sentimento que nenhum dos dois tinha permissão para sentir, mas que agora era impossível de ignorar.
Foi então que um som seco e intencional cortou a tensão. Kisame limpou a garganta de forma exagerada, recostando-se contra uma árvore com um sorriso de canto que misturava tédio e puro divertimento.
— Nossa... — a voz de Kisame cortou o silêncio, o espadachim sustentava um sorriso irônico. — Que belo momento romântico para uma discussão depois de treparem. É por isso que prefiro as mulheres do distrito da luz vermelha; elas não fazem perguntas e não esperam que você volte. Mas, antes de vocês decidirem quem vai morrer agora ou depois, acho que cuidar do rombo na perna da princesinha deveria ser prioridade
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