Gelo Negro
3 Capítulo III - E agora?
Acordei depois de dormir bastante em minha minúscula cama. Levantei e fui até o salão, onde o café da manhã esta sendo servido.
— Bom dia. — Disse sorridente, mas ainda com olheiras pesadas, aos meus colegas.
— Bom dia, Riza. — Nevra disse sorrindo — Por favor, sente conosco.
— Bom dia. — Valkyon e Ezarel falaram secos.
Após um silêncio um pouco constrangedor, Ezarel resolveu abrir a boca.
— Como era a vida de princesa?
— Eu não acredito nisso. — Nevra automaticamente parecia querer jogar a xícara quente de chá em Ezarel.
— O quê? É uma pergunta simples.
— Tudo bem — Eu ri — Era muito chata.
— Como pode ser chata? — Ezarel estava indignado.
— Ah, seguir ordens o tempo todo, não fazer o que tinha vontade, etc.
— Mas sendo rainha não mudaria?
— Rainhas não têm tanto poder assim. Quem manda é o rei. Sendo rainha eu não poderia estudar ou praticar magia.
— Você fez bem em ter desistido. Você parece feliz na enfermaria. — Valkyon finalmente falou.
— Sim, eu também acho.
O tapa que Häns deu em meu rosto na noite anterior, hoje, estava um pequeno hematoma roxo na minha bochecha. Os rapazes pareciam muito querer perguntar sobre isso.
— Eu sei o que estão pensando. Ele era uma pessoal cruel.
— Por que teve que se casar com ele? — Nevra perguntou.
— Ele era um lorde importante no sul. Juntando nossos reinos iria aumentar drasticamente nosso comércio.
— Seus pais não viam como ele te fazia mal?
— Eles faziam pior. — Respondeu amargamente.
A conversa tomou um rumo desconfortável.
— Vocês não precisam saber disso agora. — Tentei mudar o assunto.
— Você tem razão. — Valkyon.
Quando acabamos de comer, os rapazes foram se levantando.
— Riza? — Nevra me chamou.
— Oi?
— Quer sair comigo? — Ele perguntou.
Valkyon e Ezarel surpresos com a cara de pau.
— Claro. Quem sabe. — Fiquei muito feliz com o convite!
— Eu não acredito que você teve coragem... — Ezarel falou a si mesmo enquanto ia embora.
[...]
Nada de muito diferente aconteceu até o final deste mês, tirando o fato de que toda Eel já sabia do que aconteceu entre mim e Häns. As fofocas correram muito rápido. Apesar disso, Ewelein continuou me tratando bem como sempre tratou. Alguns pacientes se recusaram a serem atendidos, mas eu entendo. Enquanto isso, eu fiz amizade com mais pessoas da guarda, como o Nevra e o Ezarel. Já algumas pessoas não falavam mais comigo, como a Ykhar.
Eu estava saindo da enfermaria quando dei de cara com o Nevra.
—Oi! — Eu disse rápido.
— Oi. Está ocupada?
— Não, estou saindo agora.
— Então, quer conhecer o resto do vilarejo? Também estou livre. — Ele perguntou me dando o braço para que o segurasse.
— Claro, eu adoraria. — E eu segurei.
Caminhamos pela vila de Eel e conheci a Cerejeira Centenária, o riacho e as casas. Os moradores não pareciam muito contentes comigo caminhando perto de suas moradias.
— Soube que você é um mulherengo. -Debochei.
— Eu? Que nada. Eu só acho que toda mulher é bela do seu próprio jeito. — Ele disse rindo.
— Você precisa ir pra cama com elas pra descobrir isso?
— Ha ha, muito engraçado. Mas saiba que a maioria implora por uma noite comigo e não consegue.
— Você é muito exigente? — O provoquei.
— Digamos que eu não gosto de ir pra cama com qualquer uma.
— É bom saber disso.
— Sim, inclusive, você não é qualquer uma.
— Ou seja? — Eu ri de vergonha.
— Se você quiser... — Falava rindo a cada palavra.
— Sei.
— Por quê? Está interessada?
— Eu também tenho minhas exigências, Nevra. — Pisquei para ele.
Fomos interrompidos por uma garota mais nova, aproximadamente com uns 16 anos, de cabelos preto e rosa. Ela olhou furiosa para Nevra e em seguida para mim.
— Você está mesmo se envolvendo com a daemon?
— Karenn, não fale coisas que não sabe. — Ele disse rígido.
Eu não entendi quem ela era.
— Achei que você tivesse mais cuidado. Parece que você realmente faz qualquer coisa pra dormir com alguém.
— Por acaso você a conhece?
— Eu não quero conhecê-la.
— Com licença, irei deixá-los a sós. — Me retirei rápido. Os dois pareciam ter problemas a resolver.
Voltei ao meu quarto. Um pouco depois, alguém bateu na minha porta.
— Oi, me desculpe por isso. — Nevra comentou.
Fui até a porta e abri. Ficamos cara a cara.
— Quem era ela?
— Minha irmã. Ela anda preocupada comigo desde que soube que eu e você ficamos amigos.
— Eu entendo. Ela deve ter seus motivos.
— Sim, mas eu falei para ela não te julgar assim. Acho que todos esquecem que você também é meio elfa.
— Bom, não acho que isso mude muita coisa, ha ha.
Após uma breve conversa, Nevra pareceu tímido por um instante.
— Sobre o que você disse mais cedo... Suas exigências.
— Boa noite, Nev. — Eu ri e fechei a porta.
Que homem apaixonante...
Madrugada, acordei e levantei um pouco da cama. Fui até a biblioteca estudar um pouco quando vi Nevra dormindo sobre um sofá, com a cabeça apoiada numa almofada. Estava com um livro na mão e deve ter pegado no sono enquanto lia.
Tirei o livro de suas mãos e o coloquei na mesa ao lado. Senti vontade de retribuir a sua gentileza, então sentei ao seu lado e lhe roubei um beijo.
— A exigência é me amar. — Sussurrei.
Levantei e fui deitar. Antes, peguei dois livros para ler enquanto pegava no sono.
[...]
Acordei com um dia belíssimo ensolarado. Mais um dia de trabalho. Li mais do que dormi, mas não fiquei cansada. Arrumei os livros para devolvê-los a biblioteca.
— Bom dia, Ykhar. — Ela cumprimentou.
— Bom dia. — Ela me respondeu seca. Ela ainda não queria falar comigo.
— Peguei esses dois volumes.
— Eu vi, você deixou um recado na mesa.
Ao colocá-los na prateleira, a Ykhar me chamou.
— A Miiko estava te chamando.
— Certo, obrigada.
Eu saí desconfortável e encontrei Nevra.
— Por acaso você está me seguindo? — Brinquei.
— Ora, ora. Bom dia. — Ele sorriu em troca, malicioso.
— Posso saber o motivo desse sorriso? — Também sorri.
— Nada, eu só adoro ser beijado... Enquanto tiro um cochilo. — Disse próximo ao meu ouvido.
— Um presente. — Sorri envergonhada e continuei meu caminho.
Uma, duas três, quatro horas. Deu o horário de almoço e fui em direção ao salão. Almocei sozinha. Quando saí, encontrei com o Ezarel.
— Riza, venha. Você precisa participar da reunião. — Ele disse sério.
Eu? O que será que querem comigo?
— Riza — Miiko disse, preocupada — Por favor, sente-se. Te explicaremos tudo.
— O que aconteceu?
— Bom, resumindo: um homem que se nomeia Ashkore tenta destruir a Guarda há muito tempo. Não sabemos quem é e nem o motivo dele, mas acabamos de achar uma carta dele. Estava aqui mesmo, na sala do cristal.
— Como ele entrou aqui se ele é nosso inimigo?
— Não sabemos. Ele sempre aparece dentro da Guarda. Nós suspeitamos que ele seja alguém daqui infiltrado ou que tenha um parceiro aqui dentro, mas já estamos investigando isso. Por hora, o que queremos falar é o seguinte... — Miiko pegou a carta para ler — “A garota do norte não é quem vocês pensam ser. Ela os enganou uma vez, e engana novamente.”.
— Eu não o conheço.
— Eu sei, eu acredito em você. Riza, ele tentará fazer algo com você, temos certeza disso. Por isso, fique atenta. Ele usa uma máscara preta de dragão, lembre disso.
— Tudo bem, eu avisarei se ver algo.
Saí confusa e esbarrei em uma menina baixinha de cabelos prateados.
— Você é a Riza?! — Ela disse empolgada.
— Sim. — Eu respondi a segurando pelos braços.
— Ai, pelos deuses...! — Ela rapidamente arrumou o cabelo, que estava para cima — Meu nome é Alajéa. O Ezarel me disse para procurar você mas só te achei agora.
— Ah, desculpa! Eu estava com ele em reunião.
— Tudo bem! Eu também sou da Absinto e ele me disse que ia falar com você a respeito das... Aulas.
— Aulas? — Não entendi... Que aulas?
— Ah! — Falando nele... — Vocês já conversaram?
— N-Não! Eu acabei de achá-la... — Ela disse isso extremamente envergonhada.
— Alajéa... Eu falei com você ONTEM! — Nossa, ele explodiu! — A Riza fica na ENFERMARIA!
— Enfermaria...? Caramba, eu entendi marcenaria...
— Nós nem temos uma marcenaria! — O Ez parecia querer bater nela com alguma coisa. Por sorte não tinha nada em mãos...
— O que é tão importante assim? — Eu perguntei tentando evitar que o Ezarel pulasse na menina.
— Eu quero que você dê algumas aulas de poções para a Alajéa. Ela é péssima.
— Ezarel! Não fale assim. (Que rude!)
— Ela sabe que é fato. Bom, se puderem começar logo. — Ele saiu olhando feio para ela.
— Então... Alajéa. — Eu me virei para ela.
— Desculpa, ele tem razão... Eu sou horrível... — Ela disse envergonhada.
— Não há nada que não se possa aprender. Vamos. — Sorri para ela e fomos para o laboratório.
Ficamos lá por umas horas. Ela de fato não sabia muitas coisas básicas e eu tive que ensiná-la do zero. Já estava de noite quando o Nevra entrou no laboratório para falar conosco.
— Meninas. — Ele entrou, galanteador como sempre. Ele fixou os olhos em mim e eu nele.
— Boa noite!! — A Alajéa quase gritou na empolgação. Ela parecia muito feliz em vê-lo.
— Boa noite, Nev. — Eu sorri para ele.
— Eu preciso de uma poção. Ela tem esse nome impronunciável aqui. — Ele me deu um papel com o nome escrito.
— Oh... Acho que temos guardado.
Eu levantei e fui buscar a poção que o Nevra pediu. A Alajéa me olhou desconcertada e acho que ela pensou que eu não confiaria nela para isso. Achei a poção e a levei para as mãos dele.
— Aqui está.
— Ótimo. Inclusive, como se pronuncia?
— Ghjukrielinghte.
— Nossa, cuidado. Falar isso a noite deve invocar alguma coisa.
— Só uma Riza furiosa. — Eu falei cruzando os braços. Ambos rimos.
Não me arrependo de ter roubado um beijo do Nevra. Ele parece ter adorado, pelo modo que me olhava. Depois de batermos um papo idiota, ele se despediu de nós e eu voltei a aula com a Alajéa. Após um pouco mais de estudos, fomos jantar. Conversamos rapidamente sobre as poções e eu fui dormir. Estava exausta. Tomei um banho e deitei na cama. Apaguei no mesmo instante.
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