Aquela mulher sempre teve grandes ambições, mas essas ambições estavam escondidas até mesmo dela.

Quando criança ela adorava brincar com todas as crianças, meninos e meninas, ela corria e jogava bola com os meninos ao mesmo tempo em que ela tinha suas bonecas e um kit cozinha completo.

Ela sonhava com príncipe encantado e com filhos, mas enquanto não vinha ela foi estudar, ela vivia em busca da casa bonita, do marido tradicional e dos filhos, mas o mundo parecia estar contra ela e em meio a isso ela se tornou independente, não precisava de ninguém para conseguir o que queria, não era rica, mas possuía condições de viver em conforto, tinha acesso a boas comidas, entretenimentos, bom emprego, boa família, tudo o que podia se imaginar.

Sem luxo, mas com conforto.

Ela conseguiu o que muitas queriam, mas não o que ela queria, ela era motivo de inveja pelo sucesso e independência, mas ela tinha inveja das demais pelo o que elas tinham. E talvez fosse por essa razão que ela não era uma pessoa de muita fé. Ela acreditava em algo superior, mas não ia aos templos louvar seres que não havia provas que existiam.

Nada além dela mesma poderia ajuda-la, era assim que ela pensava e talvez fosse por isso mesmo que Moirai escolheu ela para se comunicar, afinal se ela compreendesse, se ela aceitasse, se ela acreditasse, porque os demais seres não iriam?

Ele observou aqueles seres por anos e anos, várias gerações, e ele a viu durante toda sua vida.

Moirai apareceu para ela em sonhos, e levou uns bons meses para que ela procurasse ajuda. A psicologia não lhe ajudou muito, não havia nada que ela precisasse conhecer de si mesmo para explicar os sonhos.

Ela buscou com compreensão sozinha, e em sua busca Moirai ficou ainda mais admirado, seriam todos os demais seres assim? Tão autossuficientes e questionadores?

Foi nesse momento que ele decidiu se materializar mesmo contra a vontade dos demais pedaços.

A reação dela foi até que previsível, a descrença. Depois foi questionar sua própria sanidade, depois foi questionar os demais de forma discreta se não havia errado ou diferente, e só então veio a aceitação e ela falou com ele pela primeira vez.

“Quem, ou melhor, o que é você?”

Moirai procurou qual seria a melhor voz para falar com ela, e a conhecendo como ele a conhecia, ele escolheu uma voz masculina, grave, mas tenra, num tom que ele sabia que ela não só ouviria como também iria a vir respeitar.

“Sou Moirai.”

“Moirai filho de Chronos? Eu estou louca...”

“Sou filho na concepção de sua espécie. Eu sou um pedaço de Chronos, vim dele, assim como ele veio do Primeiro de todos nós... assim como você veio de sua mãe, que por sua vez veio desse planeta, que veio de pedaços do Primeiro. No fim, somos todos irmãos.”

Ela olhou para ele com um rosto cheio de suspeitas, andou até a cozinha, puxou uma cadeira e se sentou.

“Já ouvi essa história quando criança, não adianta vir com essa, eu não acredito nisso, é impossível que tenhamos vindo de um só lugar.”

“Então como explica sua existência?”

Ela ficou quieta por um tempo, respirou fundo e disse: “Não sei explicar, assim como explicar a razão de muitas coisas, mas não preciso saber para viver plenamente e não preciso louvar nada para justificar as lacunas no meu conhecimento.”

“E ainda assim está aqui conversando comigo. Ainda me acha um fragmento da sua psique?”

“Eu tentei várias coisas para fazer você sumir, e já que nada funcionou decidi falar diretamente contigo. Se eu lhe convencer que você não é nada além de uma ilusão você irá embora.”

“Isso só provará que você é louca.”

“Todos somos um pouco loucos, o importante é você sumir e me deixar viver minha vida normalmente.”

Para provar ainda mais sua existência, Moirai puxou uma cadeira e sentou-se de frente para ela, que arregalou os olhos e segurou a respiração por alguns segundos.

“Se sou algo de sua mente, como posso estar aqui, interagindo com o ambiente.”

“Meu problema deve ser muito maior do que eu imaginava.”

“É tão difícil assim acreditar que eu queira conversar com você?”

“Mesmo que eu por um instante viesse a acreditar em você, ainda não faria sentido você vir falar comigo em meio a tanto gente.”

“Por quê?” Moirai estava curioso com tal afirmação.

“Eu não acredito em você! Eu não acredito que o mundo surgiu de um de vocês e que vocês são divinos ou coisas do tipo, eu não vou aos templos, eu não sei as orações, a minha vida inteira eu ignorei vocês. Em um mundo com tantos fieis porque eu?”

Moirai sorriu “Justamente por isso, nós não somos divinos, não pedimos templos, nem orações. Você não esta cega ao que foi dito sobre nós, por isso você pode compreender melhor. Se eu surgisse frente a um deles tudo o que causaria é comoção e não questionamento, e somente questionamento leva a compreensão”

Ela sorriu, seus olhos brilharam e Moirai apesar de milenar se comparado a ela, ainda era um criança perto dos seus semelhantes, uma criança admirada por aqueles pequenos e frágeis seres, tão admirado que se via incapaz de ver o lado ruim deles.

“Meu nome é Elena.” Ela disse sorrindo, se erguendo estendendo a mão, olhando nos olhos Moirai, firme e forte, convicta. Ela sempre fora uma pessoa ambiciosa, mas aquela ambição estava escondida até mesmo dela e Moirai sem saber estava abrindo os olhos delas para essa ambição.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.