Gato Vira-lata
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Boa leitura~
Quarta-feira Emi tinha encontro do Conselho Estudantil no intervalo, então para passar o tempo fiquei passeando pelo pátio. Fiquei encarando um dos prédios da escola, quão era possível enxergar daquela altura? A vista deveria ser linda. Consultei o relógio, ainda tinha 15 minutos antes das aulas recomeçarem, então entrei na escola.
Estava absorto em meus pensamentos até que me esbarrei com alguém no meio do corredor.
- A desculp...
Teria terminado a frase, mas percebi com quem eu havia me esbarrado.
Kimura me encarava com um olhar de morte, diferente dos olhares que ele costumava me lançar. Perdi o fôlego quando notei que uma faca afiada repousava em sua mão.
Fiquei sem reação, não sabia se eu perguntava o porquê da faca, se tirava das mãos dele, se falava com um professor, ou se eu seguisse meu caminho fingindo que não vi. Podia ser uma dessas opções, menos sair gritando por aí sobre a faca, vai que ela acabasse parando em meu pescoço?
E o olhar de Kimura me confirmou tudo: “não se atreva a contar a ninguém, se você gosta de viver.”
Então ele escondeu a faca com o cabo enfiado nas calças cobrindo a parte afiada com a camiseta do uniforme e saiu da escola pelo portão da frente. Fiquei parado por um tempo sem saber o que pensar. Bem, eu não ouvia nenhum gemido de dor vindo do corredor, nem sangue, nem sinal de que alguém tenha se ferido com uma faca, o que indicava que aparentemente tudo estava bem.
Queria ir atrás de Kimura, mas ele já estava fora do meu plano de visão. Não tinha muito que fazer naquele momento, então eu continuei o meu percurso até o terraço da escola.
Pode parecer estranho eu continuar fazendo aquilo que eu estava fazendo depois de uma coisa dessas, mas o que eu poderia fazer? Não tinha provas de que o Kimura trouxera objetos cortantes para a escola. Era inútil avisar para alguém sem provas.
Não foi difícil chegar até o topo do prédio, só não esperava encontrar mais conhecidos. Ele estava encostado na barra que separava o terraço da escola com o nada. Encarava algo em sua mão, algo tão pequeno a ponto de só notar o que era quando Nekojima começou a brincar com o objeto jogando-o para o alto: uma pílula.
Não tinha como eu sair de fininho, ele já havia notado a minha presença. Ficou me encarando, depois pousou o olhar para pílula, aquilo podia ter levado alguns segundos, mas para mim foi uma eternidade. Finalmente ele saiu do transe e jogou a pílula mais uma vez para cima, virou a cabeça em direção ao céu e a pílula caiu perfeitamente em sua boca.
- Ahn, o que era a pílula? Um remédio? – Perguntei, me aproximando.
Depois de engolir, um sorriso torto e um olhar de cafajeste formaram-se em seu rosto.
- Desculpe pela grosseria, mas já sendo, isso não é bem da sua conta.
- Ah, foi mal – disse eu pousando meus braços na barra do terraço, fazendo com que nós dois ficássemos de costas um para o outro. Eu observava a vista que aquele terraço podia dar: os alunos lá em baixo pareciam formigas, umas ruas mais adiantes, e mais ainda florestas e montanhas, somando isso a uma brisa fresca que batia em meu rosto com suavidade. Aquilo relaxava qualquer um, até Nekojima, que suspirou e deslizou as costas até sentar no chão do terraço, encarando a porta na qual eu havia entrado.
- Desculpe.
- É, eu já ouvi isso.
- Veio aqui pra que? É estranho não te ver acompanhado com aquela ruivinha.
- É, a Emi teve reunião do Conselho Estudantil hoje.
- Ah...
- É aqui onde você costuma ficar no intervalo? Não te vejo lá em baixo com o resto dos alunos.
- Sente minha falta, é? – perguntou Nekojima, meio rindo.
Senti meu rosto ficar um pouco quente.
- Não! Eu apenas nunca te vejo no intervalo... e você ainda chega atrasado e quando te vejo no píer, você está sempre murmurando frases, recitando poesias... você só é meio enigmático sei lá...
Ok... eu NÃO planejava falar tudo aquilo, as palavras simplesmente foram saindo da minha boca a medida que sentia meu rosto ficar mais quente.
Ele ficou me encarando do chão, com uma das sobrancelhas levantadas.
- Você nota que recito poesias no píer?
- Claro! Digo... não tem como não notar...
- É que é estranho, ninguém nunca pareceu notar ou ouvir o que eu falava. Há pessoas lá que me conhecem há anos e nunca notaram isso, você deve ter bons ouvidos, hein.
Tá, agora meu rosto devia está parecendo um pimentão.
- T-Talvez eles nunca contassem que viam você falando essas coisas.
- É... pode ser...
Aquele momento de silêncio repentino voltou até que senti algo encostando em minha perna. Sentia os cabelos dele roçando minha pele por cima da minha calça e meu corpo estremeceu.
- Que é que você tá fazendo, Nekojima?
- Só estou cansado, e sua perna é boa de encostar.
- Você é esquisito.
Ele não disse nada, continuou encostado em minha perna, mas eu sabia que ele não dormia. Ninguém dorme sorrindo.
Ficamos assim por alguns segundos, não tive muito noção do tempo naquele momento até que senti o meu celular vibrar no bolso de trás da calça. Quando vi o nome na tela do aparelho, senti como se tivessem dado um soco nas minhas entranhas. Coloquei o telefone na orelha e a cada palavra que eu ouvia sentia a cor de meu rosto indo embora aos poucos. No final, guardei o celular no bolso e saí correndo até a porta, apenas parei quando ouvi barulho de algo caindo atrás de mim. Me virei e só vi um Nekojima deitado de lado no chão com uma expressão entediada no rosto.
- Ai...
- Foi mal... mas preciso ir, é-é urgente. – virei-me em direção a porta, descendo as escadas .
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Cheguei em casa só de noite, umas 23 horas talvez, me joguei na cama enquanto esfregava as mãos em meu rosto e tirava o cabelo que teimava em cobrir os meus olhos. Fiquei encarando o teto por um tempo até que notei a tela do celular brilhando na escuridão do quarto. 1 mensagem nova de Emi.
Ei, onde você estava depois da aula?
Respondi a ela.
Tive um imprevisto. Tive que sair com urgência.
Depois de alguns minutos ela respondeu.
Ah :( espero que esteja tudo bem com você. E a propósito, um colega da sua turma me procurou depois da aula, pedindo para avisar a você que quase todos os professores de sua sala marcaram provas surpresas pra esta semana... Às vezes os professores fazem isso assim logo de uma vez... acho que eu esqueci de avisar desse detalhe para você, desculpa (>-<)
Grunhi e joguei o celular no outro lado da cama, só pra ouvi-lo quicando até aterrissar no chão, depois peguei o travesseiro e apertei-o contra a cara. Mas eu não tinha tempo para me asfixiar, tinha que madrugar estudando.
Deixa pra próxima né, tenho a vida toda para me matar a qualquer hora...
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