Gato Vira-lata

7 Capítulo 7


Notas iniciais
Eu poderia fazer logo um capítulo para justificar o abandono extremo dessa história. Mas não vou =D eu peço minhas sinceras desculpas por isso! Mesmo! Não exclui essa história porque eu sabia que eu não abandonaria totalmente. Não sei quando sairá um capítulo novo, mas farei o possível para ser mais rápido dessa vez >

Uma coisa que eu teria que admitir... Mikio poderia ser o a pessoa mais sarcasticamente irritante do mundo. Ele pode ser tudo de ruim: pervertido, ter um sobrenome esquisito e me irritar sempre quando podia. Mas ele sabia cozinhar. E muito bem.

- O que está achando da comida?

- Você leva jeito para cozinha.

- Obrigado... E como está se sentindo?

- Bem melhor que ontem... Posso te perguntar uma coisa? – ele acenou positivamente com a cabeça – Como conheceu minha irmã?

Ele mastigava a comida enquanto encarava o chão de relance.

- Eu trabalhei um tempo ajudando os pacientes, um deles era Harumi. Não somos tão próximos, mas já conversamos. Ela me contou que tinha um irmão caçula. Para ser honesto, eu já te vi visitando Harumi algumas vezes. – Nessa hora, um sorriso torto apareceu em sua face — Sempre apressado e com uma cara preocupada.

- Quem não ficaria nessas horas.

- É, acho que sim... Mas você não deveria ficar feliz por ver sua irmã? – Perguntou ele depois de um tempo.

Levei o mesmo tempo dele para responder.

- É, acho que sim.

O tempo que restou ficamos comendo em silêncio. Quando acabei agradeci pela comida, pela moradia temporária e me despedi.

- Se quiser eu posso ir com você, ou dou dinheiro pro táxi.

- Não precisa, posso ir sozinho.

- Não acho que você tenha tanta certeza.

- Para com isso, posso me virar sozinho Neko!

Mikio ficou um tempo me encarando e piscando várias vezes de uma maneira confusa.

- Você me chamou de Neko? Gato?

Estranhei a pergunta por alguns segundos, mas depois percebi que eu nunca tinha chamado o Mikio de Neko na frente dele, aliás, na frente de ninguém. E eu devo ter feito uma cara muito idiota para fazê-lo começar a rir.

- Eu realmente preciso ir, tchau. – Falei apressado enquanto me dirigia às escadas, antes que ele pensasse em me impedir de novo.

- Neko haha... Você é mesmo muito adorável, Yamazaki Ren.

Tento explicar o porquê de eu ter hesitado ao abrir o alçapão naquele momento, e porque eu estou lembrando deste detalhe inútil.

Segui a sugestão de Mikio de pegar um táxi. Descobri que ainda tinha um pouco de dinheiro no bolso, há se eu tivesse descoberto isso antes de me encontrar com Kimura...

O tempo que levou para o táxi chegar a minha casa me fez processar as coisas que tinham acontecido ontem. E por mais que eu queira visitar Harumi naquele momento, iria só fazê-la sentir-se mal porque eu estava colocando ela em primeiro lugar do que a mim. Ela odiava isso. Quando ficou doente me fez prometer que iria colocar minha vida em primeiro plano. Claro que eu poderia visitá-la hoje se o Mikio não tivesse contado meu estado de ontem para ela. Valeu mesmo Nekojima.

Cheguei em casa sem saber bem o que fazer naquele momento. Como a semana de provas havia passado eu não tinha nenhuma tarefa, e mesmo que hoje eu esteja me sentindo melhor, ainda estava um pouco abatido. Fui ao meu quarto e deitei na cama. E não acordei antes do dia seguinte.

Domingo fui visitar minha irmã. Fiquei impressionado como ela está se adaptando rápido ao ambiente. Ela definitivamente parecia bem melhor desde a última vez que a vi, que foi semana passada. Agora ela já não estava tão pálida e não estava desacordada. A minha irmã sempre foi uma mulher bem bonita, já teve alguns namorados, mas nunca quis se casar. Às vezes creio que seja por minha culpa, acho que ela tem medo de acabar me abandonando. Ela diz que não é por causa disso, que era porque ela tinha problemas com compromissos. Harumi também diz que tenho mania de achar que tudo é culpa minha. Mas é porque é verdade.

Enfim, o negócio é que ela não tinha mais ninguém além de mim, já que ela terminou com seu último namorado antes do acidente. Por causa do derrame, ela teve que raspar o cabelo para fazer as cirurgias. Mas seus olhos sempre continuaram cativantes e cheios de vida, apesar de tudo que estava acontecendo, e seus olhos não estavam diferentes quando fui visita-la naquela tarde.

Fui até seu quarto e ela estava lendo, quando me viu um doce sorriso esboçou em seu rosto.

-Ren! – disse ela quando eu me aproximei para abraça-la.

-Harumi... Como você está? Desculpa não ter vindo ontem. Está tomando os remédios? Quer que eu faça algo pra você? – Disse eu sentando no lado dela na cama.

Ela não me respondeu, em vez disso ela ficou acariciando meu pulso engessado com um olhar distante.

- A pessoa que passou por um enorme aperto ontem foi você, e ainda se preocupa comigo.

- Não seja boba... Claro que irei me preocupar com você. – disse eu enquanto pegava uma uva de um prato da mesinha e jogava para o alto até cair em minha boca.

- Se ao menos meu irmão sorrisse para mim mais de vez em quando...

Deixei o sabor doce da fruta se espalhasse pela minha boca enquanto encarava a parede branca do quarto.

- Há algo te incomodando? – perguntou ela.

Eu queria dizer que sim. Não estava sendo tão fácil quanto parecia me adaptar a essa vida nova, e ainda tem o lance do Neko, de Kimura, Emi... Mas eu não falaria nada para Harumi, eu não queria preocupa-la. O ruim é que ela sempre sabia quando algo me incomodava.

- Não é nada, é que só fiquei preocupado naquele dia que seu médico me ligou no intervalo.

Harumi revirou os olhos.

- Ele nem precisava ter te ligado, foi apenas uma decaída, já estou melhor.

Eu ri.

- Engraçado esse seu modo de falar, como se tudo fosse tão simples assim.

- Mas tudo é simples sim, nós é que complicamos.

- Nem sempre. – disse eu pegando outra uva.

- É sim, pense comigo: a gente nasce, vive, morre. Simples assim.

- Aumentaram sua dose de remédios, né? Você tá mesmo com muita cara de drogada e falando que nem uma.

Ela puxou minha orelha.

- Ai!

- Me respeite pirralhinho! – riu Harumi, o que me fez rir também.

Ficamos um tempo em silêncio, só aproveitando o momento.

- Tô louco pra te tirar daqui, falta muito?

- Não sei, o Dr. Tamaki disse que primeiro tenho que progredir na fisioterapia, ainda não consigo mexer as pernas muito bem...

Mordi os lábios.

-... E meio que a decaída semana passada não ajudou muito, mas vai ficar tudo be...

- ... Me desculpe. – Falei finalmente, encarando-a.

Ela ficou me observando com aqueles profundos olhos castanhos, bem diferentes dos meus, que eram azul escuro.

- Você não tem culpa de nada, já falamos sobre isso. – disse minha irmã com aquela voz serena que sempre usava para falar comigo na época de pirralho quando eu ficava triste, enquanto acariciava meus cabelos.

- Eu não consigo me livrar dessa sensação de culpa.

- E como você acha que eu me sinto?! Se eu não fosse tão atrapalhada e caísse da escada, você não teria que ter mudado de colégio, de casa e você não teria ter que carregar sozinho as coisas da mudança e se machucado?

- Como?!

Ela revirou os olhos

- Não pense que eu não sei! O médico me contou que você estava tentando levar algumas das mobílias sem ajuda e acabou torcendo o pulso ao tirar algumas das caixas do caminhão. Sou um exemplo completo que essas coisas precisam ser feitas em equipe!

Então era isso. Neko havia mentido para o médico de Harumi sobre meu paradeiro, se ela soubesse que eu tinha levado uma surra de uns colegas da escola, provavelmente ficaria muito, muito mais preocupada.

-... Ah sim, foi mal mana. Prometo tomar cuidado na próxima.

- Assim espero... E como vai a nova escola? Já fez alguma amizade?

Sou amigo de uma garota que gosta de ler sobre dois caras pelados e dois colegas meus aparentemente possuem atração por mim. Sendo que um destes quase me forçou a fazer sexo em um beco na frente de seus amigos e o outro aparentemente dormiu abraçado a mim.

- Ainda tá meio difícil me adaptar, mas vou bem.

- Você é amigo do Nekojima?

-... Não sei se “amigo” é o melhor termo pra descrevê-lo.

- Ahhh, é algo mais? – perguntou Harumi, com um sorriso malicioso.

- Harumi!

Ela riu, depois mordeu os lábios e ficou em silêncio por alguns segundos.

- Você nunca mais se encontrou com ele? Digo, o Ra...

Apenas pelas iniciais do nome, eu já soube de quem ela estava falando e tratei de interrompê-la

- Não, e prefiro não falar sobre isso agora, tá?

- Tá, foi mal.

- Bem, acho que já tá na hora de eu ir. Tenho ainda que passar na loja para mostrar pro Katsuo que ainda estou vivo. – Dei um abraço nela bem apertado, mas nem tanto para não machuca-la.

- Tudo bem, mande lembranças ao Katsuo. Eu te amo.

- Também te amo. Quando chegar em casa ainda tenho que tirar algumas coisas das caixas. Acho que ainda faltou a geladeira para tirar do caminhão...

- Ren!

- Estou brincando mana, tomarei cuidado. –Falei rindo. – Viu? Estou sorrindo mais!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.