Gateway - Camping Green hil
23 Precisava ajudar de qualquer jeito!
Notas iniciais
Os treinamentos começariam às oito horas e resolvi passar na barraca de Francisco antes que ele fosse ministrar o dele. Já era sete horas e quando cheguei ao seu quarto estava vazio. Perguntei a um metaformo dentro da barraca que me informou que Francisco havia acordado cedo e já estava treinando.
Quando me aproximei da área dos metaformos percebi Francisco sozinho treinando em forma humana ainda. Dava saltos com uma adaga na mão e atacava um tronco que representava seu oponente. Ele era forte e ágil, mesmo na forma humana. Podia vê-lo pular quase dois metros de altura sem muito esforço. Aproximei-me devagar, pois não gostaria de assustá-lo e ter que me defender, mas foi em vão. Ele pulou em minha direção e tive que me esquivar, foi por pouco que não me ataca efetivamente.
“-Ei, sou eu, pai.”
Ele sorriu e disse “-Eu sei”
“- Mas então....” Já sabia a resposta, estava me testando, vendo se estava atento e pelo sorriso em seu rosto havia passado no teste.
Sorri em retorno e disse: “-Não me ensinaram a parte do ataque quando fiz o treinamento dos metaformos”
“-Uma coisa de cada vez. Você aprendeu as melhores maneiras de atacar e as mais efetivas de se defender. Na forma humana, somos melhores nos defendendo do que atacando.”
“-Faz sentido”
“-Claro que faz” Ele disse dando um soco de leve em meu ombro.
“-Vamos treinar um pouco? Ainda tenho quase uma hora antes do treinamento começar.” Disse ele empolgadamente.
Não tive coragem de negar, mas também precisava esclarecer algumas duvidas antes dos alunos chegarem.
“-Só se me prometer responder algumas perguntas enquanto lutamos?” Disse em tom de desafio.
“-Se eu souber a resposta......... fechado” Meu pai não perderia a chance de me derrubar.
“-Sem espadas” Ele me disse e eu assenti.
“-Mas elas fazem parte de minha roupa. Sinto-me vazio sem elas” Disse num tom brincalhão.
“-Está bem, mas não as empunhe. Combinado?”
Nem bem tinha assentido e ele já havia investido o primeiro golpe. Tinha pulado alto e tentará me atingir na cabeça, saí de lado e defendi seu ataque com os braços cruzados. Ele caiu estatelado no chão. Subi em suas costas e puxei seu braço para trás imobilizando-o e fazendo a primeira pergunta.
“-Gostaria de saber mais detalhes sobre meus sonhos. Quais são as conseqüências de interferir neles?”
Ele parou abruptamente e virou saindo de meu aperto que já estava solto devido à reação que ele teve. Com certeza devia ser uma coisa importante. Sentamos na grama um de frente para o outro.
“-Você conseguiu interferir em algum sonho?”
“-Não, mas consegui interagir.”
“-Como assim?”
“-A primeira vez foi quando estava revendo a captura de Elizabeth e com o desespero que senti canalizei todas as minhas forças para minha voz gritando seu nome conseguindo chamar sua atenção. E a segunda vez foi num sonho onde uma estranha estava numa casa e fui testar meus poderes de interação do sonho e conversei com ela.”
“-Fácil assim? Você se virou para a mulher e falou o que com ela?”
“-Não foi tão fácil, só precisei de muita concentração. Só perguntei quem era, mas a mulher me conhecia e ficou irritada por eu não a reconhecer.”
“-Só li lendas sobre um sonhador interagir no sonho deste jeito. Mas contando que tem o gene evoluído, não me assusta saber que pra você é fácil. Seu gene deve estar quase pleno.”
“-Mais difícil foi depois quando acordei e fiquei quase uma hora paralisado em minha cama. Quando falei com Elizabeth, também fiquei um tempo sem me mexer.”
“-Vou ter que te levar ao Oráculo novamente.”
“-Eu também já consegui falar com ele.”
Francisco paralisou como se tivesse escutado algo impossível. E por sua expressão não esperava ouvir isto.
“- Com o Oráculo? Você não precisa do templo para falar com ele?”
“-Não sei direito. Isto também aconteceu uma vez e ele falou dentro da minha cabeça. Nestes últimos dias passei por mal bocados e tirei forças de tudo que podia para descobrir onde estava Elizabeth e conseguir libertá-la.”
“-Imagino. Tu gene deve mesmo estar muito evoluído, mas precisa aprender a lidar com tantos poderes. O que mais há de novo?”
Pensei por um momento e me lembrei dos meus sentidos ampliados e resolvi falar com Francisco também.
“-Tem mais uma coisa sim. Acho que meus sentidos foram ampliados. Consigo ouvir melhor do que antes e minha força também está maior comparado com alguns dias atrás.”
Ele não disse nada, acho que pensava no que me dizer.
“-Como você já sabe, meu conhecimento é baseado em histórias e lendas antigas. Estou impressionado com seu poder, mas não tenho nada que possa ajudar a dominá-lo. Só sei que alguns príncipes tiveram poderes incríveis, mas a lenda diz que cada um teve um tipo de poder, um podia ter o passado e o futuro, o outro tinha sentido ampliados, outro tinha o poder da magia, mas nunca ouvi que um único príncipe tivesse todos estes poderes. Se comunicar com o Oráculo sem estar em um templo apropriado eu nunca li qualquer coisa sobre isto, mas já que você consegue, vamos usar este dom para ter algumas explicações.”
Ele suspirou e continuou: “Quando você falou com ele, qual era a situação? O que estava fazendo?”
Pensei por um instante e disse:
“-Foi quando Elizabeth estava sendo capturada. Eu havia pedido ajuda ao Oráculo e ele me disse apenas uma frase, que agora até posso entender. Algo como paciência é virtude, mas eu estava vendo Elizabeth morrer, ele me dizia para ter paciência que ela não estava morta ainda. Agora entendo, mas não é fácil entender o que ele diz através de poesias. Seria tão mais fácil se falasse através da linguagem comum. Ele disse muita coisa no templo que até agora não entendi, algumas já consegui decifrar, mas a maioria não. Ele disse que se usasse o sonho demais iria definhar. Não sei bem o que significa, mas começo a achar o sentido na frase dele.”
“-As lendas dizem que não se pode interferir no sonho antes de estar fortalecido. Primeiro que pode mudar o futuro e segundo e mais importante, é se você fizer isto além de suas forças, corre perigo de morte. Quando interagir, terá que ser cauteloso a ponto de não mudar nenhum fato importante. Todo poder tem os dois lados, o negativo e o positivo. Nunca se esqueça disto.”
Percebi que alguns alunos estavam começando a se aproximar, já devia ser perto das oito horas:
“-Precisamos conversar depois da aula, pode ser? Juntaremos todas as dúvidas que eu não possa esclarecer e falaremos com o Oráculo hoje à noite.”
Devo ter reagido ao que Francisco disse, pois ele ergueu a sobrancelha:
“-Amanhã?” Arriscou.
Assenti dizendo: “-Elizabeth sairá hoje do hospital”
“-Eu sei e entendo, mas se controle até lá e não interaja em seus sonhos.”
“-Está bem, até amanhã então.” E saí em direção à barraca das fadas.
Ainda tinha algumas horas para buscar Elizabeth. O que faria em meu tempo livre? Enquanto andava em direção a meu quarto fiquei pensando nos acontecimentos e agradecendo profundamente que tudo corria como o esperado. Laila não me perturbava mais, parecia que tinha me deixado em paz. Não havia encontrado Ramon em parte alguma. E até Paula que apareceu em meu quarto inesperadamente, começo a desconfiar se ela realmente esteve lá ou se eu estava sonhando acordado. Mas acabei descartando a hipótese, ela era real demais, onde será que estava? Tia Eva??? Sei lá! Resolvi deixar pra lá. Hoje, pelo menos, não era dia de problemas.
Tomei um banho rápido, pois estava sujo da luta que tive com meu pai rolando no gramado e enquanto buscava algo para vestir dentro do guarda roupa, vi o diário de Elizabeth.
Sorri, sentindo orgulho de mim mesmo. Eu tinha todos os seus segredos ao meu alcance, estava tudo há um braço de distância, bastava pegar o diário e lê-lo, mas consegui respeitar sua privacidade não lendo nada. Seus segredos estavam intactos. Assim que pensei nos seus segredos, me lembrei de algo do passado.
O chantageador.
Provavelmente Elizabeth tinha escrito a seu respeito. Era só procurar pelas páginas e saberia quem era e quais suas motivações. Ela não tinha tocado mais no assunto, será que tinha resolvido o problema? Ou tinha problemas maiores para se preocupar e não teve a chance de falar mais sobre isto. Ainda estava tentado a procurar? Talvez a convencesse falar sobre isto agora, já que estávamos juntos e mais fortalecidos. E agora? Elizabeth era teimosa. Se acreditasse que suas razões fossem verdadeiras para não me contar quem era antes, provavelmente não o faria agora também.
Olhei no relógio e tinha se passado apenas trinta minutos. Tinha mais de uma hora para esperar.
Sentei na cadeira em frente ao computador e o liguei. Resolvi pensar na coisa certa a fazer para não me arrepender depois. Ler o diário ou falar com Elizabeth? Entrei nas páginas que estava habituado para me distrair e embora não as visitasse há alguns dias, não havia nada que chamasse atenção. Não esquecia o pequeno diário que agora estava sob minha cama. Mais alguns minutos passavam, eu ia abri-lo e lidaria com as conseqüências depois. Antes de desligar meu computador, entrei em minha caixa de e-mails e havia algumas mensagens a serem lidas. Apaguei os spams e mensagens de propaganda e restaram sete mensagens. Três de caras da minha turma e quatro de Juan.
Fui abrindo da mais antiga para a mais nova. As primeiras datavam a semana seguinte da festa de despedida no final do ano letivo, quase duas semanas atrás. A festa aconteceu depois de eu estar no alojamento. Eles me contavam o que eu havia perdido e se perguntavam o que eu estava fazendo de melhor que não apareci. Em resumo diziam que eu tinha perdido o maior festão do ano. Que algumas garotas tinham perguntado sobre mim. Um dos garotos da minha sala disse que minha vizinha gostosa tinha aparecido por lá, onde eu estava para apresentá-la a eles. Eu ri com a euforia dos garotos. E pensar que menos de um mês atrás eu também venerava Paula. Agora parecia um passado muito distante. Como eu tinha mudado, eu me sentia mudado.
Eu já estava entretido com os e-mails, rindo das expressões de meus amigos e a urgência de ler o diário de Elizabeth estava em segundo plano agora. Na verdade, havia passado. Decidi resolver com ela esta história, ainda hoje.
Cheguei ao primeiro e-mail do Juan que falava novamente sobre a menina mais velha que ele estava ficando. Contava que era perfeita. Linda como uma fada, seu nome era Sophia. Ele estava apaixonado. Eu estava contagiado com sua felicidade. Juan era meu melhor amigo e sua felicidade era a minha também.
O segundo e-mail era dois dias depois do primeiro. Ele dizia que tinha convidado Sophia para uma visita a sua casa naquela noite e que estava ansioso em me apresentar a ela também. No final do e-mail ri novamente com sua frase que dizia: Meu, fui até sua casa e estava vazia. Cadê você? Não voltou do acampamento ainda? O treinador disse que podemos treinar mesmo nas férias. Manda notícias. Eu já estava respondendo sobre o suposto acampamento que estava. Contando meias verdades, sobre Elizabeth e o quanto estava feliz, mas antes de enviar tive uma intuição em ler os outros e-mails primeiro.
O e-mail seguinte era um dia depois deste último que dizia:
Cara, aconteceu uma parada estranha.
Ontem trouxe minha namorada, Sophia, aqui em casa e até depois do jantar tudo corria muito bem. Ela tinha se entendido com meus pais, o que é uma raridade e estávamos todos conversando na sala quando alguma coisa aconteceu. Não sei dizer o que nem como. Do nada comecei a apagar. Senti tudo escurecer e a última imagem que vi foi o rosto angelical de Sophia. Tentei pedir ajuda, mas ela não se moveu. Continuava rindo pra mim com a expressão imutável. Apaguei de vez. Quando acordei a noite havia passado, já era dia. Estava deitado no sofá ao lado de minha mãe, que tinha dormido também. Meu pai não estava conosco, nem Sophia. Imaginei que meu pai tinha a levado para casa quando dormimos, mas o estranho é que ele não apareceu até agora. Já está quase anoitecendo novamente. Minha mãe acabou de ligar para o trabalho dele, mas também não apareceu lá. Estamos esperando dar vinte quatro horas para dar queixa do desaparecimento ou para ver se meu pai aparece. Sabe como é... meu pai vive aprontando e minha mãe não quer pagar mico. A mulherada ainda acaba com ele....
Liguei para o celular de Sophia antes do almoço, mas está caindo direto na caixa postal. Na casa dela ninguém atende, não sabia onde ela morava até agora. Hehehe..... Por isto liguei o computador e procurei o telefone pelo endereço e você não vai acreditar. Na verdade, vou te matar!! J Ela mora perto da sua casa e você a escondeu de mim o tempo todo? Estou apaixonado, cara... Vou lá ver se está tudo bem e depois te escrevo...
Vê se aparece!
Que estranho! Aquilo não estava cheirando bem. Onde será que estava o pai de Juan? Ele sempre dera trabalho a sua mãe, era mulherengo, mas nunca soube de um dia que houvesse desaparecido.
E que história é esta desta garota? Morava perto de casa? Onde? Eu conhecia todas as garotas que moravam por ali e tinha certeza que nenhuma delas chamava-se Sophia. Onde será que Juan estava se metendo? Abri seu último e-mail que era no mesmo dia, à noite.
Véio, Vou te matar mesmo. J
Ela é sua vizinha de verdade. Mora na casa vizinha a sua. A de grade branca. Como nunca a vi?A mulher da minha vida tão pertinho e não tinha esbarrado com ela ainda? Seria tão mais fácil se você estivesse aqui. Contar-me sobre ela... escreve pelo menos.
Uma mulher de vinte anos cara!!!
Então, acabei de voltar de lá. Ela não estava, mas falei para a mãe dizer que estive lá. Disse para vir em casa ainda esta noite....
Enquanto ainda lia o e-mail de Juan confuso, uma tela de mensagem pulou a minha frente e era de Juan.
“-Ola, tudo bem?”
Achei estranho Juan escrever “ola”. Ele falava muita gíria para escrever assim. Resolvi acabar de ler o e-mail antes de responder qualquer coisa.
É hoje!
Meu pai não apareceu mesmo. Tô um pouco preocupado com minha mãe chorando pelos cantos. O coroa deve ter fugido com a amante. Hehe. Confesso até que cheguei a pensar que ele tinha fugido com Sophia, mas ela está aqui, então, desencanei. Deve ter tirado umas férias com outra.
Ei! Sua casa parece abandonada... tá sinistro! Vinha um frio esquisito de dentro dela e também vi uma fumaça preta estranha pelo buraco do portão. Tava na sala. Acho que devia ter uma queimada no terreno que dava para os fundos de sua casa e a fumaça estava invadindo tudo. Tentei ver se tinha fogo, mas não vi nada. Perguntei pra mãe de Sophia que confirmou a queimada e disse que não havia perigo. Pede pro seu coroa pedir para algum vizinho mais esperto dar uma olhada, não senti firmeza na tiazinha!
Nem meus e-mails você responde mais, hein!
Seu amigo ainda tá aqui!
Amanha te conto.
Sentia-me gelado ao acabar de ler o e-mail. Juan tinha se metido em uma fria. O que Paula estava fazendo com ele? Não sabia como ajudá-lo, mas precisava fazer alguma coisa. O que as sombras estavam fazendo em minha casa? Será que meu pai sabia disto? O Mal estava perto de meu amigo, que não tinha o menor conhecimento de mundos e energias paralelas. Cairia como um patinho em qualquer história, como eu há pouco tempo atrás.
Paula estava aprontando.
Enquanto reorganizava minha cabeça a tela de mensagem pulou novamente.
“-Estou esperando.....”
“-Onde está Juan?” respondi.
“-Sou eu.”
Tinha certeza que não era ele, mas não podia afirmar que era Paula. Embora minha intuição me desse um bom palpite que seria.
Assim arrisquei.
“-O que você quer Paula? Onde você está?”
Passaram alguns segundos enquanto ninguém respondia. Percebia que escrevia e apagava. Fui ficando ansioso quando enfim chegou à mensagem.
“-Está mais esperto do que eu imaginava. O que te fez descobrir tão facilmente? Até pensei em negar, mas é impagável imaginar sua cara diante da situação. E agora seu moleque? Hehehe. Te peguei hein! Nunca vai imaginar onde estou.”
Passei as mãos pelo rosto sem saber o que fazer. Se conseguisse descobrir onde ela estava podia enviar tralhos que a forçariam a me levar a Juan, se é que ela tinha feito alguma coisa a ele. Ela tinha me pegado mesmo. Não sabia o que fazer e nem o que ela queria ou já tinha feito.
Tinha que pensar rápido e descobrir qualquer informação sobre meu amigo. Onde ele estava? O que ela estava fazendo na sua conta na internet? Enquanto pensava o que fazer o computador fez o som de um e-mail chegando.
Cliquei rapidamente no e-mail que era do Juan.
Estou escrevendo do celular e estou ouvindo os comentários delas e risadas. A vadia quer você e fez um pacto com umas forças sinistras para te conseguir. Deve ser bruxa. Ah, ela odeia sua namorada. A mãe dela também está aqui, embora pareça um tanto mais nova de quando fui a sua casa, seu nome é Sabrina. Estou dentro do guarda roupa no meu quarto. Elas me prenderam. Chama a polícia. Só consigo mandar mensagem, já tentei ligar com outro celular, mas ela o confiscou, fiz barulho. Que bom que sempre tenho dois. Ajuda aí! Juan.
Precisava ganhar tempo.
Tinha que enviar uma mensagem para o celular de Juan. Mas antes respondi Paula tentando prolongar a conversa enquanto pensava o que fazer. Já sabia onde estavam. Podia falar com Jake.
“-Me pegou mesmo. O que você quer? Onde está meu amigo?”
Saí correndo para o corredor e fiquei aliviado quando vi Caroline indo em direção a saída. Esta hora todos deveriam estar em treinamento, mas não tinha tempo de perguntar o que ela fazia fora dele.
“-Ei” Gritei em sua direção.
Ela se virou e fez uma cara de desprezo quando viu que eu a chamava. Ainda não tinha encontrado com ela depois de tê-la beijado na frente de todos, quando a confundi com Elizabeth. Mas não tinha tempo para lidar com isto agora e acrescentei:
“-Preciso da sua ajuda. É um caso de vida ou morte.”
Ela me interrompeu sendo sarcástica.
“-Agora ser mulherengo virou caso de vida e morte? Quem será a próxima garota que você vai atacar Davi?”
Que hora para fazer piadinha comigo. Embora minha vontade fosse mandá-la embora e gritar que não precisava de sua ajuda. Eu engoli o orgulho, eu precisava de ajuda.
“-Desculpe Caroline. Esclareço o que houve naquela noite depois. Mas, por favor, é realmente importante que você chame Jake aqui. Pessoas correm perigo.” Disse a frase da maneira mais urgente que consegui e parece que deu certo. Ela disse um “está bem” já correndo para fora da barraca. E eu esperava que ela realmente tivesse entendido e não somente fugindo de mim.
Voltei para o quarto poucos segundos depois que saí. Paula ainda não havia respondido e enquanto isto, eu acessei o site da operadora de celular para escrever uma mensagem a Juan. Espero que ele tenha sido esperto suficiente para deixar o celular no silencioso.
Escreva-me o que elas estão planejando. Não tente entender, só escreva o que você acha que é realmente importante. Nomes, lugares e o que julgar melhor. Depois explico, você está correndo perigo de vida e embora pareça, não tem nada a ver com briga de meninas por um cara. Se cuida aí que vou te buscar.
Enquanto acabava de escrever a mensagem para Juan, surgiu outra tela com a resposta de Paula.
“-Vamos fazer uma troca. Você por seu amiguinho aqui. O que me diz?”
Respondi ainda sem pensar e sem saber se minha tentativa de me comunicar com Juan daria certo.
“-O que você quer comigo?”
“-Adivinha.... ;-)”
“-O que?”
“-Uma hora você é esperto outra é tão tapado. Eu quero você, só pra mim. E quem não quer?”
“-Vocês está me zoando? Eu fui apaixonado minha adolescência inteira por você que não cansava de me esnobar. Agora você vem com este papo furado de quero você?”
“-Enquanto você era um moleque não te queria mesmo. Acha que eu queria um fedelho de doze? quinze anos? Nem pensar, mas você cresceu, e agora meu querido, é meu número exato. Vou ter você, custe o que custar. Minha irmãzinha acha que vai levar sempre a melhor sobre mim? Deixou você comigo enquanto fedelho e depois quando se formou um homem lindo ela vem do nada e quer tomar você de mim? Nem pensar! Desta vez ela perdeu.”
Continuei dando corda esperando Juan responder alguma coisa que me ajudasse a ajudá-lo. Neste momento tive a idéia de que eu podia ajudá-lo a descobrir. Com certeza Sabrina e Paula conversavam antes de escrever, poderia puxar um assunto importante. Quem será que era esta Sabrina? O nome não era estranho. Pelo menos me sentia aliviado por Tia Eva não estar metida nisto tudo.
“-Quem está te ajudando? Você não está por trás disto sozinha. Tenho certeza.”
“-Por que não Davi? Não me acha inteligente como sua Elizabeth? Agora fiquei magoada L.”
Alguns instantes depois, chegou outro e-mail do celular de Juan. Esperava que ele tivesse bateria suficiente para manter o diálogo comigo.
Sabrina, Ramon e o chefe que estão ajudando Paula. Paula? E Sophia? Então, o chefe está chantageando Elizabeth que está amedrontada. Ela acha que a rainha vai ajudar, pois tem a mesma força do chefe, mas elas apostam as fichas no tal de chefe.
Eu respondi em seguida.
Quem é o chefe? Tenta entender.
“-Por que Paula? Não é por inveja. Este sentimento é pequeno demais. Você é maior que isto. Diga-me quem é que está no topo disto? Tenho certeza que está te usando? Pense um pouco.”
“- Porque ela que é a princesa. Ela ficou com a melhor parte. Largou-me junto a minha mãe neste mudinho de merda sem podermos ser quem realmente nós somos. Não gostávamos disto, mas minha mãe era covarde demais para desobedecer as ordens e seguir nosso próprio caminho longe daqui. E ficamos aqui, escondidas, como suas guardiãs. Um pivete que não fazia nada de interessante. Éramos cobradas por isto, sabia? Minha mãe por muito tempo me forçou a te proteger, mas eu cansei e larguei mão de tudo. Resolvi pensar em mim e não no seu mundinho. Fui eu quem te entregou as Trevas. Dei sua localização exata e confirmei que você era o escolhido. Fui recompensada com a liberdade. Não é bom?”
Ela não queria a mim. Queria a vida de Elizabeth. Era pura inveja que sentia da irmã. Onde será que tia Eva se encaixava nesta história toda? Torcia para realmente não nada a ver com isto. Enquanto pensava na resposta de Paula chegou outro e-mail de Juan.
Jake entrou no quarto num rompante. Caroline tinha feito um bom trabalho e pela rapidez que Jake chegara, tinha passado a real urgência de sua presença aqui.
“-O que houve Davi?” Disse Jake ainda ofegante.
“-Preciso de sua ajuda. Você não vai acreditar no que aconteceu.”
Enquanto estava acertando os detalhes para fazer a troca com Paula, mantendo-a ocupada, contei toda a história a Jake que ficou em silencio, tão incrédulo quanto eu estava.
Depois marquei o lugar que supostamente ela deixaria Juan livre para me manter como seu refém. Era uma praça próxima a casa de Juan. Uma parte pequena de minha mente se perguntava o que ela faria comigo? Iria me aprisionar? Usar magia para ficar com ela a força? E na verdade tanto faz, agora não importava, Juan tinha que ser salvo.
Jake acabou fazendo a única pergunta que faltava no quebra cabeça que estava montando sobre esta historia de Paula.
“-E quem é o chefe?”
“-Não sei, vamos ver o que meu amigo escreveu aqui.”
Abri o e-mail de Juan que continha uma única frase.
O chefe é Demétrius.
Repeti devagar num tom carregado de surpresa para Jake que não escrevia minha língua:
“-O. Chefe. É. Demétrius.”
Minha mente não acreditava em que meus olhos liam. Reli outra vez e encontrei a mesma frase. Não podia ser. Demétrius? Tudo bem que sentia uma resistência dele em relação a mim, mas não conseguia enxergar suas motivações em me destruir. Ele com certeza não sentia o mesmo sentimento que motivava Paula, a inveja. Mas o que seria? Ele era o homem mais poderoso do mundo, não podia invejar ninguém. Tinha uma linda mulher. Estava do lado do bem, não fazia o menor sentido.
Jake tocou meu ombro e disse:
“- Vou salvar seu amigo. Não faça nada agora em relação a tudo isto até eu voltar. Você não sabe em que contexto seu amigo escutou o nome do Ministro. Então, antes de acusar, vamos tentar entender. Neste momento, a vida de seu amigo é o que importa, não é?”
Assenti, ainda sem palavras. Estávamos falando de meu suposto pai e embora eu não o considerasse como tal, não podia negar a relação direta que tínhamos. Não era um estranho. Ele era meio frio às vezes, mas mesmo assim eu nutria uma espécie de sentimento por ele.
Jake me encarava analisando minha expressão que com certeza não era boa. Olhei para baixo e vi o relógio que marcava dez e meia. Lembrei-me de Elizabeth que sairia do hospital às dez horas. Deve ter pensado que a larguei ou que algo aconteceu. O que não era mentira. Iria inventar algo pra ela e ajudar Jake salvar Juan, mas enquanto saíamos do quarto Jake havia insistido que daria conta de tudo sem minha ajuda, só com seu grupo de tralhos. E para me convencer a não ir disse que não poderíamos deixar Elizabeth sozinha agora. Se fosse verdade que o ministro a chantageava, agora com ela fora do hospital não poderíamos vacilar com sua segurança. O que ele falava era razoável.
Enquanto saia da barraca passei todas as informações que pudesse ajudá-lo no resgate pedindo que me atualizasse o quanto antes.
Elizabeth estava esplêndida e mais importante de tudo, curada. Usava um vestido branco com um tecido leve que caia em camadas desde a altura da cintura até os joelhos, era de alças finas e seus cabelos caiam por sobre os ombros. Estava na porta do hospital com a enfermeira Ivy de um lado e para minha surpresa e decepção, Demétrius do outro.
Meu corpo congelou, todos meus músculos enrijeceram, o que geralmente acontece antes de uma luta. Tive que usar todo meu autocontrole para não atacá-lo ali, na frente de Elizabeth. Coloquei meus braços em punho fechados na lateral do corpo para não pegar as espadas e continuei andando em direção a Elizabeth. Tentava encher minha mente com sua imagem, alegre e feliz. Como ela conseguia ficar ao lado de seu chantageador?
Algo estava estranho, geralmente contra o mal eu não conseguia ter controle de meus atos. Quando me dava conta já estava lutando, mas com Demétrius foi relativamente mais fácil do que imaginava. Minha mente queria atacá-lo, mas o corpo não sentia a mesma necessidade. Era como se meu corpo pudesse identificar o mal antes da minha mente, devia ser mais uma coisa do gene. Na verdade, a raiva me dominava não a necessidade de exterminar o mal.
A primeira voz que ouvi foi de Elizabeth. O que me ajudou a me acalmar.
“-Davi!” Ela disse já correndo em minha direção e pulando em meu pescoço num abraço de urso. Demorei poucos segundos para relaxar os músculos e envolver sua cintura. Olhei por sobre o ombro de Elizabeth e Demétrius sorria serenamente. Como podia ser tão sínico?
“-Vamos sair daqui.” Sussurrei em seu ouvido tentando parecer o mais casual possível.
Ela me soltou e sorriu de volta. Fomos de mãos dadas até Ivy e Demétrius.
“- Obrigada Ivy, você realmente a salvou. Fico te devendo uma.”
Ivy sorriu.
“-Agora é sua vez de mantê-la salva.” Disse Ivy num tom brincalhão sem se dar conta de que era o que realmente estava fazendo naquele momento.
Cumprimentei formalmente o ministro, meu pai traidor.
“-Demétrius” Disse assentindo.
“-Isto mesmo meu filho, conto com sua força e coragem para manter nossa princesa segura. Nosso futuro depende de vocês.”
Como um ser poderia ser tão descarado? Eu ia matá-lo. Mas lembrei de minha promessa a Jake e reuni todas as forças de meu ser novamente para parecer imparcial e sorrir casualmente. Precisava sair dali.
Segurei forte a mão de Elizabeth que já tinha agradecido a ambos e saímos.
Suspirei pesadamente enquanto nos afastava. A barraca das fadas era do lado oposto ao salão principal, ao lado de onde nossa barraca se encontrava. Então fomos caminhando devagar enquanto eu me acalmava.
“-O que há de errado?” Elizabeth percebeu.
Promessa de Jake, Promessa de Jake, fui mentalizando e deixando a fúria e a vontade de esclarecer tudo passar. Se Demétrius a chantageava como ela conseguia ficar perto dele tão tranqüila? Não conseguia entender. Mas me lembrei das palavras do Oráculo mais uma vez Paciência é Virtude e respondi me sentindo um pouco frustrado.
“-Nada! Aonde você quer ir agora?” Mudei de assunto.
“-Para meu quarto.”
Perfeito! Ela descansaria um pouco enquanto eu procuraria a rainha ou verificaria se Jake estava de volta. Precisava ter mais pistas sobre os últimos acontecimentos.
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