Gateway - Camping Green hil
11 Feitiço!
Notas iniciais
Cheguei ao quarto e fui tomar um banho, estava agitado esta noite. Quem estava chantageando Elizabeth? E por quê? Fiquei intrigado com isto.
Vesti uma calça que já estava no banheiro e saí para o quarto. Quando olhei minha cama fiquei espantado no primeiro momento e irado no segundo seguinte. Lá estava aquela fada insuportável, apenas com as roupas de baixo deitada em minha cama. Como ela conseguia ser tão bonita, tão pequena e tão insuportável ao mesmo tempo.
“- Achei que tinha pedido para me deixar em paz?” Disse com a raiva brotando em meus olhos.
“-Vim te trazer paz, calma e o que mais você quiser.” Laila disse com um sorriso sedutor e diabólico no rosto. Eu queria me livrar dela, custe o que custar.
Coloquei minha mão entre a ponte do nariz e a têmpora pensando em uma maneira efetiva de expulsar aquela mulher não só de meu quarto, mas também da minha vida. Que inferno! Eu já tinha problemas demais pra ter aquela vadiazinha na minha cama me enchendo. Decidi ser cruel, só assim ela se afastaria de vez.
“-Você realmente quer saber o que eu quero Laila?” Disse de um modo sedutor diminuindo a distância entre nós.
“-uhum” Ela respondeu com um sorriso triunfal se levantando da cama.
“-Vou te dizer”. Ergui seu queixo e fiquei encarando seus olhos com um sorriso mortal, ela achou que eu estava cedendo e se aproximou de meu rosto ficando na ponta dos pés. “-Quero que você desapareça. Conhece alguma mágica que pode me ajudar com isto?” Empurrei-a de volta a cama.
Seu rosto se transformou em ira e percebi que ela já estava com o saco de magia em suas mãos. Neste exato momento a vi pegar um vidro com um pó colorido e soprar em minha direção, mas fui mais rápido desviando e o pó se perdeu no ar. Ela estava tentando mais uma vez quando eu a segurei pelo punho e retirei o pequeno vidro de suas mãos. Peguei o pó e soprei em direção a ela.
Percebi que ela paralisou e ficou fitando o vazio. Que magia era aquela? Não tinha a menor idéia do que fazer agora. Minha raiva passou e fiquei curioso, até um pouco preocupado.
“- O que aconteceu?” Perguntei achando que não obteria resposta. Ela continuou por poucos segundos imóvel, mas acabou respondendo.
“-Você me enfeitiçou.”
“-Percebi.” Comecei a achar aquilo engraçado. Seria um pó da verdade?
“- Que feitiço é este?” Perguntei.
Algo me dizia que eu ia gostar.
“- É o feitiço da obediência, farei tudo que pedir.”
“- Rá rá rá. Gostei disto!” Pensei por um instante e perguntei. “-Quanto tempo vai durar?”
“-Vinte e quatro horas”
“-Muito bem. Você consegue agir normalmente e esquecer que está enfeitiçada enquanto eu não tiver na sua presença?”
“-Sim”
“-Então, recomponha-se agora e vá para sua tenda. Não conte isto a ninguém e haja normalmente até eu te disser o que fazer.” Sorri. “Vá”.
E sem dizer uma palavra qualquer ela pegou suas roupas do chão, vestiu-as e saiu do meu quarto. Gostei daquele feitiço. Procurei na minha bolsa de magias e não havia nada com a aparência daquele pó. Guardei o pequeno vidro junto com as outras poções e deitei-me em minha cama.
Pensando em Elizabeth adormeci. Esta noite tive mais um sonho com minha mãe.
Ela continuava com os tralhos a sua volta, ainda dentro do lago com as águas em fenda sem tocá-la. A mudança nesta noite foi o aparecimento de um vulto na margem oposta do lago em que eu estava. Não consegui identificá-lo, pois usava um manto escuro com o capuz escondendo o rosto. Atrás do vulto havia os mesmos guerreiros lutando contra os tralhos. Eram tão grandes quanto um tralho...
Acordei suando com o coração disparado, como em todas as vezes que tive este sonho.
Com este pensamento, me dei conta que não havia mudanças no sonho. O sonho era o mesmo e a cada dia era incluso um fato diferente. O que será que aquilo queria me dizer? Precisava descobrir.
Já estava quase amanhecendo e continuei deitado me perguntando o que seria este sonho. Embora os fatos fossem acrescentados, as perguntas eram as mesmas. Por que sonhava com a minha mãe? O que ela tinha a ver com este mundo? Quanto mais pensava, mais dúvidas surgiam.
Sexto dia
Quando me levantei da cama, senti uma sensação estranha. Senti o mal. A mesma sensação de quando fui trazido pra cá. Será que tinha a ver com o sonho que acabara de ter? Era estranho, nunca tinha sentido esta sensação dentro do campo de força, nem quando as aranhas apareceram. E já havia sonhado com minha mãe aqui, então descartei esta hipótese. Fiquei atento a tudo a minha volta, tomei meu café rapidamente. Restavam umas poucas pessoas na copa, mas aparentemente tudo continuava normal e no devido lugar.
Segui em direção ao treinamento com Kevin, como fazia todos os dias, mas não fui longe, alguns metros avançados, senti o tremor. Tinha certeza de que estávamos sendo atacado novamente. Corri para fora dos dormitórios e notei a neblina escura ficando sólida, se formando e aumentando o tremor.
A passagem no campo de força já tinha sido aberta, ela ficava ao lado da tenda principal, mas todos esperavam antes de sair. Aproximei-me da multidão e perguntei a um tralho:
“- O que estão esperando?”
“- Todos estão esperando a neblina se solidificar, pois se alguém sair do campo de força, antes dela tomar forma, se transformará na maior fraqueza de cada um e será mais difícil exterminá-la se ela tiver um rosto conhecido ou temido, não acha Davi?”. É claro que ele me conhecia mesmo sem eu o conhecer, mas pulei esta parte e assenti agradecendo.
E embora a passagem estivesse aberta, ninguém saiu, a neblina se tornava uma coisa só, não estava se separando. Eu ainda tinha controle sobre meus atos, achei estranho isto, mas não parti para fora como da última vez. Lembrei-me da bronca que levei do ministro em público quando havia saído para defender o acampamento.
A neblina parecia se tornar uma enorme serpente, com aparentemente uns vinte metros. Fiquei imaginando uma serpente em uma luta, seria mortal. Em sua boca havia enormes presas, com dentes menores ao redor. Ela foi crescendo mais e nós ficamos como formigas perto dela. Mas antes que eu pudesse imaginar mais alguma coisa na serpente, brotaram asas de suas costas e sua boca se inflamou, poucos segundo depois cuspiu fogo, mas eu já estava correndo do lado de fora do campo de força. Tinha perdido o controle de mim mesmo.
Peguei minha bolsa de magias e tirei uma esfera azul de dentro dela, disse algumas palavras que nem imaginava como sabia e um cavalo branco apareceu e em poucos segundos ganhando asas e eu já estava em cima dele voando em torno do dragão negro de olhos vermelhos.
Mas alguns seres também voavam em torno do dragão que cuspia fogo em todos que se aproximavam. Vi um tralho cair de seu ser alado, não era um cavalo, e sim um leão, eu acho, não me perguntei como tinha criado este cavalo com mágica, pois não tinha aprendido como fazer isto ainda.
Mais alguns caíram, mas nenhum ataque efetivo. Dei a volta por trás do dragão e percebi que havia chifres, que eram quase do meu tamanho e no meio deles, havia um olho em destaque. Já sabia como exterminá-lo, mas era difícil me aproximar sem que o cavalo fosse notado.
Ele também voava atacando tudo que se aproximava. Queimou várias árvores em torno do campo de força, mas havia outro campo de força muito maior que dificultava que o enorme dragão voasse alto. Isto facilitava voar em volta dele, pois tínhamos mais flexibilidade devido a nosso tamanho.
Conforme mais guerreiros voavam com seus seres alados em volta do monstro, ele perdeu o foco e neste momento, pulei do cavalo nas costas do dragão que começou a debater e tentar me derrubar, escalei rapidamente para a cabeça. Eu não pensava, estava quase cego para matá-lo e consegui me segurar não sei como em sua pele escamosa e escura, quando percebi já tinha alcançado a base de suas asas, com um pouco mais de esforço estava pendurado em um dos chifres. Ele continuava a cuspir fogo e a se debater, percebi que mais alguns guerreiros estavam nas costas do dragão e vi que Kevin também escalava, mas não hesitei e cravei minha espada no olho entre os chifres.
Com um urro ensurdecedor o dragão estatelou no chão e continuou a se debater ferozmente. Fui jogado de costas no chão, mas não me machuquei. O dragão se debateu por mais alguns instantes e ficou com o corpo inanimado no chão, tinha perdido a vida.
Recuperei minha consciência e comecei a perceber que realmente estava louco, numa das mãos havia uma espada, na outra a esfera azul. O que tinha sido aquilo? Aquele cavalo com asas? Olhava a esfera um pouco confuso. Será que realmente fiz aquilo? O que tomava conta de mim me empurrando para a destruição do mal? Eu sabia a resposta de ambas as perguntas. Fui eu que tirei a esfera do bolso, criei o cavalo e matei o dragão. Também sabia da existência do gene que estava me transformando em um guerreiro.
Guardei a esfera dentro da bolsa de magias, coloquei a espada nas costas e fiquei ali parado por alguns minutos mais uma vez analisando minha vida, no que eu tinha me transformado e como estava apaixonado por Elizabeth. Fiquei alguns minutos perdidos em meus pensamentos e logo notei que era um dos últimos fora do campo de força e segui em direção a passagem voltando para dentro. Da mesma maneira quando matei a aranha, aconteceu com este dragão. Conforme entrava no acampamento, as pessoas me dirigiam palavras de incentivos e agradecimento e também da mesma maneira, Demétrius estava lá e apenas assentiu para mim novamente. Lembrei de seu discurso na noite anterior, o qual uma grande parte dele estava me repreendendo por ter saído do campo de força, dizendo que tive sorte ao fazer isto. Não entendi aquelas reações diferentes. Alguma coisa estava errada com Demétrius.
Enquanto passava por ele com meus pensamentos, vi Elizabeth um pouco mais atrás com um sorriso encantador que me fez esquecer Demétrius. Segui em sua direção, mas quando ela se deu conta que eu iria me aproximar se retesou e se tirou o sorriso do rosto. Percebi de imediato que seu chantageador estava por ali e mudei meu rumo. Olhei em volta para ver se conseguia identificá-lo, mas percebi que todo mundo estava ali em torno dos que voltavam para dentro do campo de força. Ela abaixou a cabeça e afastou-se do grande grupo.
Juntei-me ao grupo de Jake.
“-Você não tem jeito mesmo hein Davi.” Disse Jake com um sorriso brincalhão no rosto. “-Vejo que será muito difícil ser da sua guarda.” Completou ainda sorrindo.
Eu sorri sem dizer nada e o assunto prosseguiu em torno da luta com o dragão. E Troy acrescentou:
“- Eles sabem que serão destruídos se aparecerem desta maneira, em pequenos números. Somos centenas de guerreiros e um dragão não é nada para nós. Não consigo entender este tipo de ataque suicida.”
“- O mal não faz nada por acaso. Tem alguma coisa por trás destes ataques. Eles sabem que não são páreo para nós agora. Precisam estar reunidos e fortalecidos em plenitude, e só acontece depois da abertura do portal. E o mais estranho ainda é atacarem na luz do sol, onde a força do mal é menor, este ataque foi suicídio.” Disse Jake.
“-Há mais coisas neste ataque que não estamos conseguindo ver agora, amigo. Vamos ficar preparados para qualquer coisa.” Kevin disse e já foi andando em direção a área de treinamento.
O encarei perplexo, tínhamos acabado de lutar com o dragão e já íamos treinar? Ele percebeu minha incredulidade e disse por sobre o ombro com um sorriso.
“-Venha Davi. O tempo é precioso.” Bufei e segui em sua direção.
Olhei ao redor e percebi que não só Kevin, mas a maioria dos presentes já se dirigia em direção à área dos treinamentos e hoje não vi Laila. O que será que estava acontecendo com ela? Será que alguém percebeu que lancei um feitiço. Será que o feitiço tinha se voltado contra a feiticeira mesmo??...... sorri sozinho.
“- Já está ficando maluco Davi?” Disse Ramon se aproximando pelas minhas costas.
“-Acho que estou. Isto parece normal aqui.”
“-Pode ter certeza.” Ele concordou.
Lembrei-me do olhar entre Kevin e Troy quando Ramon e Laila estavam juntos, será que tinham alguma relação? Resolvi começar a investigar.
“-Você viu Laila hoje?” Perguntei fingindo desinteresse.
Percebi Ramon fazer uma leve careta pensando em qual resposta dar:
“-Ela é muito bonita, não é?” Pensei em dizer a verdade.... o que tinha de bonita tinha de chata e vulgar, mas isto iria estragar meu blefe e concordei.
“- Realmente, uma linda fada.”
“- Vejo que ela despertou seu interesse. E tenho certeza que ela também está interessada.”
“- Tem? Por que acha isto?”
“-Ela não para de falar em você.”
“-Verdade? O que exatamente ela disse?” Perguntei a Ramon, fingindo interesse pela fada. Não sabia na verdade o que perguntar, mas gostaria de saber se ela era responsável pela chantagem de Elizabeth.
“- Como te disse, não para de falar em você, realmente esta interessada....” Ramon disparou em falar o quanto ela estava apaixonada por mim e não me deu nem uma pista sobre a chantagem.
Num certo ponto, seguimos para áreas diferentes de treinamento.
Treinamos por duas horas ainda até a hora do almoço. Neste dia venci todas as lutas, embora não tivesse lutado com Kevin. Continuava na evolução do gene.
Depois do almoço, em vez de fazer minha caminhada de reconhecimento, segui em direção a arvore que tivera na noite anterior com Elizabeth, mas para minha surpresa, Laila estava lá.
Ela não percebeu minha aproximação e fiquei curioso, já que estava sob o poder do feitiço. Ela estava distraída, brincando com uns gravetos secos que estavam aos seus pés. Observando-a, parecia uma adolescente normal e inocente entretida em seus pensamentos.
“-Posso saber no que está pensando?” Perguntei esperançoso.
“- Sim.”
“- Então me diga.”
“- Estava pensando numa maneira de ficar com você para o resto de minha vida.”
Engasguei com aquela revelação, mas prossegui, pois sob o feitiço ela com certeza me falaria tudo que eu quisesse.
“- Você realmente está apaixonada por mim? Ou é algum outro interesse?”
“-No começo, foi o poder, mas depois percebi como você é forte e bonito e te achei interessante de verdade.” Ela respondeu com sinceridade, ainda sem olhar pra mim. Tinha respondido somente a segunda pergunta. Não falava se estava apaixonada por mim. Decidi insistir.
“-Você não respondeu minha primeira pergunta. Está apaixonada por mim?”
“-Um pouco” Embora ela tivesse admitido ainda tinha algo embutido nesta resposta, mas os sentimentos de Laila não eram importantes agora e decidi seguir no caminho do meu interesse.
“- Você vai se lembrar desta nossa conversa depois que o feitiço acabar?”
“-Se você ordenar que eu não me lembre, não me lembrarei.”
“-Ótimo! Daqui pra frente não quero que você se lembre, está bem?”
Ela assentiu.
“-Elizabeth está sendo chantageada, você sabia disto?”
“- Não”
“-Então não é você que a chantageia.” Como não fiz uma pergunta, Laila não respondeu. Continuei:
“-Sabe quem faria isto?”
“-Não”
“-Nenhuma suspeita?”
“-Acho que sim”
“-Explique” Exigi.
“-Acho que Ramon pode estar a chantageando”
“-Por quê?” Enquanto esperava pela resposta minha cabeça corria por um motivo. Havia algo de errado neste Ramon, mas algo me dizia que não era ele a razão dos meus problemas.
“- Porque ele é apaixonado por ela.”
Embora tivesse irado com esta revelação, não era motivo para ameaçar alguém de morte, ou era? Prossegui com meu interrogatório.
“-Mas algum motivo?”
“-Não”
“-Você tem certeza que é ele o chantageador?” Perguntei.
“-Não, é apenas uma desconfiança”
“-Desconfia de mais alguém?”
“-Não”
“-Obrigado” Disse a Laila e virei em direção à área de treinamento.
Tinha muita coisa atrás daquela chantagem, Elizabeth não ficaria apavorada como estava por um garoto estar apaixonado por ela. Tinha que haver alguma coisa a mais.
O treinamento naquela tarde na área das fadas estava repleto de alunos. Conforme ordenado por Demétrius, iríamos ter três dias consecutivos de treinamento focado em magia.
A fada instrutora se aproximou do grande grupo e pediu que nos dividíssemos em grupos menores, pois isto facilitava tanto o aprendizado quanto o ensinamento. Estes quais seriam os nossos grupos de afinidade e que em cada área já havia um instrutor de magia esperando pelo grupo.
E assim, me dirigi à área de espadas. Procurei por Elizabeth e a vi seguindo com o grupo dos Elfos a sua área tradicional de treinos. Nossos olhares se cruzaram e vi seu sorriso tímido.
Chegando a área de treinamento havia várias bancadas com diversos pós, líquidos e esferas dispostas aos alunos. O duende nos orientava a não tocar em nada, pois alguns ingredientes poderiam ser fatal.
Fiquei imaginando a quantidade de magia que podia ser feita com todos aqueles itens, mas para minha surpresa, o duende informou que não iríamos começar por eles. Iríamos primeiro aprender a manipular os elementos, água, fogo, terra e ar.
Então, pegamos uma esfera do tamanho de um limão pequeno e que tinha quatro cores divididas proporcionalmente. Azul, vermelho, verde e branco que relacionei aos quatro elementos. Depois de alguns momentos o duende confirmou o que eu havia deduzido.
Ele continuou dizendo que poderíamos manipular qualquer elemento que quiséssemos atirando a esfera de encontro ao elemento e dizendo algumas palavras, demonstrando como isto funcionava.
O Duende jogou a pequena esfera ao lago que tinha ao lado e disse as palavras “akuainvuocuo” e a água se apresentou aos seus comandos. Primeiro se ergueu formando uma silueta humana grande, com uns dois metros de altura e depois virou um espiral de água, sem jogar água ao seu redor. Como se tivesse dentro de uma bolha segurando todos os respingos d’água, estava sob controle.
No momento seguinte o duende ergueu as mãos como se tivesse erguendo uma bandeja imaginária e acompanhando o movimento a água se ergueu do lago. O Lago era pequeno, mas mesmo assim enquanto suas mãos estavam no alto não havia nenhuma água em contato com a terra. Só a umidade permanecia lá. Procurei os peixes e não os encontrei na terra. Estavam dentro da água elevada com a magia realizada.
Com outro movimento breve descendo as mãos, a água do lago se voltou a seu devido lugar formando pequenas espirais na superfície, que pelo visto indicava que estava sob controle do duende. Ele se virou para nós e explicou:
“- A concentração maior é necessária no momento inicial da magia, enquanto o elemento estiver em movimento. Se eu quisesse parar a água no ar e lutar sob ela, não havia necessidade de muita concentração neste segundo momento, mas não podia me afastar muito do elemento que estaria manipulando. Caso isto aconteça, ela sai do estado de obediência, que no caso da água é esta espiral que vocês vêem.”
“-Todo elemento é manipulado da mesma maneira, com as mãos. A diferença são as palavras de invocá-lo e libertá-lo.”
O duende se virou para o lago e disse outra palavra “akualibertus” e a água voltou-se a forma original, intocável, sem nenhuma influencia ou onda sequer e a esfera estava de volta na mão do duende.
Ele se virou para nós e pude ver que a grande maioria assim como eu estava com uma cara de espanto, boquiabertos olhando aquela magia conjurada. Será que era tão fácil assim manipular os elementos?
Ele nos explicou as palavras para manipular cada elemento. E disse que precisávamos nos concentrar bastante enquanto os movimentava, pois não era porque estavam sob nosso controle que não poderiam nos ferir. Um movimento errado e poderíamos morrer queimados pelo fogo, por exemplo.
Ele pediu para cada um pegar sua esfera dentro da bolsa mágica e um por um fomos testando a magia dos elementos, cada um escolheu um elemento a manipular. Muitos não conseguiam fazer nada, outros não conseguiam falar a palavra correta, outros não conseguiam movimentar o elemento. Ele disse que a chave de tudo era concentração. Treinamos quase a tarde inteira a mesma magia, até que todos nós conseguimos manipular o elemento.
Depois da magia do elemento recebemos um frasco com um pó colorido que tive que sorrir quando o identifiquei. Era o pó da obediência. Para esta magia não tivemos a prática, somente a teoria e cada um recebeu um frasco para ter em sua bolsa.
Tinha acabado de descobrir de onde Laila pegara este frasco. Da aula que teríamos no dia seguinte. Ri comigo mesmo e depois de um tempo a aula acabou.
Mais tarde no jantar, pela primeira vez, avistei Elizabeth a mesa e sentei no lugar vago ao seu lado. Reconheci várias pessoas no salão. Kevin estava do outro lado de Elizabeth, eu estava na ponta da mesa. Do outro lado da mesa vi Laila perdida em pensamentos, acho que aquele feitiço a deixava meio tonta. Pude ver Ramon sentado com seu grupo de Elfo e neste momento percebeu meu olhar e me retribuiu com um sorriso. Eu ignorei e falei com Elizabeth:
“-Estou preocupado com você fugindo de mim.”
Ela me encarou e disse rapidamente: “- Não fique. Precisa se concentrar no treinamento. Tem que estar preparado para a batalha final.”
“-Não consigo, quero ficar bem com você e não tendo que me esconder de todos para te encontrar.” Disse tocando sua mão sentindo a corrente elétrica que nos envolvia.
Ela sorriu e puxou a mão de volta.
“-Não vai me dizer nada sobre a chantagem, não é?” Perguntei e acrescentei em tom de suplica.....”- Me deixe ajudar....”
Ela me interrompeu: “-Não vai ajudar me pressionando. Eu sei quem poderá e como te disse esta pessoa não chegou ainda. Não sei por que te contei isto. Não pode se preocupar comigo agora. Tem que nos salvar e já é o bastante para ocupar sua mente.”
“-Estou com saudades.” Soltei segurando sua mão novamente.
Ela me encarou com seu sorriso até os olhos.
“-Eu também.” Disse devagar voltando o olhar para a mesa.
“-Podemos nos ver depois do jantar?”
Ela sorriu e respondeu com entusiasmo na voz.
“-No mesmo lugar de ontem e coma a sua comida.”
Comecei a comer e percebi que estava faminto. Enchi meu prato. A comida daqui não era diferente a que eu estava acostumado a comer. Hoje tinha carne assada, farofa e legumes cozidos, como sempre estava muito boa. Sem falar na cerveja, que tinha em todas as refeições. Era estranho ser servida a menores de idade, mas não estávamos seguindo as leis da Terra. E além disse era bem suave, neste jantar bebi uns quatro copos, dos grandes e não sentia qualquer efeito de embriaguez.
Elizabeth acabou de comer antes de mim e se levantou da mesa dizendo em voz baixa só para eu ouvir.
“-Te encontro na árvore em dez minutos”
Assenti e voltei a comer. Ela se retirou e Kevin pulou uma cadeira tomando seu lugar.
“-Estou te achando meio preocupado. O que há de errado, Davi?”
“-Não tem nada” Disse tentando não revelar o segredo de Elizabeth e me ocorreu explorar um lado diferente sobre o assunto chantagem.
“- Quem falta chegar ao alojamento?”
“-Além dos tralhos que não param de chegar, falta somente a rainha.”
“-Rainha” Repeti sem me dar conta. Como ela ajudaria Elizabeth? O que havia de errado? Odiava ficar atado deste jeito. Isto era pior que qualquer guerra.
Resolvi confiar em Kevin.
“-Você é meu amigo. Posso confiar em você?”
“-Claro. O que quiser. Sabe que pode confiar em mim.” Ele disse.
“-Quem seria contra meu casamento com Elizabeth?”
Ele pensou por um momento:
“-Acho que muita gente. Você vai ter que ser mais especifico.”
“-Ok.” Dei um suspiro: “-Tem alguém chantageando Elizabeth. Se ela se casar comigo, esta pessoa, for, sei lá quem vai me matar. E por isto ela vem me evitando em lugares públicos. Estou ficando louco com isto. Não com a ameaça, mas com não poder chegar perto dela tanto quanto gostaria. É pior do que ter que defender o mundo do mal.” Disse de uma vez só.
“-Antes de começar a dizer várias coisas e te deixar mais confuso, me deixe pensar esta noite e amanhã antes do treinamento falamos, pode ser?” Assenti e me levantei para encontrar Elizabeth.
Chegando a árvore, Elizabeth não estava lá. Fiquei por alguns minutos e a vi do lado de fora do campo de força. O que ela fazia lá? Era perigoso. Gritei seu nome, mas ela não me escutou. Estava andando perto de uma árvore mexendo em seu cabelo e olhando para o chão.
Senti algo de errado e como hoje de manhã estava sentindo a energia má vinda de fora. Não podia deixar Elizabeth lá. Peguei minha bolsa mágica e retirei um vidro com um pó dourado. Segui minha intuição e soprei o pó no campo de força que abriu uma pequena passagem para o lado de fora. Minha espada estava as minhas costas como sempre. Desde o ataque das aranhas tínhamos que ficar armado o dia todo.
Atravessei a passagem e corri para Elizabeth chamando seu nome. Quando me aproximei notei algo estranho. Primeiro que era impossível ela não estar escutando eu gritar seu nome, depois parecia estar sorrindo. Há quase dois metros de distância comecei a perder o controle de meus atos.
Meu corpo havia percebido antes de mim a armadilha. Elizabeth olhou em minha direção e tinha os olhos vermelhos e um sorriso zombeteiro no rosto. É claro que não era Elizabeth, mas uma armadilha. Eu já estava com a espada em punho e ela puxou a dela do chão, que estava escondida no gramado perto de si. Havia várias arvores ao nosso redor e do topo das árvores pularam duas dúzias de soldados negros. Eram os mesmos do meu sonho esta noite, vestiam roupas negras, estavam com couraças feitas com metal escuro protegendo o peito, botas negras e mascaras cobrindo parte do rosto, somente os olhos estavam à vista e flamejavam vermelhos.
Estávamos muito perto do campo de força, mas olhei para dentro e ninguém à vista para me ajudar. Teria que enfrentá-los sozinho. E assim o primeiro soldado se aproximou, enquanto a Elizabeth falsa apenas sorria maliciosamente com a espada em mãos. Desviava de um golpe de espada e golpeava outro oponente. Peguei uma espada de um soldado abatido e usei todos os artifícios de luta que pude. Golpeava com as duas espadas, pés e cotovelos. Percebi que as aulas tinham sido muito úteis. Usei até uma das árvores para dar uma cambalhota desviando de um golpe e caindo em cima do soldado derrubando-o no chão.
Nunca tinha lutado com duas espadas e descobrira que era muito mais ágil desta maneira. Apenas uma parte menor de minha mente analisava o modo como eu lutava, uma parte maior concentrava em abater três ao mesmo tempo. Assim, já tinha derrubado mais da metade quando Elizabeth falsa se aproximou com sua espada em mãos.
Ela era mais veloz que os soldados e era muito difícil convencer minha mente que não era Elizabeth e que precisava abatê-la. Foi à luta mais difícil e os soldados não pararam de atacar. Neste momento, tinha derrubado todos e lutava apenas com Elizabeth.
De repente Elizabeth parou de lutar e rapidamente cravei a espada em seu peito derrubando-a no chão. Ela caiu já voltando a ser um guerreiro negro. No chão, pude ver que não fui eu que a abati, e sim a flecha que estava cravada em suas costas. Ergui o olhar procurando quem tinha me ajudado e pude ver Elizabeth com seu arco em mãos na saída do campo de força que eu tinha aberto.
Corri em sua direção passando para dentro do campo de força e ela selou a passagem com o mesmo pó mágico que eu tinha usado para abrir. Peguei suas mãos e disse olhando em seus olhos verdes que eram muito diferentes da Elizabeth que estava lá fora me atacando.
“-Obrigado”
“-Por que você saiu da proteção?” Ela perguntou incrédula.
Era obvio.
Mas será que ela nem percebeu que era uma copia sua?
“-Não sei se você percebeu, mas você estava lá fora. Uma copia sua que lutava muito bem”
“-Você já não ouviu que o mal é habilidoso e usa as nossas fraquezas para nos atacar?”
Lembrei-me daquilo, mas não achei que era tão ao pé da letra assim.
“-Pude perceber. Mas como exatamente eles sabem minhas fraquezas?”
“-Isto é dito nos treinamentos. Você nunca ouviu?”
“-Acho que não”
“-Aqui dentro, nossos pensamentos são protegidos pelo campo de força, mas quando estamos fora dele. O mal lê nossa mente e a usa para criar suas fraquezas."
“Mas como?”
“Em algum momento hoje de manhã você pensou em mim quando estava fora do campo de força?”
Pensei sobre aquilo e descobri que sim. Fiquei alguns minutos pensando sobre Elizabeth depois que derrubamos o dragão.
Assenti e num estalo achei a resposta para a conversa entre Kelvin, Troy e Jake esta manhã.
“-Hoje de manhã, alguns guerreiros estavam se perguntando por que o mal estava atacando se saberia que perderia. Já sei qual é este motivo..... Eles estavam tentando achar fraquezas nos nossos guerreiros para ter sucesso em ataques contra nós.”
“-Provavelmente” Concordou Elizabeth.
Olhei para fora do campo de força e não havia vestígios dos soldados. Procurei em todas as direções possíveis e nada. Elizabeth percebeu o que eu estava fazendo e esclareceu:
“-Não vai mais encontrá-los. São feitos de energia negativa, assim que derrotamos o corpo físico voltam a sua forma original. Energia densa e maligna.”
“-Está me dizendo que não os derrotamos? Que se sairmos lá fora irão se transformar em outra coisa e nos atacar novamente? Nunca são destruídos?”
“-Mais ou menos. Se destruí-los com armas eles ficarão fora de combate por apenas alguns minutos e depois voltarão a se transformar e atacarão, se quiserem. Mas se depois de derrubarmos usarmos magia, eles podem ser exterminados sim. Este é o trabalho das fadas nas lutas.”
“-hum!”
Ficamos nos olhando por alguns minutos antes de nos abraçarmos. Ela colocou o rosto no vão do meu pescoço e eu toquei os lábios em seu cabelo, memorizando seu cheiro. Parecia que não a via há muito tempo tinha necessidade de estar em sua presença.
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