Garras de aço
2 Stay wild, moon child
Notas iniciais
Enfim, eu fui mandado com a Tati para as florestas. Admito que foi bem ruim mas pelo menos estava com ela e poderia ter o nosso bebê. Mas aquele lugar era horrível. Isso porque não havia assistência médica alguma. Os bebês nasciam de qualquer forma, muitos morriam e seus corpos eram abandonados, compondo um lixão, era afastado, mas o cheiro insuportável nos invadia. Os bebês que eram deficientes eram mortos. “Afinal, para que alimentar uma boca inútil? “ , isso dizia a líder da nossa comunidade, a Francisca .As mães choravam e protestavam mas o que fazer? Eram as regras. E quem escolhia as regras?
Os líderes diziam que o governo estabelece e como são vigiados por diversas câmeras e tudo é murado, não havia como ignorar as ordens do Estado. Esses líderes, como na lei da selva, eram os mais fortes, mais inteligentes e hábeis. E Francisca reunia essas qualidades. Eu morria de medo dela (devo admitir) mas fui obrigado a encará-la. Tinha uma crise de abastecimento de comida. Isso porque a população da floresta se expandia cada vez mais. Além disso, eu não aguentava ver a mãe do meu bebê passando fome. Também me sentia responsável por isso, afinal, eu coloquei ela naquela situação.-
—Com licença, Francisca- eu disse enquanto entrava na "casa" dela.
— Claro, você é...?
— Dimitri.
— E o que deseja?
— Precisamos resolver essa situação.
— Que situação?
— A da falta de alimentos, claro.- respondi, surpreso.
— Não posso fazer nada.
— Como não? Todos os dias vem caminhão do governo descarregando mais gente, e é a senhora que os recebe.
— Você é muito observador, meu caro rapaz.
— O que você vai fazer sobre isso?
— Nada.
— E por que não?
— Temos muita gente aqui, quanto menos melhor.
— E a senhora acha que a solução é matar as pessoas de fome?
— Não é o melhor cenário, mas é o que temos. Não é culpa minha se essas desmioladas engravidam do primeiro que aparece na sua frente...
— Como a senhora tem coragem...?
— A coragem de dizer a verdade? Que futuro você acha que essas pessoas têm? Hein, me diga!
— Não tem futuro- sussurrei.
— Isso mesmo, e que diferença faz elas estarem vivas ou mortas?
— Não é justo.
— Eu sei que não é, mas foram elas que escolheram por isso.
— Deve ter algum jeito de sair daqui...
— Não tem, e você não vai ser o primeiro nem o último a tentar sair daqui,vai conseguir sair daqui mas dentro de um caixão e duvido que você queira isso, afinal, você tem sua mulher e o bebê.
— Então o que posso fazer?
— Aceitar o seu destino.
— Que destino? Ficar preso numa selva, cercado por muros vigiados, ver mulheres e bebês morrendo no parto, ver pessoas morrendo de fome?
— Sim, de que outra realidade você achou que eu estava falando? — ela riu.
— Tudo bem então, já vi que não vamos sair daqui com essa conversa. Tchau.
— Tchau, foi um prazer conhecê-lo.
— Não posso dizer o mesmo.
— Até que você está bem saidinho, para o filho de uma senadora feminista.
— Como você sabe disso? Todos os nossos pertences eletrônicos são tirados da gente...- não adiantaria nada me fazer de João sem braço, fingir que não era comigo.
— Eu tenho minhas fontes... De qualquer forma eu sei o seu segredo, você está na minha mão, então acho bom você ficar na sua...
— E aceitar as coisas como elas estão?
— Elas são assim, seu moleque. E não há nada que você possa fazer, então fica quieto, aceita que sua vida é essa agora, se não... Todos saberão quem você é , então você será perseguido e morto, afinal, é filho de quem criou tudo isso.. O que não é muito vantajoso...
— Vou colocar todos contra você, você não pode deixar as pessoas passando fome, isso é crueldade.
— Você não vai poder fazer nada contra mim... — E partiu para cima de mim com um canivete. Ela enfiou a faca no meu estômago, mas consegui derruba-la, ao se desequilibrar a desarmei. Com raiva, a esfaqueei até que ela parou de gritar. A cabana era isolada, então tive certa vantagem.
Tatiana, aflita com a minha demora, foi me procurar.
— Dimi, o que você fez?- ela me perguntou aflita, ao ver o corpo de Francisca e o chão sujo de sangue.
— Ela ia matar todo mundo de fome e ia ficar feliz com isso ...- eu disse, tentando me justificar apesar de saber que não tinha justificativa. O efeito da adrenalina tinha passado e percebi a merda que eu fiz. Então, comecei a chorar.
— Me perdoa Tati, me perdoa.
— Vamos, vou te tirar daqui, antes que teu machucado piore...
— Ok, ela sabia do que tá acontecendo lá fora, ela sabia quem eu sou... vê se ela não tá com o celular- disse, com um fio de voz.
Meu palpite estava certo, a pilantra tinha um celular. A Tatiana descobriu, através das mensagens, que ela era uma enviada do governo para controlar e exterminar a população da floresta, caso necessário ( ou seja, ele iriam fazer de um jeito ou de outro, só não tinham a data definida ainda).
— Procura algum contato pra tirar a gente daqui, sei lá...
— Pera, tô tentando achar sinal...
E finalmente achou.
— Aqui tem o contato de um tal de Ricardo Miranda... Não é aquele político...?
— É, liga!
Ele atendeu. Mandou imediatamente um helicóptero para me mandar pro hospital. Uma equipe de resgate foi trazida para buscar os outros. Achei que finalmente teria paz e justiça, as ideias infantis que a Tatiana enfiou na minha cabeça e naquela época eu realmente acreditei que era possível. Que esse tal de Ricardo queria nos ajudar apenas por questões humanitárias. Haha até parece.
Ele encobriu meu crime, se livrou do corpo da Francisca como se ela fosse um saco de batatas. Me senti aliviado, mas depois percebi que a omissão é um crime tão grave quanto a mentira.
Quando eu estava internado, perguntei pela minha mãe.
Ele me ignorou.
— Por que vocês não avisaram ela? Por pior que a Helena seja , ainda é minha mãe, eu preciso ver ela.
— Ela não poderá vir.
— E posso saber o por quê?
— Ela faleceu.
— O que.... Como assim? — tentava dizer enquanto lágrimas rolavam do meu rosto.
— Ainda não sabem o motivo do crime...
— Meu Deus, por que alguém mataria a minha mãe? Posso ficar sozinho por favor?
— Claro, você merece seu tempo para digerir essa notícia.
— Ah, e faz um favor pra mim, pede pra Verônica vir me visitar.- Passei o telefone dela para ele.- O mais rápido possível.
— Pode deixar.
Fiquei chorando um bom tempo, quanto tempo não sei, e também não me importava. Então, a Verônica finalmente chegou. As olheiras demonstravam o quanto ela sofria. Seu rosto estava pálido e suas mãos tremiam.
— Dimi, como é bom te ver...Apesar de tudo...Desculpe a demora, achei que era uma armadilha delas...- ela suspirou e pegou na minha mão.
—Delas?
partido. Sua mãe eu nos revoltamos contra o PFL elas mataram a Helena e agora querem me pegar..
— O que aconteceu com a minha mãe? Por que mataram ela?
— Queriam jogar uma bomba química na floresta pra exterminar vocês... E a Helena ameaçou divulgar isso na mídia e acabar de vez com o partido. E você sabe como sua mãe era influente no senado, o que ela quisesse acontecia, ela era uma inimiga em potencial. Elas não queriam sair do poder, então decidiram matá-la. Ela queria te salvar, ela viu que a vida sem você não fazia sentido. Ela viu o quão errada estava, esse tempo todo.
Aí mesmo que não parei de chorar. Ela arriscou tudo para se tornar uma pessoa melhor, não aquela feminista fervorosa que pisava em todo mundo. Por que eu precisei ir embora para ela mudar? A distância era o empurrão moral que ela precisava? Por que ela simplesmente não mudou enquanto eu estava lá pra finalmente descobrir que Helena me amava, assim como amava o velho Dimitri?
— E como mataram ela?
— Criaram uma cena para parecer um roubo seguido de morte e conseguiram colocar uma dupla de drogados na cadeia.
— Muito espertas... E o que você vai fazer agora?
— Por enquanto, vou sair do país. Quando o PFL cair, e a situação se estabilizar eu volto para cá.
— Boa sorte.
— Meus pêsames, meu querido- e saiu secando as lágrimas com a palma da mão.
Quando sai do hospital, Ricardo veio me procurar. Ele providenciou um quarto de hotel para Tati e eu.
— Olá, como vocês estão?
— Já estou melhor. — eu forcei um sorriso.
— Que bom.
Um instante de silêncio seguiu.
— Eu tenho uma proposta pra te fazer: apoie meu partido, Vamos denunciar tudo, você tem como provar, vamos vencer as eleições fácil, fácil...
— Então, você quer que eu seja seu garoto propaganda?
— Eu quero que você diga a verdade, quer que as coisas sejam desse jeito?
— Não quero...
— Então, o que me diz...
Os olhos de Tati me diziam sim. Ela não precisava me falar nada, eu sabia o que ela diria. Nossas ideias já estavam ligadas, o que me assustava um bocado.
— Tudo bem então. Eu aceito te ajudar.
E assim começou a campanha contra o PFL e suas práticas bizarras. Eu estava no rádio, meu rosto estampava os jornais, meus discursos eram ouvidos no horário nobre na TV. Eles investiram pesado na minha imagem e na mensagem que eu transmitia. E eu gostava daquilo, ver minha cara de criança estampada por aí. Orgulho bobo, mas era legal.
As eleições presidenciais finalmente chegaram. O partido do Ricardo ( ou o meu?) venceu o PFL. Nossa, comemorei tanto, parecia que tinha ganhado o prêmio Nobel por descobrir a cura do câncer ( em um mundo paralelo onde cientistas e intelectuais fazem a dança do Snoopy).
— Você é muito idiota sabia? — Tatiana ria enquanto eu tirava ela para dançar e comemorar comigo.
— Sabia — eu a girei e ela sorriu.
Estava tudo melhorando e eu sorria ao pensar no futuro. Pena que meus sonhos nunca se realizaram. Isso porque o presidente que eu ajudei a eleger e confiei, era um tremendo idiota. Ele só era mais um paspalho, como eu. Eu cai na armadilha dos belos discursos assim como a Tatiana. Ele não queriam o poder para melhorar a situação do povo, eles queriam o poder para ser tão ruim quanto o governo anterior ou até pior.
Aprendi isso por experiência própria. O partido que assumiu oprimia, mas de outra forma. Os impostos esmagavam os trabalhadores que não recebiam os cuidados básicos, coisa que não acontecia no outro governo. A segurança era inexistente, o número de policias militares foi ampliado, mas a nova regra era apenas agredir, como dizia a Tati, atiram antes de perguntar, geralmente caos e violência. O governo não tentava implantar ideologia como o PFL mas implantou o medo.
O povo protestava, e em resposta, governo implantou toque de recolher. Os que eram contra o governo, eram perseguidos e torturados, como em toda ditadura nos moldes tradicionais. Também havia censura nas mídias. Não havia liberdade. Assim, aconteceu o que minha mãe mais temia, sorte que ela estava morta para não ver isso.
E então, o povo se revoltou contra mim. Eu era o garoto propaganda que fez a população votar na oposição. Segundo eles, eu era o culpado do país estar na situação difícil que se encontrava . Eu sofria represálias na rua, na internet ... Cheguei a apanhar de um grupo de jovens na rua . Não adiantava nada eu dizer que também acreditei no novo presidente, no Ricardo e na ideologia idiota deles. Isso nem poderia ser chamada de ideologia, mas sim canalhice.
Mas as pessoas não se contentavam, precisavam descontar o ódio em alguém, fazer a justiça com as próprias mãos. Para proteger minha família ( a Isa tinha nascido e bem saudável, ufa!) e me proteger, (obviamente), decidi me mudar, ir para bem longe, em uma fazenda no interior. Era da minha família há muitos anos e agora me pertencia. Eu iria sumir do mapa com elas e finalmente ter paz, não queria mais me envolver com política nojenta. Estava cansado de acreditar em tanta balela.
Mas claro, porque alguma coisa daria certo na minha vida? Meus planos foram brutalmente interrompidos. Algum ser idiota colocou uma bomba no meu carro. E a Tatiana ligou o maldito carro. E assim perdi a minha sonhadora, minha companheira, a garota que me fez acordar pra vida.
Depois disso, resolvi ir pra o interior, levando a minha filha. E agora, não quero mudar o mundo, quero mudar a realidade que eu vivo, quero que a Isa se orgulhe da mãe que ela nem lembra quem é
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