Garotos
10 Capítulo 8 . O Garoto de Cabelos Brancos
Notas iniciais
Espero que gostem! Boa leitura!
Tema: Fantasmas.
Em algum momento, começaram a correr, pela Academia Saint John, boatos de que havia um fantasma na sala de música, e eles resumiam-se dessa forma:
"Um garoto havia esquecido sua carteira na sala de aula e precisava dela naquela noite. Todas as luzes estavam apagadas, e ele levou seu celular para poder enxergar na total escuridão. Porém, quando estava passando pela sala de música do prédio norte, ele pôde ouvir alguém cantando. A voz era belíssima; então, o garoto a seguiu. No entanto, quando ele abriu a porta, deparou-se com uma aparição esbranquiçada, próxima ao piano. Ele ficou paralisado de medo. O vulto, então, virou seus olhos escuros para ele e soltou o mais estridente grito que já pôde ser ouvido".
Havia também rumores sobre a aparição dessa figura nos prédios sul e leste, e, por causa disso, Victor, o professor de música, tinha que ficar em sua sala até a meia-noite. Para dar segurança aos alunos que tem que voltar para a escola porque esqueceram algo, era o que o diretor dizia. Mas Victor apenas se estressava com tudo aquilo. Estava cansado, com fome e precisava de um banho. Por que diabos ele tinha que ficar preso na sala de música, por causa de alunos medrosos?
Ele suspirou pela centésima vez naquela noite. Quanto tempo ainda faltava para a meia-noite? Ele mirou seu relógio e constatou que aquela tortura duraria por, pelo menos mais duas horas. Resmungou baixo. Quando sentiu vontade de ir ao banheiro, deu graças por poder fazer um descanso. Victor levantou-se da cadeira e saiu da sala.
Os passos de Victor em direção ao banheiro ecoaram pelos corredores do prédio. Lentamente, ele afastava-se da sala de música e, a cada passo dado, sentia algo estranho em suas costas, como um arrepio leve. Virou-se. Não havia nada, a não ser uma voz belíssima proveniente da sala. Victor arregalou os olhos. Então, era verdade. Tudo o que os garotos haviam falado era verdade.
O homem engoliu em seco. Paulatinamente, ele voltou à sala de música e abriu a porta, deparando-se com uma aparição esbranquiçada, próxima ao piano. Victor ficou paralisado, analisando aquele vulto. Então, este virou-se para o professor.
Victor tentou não correr ou gritar. Tentou analisar melhor aquela aparição à sua frente. O vulto, então, aproximou-se do homem. Seus cabelos brancos eram medianos e desalinhados, as pontas apontavam em variadas direções. Não havia brilho algum em seus olhos, mas eles não eram negros, como na descrição feita pelo garoto. Na verdade, eram grandes e arredondados. O espírito parecia uma garota, mas Victor sabia que se tratava de um menino belíssimo.
O garoto observava-o fixamente e postou-se a menos de um metro de onde Victor estava. O professor limpou a garganta para falar:
– Então... Você é um fantasma? – talvez, a beleza do garoto fizera com que o homem não sentisse mais medo dele.
A aparição sorriu.
– Sou, sim – respondeu. – Então, você não tem medo de fantasmas?
– Claro que não! – Victor mentiu. – Não sou igual a esses garotinhos molengas da academia.
O espírito riu levemente e balançou a cabeça em concordância. O professor sentiu suas bochechas enrubescerem e ficarem iguais a morangos maduros. De fato, aquele era o garoto mais bonito que havia visto durante todo seu tempo naquela escola.
– Meu nome é Dylan – disse o garoto.
– Sou Victor, o professor de música – o homem abriu um sorriso também. Aquele menino era deveras cativante, então que fosse amigável com ele.
– Então... Professor Victor?
– Pode me chamar só de Victor, se quiser.
Dylan sorriu.
– Victor, pode tocar piano para mim, enquanto eu canto? – perguntou, indo em direção ao instrumento em um dos cantos da sala.
O professor observou o garoto ao lado de seu mais querido piano e sorriu internamente. Tocaria com todo o prazer para aquele garoto belíssimo de voz ainda mais bonita. Por que um menino como aqueles teve que morrer? Por que não deram àquela criatura perfeita a vida eterna? Sua voz parecia ter o poder de curar o cansaço, a fome e a dor, pois Victor não sentia mais nenhum sintoma de um dia de trabalho. Tudo o que queria fazer era ficar mais tempo tocando piano e ouvindo a voz melodiosa de Dylan.
Todavia, pouco antes da meia-noite, o garoto desculpou-se e disse que tinha que ir. Victor zombou, chamando-o de Cinderela, e ele sorriu. Então, antes de desaparecer por completo, indagou:
– Você vai voltar amanhã?
Victor assentiu e fechou os olhos com o clarão de luz que se formou à sua frente. Dylan partira.
Durante semanas, aquelas cena repetiram-se. O professor ficava na sala de música, esperava o fantasma aparecer e tocava-lhe piano enquanto ouvia sua voz. Tornara-se, de alguma forma, parte de sua rotina ouvir o som perfeito que se formava nas cordas vocais de Dylan.
Em uma noite, ele indagou como o garoto havia morrido, e este lançou-lhe um olhar doloroso.
– Acidente de carro – respondeu, simplesmente.
Victor percebeu a dor contida na face e na voz do menino e indagou se podia tocá-lo. Dylan pediu que esperasse um pouco e fechou os olhos, sussurrando algo inaudível. Quando abriu seus orbes novamente, disse a Victor que conseguira ficar um pouco mais materializado.
O professor, então, levantou-se do banco do piano e envolveu o corpo do garoto com seus braços fortes. Dylan surpreendeu-se levemente com o abraço, mas, logo, deixou que suas pequenas mãos repousassem nas costas do mais velho.
– Você devia viver eternamente – Victor sussurrou. – Desculpe por ter perguntado aquilo.
Dylan balançou a cabeça, negativamente.
– Não tem problema, Victor. Estou feliz de apenas poder estar com você.
– Eu também, Dylan.
Nesse momento, os braços do professor atravessaram o corpo do menino e seu corpo caiu para frente. Ele virou-se para o garoto, que sorria sem jeito.
– Desculpe, eu fiquei tão feliz com o que você falou que perdi o controle da materialização.
Então, os dois riram.
Victor nunca abriria mão de suas horas com Dylan. Exceto se fosse um pedido de seu superior.
Em uma noite, o diretor da Academia Saint John pediu que os professores responsáveis pela vigia noturna das salas de música fossem à sua sala. Victor foi a contragosto, resmungando baixo. Esperava que o diretor não dissesse que não precisassem ir mais às salas.
– Os alunos estão dizendo que a força do espírito aumentou, como se a ida dos senhores até lá o irritara – o homem robusto suspirou. – Tolices. Como podem essas crianças acreditarem em fantasmas nessa idade?
Victor teve que conter o riso. Como poderia aquele homem não acreditar em seu belíssimo Dylan?
– Então, a partir de hoje, vocês não precisam mais ir às salas de música. O clube de ocultismo se ofereceu para fazer um exorcismo em cada prédio. Talvez isso acalme os alunos.
Logo, a vontade de rir no interior de Victor desapareceu por completo. Exorcismo? O clube de ocultismo faria um exorcismo? Se fantasmas existiam mesmo, então com toda a certeza que um exorcismo funcionaria e o expulsaria da academia.
Os professores foram, então, dispensados, e Victor correu em direção ao prédio norte. Ele precisava, a todo custo, impedir os membros do clube de ocultismo de fazer o ritual. Arfava em sua corrida desesperada pelo gramado da escola; seus olhos marejavam ligeiramente. Ele não queria, de forma alguma, perder seu Dylan para o mundo espiritual.
Havia três garotos de mantos negros em frente à entrada do prédio. Victor pediu, como professor, que eles se afastassem, mas eles negaram. O exorcismo estava em andamento, e aqueles que não acreditavam no poder das trevas dificilmente sairiam com vida. O homem bufou e pediu novamente licença. Os garotos postaram-se firmes na entrada, impedindo-o de passar. Victor estava a ponto de gritar com os três, quando um garoto mais velho apareceu por trás. Havia um sorriso em seus lábios.
– Está acabado – declarou. – Não há mais fantasmas nesse prédio. Vamos ao próximo.
O clube de ocultismo, rapidamente, pôs-se a caminhar em direção ao prédio leste, e Victor desabou no chão, lágrimas em seu rosto. Estava acabado, não havia mais Dylan na sala de música. Então, chorou sonoramente.
Pouco antes da meia-noite, o professor ainda estava sentado no banco do piano, esperando que, por algum milagre, Dylan aparecesse à sua frente e dissesse que estava tudo bem, que nada havia acontecido com ele. Victor chorou mais, havia se apegado demasiadamente àquele garoto.
Então, sentiu uma mão pequena sobre seus cabelos escuros. Victor virou-se rapidamente, ainda com lágrimas nos olhos e encarou o fantasma.
– Dylan, você não... – ele não conseguiu terminar.
O garoto sorriu dolorosamente.
– Na verdade, sim. Mas não se preocupe, não foram os garotos com mantos negros – ele aproximou-se mais de Victor. – Eu tenho que ir, Victor. Não posso ficar aqui para sempre. Vim apenas me despedir.
O homem fechou os olhos e soluçou alto. O garoto tentou envolvê-lo com seus braços finos, mas não conseguia materializar-se. Suas mãos acabavam por atravessar o corpo do professor. Dylan queria chorar, como Victor o fazia. Contudo, não podia. Era apenas um fantasma.
– Desculpe por não poder abraçá-lo, Victor – sua voz estava falha. – Eu te amo e adeus.
O homem levantou seus olhos rapidamente e um brilho tomou lugar de Dylan, antes que ele pudesse dizer que o amava também.
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Muitos dias passaram-se. Victor aparecia às aulas com uma expressão abatida no rosto, pesadas olheiras sob seus olhos azuis. Os alunos estavam, a cada dia, mais preocupados com seu professor de música e pediram que o diretor desse uma licença a ele. O homem concordou, e Victor passou uma semana afastado do piano e da sala de música.
Não havia mais Dylan, não havia mais a belíssima voz do garoto. Nada podia preencher o vazio que havia se formado no coração de Victor.
Um dia, batidas na porta o trouxeram para a realidade. Ele a abriu, cansado e sonolento, e mirou um garoto de medianos cabelos alourados, que apontavam em variadas direções, e olhos de um tom demasiadamente escuro de azul.
– Eu senti saudades, Victor – disse o garoto.
Aquela voz era inconfundível. Os olhos claros do homem marejaram ao ouvi-la, a nostalgia bateu em seu coração.
– Dylan...?
O garoto sorriu e concordou.
– Eu finalmente acordei do coma, e a primeira coisa que fiz foi vir vê-lo –Dylan apontou para suas roupas. – Agora, eu sou um aluno do segundo ano da Academia Saint John!
Victor jogou seus braços sobre o garoto e puxou-o mais para si, enquanto este colocava suas mãos sobre as costas do professor. Havia quanto tempo ansiava por aquele toque? Por aquela voz? Por aquele corpo? O professor aspirou, pela primeira vez, o cheiro viciante de Dylan. Perfeito. O garoto era perfeito, e pessoas como ele mereciam a vida eterna.
– Acho que vou ter que chamá-lo de professor Victor, agora, não é? – comentou com um sorriso.
– Mas para você, eu serei sempre apenas Victor, Dylan – o homem sorriu. – Eu te amo.
– Eu também – e eles beijaram-se pela primeira vez de muitas outras.
Notas finais
Espero que tenham gostado.
OH, AGORA QUE EU LEMBREI! Eu desenhei o Aoi-diva ♥ aqui o link: http://takoyakiwinver.deviantart.com/#/d5jp1fn , eu achei uma droga, mas anyway.
Até a próxima, então, pessoal!
Takoyaki ~ Bolinho de Polvo.
Próximo: O Garoto de Manto Negro.
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