Garotos

1 Capítulo 1 . O Garoto com o Casaco de Listras


Notas iniciais
Hallo! Bem vindos a Garotos, a coletânea de contos da Takoyaki. O tema desse primeiro capítulo é amor à primeira vista.
Boa leitura!

A mãe de Kugayama Ruki achava que seu filho combinava com a cor rosa e gostava de dar a ele roupas com detalhes de tal tom. Ele nunca reclamara. De alguma forma, ele também achava que seu cabelo combinava com aquela cor, por isso, desde que o pintara de lilás, nunca comprara tinta de outra tonalidade. Um dia, ele abriu um pacote que recebera da mãe e encontrou um casaco escuro de listras cor-de-rosa. O garoto ficou radiante e começou impulsivamente a puxar sua luva sem dedos em direção ao cotovelo era uma mania que aparecia quando se interessava por algo. Ele pôs o casaco em um cabide na parede e disse a si mesmo que o usaria no dia seguinte.

Alguém bateu na porta e, logo em seguida, abriu-a. O colega de quarto de Ruki entrou e se jogou na cama mais distante da janela. Ele reclamava baixo. Ruki sentou-se ao seu lado e passou a mexer em seus cabelos alourados. Os olhos azuis encararam-no com uma expressão dolorosa.

- O que aconteceu, Aoi? — indagou.

- Eu fiquei com um garoto do terceiro ano e ele quis testar uma posição nova para...

Aoi foi interrompido pela voz estridente de vergonha de Ruki, que estava com as maçãs do rosto enrubescidas.

- Não precisa completar. Eu já devia saber.

O garoto louro riu levemente de seu amigo. Enquanto a personalidade de Aoi permitia-lhe falar abertamente sobre sexo e baixarias, Ruki era inocente e conservador. Sua vergonha ultrapassava os limites do comum, e ele mal conseguia conversar com os garotos da sua idade por causa disso. Aoi gostava de importuná-lo, descrevendo nos menores detalhes suas noites ou, muitas vezes, tardes com outros garotos.

Aoi sentou-se na cama subitamente, fazendo uma careta de dor, e aproximou seus lábios da orelha do colega de quarto.

- Sabe, Ruki, você deve achar que apenas meu quadril esteja doendo, já que os garotos sempre entram com muita força, mas eu já estou acostumado com isso. O que está me matando mesmo é o meu pescoço, porque eu tive que me apoiar nele para que o garoto pudesse alcançar o meu pê...

A boca de Aoi foi tapada repentinamente por duas mãos pequenas. Ruki disparou a falar, tão vermelho quanto um morango maduro:

- Acho bom que você se divertiu hoje, Aoi, mas eu tenho que resolver algumas coisas, antes da hora de recolher. O melhor a fazer é tomar um banho quente e dormir, não acha?

Ruki levantara-se da cama e pegara seu novo casaco enquanto falava. Já estava na porta quando se despediu de Aoi. Ele fechou a porta atrás de si e suspirou. Era mentira que tinha algo a fazer; apenas não queria continuar aquele tipo de conversa. O louro sabia exatamente o que havia acontecido e, por isso, ria alto dentro do quarto enquanto o garoto colocava o casaco sobre o corpo e postava-se a caminhar pelo corredor do alojamento do segundo ano.

Ruki era um garoto bonito. Seu rosto era levemente arredondado, dando-lhe uma aparência mais jovem. O cabelo pintado de lilás caía liso até a metade da altura de seu pescoço, a partir de onde se curvava para dentro. Sua franja estava sempre presa no alto, com um elástico decorado por duas bolas roxas e brilhantes nas pontas. As roupas que ele usava eram diferentes e coloridas. Por baixo do casaco, ele usava uma camisa de botões branca e uma gravata de um tom escuro de roxo. No braço esquerdo, havia uma luva sem dedos preta que quase alcançava seu cotovelo; no direito, havia uma branca. Uma calça justa demarcava as curvas leves que possuía e, nos pés, estavam tênis pretos com detalhes brancos. Foi por essa aparência que Kim se apaixonara.

Kim Sang-Jun era um garoto coreano de dezessete anos. Seu cabelo era curto e tão escuro quanto seus olhos. A pele lisa era clara, e nada em seu corpo o destacava dos outros garotos de sua idade. Kim era comum estremamente comum -, e, talvez, fosse por isso que ele se apaixonara à primeira vista por Ruki, que certamente era o garoto mais diferente da escola.

O quarto de Kim era exatamente em frente ao de Ruki. Todos os dias, o coreano via-o sair para o café da manhã e voltar das aulas. Não era que ele o estivesse seguindo; apenas esperava-o sair do quarto para dar-lhe bom dia e aguardava-o no portão de aulas para andar a uma distância de alguns passos, atrás dele.

Naquela noite, Kim ouviu-o bater a porta e levantou-se da cama em um salto. Ele esperou o barulho dos passos afastar-se para sair. Ruki caminhava em direção ao pátio com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco. Kim pensou, no momento em que pousou os olhos sobre sua figura, que aquele casaco combinava perfeitamente com o cabelo lilás do garoto.

Ruki saiu e sentiu o ar frio da noite arrepiar seus pelos. Seu corpo encolheu-se impulsivamente. Havia um banco de mármore embaixo das folhas tremulantes de uma árvore; parecia convidar o japonês para sentar-se, e ele fez exatamente isso. Aquele lugar era relaxante. A lua banhava-o delicadamente, clareando ainda mais sua pele.

Era uma cena excitantemente tentadora para o coreano. Ruki, de olhos fechados, tinha o corpo jogado levemente para trás, apoiado nas mãos espalmadas no mármore. Kim engoliu em seco e, lentamente, pôs-se a caminhar em direção ao garoto. Tinha que tomar coragem algum dia mais precisamente naquele dia.

Entretanto, quando já estava próximo o suficiente para tocá-lo, Ruki abriu os olhos, assustando-se com a presença de Kim.

- Desculpe-me — Kim apressou-se em dizer. — Eu só achei... Achei que...

O garoto japonês olhava-o com curiosidade, uma sobrancelha arqueada. Kim passeava seus olhos pelo outro, a fim de encontrar um pretexto. Talvez um elogio retirasse aquela expressão estranha do rosto de Ruki.

- Seu... Seu casaco! — disse. — Ele combina com seu cabelo.

Ruki abriu o sorriso mais bonito que Kim já vira na vida, e seu coração falhou uma batida. O coreano riu junto ao garoto e sentou-se ao seu lado. Durante todo o intervalo de tempo que tinham entre aquele momento e o horário de recolher, eles conversaram sobre tudo e descobriram ter muitas coisas em comum. A todo instante, a mão de Ruki, inconscientemente, puxava sua luva sem dedos em direção ao cotovelo.

A partir daquela noite, eles iam e voltavam da escola juntos, encontravam-se nos intervalos e mandavam mensagens um ao outro depois do toque de recolher. O coração de Kim palpitava a cada vez que o celular anunciava uma mensagem, enquanto Ruki brincava com sua luva e lia as mensagens de seu novo amigo.

No entanto, os humanos têm um limite. Quanto mais perto se está da pessoa amada, mais quer tocá-la, senti-la, abraçá-la e beijá-la. Kim chegou ao seu limite em uma semana e meia.

Estavam os dois sentados lado a lado naquele mesmo banco de mármore. Ruki falava sobre alguma banda de seu país, mas Kim não ouvia; apenas via o movimento tentador dos lábios rosados do garoto. Como ele queria tocá-los com os seus próprios!

Vagarosamente, o coreano aproximava-se do menino pouco mais baixo que ele, o qual mal percebera aquele movimento lento. O rosto de Kim já estava muito próximo quando Ruki parou de falar e encarou-o com surpresa. Nos últimos centímetros, Kim teve que ser rápido. A barreira de amigos quebrou-se. Os lábios tocaram-se, amassaram-se. A língua do coreano pediu passagem após algum tempo, empurrava os lábios de Ruki, tentando abri-los, a fim de adentrar sua boca.

Foi uma tentativa sem sucesso. O japonês espalmou as mãos no peito do garoto e empurrou-o. Ele encarava-o com os olhos arregalados, a face enrubescida de orelha a orelha e o peito a subir e descer.

- O que... O que está fazendo? — indagou.

- Eu... Desculpe, eu... — Kim estava surpreso pela ação do garoto. Ele não achava que Ruki o rejeitaria daquele jeito. Estava tão próximo dele que pensou que talvez ele correspondesse ao beijo.

O garoto levantou-se de súbito e correu em direção ao quarto que dividia com Aoi, deixando Kim sozinho a torturar-se pelo que havia feito. Destruíra a amizade que mais queria conquistar.

Em seu quarto, Ruki caminhou como um zumbi para sua cama. Ainda estaava atônito com o que acontecera. Ele correra porque havia se assustado. Foi tão repentino que seu cérebro não processara tudo da maneira correta. Jogou-se na cama, surpreendendo Aoi, que já estava deitado, em seu primeiro sono. O louro bocejou e pousou os olhos sobre seu colega de quarto.

- Ruki? Já tocou o sinal para recolher?

Aoi sabia que o garoto ficava sob aquela árvore até o último instante. Porém, quando não resposta alguma de Ruki, sentou-se preocupado, mirando o corpo de seu amigo sobre o lençol branco.

- Ruki?

Aoi levantou-se da cama em um salto e aproximou-se de seu amigo a passos rápidos. Ele sentou-se na cama e mexeu no cabelo lilás com os dedos. Ruki virou a cabeça um pouco a fim de poder observá-lo, pelo menos, com um de seus olhos escuros. Estava com uma expressão triste estampada no rosto, o que fez Aoi arregalar os olhos.

- Ruki, o que aconteceu? — ele virou-se para o relógio, ainda assustado. — Ainda são oito e meia. Por que veio mais cedo?

Ruki sentou-se na cama e fitou Aoi no fundo de seus olhos azuis.

- Você sabe mais disso do que eu — afirmou, sério. — Por que um garoto me beijaria e tentaria... Passar de apenas um tocar de lábios?

- Quer dizer um beijo de língua? — Aoi indagou sem corar, enquanto Ruki ficou tão avermelhado quanto um morango. O louro riu. — Ele poderia te beijar se te achasse bonito, ou sentisse atração, ou gostasse de você. Kim roubou seu primeiro beijo, então? — Aoi abriu um leve sorriso, interessando-se pelo assunto.

Ruki abaixou a cabeça, envergonhado, e concordou.

- Foi de repente e... acabei fugindo dele.

- O quê? Por que fez isso? — Aoi perguntou, exasperado.

- Eu fiquei assustado! Ninguém nunca tinha feito isso comigo antes — lágrimas formaram-se nos olhos de Ruki. Enquanto ele falava, elas caíam uma a uma. — Eu não sabia o que fazer. A única coisa que me veio à mente foi fugir, mas eu não queria!

Aoi surpreendeu-se e jogou os braços ao redor dos ombros de seu amigo, a fim de acalmá-lo. Ruki tremia levemente enquanto suas lágrimas quentes molhavam a camisa do amigo. O louro percebeu que ele havia acabado de conhecer um sentimento com o qual não sabia lidar.

- Você gosta dele, Ruki, não é?

O garoto levantou seus olhos escuros para encarar Aoi.

- Ta-talvez — soluçou no meio da palavra. — Acho que sim.

Aoi sorriu e apertou ainda mais o garoto entre seus braços. Momentos depois, Ruki estava dormindo, cansado por ter chorado muito. O louro deitou-o na cama e cobriu-o com um fino cobertor branco. Então, saiu do quarto.

Kim ainda estava sentado no banco de mármore sob a árvore. Sua cabeça estava baixa e suas pernas, inquietas. Ele também se incomodara com aquela situação, e Aoi pensou ter visto uma lágrima cair sobre sua coxa.

- Você também gosta dele? — indagou quando já estava bem próximo a Kim.

O garoto levantou seus olhos e encontrou Aoi. Ele já o conhecia. O garoto que sempre estava com os veteranos e era o colega de quarto de Ruki: Hanabusa Aoi, o brinquedo favorito dos outros garotos. Aoi sentou-se ao seu lado.

- Eu divido o quarto com Ruki, meu nome é Aoi — Kim sabia, mas preferiu não falar nada. — Você gosta do Ruki, não?

Kim abaixou novamente a cabeça e concordou. O louro abriu um sorriso e bateu nas costas do coreano.

- Vocês são tão lentos! — exclamou. — Se fosse eu, já teria transado há muito tempo e não ficaria quase duas semanas só conversando. Principalmente se eu fosse você; Ruki é tão gostoso. — levantou-se. — Hoje eu vou dormir no seu quarto, Kim. Prometo não agarrar o seu amigo.

- O quê? — Kim espantou-se, pondo-se em pé. — Não! Eu...

Aoi pôs o dedo indicador sobre os lábios do coreano. Um sorriso brincava em seus lábios.

- Kim, ele também gosta de você. Lembre-se de que aquele era o primeiro beijo dele.

O louro deixou o braço cair ao longo de seu corpo e foi andando em direção ao quarto dos garotos coreanos.

Kim adentrou o dormitório de Ruki devagar para não assustar o garoto. Ele dormia como um anjo sobre seu colchão. Sorriu. Aoi tinha razão: Ruki era realmente um garoto gostoso.

As pálpebras do japonês, repetinamente, tremelicaram, e ele abriu os olhos. Ainda sonolento, sentou-se na cama e bocejou, para, então, observar a figura à sua frente.

- Aoi? — ele apertou os olhos, ainda com a visão embaçada. — Não... Kim?

O coreano deu um meio-sorriso e andou alguns passos em direção à cama de Ruki, que ainda estava surpreso por ver o outro garoto ali.

- Desculpe por ter feito aquilo, Ruki.

- Não! — exclamou, nervoso. — Eu que tenho que pedir desculpas... Eu fugi de você.

Kim chegou ainda mais perto, o suficiente para tocar o japonês. As pontas de seus dedos alcançaram a bochecha de Ruki e acariciaram-na. O garoto sorriu lindamente, como quando eles haviam se encontrado pela primeira vez no banco sob a árvore. Ruki usava o mesmo casaco de listras.

- Vamos fingir que esse é o nosso banco de mármore? — Kim sugeriu.

O japonês deu dois tapinhas no colchão, concordando. Então, o coreano sentou-se ao seu lado. Ficaram em silêncio por um longo tempo, sem saber o que deveriam falar ou como deveriam agir. O tiquetaquear do relógio sobre o criado-mudo atormentava-os a todo tempo, e Kim engolia em seco de quando em quando, nervoso.

Ruki estava muito mais avermelhado que o normal. Em algum momento, seus olhos se encontraram, e seus corações bateram mais forte. Não era o mesmo que antes. Não pareciam mais ser apenas amigos, e a causa para essa situação foi o beijo que Kim roubara. Ruki sabia disso, mas desconhecia uma maneira de endireitar tudo aquilo.

Então uma luz clareou sua mente. Ele aproximou-se lentamente de Kim e segurou seu ombro largo. No momento em que o coreano virou seu rosto para o garoto, Ruki colou seus lábios. Dessa vez, Kim era quem estava demasiadamente surpreso e o japonês, quem forçava sua língua para dentro da boca do coreano, que, prontamente, retribuiu o beijo. Elas dançavam dentro daquela cavidade úmida enquanto os barulhos típicos daquela ação inundavam o cômodo. A mão de Kim segurou a cintura fina do garoto e puxou-o para mais perto. Ruki gemeu levemente quando teve seu lábio inferior mordiscado. Em um instante, Kim conseguiu puxar o outro garoto e jogá-lo no colchão, ficando por cima logo em seguida. Ambos arfavam enquanto encaravam-se.

- Estamos quites disse Ruki por fim.

Kim sorriu.

- Você só foi mais rápido. Eu ia te beijar de qualquer jeito — afirmou em um tom orgulhoso. — Aoi tinha me dito que você gosta de mim.

- Falando nele Ruki olhou para os lados, como se procurasse algo -, onde está Aoi?

- Está no meu quarto.

Ruki olhou-o com uma expressão surpresa.

- Você deixou Aoi e seu colega de quarto sozinhos? — indagou.

- Ah, sim — Kim não conseguia ver o que havia de ruim naquilo. — Ele me disse que não ia agarrá-lo.

Nesse momento, os garotos ouviram um som abafado vindo do quarto à frente. Parecia um gemido alto. De prazer. Abafado por uma almofada. Ruki riu.

- Nunca acredite no Aoi quando ele disser que não vai agarrar alguém. Prepare-se para aguentar um garoto morrendo de amores pelo Aoi amanhã.

Kim deu um meio-sorriso. Seu nariz foi de encontro à pele alva do pescoço de Ruki, aspirando seu cheiro inebriante em seguida.

- Tudo bem. Ele terá que aguentar um garoto morrendo de amores pelo Ruki.

O japonês corou ao ouvir aquilo, o coração acelerado. Kim aproximou os lábios da orelha do garoto abaixo dele e mordiscou o lóbulo levemente.

- O que acha de mostrarmos a eles o que nós sabemos fazer também?

Ruki aceitou a proposta um tanto hesitante, já que aquela seria sua primeira vez. Então, naquela noite, amaram-se pela primeira vez de muitas outras.



Notas finais
Bem, espero que tenham gostado. Comentários são muito bem vindos (:
Pessoalmente, eu gostei bastante do Aoi. Acho que eu gosto desse estilo de personagem masculina, meio bitch, mas ainda carinhoso. Próximo capítulo será centrado nele!
Próximo: O Garoto de Muitos Outros