Garoto de Papel (Hiato)
11 Não há motivos para me envergonhar - Parte 1
Notas iniciais
Eu não queria soltá-lo.
Mantive o abraço e máximo que pude, mas sabia que tínhamos que conversar antes que o sinal batesse. Soltamo-nos e ele segurou minha mão, olhando para os dedos entrelaçados.
— Estou confuso, Alana. Eu... Gosto de você. Eu olho para você e sinto vontade de te tocar, te abraçar, de te beijar. Mas, ao mesmo tempo, eu também gosto da Letícia, cuja existência eu mal me lembrava até ler aquele livro. E eu também não sei o que é aquele livro. Sei que você escreveu e sei que é minha vida, mas eu não sei como você sabe tanto sobre mim. Eu não sei de nada.
Toquei seu rosto com meu dedo indicador. Ele finalmente olhou nos meus olhos, e estava com lágrimas nos olhos, assim como eu. Resolvi contar toda a verdade. Ser cem por cento honesta.
— Eu escrevi aquilo, Daniel. Eu escrevi sua história quando eu tinha oito anos, e com o passar do tempo ela foi sendo aprimorada. No meu aniversário de dezesseis anos eu estava muito triste com meu pai, minha madrasta, minha vida, então desejei que você se tornasse realidade. Eu pedi com todo o meu coração. Não sei se as velas chegaram a ser o motivo de você ter se tornado real, mas você se tornou. E eu não quero que vá embora. A Letícia sou eu com um nome diferente. Você é o garoto que eu me apaixonei sem nem mesmo ter conhecido.
Ele balançou a cabeça, em confirmação, como se aquela explicação fosse a mais óbvia e aceitável. Passou as mãos pelos meus braços, e depositou um beijo suave na minha testa, depois na minha bochecha direita, passou pelo nariz, foi para a bochecha esquerda, e quando estava prestes a me beijar de verdade, o sinal tocou. O clima foi interrompido e nos soltamos, mas eu ainda estava arrepiada da cabeça aos pés.
Tentei inutilmente controlar o tremor que Daniel havia causado em mim, mas minhas mãos me denunciavam. Guardei-as nas mangas do moletom, e, quando Guilherme passou por mim, sorrindo como se soubesse de tudo que havia acontecido, corei automaticamente. Talvez aquele sorriso não fosse um sorriso “eu-sei-examente-o-que-você-fez”, mas na minha cabeça era. Segurei minhas mangas com ainda mais força, evitando olhar para trás.
Eu não tinha motivos para me envergonhar de nada do que havia feito, eu sei. Mas é difícil olhar para Daniel depois daqueles beijos, mesmo que não tenham sido na boca.
Passei a aula toda olhando para baixo, envergonhada demais para fazer qualquer coisa. Quando o sinal do intervalo tocou, tentei correr antes que qualquer um, mas senti uma mão segurando meu braço.
— Você não vai sair correndo assim, fujona. — me virei apressada. Mel soltou meu braço e sorriu levemente. — Não tem porquê tentar fugir.
— Eu... Eu só...
— Eu sei, deve ter rolado aquela super-reconciliação mega fofa e você está com vergonha. Não precisa, mana. Eu e o Gui estamos cientes do quase beijo que rolou aqui.
Tive vontade de enfiar minha cara num buraco e nunca mais olhar a luz do sol. Daniel havia passado perto de nós naquele exato momento, e não é como se Mel fosse discreta. Diogo e Felipe, colegas de classe, olharam para nós com sorrisinhos.
— Mel, entendi, não há motivos para me envergonhar, agora fica quieta, por favor. Tá todo mundo ouvindo!
Ela fechou a boca e fingiu passar um zíper nela. Nós caminhamos até a porta da sala, mas fomos paradas por Daniel, que aparentemente me esperava.
— Posso conversar com você, Alana? — Mel olhou para nós dois, sorriu maliciosamente e saiu de perto. Nós ficamos parados no batente da porta até que todos os alunos saíram.
— Eu... Eu acho que nós devíamos... Ham, acho, eu. — segurei a vontade de rir enquanto Daniel se atrapalhava com as palavras. Quando um risinho escapou pelos meus lábios, ele olhou para mim e sorriu ligeiro.
— Vamos, garanhão, fale logo.
— Okay, senhorita. Eu gostaria de te convidar para a brincadeira mais divertida de todos os tempos. — eu sabia exatamente qual brincadeira era, mas preferi me fingir de desentendida. Não seria legal interrompê-lo agora, ainda mais dizendo esse tipo de coisa. Mas eu já sentia meu braço doer. —, paintball!
Torci o nariz levemente.
— Eu não quero ficar com marcas roxas pelo corpo.
— Juro solenemente que irei protegê-la de todo mal, senhorita. — ele exclamou, galanteador, beijando minha mão. Ri do gesto, concordando com a cabeça.
— Okay, eu vou ao paintball com você, Daniel.
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