Notas iniciais
Aqui eu coloquei a Nobume como uma padeira. (oi?) E a Kagura (no tempo atual) como dona de um albergue (hello?? q), que é basicamente um hotel, só que mais informal, e os quartos, os banheiros e a cozinha são compartilhados. (sorry se for uma informação que já sabias, eu pelo menos não tinha muita certeza do que era até eu pesquisar :xxx q). "Pon de ring" é um tipo de donut (para quem não conseguiu/não quis acessar o link enquanto tava lendo qq). Espero que gostem dessas meninas, sinceramente NÃO SEI MESMO se consegui colocar elas nas personalidades, principalmente a Kagura. *chora* É difícil para mim escrever yuri, mais por falta de persons/ships que eu goste que qualquer outra coisa *a maior parte dos animes que vê/lê só tem duas ou três meninas no time principal q* Enfim, sem mais delongas *porque olha quanto eu delonguei o prazo final é amanhã (06/01)*, vamos a fic! Qualquer dúvida e erros é só avisar, ok? Legenda básica: — Diálogo no presente. "Diálogo no passado"

Nobume olhava fixo para as ondas que vinham para a terra firme. Conhecidos se divertiam no mar, reclamavam do frio da água e a cumprimentavam ora ou outra. Quando ninguém estava olhando, ela franzia as sobrancelhas para aquelas águas que vinham e não a arrebatavam do mundo. Não era um dia a dia incomum.

Três semanas se passavam desde que havia voltado para aquela terra de férias onde o albergue, o mar, o sol e a brisa que vinha do mar, salgada e inesquecível, tentavam por fim as sombras que agitavam seu espírito. Quando veio ali pela primeira e última vez, quando conheceu aquela pessoa, os fenômenos da natureza lhe pareceram mais efetivos que naquele momento.

O pôr do sol cobria partes do cabelo de Nobume, formado por mechas escuras como a noite, e o deixava tingido com um vermelho similar ao de seus olhos, algo como sangue-fresco que gelava a espinha de qualquer turista. Os fios de cabelo serviam de esconderijo incompleto à expressão de aparente indiferença.

Nobume sentiu uma presença atrás dela, só que não se mexeu do lugar; um sorriso mínimo, entretanto, surgiu na expressão ao ouvir os amigos de ambas chamarem Kagura de longe. Fingiu não ter ouvido nada, porém seu coração bateu rápido.

Todavia isso não se pôde ser visto em sua expressão. Desde cedo a comunicação de Nobume nesse quesito era complicada, tanto para os outros como para si mesma. Logo, as palavras acabaram por ser essenciais para ela, mais do que para a maior parte das pessoas.

E, apesar de que mal-entendidos fizessem parte de sua vida como os membros de seu corpo, as palavras lhe eram queridas, embora continuassem falhas. Com isso não seria tão estranho que aquele que as usassem tão bem, pelo menos que fizesse com que elas soassem bem aos seus ouvidos, estivesse em uma posição especial em seu coração. Que fizesse com que a garota que seria como uma máquina, que se apegava a pouquíssimas coisas, retornasse aquele lugar, se bem que sua antiga pendência ainda pesasse.

Kagura quase caiu no erro de jogar a caixa de donuts que tinha nas mãos na cabeça de algum de seus amigos, o que seria duplamente um erro já que além de perder sua desculpa nem era muito pesada, todavia, firmou os pés no chão e respirou fundo. Nobume continuava imóvel, apesar do súbito chamado dos amigos delas, apenas os cabelos escuros se movimentavam ao ritmo do vento.

Kagura deu um passo e recuou com os olhos cerúleos presos na sapatilha que usava, a caixinha do doce pesava mais do que antes se isso fosse possível. O lábio inferior foi mordido pela garota com relativa força até que respirasse fundo outra vez e forçasse os pés a terminar o caminho, levando-a ao lado de Nobume.

Kagura se sentou na terra molhada e abriu o pacote sem responder ao olhar furtivo da outra. O estômago revirava, porém, de alguma forma conseguiu apanhar um pon de ring da caixa e mordeu um pedaço. Ao ver que o doce favorito de Nobume não foi suficiente para que falasse com ela acabou por frustrá-la, partindo de imediato para o plano b, que consistia em tão somente devorar os donuts da caixa com uma expressão nítida de irritação.

Nobume suspirou diante daquele comportamento. Viu que Kagura cresceu bem nos últimos quatro anos, apesar de ter ouvido sobre o tratamento da doença, herdada da mãe, que fazia com que a outra garota tivesse mais cuidado com o sol. Os cabelos laranjas ficaram mais longos e soltos, diferente de sua versão mais nova que o prendia em dois coques, um em cada lado da cabeça.

Naquela época ela usava um vestido chinês vermelho que por certo devia estar pequeno ou ela o estaria usando no momento. Nobume em comparação não mudou, pois usava o mesmo antigo uniforme branco de trabalho — apesar de estar em uma praia com graus elevados de calor — e possuía a mesma visão limitada do mundo.

— Não precisa comer tudo sozinha. — Nobume disse quebrando seu estado silencioso de antes.

Kagura parou por um curto instante, depois balançou a cabeça freneticamente e voltou a ingerir os donuts. Nobume não parou de observá-la até que Kagura parasse um dos doces a meio do caminho da boca, baixasse o rosto, donut e tudo e dissesse em uma voz falha:

— Desculpa.

— Eu posso fazer pra mim depois. — Nobume disse sem entender muito.

— Não falo disso.

— Eu que te devo desculpas. — Nobume disse e foi apenas naquele momento que se levantou do chão.

Nobume encara o mar mais uma vez como se conseguisse trazer de volta as palavras que escaparam de sua boca. A cor vermelha do céu, como de um mar de sangue, se tinha convertido a um tom azul escuro de luto.

A brisa marítima ainda estava lá com seu cheiro leve, salgado, e inesquecível enquanto tentava fazê-la esquecer de suas aflições sem sucesso. O mesmo tentava fazer Kagura, colocando o dedo indicador adocicado sobre seus lábios com o intuito de interrompê-la em suas desculpas. Possuíam alturas muito próximas agora para que Kagura não precisasse mais de tanto esforço para abraça-la pelo pescoço. Estavam em um impasse. Kagura falou de todas as coisas que lhe aconteceram durante aqueles quatro anos em que ficaram separadas ou algo próximo disso. Não mencionou o dia da despedida, embora Nobume se esforçasse em fazer o assunto vir à tona.

Aquela brisa marítima em formato de gente a abraçava e Nobume viu que seu interior ficava mais e mais exigente com relação a essa brisa que tentava envolvê-la e afogá-la. Nobume sentia o cheiro forte de protetor solar vindo da pele de Kagura e isso a faria a tocar um pouco mais se a garota não tivesse gritado em seu ouvido.

Depois do desconforto inicial Nobume viu que alguns donuts que haviam sobrado na caixa foram levados pelas ondas que tinham se tornado mais fortes com o decorrer do dia. Eles estariam perdidos no mar e o corromperiam com sua imundice. Kagura, que não estava a par de suas filosofias, tentou ir até o mar e as tirar de lá. Foi impedida por Nobume que disse em voz alta sua similaridade àqueles doces como se tivesse feito uma descoberta importante. Quando Kagura inclinou a cabeça por falta de entendimento não a culpou. Não disse mais nada e seguiram caminho de volta para o albergue com uma Kagura animada terminando de narrar suas histórias do ano passado.

Nobume sorria diante do contentamento de Kagura, que por certo tinha superado em boa parte o receio de conversar com ela a sós.

Quatro anos atrás, Nobume ficou de férias e foi recomendada para aquele albergue por sua amiga e chefe Soyo, ela foi mais por imposição do que qualquer outra coisa, pois não via a necessidade até então de aproveitá-las. Todavia, eis que um telefonema lhe chegou, mal completavam duas semanas que estava ali, trazendo-lhe as notícias. Quando ficou descontente por aquela brisa marítima ter chegado ao fim, lhe vieram repreensões mentais.

O cérebro de Nobume acabou por trabalhar no automático, a partir daí, e as coisas ao seu redor destoaram. E Kagura, que se encontrou com ela para perguntar o que houve, provavelmente ouviu de Nobume algo rude, porque os olhos dela brilharam muito.

Não passou pela cabeça de Nobume que Kagura a tinha evitado até ali por um pedido de desculpas, e quando ouviu o motivo para isso ficou mais surpresa do que conseguiria transpor em palavras, a essa altura já tinham chegado ao albergue e no quarto em que compartilhavam. Nobume tinha uma visão limitada do mundo, centrada em si, onde apenas se importava com o destino de poucas pessoas, as mais próximas dela. Portanto, a ideia de que Kagura pudesse ficar triste por não conseguir fazer algo quanto ao acidente do parente dela, alguém que nem conhecia, parecia surreal. Quando chegou a dizer que ficou triste por causa dela, a compreensão lhe fugiu ainda mais.

Contudo, estava claro que Nobume teria de afundar seu pedido de desculpas depois disso, a qual lhe pesava no peito como uma dívida, se era a condição para que ficassem naqueles bons termos, porém havia uma coisa que teria de dizer.

Naquele momento, Kagura abraçava Nobume como um bichinho de pelúcia, as duas tinham o lençol fino ocultando boa parte de seus corpos. Não era algo incomum para Nobume desde que Kagura lhe confidenciou uma vez que tinha pesadelos quando dormia sozinha, em maior parte compostos pela realidade de ver a mãe sofrendo de um câncer de pele diagnosticado tardiamente. A garota vinha prestando atenção nela desde que tinha colocado os pés naquele lugar. Não era por aquele ser um albergue em que apareciam poucas mulheres com as quais Kagura pudesse se identificar, apesar de que poderia ser se não fosse pelo outro motivo.

“Você tem olhos tristes”

Nobume a tinha olhado com a indiferença e gelo que reservava a qualquer um que não era próximo, todavia o que Kagura disse posteriormente, ao sentar ao seu lado com uma caixa de donuts nas mãos, a fez ficar surpresa e de alguma forma interessada “Vou te fazer companhia, ‘tá bom? É que nem os meus”.

Kagura lhe deu um donut da caixa com um sorriso. Nobume o aceitou, e elas ficaram olhando para o mar. Seria uma cena digna de filmes românticos, com a brisa marítima trazendo sal aos cabelos das duas, se a garota não lhe falasse sobre coisas sombrias e estranhas com um sorriso.

Nobume passou a encontrá-la cada vez mais, era difícil não conseguir quando a garota era a filha da dona do albergue. Foi encontrá-la mais uma vez como atual dona para poder se desculpar, mesmo que sem ideias, e quem sabe corresponder o abraço que havia recebido em noites como aquela, onde apenas se deixava ser presa pela onda. Nobume ainda estava contaminada pelos seus fantasmas, porque demoraria a assimilar que seu pai adotivo, Isaburo, tinha uma probabilidade alta de não mais despertar do coma, após o acidente que sofreu em seu trabalho, assim como ainda pesaria por um tempo considerável a culpa por não estar do lado dele no momento.

Nobume conseguiu corresponder Kagura, não obstante, quando o sol do dia seguinte estava alto. Nobume disse em um tom calmo quando abraçou Kagura por trás:

—... faz um tempo que eu cheguei a pensar que você parece uma brisa marítima.

Por um instante, Kagura a olhou demorado, o que fez Nobume a olhar sem entender, receosa até, pois era a forma mais discreta que encontrou para transmitir o que sentia em relação a outra garota, porque a forma direta parecia estranhamente bloqueada.

—... e você seria o donut perdido? — Kagura disse com um sorriso.

— Pode pensar assim. — Nobume disse sentindo as palavras desajeitadas.

—... tudo bem! — Kagura acabou por dizer, separando-se de Nobume, com as ondas do mar molhando um pouco o chão aos seus pés —, mas tem que me vencer no pedra, papel e tesoura. Se a rainha aqui vencer, você quem vai ser minha brisa particular, Nobume!

“Não se pode ter duas nesse território! ” Nobume sorriu de leve pelas últimas palavras da garota enquanto colocava um punho fechado diante de si. Quer dizer que Nobume não era a única a ter seus problemas varridos, mesmo que apenas temporariamente, na presença de alguém?

— Quando quiser. — Nobume disse, o olhar determinado.

— Um... dois... três... — Kagura disse, também se posicionando.

Nobume perdeu a partida, no entanto, Kagura fez questão que essa perda valesse a pena. Kagura abraçou Nobume pelo pescoço para que se aproximassem, então sussurrou no ouvido contrário:

— Bem vinda de volta.

Ainda que a saudação viesse tarde, o efeito não foi destoado. Nobume se desfez daquele abraço, sem pressa, para poder beijar as mãos de Kagura com carinho.

— Estou de volta.

Por alguma coincidência do destino, ou apenas descuido mesmo, àquela hora um grupo de criancinhas quase esbarraram nelas enquanto brincavam de polícia e ladrão. Nobume acabou por assumir uma forma defensiva, quando algum prato ou tempero estava prestes a cair e ela velozmente o apreendia, segurando Kagura com um dos braços. Esse reflexo lhe rendeu uns bons aplausos de um grupo de pessoas que só então se deu conta de que estavam ali.

Kagura também tinha se esquecido disso quando foi abraçada mais cedo e isso fez com que as bochechas dela se avermelhassem um pouco. Kagura franziu as sobrancelhas ao olhar para Nobume e ela possuir a mesma expressão de aparente indiferença de antes.

Depois viu que Nobume tinha uma das mãos fechada em punho, a que não a segurava, como se estivesse prestes a bater em alguém de raiva.

— Certo, está mais do que na hora de me ensinar a fazer um daqueles pon de ring!

A menção do doce realmente chamou a atenção de Nobume, ela devia estar mais de bom humor que no dia anterior, apesar do detalhe de segundos atrás.

— Claro, mas só o básico, não sou permitida a dizer o ingrediente secreto.

Garotas não respondem com flores, mas com donuts? Kagura não saberia dizer, pois não teve a oportunidade de conhecer muitas garotas além de sua mãe e algumas poucas que passaram por aquele albergue. Todavia, conhecia o suficiente da garota ao seu lado para saber que poucas coisas como aquela poderiam fazer diferença em sua vida, desde que ela estivesse ao seu lado.

O contrário também era verdade, ainda quando no dia seguinte houvesse um dia ensolarado insuportável, que até as cegasse. O refresco do vento salgado e inesquecível as abençoava.

Notas finais
Todo mundo cheio de problema, né? Não vou nem comentar sobre a lógica dos diálogos qq Na história original, a Kagura pertence a uma raça alienígena muito forte, mas que não pode tomar sol, por isso sempre carrega uma sombrinha com ela. Pelo que me lembre o autor não explicou bem sobre o porquê disso, então, pelo menos nessa história, ela teria que ter cuidado com o sol por já ter tido um câncer de pele leve e o caso da mãe dela. :x Até ~
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!