Garotas de Anime Não Deveriam Existir

2 Cichê de ir para outro mundo


Notas iniciais
Ninguém gosta ir para outro mundo

São poucas as coisas que acontecem com a gente que podemos chamar de "inesquecíveis". Uma viagem especial, o primeiro beijo, uma grande conquista.

Eu nunca saí da minha cidade. Nunca beijei ninguém. E sou um grande perdedor. Mas se eu pudesse citar algo como "inesquecível", seria aquele fatídico último dia das férias de verão. Aquela noite em que meu mundo virou de cabeça pra baixo.

Como toda história clichê, parecia ser mais um dia comum na vida de um adolescente sem personalidade. Eu estava aproveitando minhas últimas horas das férias pesquisando sobre o Romantismo Alemão no século XVIII...

Ok. Antes, um disclaimer: eu não sou o melhor exemplo de jovem padrão, tá bom? Me desculpem.

Esse sou eu. O cara que está no computador e não em uma festa. Esse aí mesmo, o de cabelo preto curto e olhos de peixe morto. Meu nome é... Ei! Por que eu faria uma descrição de mim mesmo? Isso seria tão estranho!

Que tal olharmos pra algo mais importante: tipo o mega vórtex de luz roxa que apareceu no meu quarto nesse exato momento e o cara com asas que saiu de dentro dele?!

"Q-quê?!?!"

Tomei um susto tão grande que caí da cadeira. O vórtex de onde ele havia saído desapareceu como fumaça e o sujeito estranho que saiu de dentro dele ficou parado me olhando de cima para baixo.

"Olá, mortal!"

O ser sobrenatural me saudou com um sorriso na maior naturalidade do mundo. Corrigindo: um ser sobrenatural irritantemente lindo me saudou. Guardem bem esse rosto, ele será o vilão dessa história.

"Olá! Meu nome é Eros. E sou aquilo que vocês mortais chamam de 'deus'. Alegre-se por estar sendo agraciado com minha presença, mortal"

"Um d-deus?! Olha, isso é muito difícil de acreditar"

"Pensei que sair de um vórtex cuja origem ferisse a ideia de causalidade fosse o suficiente para me dar credibilidade."

"Nada pessoal, sabe? Estamos no século XXI e os efeitos especiais andam bem avançados"

"Hum... olhando por esse lado, é compreensível que... Ei!"

O tal deus fez um cara zangada e apontou pra mim com um olhar ameaçador.

"Não mude de assunto! Olha, mortal, cale a boca e escute. Seja grato pois vim aqui lhe agraciar com um presente divino"

Em seguida, ele abriu um sorriso e tirou uma espécie de pergaminho do bolso.

"Estou vendo aqui que possui um incrível histórico de sucessivas encarnações com vidas pautadas por um inabalável senso de justiça e retidão. Chegou a hora de receber o merecido reconhecimento nessa vida. Você terá o privilégio que nenhum outro mortal teve. Será transportado em vida para um outro mundo onde abunda a felicidade. O paraíso na terra!"

Reencarnação, outros mundos, paraíso? A exigência de suspensão da descrença nessa história está muito alta. Nem tem tag de fantasia nessa história...

"Isso me soa muito suspeito"

"Chega! Apenas aceite o que digo!"

O deus voltou a ter uma expressão assustadora. Deuses se irritam com facilidade pelo jeito.

"Não vai querer que use o 'argumento do vento', né?!"

"Não! Por favor, não. Prossigamos"

"Regozija-se! Pois irá fazer agora uma viagem somente de ida para uma vida de deleites sem fim. E fui eu mesmo que designei sua nova vida"

"Você? Er... que tipo de vida será essa?"

"Sem dar muito spoiler"

O deus abriu um sorriso de satisfação como se estivesse esperando todo esse tempo que a conversa chegasse nesse ponto.

"Resumidamente, um rapaz vai estudar em um colégio onde quase todos os alunos são garotas. As mais lindas delas cruzarão o caminho dele gerando divertidas situações de romance e mal-entendidos. Seus dias vão ser preenchidos de garotas querendo dar pra ele, viagens escolares, passeio na praia, teste de coragem na floresta, arco de torneio..."

Por favor, pare de falar tudo isso como se fosse algo original!

"E eu mesmo que escalei o elenco. Qual seu fetiche pessoal? Não se preocupe que preparei uma de cada tipo e..."

Ele descrevia isso tudo com um olhar obsessivo que me dava calafrios.

"Olha, não é querendo bancar o ingrato. Mas eu vou passar, valeu?"

Sim, esse é o melhor a se fazer.

"Quê?!"

O olhar ameaçador dele agora estava sobre mim.

"Nada contra, entende? Mas essa premissa não me pegou, sabe? Então acho que vou passar"

"Como assim?! Esse é o sonho de qualquer garoto. Eu pesquisei!"

"E qual foi suas áreas de pesquisa? Akihabara? Bairro da liberdade?"

"Sim, por quê?!,

O jeito sincero com que ele respondeu a minha piada, me deu a certeza de que estava falando com alguém perigosamente estranho.

"Essa história... parece que já vi isso milhões de vezes em algum lugar... Não me diga que a fonte de sua pesquisa para criar esse outro mundo foram animações japonesas?"

"Sim! Eles são ótimos!"

"Isso explica muita coisa". Pensei. Seria um deus otaku?

"Olha amigo, acho que você invadiu a casa da pessoa errada"

"Oi?! Claro que não! Deuses nunca erram. Aqui não é Tóquio?"

"Acho que seu GPS divino desviou teu vórtex do caminho..."

Nessa hora, percebi que o deus tinha uma expressão confusa que não conseguia esconder.

"Além do mais, esse aí não é o meu sonho. Preferiria algo como tirar nota máxima na redação do Enem, descobrir a cura do câncer, ganhar um Nobel, algo assim entende?"

"Eu sou o deus do amor, não dá ciência"

"Então acho que você não pode me ajudar. Quando você esbarrar com o deus da sabedoria, pede pra ele passar aqui em casa, tá bom? Mas não se preocupe, tá cheio de meninos aí querendo isso que você oferece..."

Eu dizia isso enquanto enxotava o tal deus para fora do meu quarto. Pensando nisso hoje, acho que isso foi meio deselegante.

"Espera!"

O deus conseguiu se desvencilhar de mim. Então, uma aura vermelha começou a brilhar ao redor do corpo dele, enquanto sua expressão mudava para bem, bem séria.

"Acho que você não me entendeu quando eu disse que deuses nunca erram"

Deuses e relacionamentos abusivos. Clássico!

"Existe um limiar bem estreito entre benção e maldição. E você vai descobrir isso agora."

Uma luz vermelha saiu da mão do deus e me acertou como um tiro. Eu apaguei e tudo que veio depois disso é a loucura.

Notas finais
Pelo menos não foi atropelado por um caminhão