Notas iniciais
Bom, quem me conhece sabe que gosto de trabalhar com temas um pouco fortes. Escolhi, nessa fic, abordar a violência contra a mulher mas focando no psicológico dela.

>O que está entre aspas é memórias

Corria apavorada olhando para trás o tempo todo com medo de virar o rosto e dar de cara com meu pesadelo. Sentia que ele estava se aproxima do, que a qualquer momento iria chegar perto o bastante para me agarrar. Minhas pernas não aguentavam mais correr pela trilha lamacenta e escorregadia, nem ao menos tinha noção aonde estava indo, apenas a certeza de que era para longe dele. Sai da trilha, sabia que minhas pegadas me denunciaram mas era melhor que nada, acobertada pelas árvores e mato, estaria mais segura. Meus pés, antes com salto alto, agora estavam repletos de cortes e lama.
Corri mais um pouco e parei. Apoiei minhas mãos no joelho afim de facilitar a entrada do ar, me abaixei e, depois de recuperar o fôlego, escutei. Nada de barulho de passos, apenas de água corrente. Uma esperança surgiu dentro de mim afinal, a água tem que parar de correr em algum momento, normalmente em uma represa, talvez houvesse algum funcionário por lá, embora a época festiva e as férias estivesse em seu auge, todavia, eu tinha que tentar. Comecei a caminhar até chegar a água e então a segui.
Quando me dei conta aonde estava comecei a me desesperar novamente, comecei a correr dos passos que me seguiam até chegar aonde a água parava de correr. A Garganta do Diabo a minha frente batia com a verdade na minha face. Não tinha mais para aonde fugir. Fernando iria chegar até mim e iria me matar, iria fazer-me pagar por tudo que ele achava que eu tinha feito, que eu tinha matado nosso bebê e por ele ter sido preso.
Ridículo.
Nada disso teria acontecido se ele não tivesse me batido, não tivesse tocado um dedo de forma errada em mim. Agora, pagaria com a vida.
Encarei a minha volta, em algum lugar no meio das árvores com folhas extremamente verdes e da relva crescente deveria ter algum canto para me esconder. Segui meus instintos, e a memória de ter visto em algum programa de TV, e adentrei a selva me encolhendo entre a grama e o mato. Fiquei lá deitada, esperando e rezando para o dia amanhecer.


" Eu estava linda, produzida e charmosa. Trajava meu melhor vestido, um longo vermelho escuro que ia até o chão em babados. Não achava ele tão escandaloso, seu único detalhe era as costas nuas. Vesti meus saltos pretos e dei a última conferida básica no espelho. Eu estava linda, isso posso garantir, e pela primeira vez na minha vida, estava arrumada por mim mesma. Meus cabelos castanhos estavam soltos e meus olhos igualmente castanho estavam brilhando de emoção. Sabia que, uma hora ou outra, iria ter que responder perguntas como "Você não estava grávida?", "Aonde anda seu marido? " e por isso já havia treinado minha resposta." Graças ao ridículo do Fernando não há mais bebê em meu ventre, assim como não há mais aliança em meu dedo."
Curta e grossa.
Peguei as chaves do carro e sai em direção a porta, finalmente iria para um jantar natalino com minha família sem medo de apanhar no final da noite.
Era quase duas da manhã quando sai da casa de meus pais, embora eles tivesse insistido para que eu passasse a noite ali preferi pegar a estrada. Mal tinha desligado o alarme de meu carro quando senti uma forte pancada na cabeça. Acordei dentro de um Toyota preto de bancos de couro, estava no banco de trás com as mãos amarradas e com a boca tampada. Pela fresta do banco pude ver a nuca com a tatuagem de aranha.
Era Fernando. Comecei a fazer as contas, ele deveria ficar 18 meses na cadeia pela agressão, deveria sair apenas em julho do ano que vem. O que ele fazia ali? E o mais importante, o que ele faria comigo? "

– Sei que esta aí. – Falou ele com sua voz grave. – Tenha dignidade e não me faça te procurar, ou será bem pior. Para você. – Advertiu ele.
Engoli em seco mas me levantei. Meu vestido, antes lindo, agora estava todo rasgado na altura da panturrilha e do joelho mostrando meus cortes causados pela vegetação densa. Passei as mãos em meus cabelos embaraçados e sujos. Minha aparência era deplorável.
– Célia, minha Célia, o que foi que você fez?
– Fernando, você não está pensando direito... – Comecei a falar com a voz mais confiante que tinha, entretanto a mesma morreu quando vi a pistola 7mm apontada em minha direção. – O que vai fazer?
Ele riu.
– Obviamente te matar, mas antes irei te torturar, vou te bater tanto que quando estourar essa tua cabecinha, irá me agradecer. Quer dizer, isso se você não morrer antes. – Ele riu mais ainda, uma risada tão doente e suja que arrepiou meus pelos dos braço. Me questionei se aquele era o Fernando que havia conhecido, o meigo e doce homem que trabalhava em uma empresa de publicidade. Me questionei quando que ele se transformou no mostro que era e porque não havia notado tal mudança. – Saia daí, venha para a luz da lua aonde possa ver essa tua cara.
Fiz o que ele pediu. Fiquei tão próxima da água, e consequentemente tão longe dele e da arma, que podia sentir o frio da correnteza em meus calcanhar. Ardia um pouco por causa dos ferimentos, mas era uma dor boa. Uma dor que me lembrava que eu assinei minha própria sentença, se eu não tivesse o denunciado...Nada disso estaria acontecendo. Estaríamos em casa em um horário como esse, provavelmente discutindo mas em casa. Aos olhos e ouvidos dos vizinhos.

" Paramos perto da rodovia 20 e ele me tirou do carro me arrastando para o meio do nada. Era uma grande floresta, mas não tão grande quanto o meu desespero.
Não conseguia caminhar enquanto ele me puxava por causa do salto alto e do vestido, irritado e sem paciência começou a me arrastar o que arranhou minhas coxas e pernas. Perdi o primeiro sapato uns dois quilômetros para dentro da trilha, achei uma boa ideia caso conseguisse escapar. Perdi o outro quando a luz da lua começou a desaparecer por causa das copas das árvores. Ele só parou quando cansou, fiquei imóvel o tempo todo, fingindo estar inconsciente, quando me soltou e virou as costas, me levantei e peguei um punhado de terra que estava no chão. Devo ter feito algum barulho e por isso ele se virou em linha direção. Joguei a terra em sua cara acertando seus olhos e lhe dei um soco. Comecei a correr na direção oposta a ele, infelizmente oposta ao lugar de onde viemos também, mas era muito arriscado passar ao seu lado."

– Você tirou tudo que eu tinha, sua vadia, retardada e estúpida! – Gritava ele pausando e socando minha face a cada xingamento. Sentia meu septo deslocado assim como minha maçã em carne viva. A marca da aliança dele cravada em minha pele. Meu olho direito nem abria mais de tão inchado que estava e meu lábio sangrava. Ele se levantou e passou as mãos ensanguentadas nos cabelos loiros, os colocando para trás depois se virou para mim novamente e chutou repetida vezes minha barriga e meus seios. A dor era horrível. Agonizante, lutava contra a imensa vontade de dormir ou perder a consciência. Com os olhos semi abertos por causa do inchaço e da dor vi quando ele se afastou. Fernando estava tão perdido quanto eu. Ele estava fora de si em um de seus ataques de fúrias. Eu não deveria sentir pena dele afinal, olha a situação em que me encontro, mas o analisando assim sabia que só havia um jeito daquilo tudo acabar. A polícia não iria detê-lo, falharam uma vez, falhariam novamente. Só havia uma saída.
Respirei fundo e peguei a pistola caída no chão. Ela era mais pesada do que eu imaginava e com toda a força restante que havia em mim disparei contra ele. Sua cabeça caiu em um baque surdo no chão.
Um tiro pelas costas. Cansada e sem forças cai no chão e joguei a arma para longe. Devagar e excitante me arrastei até a Garganta do Diabo, com um sorriso no rosto, deixei que meu corpo caísse no buraco negro sem fundo.

Notas finais
Espero que tenham gostado, comentários, críticas e elogios são sempre muito bem vindos.
Obrigada e até a próxima
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!