Game Over

1 Capítulo 1 - NEW GAME


Minha cabeça dói. Tudo está meio turvo, um pouco estranho. Não consigo identificar onde estou. Tudo é tão misturado e sem definição. Aos poucos começo a definir as formas ao meu redor. Há alguns polígonos girando a minha frente e tem alguém falando comigo, mas não consigo entendê-lo.

— Responda com um comando de voz para continuar, responda com um comando de voz para continuar [Repetido várias vezes, roboticamente]

Tento me levantar, mas minha cabeça dói tanto que mal consigo firmar meus pés no chão, então me apóio em uma das paredes. A figura a minha frente parece ter uma silhueta feminina, mas não sei muito bem definir com os olhos ainda entreabertos. Toco em seu ombro e o corpo continua a repetir.

— Responda com um comando de voz para continuar, responda com um comando de voz para continuar [Repetido várias vezes, roboticamente]
— Han? O quê?
— Obrigado pela confirmação jogador, bem vindo a E-dea, sinta-se à vontade para se aventurar pelo nosso mundo, nos veremos em breve.

Em um instante todas as cores foram se esmaecendo, até que tudo se tornou pura escuridão. Senti um calafrio por todo o meu corpo, como se estivesse descendo em alta velocidade numa montanha russa. Então me vi no meio de um gramado verdejante em uma planície aparentemente sem fim. O horizonte era longínquo e tudo era tão verde que não me parecia real. Tão silencioso que dava para ouvir a brisa passar pela grama verde e o cheiro de mato chegava em minhas narinas. Ao meu lado havia uma espada curta enferrujada com um balão flutuante escrito Espada do aventureiro iniciante e uma interface abriu assim que eu olhei para a espada. Surge então as opções pegar e uma opção escurecida. Logo pensei, “estou em um jogo ?.... Mas que porra é essa? Eu estou em um puta jogo !” E a apreensão que eu sentia até o momento começa a se tornar uma euforia, contudo, antes que eu pudesse externa-la ouvi um grito vindo a direita. Era uma garota. Seus cabelos eram loiros e longos, e uma longa mecha cobria o seu olho direito. Seu corpo era gracioso, e as linhas que delimitavam suas curvas traziam a lembrança da silhueta de um violão de pé. Logo me veio a mente um violão, especificamente um violoncelo — “Será que eu sei tocar violão ?” — Logo me perdi em meus pensamentos na tentativa de se lembrar de algo, mas volto a mim no instante que ela fala comigo:

— Quem é você e onde estou? [Enquanto falava, a garota tenta se proteger causando um afastamento corporal se projetando para trás, ainda sentada]
— Quem eu sou?

A pergunta dela faz minha cabeça doer como se uma agulha invadisse a minha cabeça pelas órbitas dos meus olhos. Por um segundo pensei que iria vomitar, mas na verdade respondi :

— Rakazza [Roboticamente]

A dor de cabeça sumiu. Até então eu nunca tive contato com esse nome, ou acho que nunca tive, ao menos não me lembro. Deve ser o meu nome aqui neste lugar. Ela continua a me olhar, meio que esperando a segunda parte da resposta, então continuei:

— Aliás, acho que o lugar onde estamos se chama E-dea. Acho que estamos em um jogo.
— Um jogo? Isso não faz sentido, porque estamos em um jogo?
— Eu não sei. [Dou de ombros] Vamos, levante-se.

Ofereço minha mão para que ela se apoie e se levante. A garota ainda que um pouco relutante, provavelmente com a ideia de ser um jogo isso que estamos vivendo, aceita a minha ajuda e se levanta.

— Até nossas roupas são parecidas. Um colete de couro, uma calça meio suja e alguns coldres, provavelmente para armas.
— É, realmente [Ela responde]
— Acho melhor você pegar essa espada que está do seu lado, parece que estamos fora da cidade, talvez seja um tutorial. [Falei pra ela apontando para a espada que estava ao seu lado]
— Ok !

Ela pega a espada pelo cabo e começa a observar. Já eu faço diferente. Tentando testar aquele menu flutuante que surgirá mais cedo. Quando cliquei nele a espada simplesmente surgiu na minha cintura dentro de um dos coldres de couro presentes na minha vestimenta.

— Parece que há duas maneiras de interagir com os itens nesse mundo.
— É? [ela pergunta em um tom que transparece uma pequena confusão]
— Veja bem, você simplesmente pegou a espada no chão, certo?,
— Sim
— Pos bem, já eu utilizei a UI, ou seja, a interface flutuante do jogo e a espada simplesmente surgiu na minha cintura [Aponto para o coldre de couro preso a minha vestimenta]
— E isso é uma informação importante?
— Creio que sim, conhecimento nunca é demais.

Enquanto conversávamos, em apenas um instante, toda a planície se tornou reluzente, com vários feixes de luz de cores variadas caindo diretamente do céu para o chão. Aquela aquarela luminosa foi um espetáculo admirável, mas em questão de segundos toda aquela beleza se tornou desespero puro. Vozes por todos os lados começaram a ecoar em forma de gritos, prantos e risadas desconexas e um frio correu toda a minha espinha. — “Não estamos sozinhos” -. Então agarrei na mão da garota e nós começamos a fugir daquele lugar.

— Hey, porquê estamos correndo? [Ela me perguntou]
— Talvez não seja seguro continuar aqui. [Respondi enquanto procurava algum tipo de construção ou estrada]
— Por quê?
— Sabe, na maioria dos jogos de MMO, os jogadores são colocados em áreas de tutorial onde tem monstros mais fracos e eles podem aprender as mecânicas básicas do jogo. Até em jogos VR’s isso pode acontecer, mas...
— Mas..?
— Mas… alguns poucos jogos já liberam o PVP desde o começo, pelo menos fora das cidades, e como o lugar onde estamos não parece uma cidade…
— E como você pode ter certeza que teria um PVP aqui… e se realmente tivesse essa possibilidade, porque alguém nos atacaria?
— Olha, eu não tenho certeza, e é justamente por isso que estamos fugindo. Se estamos realmente em um jogo, não dá pra saber como os outros lidarão com esse fato. E pior… e se a morte aqui significar morte para sempre? Nem sabemos direito onde estamos…. [Enquanto falo isso encontro um casebre de madeira que parece abandonado]
— Então eu devo confiar em você? [Ela solta minha mão e para de correr]

— Não. [Respondo sinceramente] Não, você não deve… Nós não nos conhecemos, eu poderia ser um NPC ou vilão do jogo. Isso talvez nem seja um jogo. Mas eu acho que sou a sua melhor alternativa agora… [Fito os olhos dela]
— ….
— Então, você vem comigo?
— E você, como pode confiar em mim? [Ela fitou meus olhos procurando uma resposta sincera]
— A, eu? Parece que eu tenho tendência a confiar em garotas bonitas.
— Isso é sério? [Ela solta um riso], não acredito que você seja tão ingênuo, você pode acabar morrendo por causa disso.
— Ah, bem, esquece o que eu disse [respondo claramente desconfortavel com a situação]
— Você é inesperadamente ingênuo, acho que vai precisar de mim. Vamos ser um grupo, ao menos por enquanto, Ok?
— Ok.

Ela estende a sua mão direita e dá um leve sorriso, eu estendo a minha mão e apertamos nossas mãos, e assim começamos o nosso grupo..

— A propósito, meu nome é Eliza. Prazer em conhecê-lo.
— Obrigado Eliza, eu Rakazza conto contigo para me manter fora de perigo no que diz respeito as garotas bonitas.
— Certo ! [Ela ri]

E finalmente, entramos no casebre.

Até o chão do casebre era de madeira velha, e o simples tocar dos nossos pés fazia um rangido estrondoso. Cautelosamente adentramos na casa. O sol lá fora já começava a se pôr e não ouvíamos mas o barulho dos outros jogadores. Os raios de sol que já estavam fugindo atravessavam as frestas das paredes e do telhado que estava aos pedaços. Lá no fundo do casebre tinha um baú, Eliza logo se animou e foi na direção do baú mas eu a parei pondo o meu braço na sua frente.

— Pode ter uma armadilha. [Eu disse quase sussurrando]
— Na área inicial do jogo? [Ela indaga]
— Talvez? pouco provável, mas talvez.
— Você vai ficar maluco se for tão psicótico assim. [ela sussurra de volta]
— Talvez. Me deixa testar uma coisa aqui.

Tentei encontrar uma pedra no chão ou algo do tipo, mas não consegui. Lembrei-me da espada e quando olhei para o coldre apareceu a opção de sacar/ler a descrição/jogar fora. A opção — Jogar fora — me deu uma ideia. Jogar fora pelo menu provavelmente só faria o item ir para o chão, mas talvez tenha a possibilidade de direcionar para onde o item vai se joga-lo fora diretamente, sem o menu. Saquei a espada pelo menu flutuante mesmo e arremessei-a no baú. Deu certo. Não sei se o jogo contou como ataque, mas o baú se abriu de longe. Ao se abrir, o baú deu a opção de sacar os itens e a opção antes escurecida aparece na UI da espada, — rolar os dados—, provavelmente essa opção só é ativada quando estamos em grupo, e me parece que podemos ativar grupo apenas através de um aperto de mão. Isso me parece bem prático para um VR.

— Eliza, você consegue vê um menu flutuante no baú?
— Sim, consigo, ele tem escrito sacar e rolar dados, o que eu faço?
— Clique em rolar dados assim que eu contar 3.
— Certo.
— 1, 2 , 3 , agora!

Clicamos ao mesmo tempo, mas uma msg de erro apareceu em vermelho falando “fora do alcance, alcance máximo 1m”

— Vamos nos aproximar do baú mais um pouco Eliza, e faremos a mesma coisa.
— Ok
— 1, 2, 3, Já!

Ela clicou em rolar dados e eu cliquei em sacar, automaticamente surgiu na minha mão um único fraco com um líquido azul, seu nome era — Porção de Mana — , enquanto isso, para Eliza surgiu uma pequena mochila nas costas.

— Ei, o que você ganhou do baú. [Perguntei para Eliza]
— Hm, deixa eu vê…[Ela se abaixa, coloca a mochila no chão e começa a tirar itens]
— Dois frascos iguais a esse que você tá segurando, esse espartilho tosco, um cantil vazio, duas moedas de ouro e essa adaga.
— Hm, interessante. [Respondi]
— E você, só ganhou esse frasco aí?
— Sim.
— Ué, eu sou tão sortuda assim?
— Creio que não, é outra coisa
— O quê então?
— Acho que esse jogo tem um sistema contra pessoas ambiciosas, eu cliquei em sacar invés de rolar dados, então você que quis uma partilha mais justa ficou com quase todo o loot. Provavelmente se todo mundo clicar em sacar algo ruim deve acontecer, então enquanto estivermos em grupo o melhor a se fazer é rolar dados.
— E se a gente simplesmente for ao baú e pegar os itens de dentro, o que acontece?
— É provável que o sistema não permita o jogador coletar os itens diretamente enquanto estiverem em grupo. Se permitir não faria sentido ter essa mecânica.
— Hm… você é bem inteligente sabia? Provavelmente jogava muito na vida real.
— Se é que estamos realmente em um jogo, eu não consigo me lembrar de nada de antes daqui.
— Agora que você falou, exceto pelo meu nome, eu também não me lembro de nada…

...Silêncio estranho…

— Mas isso é estranho… [eu disse]
— Jura?
— Tipo, como a gente não consegue se lembrar de nada e manter nossos conhecimentos? A gente aprendeu coisas com alguém e em algum lugar. E a gente sabe que não foi aqui, eu acho…
— Amnésia seletiva talvez? Algum parâmetro do jogo? Eu realmente não entendo muito sobre isso para argumentar.
— Errrr, acho que pensar sobre isso não será produtivo, vamos continuar nosso caminho, não sabemos como esse lugar vai ficar quando for realmente noite.
— Ok !

Saímos do casebre e seguimos em frente. As três luas de E-dea já começava a aparecer. A brisa suave que já estava aqui quando chegamos começou a se tornar mais fria e um pouco violenta, mas não chegava a incomodar. Algumas plantas luminosas guiavam o nosso caminho em meio ao crepúsculo. Estávamos andando um ao lado do outro, quando ouvimos um pedido de ajuda.

— Socorro !
— O que foi isso ?! [Eliza fala assustada]
— Acho que foi um pedido de ajuda.
— Socorro ! alguém, por favor ! [Longe]
— Nós temos que ajudar Rakazza
— Eu não sei Eliza, e se for uma armadilha?
— E se for uma pessoa? ou npc como parte do tutorial?
— Eu… eu não sei se é uma boa ideia.

Eu olhei para o chão, sem resposta. Não sei se estava disposto a correr o risco. Na verdade pra mim já estava bom uma amiga para viajar. Não queria verificar. Se fosse parte do tutorial, beleza...mas até agora nada indicou que estávamos em um tutorial. Parecia bem mais que fomos largados aqui por alguém, para que pudéssemos nos virar sozinhos. Não tinha a coragem necessária para falar isso a minha mais nova parceira. Então fiquei quieto, distanciei o meu olhar dela… Os gritos continuavam...

— Rakazza, eu vou lá ajudar. Nós nos encontramos depois, ok?
— ...Ok

Foi em apenas um instante. Muito rápido. Tomar dano nesse jogo também resulta em dor física. Um som estridente ecoou por aquela mata. Um tapa, de mão aberta, bem dado, em meu rosto. Meu rosto ardia, porém o que mais doía era o meu coração. O sentimento de desapontar alguém não me é estranho.

— É, me iludi pensando que você era diferente.
— …
— Mas todo nerd é assim mesmo, egoísta. Eu estou indo embora. Até nunca mais seu idiota.

Ela jogou a mochila no chão e foi em direção às súplicas do desconhecido. Que seja, eu vou embora. Não a conheço nem por um dia, não é importante. Peguei os itens no chão e comecei a andar na direção contrária….

Se fosse verdade, ela poderia morrer. Se fosse armadilha, ela poderia morrer. Se fosse tutorial, eu ainda a perderia por ter sido um covarde. Porquê eu me importo? Tinha algo naqueles olhos castanhos que eu não queria perder. Aqueles olhos olharam para mim e confiaram em mim. Eu não queria perder aquela garota

— Que merda, eu sou um puta nerd mesmo. Para me apaixonar assim tão rápido.

“Bem, acho que vale a pena o risco, afinal, eu estou na porra de um jogo, que lugar melhor para ser o herói?” Então corri na direção que Eliza correu.

Notas finais
Próximo Capitulo - It's showtime
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.