Game Of Secrets
3 Jon - Parte Um
Notas iniciais
— Ok. — disse Robb, na cadeira de motorista, assim que parou o carro no sinal. — Chegamos.
O clima dentro do carro cinza de Robb estava mais pesado e frio do que uma muralha de gelo, reparou Jon Targaryen. Na verdade, aquele clima pesado e frio já estava assim fazia mais de três semanas, mas piorou na semana passada.
Quando era mais novo, era comum que ele e seus dois meio-irmãos, Rhaenys e Aegon, junto com seus pais fossem viajar até Bravos, durante as férias. Lyanna, Elia e Rhaegar dentro de um carro por 13 horas já era muito desconfortavél — mesmo com Elia sendo amiga de sua mãe — mas o clima dentro do carro dos Starks estava bem pior.
Os únicos dos Starks que estavam, relativamente, bem eram Bran, Rickon e Robb. Bran ficou todo o recesso jogando um jogo de tabuleiro com Jojen Reed, trancados no quarto e, de vez em quando, saindo para casa de Tommen. Bran tinha sérios problemas de comunicação com as pessoas, Jon sabia disso, mas estava ficando pior.
Robb também estava meio estranho, de fato, mas nada muito alarmante. Sempre que Arya dizia que uns amigos iam pra casa deles, Robb ficava nervoso, e se trancava no quarto até de noite. Jon não sabia o que era, mas iria descobrir logo, logo.
Sobre Rickon, sem comentarios. O garoto ou ficava o dia grudado no celular mandando sms para Barra Baratheon — a nova e provavélmente primeira paixão de Rick — ou ficava jogando video-game na sala de estar. Pelo menos ele tinha tentando animar Sansa, diferente de Bran, já que ele tinha se juntado com Arya para comprar um kit novo de maquiagem para a ruiva. Isso não melhorou o humor da garota.
Jon estava começando a ficar, seriamente, preocupado com a saúde de Sansa. Jon não vira Sansa mastigar um chiclete des da morte de Myranda, ou qualquer outra coisa. Desde que seus tios se mudaram de Winterfell para Porto Real, atrás de tratamento para Sansa, a mesma tinha melhorado. A bulimia tinha acabado, ela não cortava mais os pulsos em ataques de raiva e estava comendo coisas lights. Aí Myranda morreu e tudo foi pro espaço.
Ainda sim, ultimamente, Jon tem percebido que ela estava mais gordinha na região da barriga, mesmo sem ter comido nada, mas resolveu não perguntar.
Já Arya... Bem, Arya também lhe preocupava. Ela tentava fingir e dizer que estava tudo bem, fazendo piadinhas sem graças e sorrisos forçados, mas Jon conhecia sua prima. Ninguém mais podia conhecer, mas ele conhecia. Ele via as unhas roídas dela e suas olheiras, e ele sabia porque.
Edric estava melhor, ela tinha dito isso pra ele ontem, mas teria que ficar mais uma semana no hosital para observação. Jon contou o fato dela ter lhe dito aquilo como uma vitória, já que ela não falava direito com ele a quase uma semana. Desde quando Edric foi pro hospital, quando ela chorou desesperada no ombro de Jon, dizendo que era tudo culpa dela, e lhe revelando que...
Não, ele se censurou por pensar naquilo, Arya só lhe contou aquilo em um momento de fraqueza, e ela lhe pediu para esquecer, lembra? Só esqueça.
— Sansa, olha... — começou Robb, virando a cabeça para encarar a irmã. — Se você não quiser ir, eu vou enter, tá bem? Ainda temos tempo, eu posso te deixar em casa.
— Eu quero! — disse Rickon, o que fez Jon rir.
— A proposta não foi pra você, Rick.
— Porque não? Direito iguais pra todos, lembra? — começou o ruivo, encarando o irmão. Ele tinha as mesma sardas e cabelos ruivos cacheados que os outros irmãos, mas o de Rickon eram bem mais cheios. E ele era bem mais atrevido também.
— Rickon, você não tem mais 10 anos pra ficar fazendo essa birras. Já tem 13.
— Primeiro, é 14 daqui a duas semanas, segundo, não é birra, é só...
— Rickon, olha!, não é a Barra atravessando a rua!? — peguntou Bran, tentando distrair o irmão, apontando pra frente.
Na verdade, a família Baratheon toda estava atravessando a rua. Gendry estava lá, andando enquanto olhava pra baixo, sorrindo, falando com Barra. A menina já era baixa, ao lado de Gendry, era uma anã. Bella estava logo do lado de Gendry, com um espelho na mão enquanto repassava batom. Jon sempre se preguntou como uma menina podia ser tão marrenta e mimada ao mesmo tempo, como uma mistura de Arya e Sansa.
Atrás, vinha Joffrey, que conversa alguma coisa com Cerenna Lannister. Cerenna parecia animada, sorridente, e Joffrey parecia querer se matar invés de falar com a prima. Atrás de Joffrey, Myrcella segurava o fichario com as duas mãos, na altura de seu colo, de cabeça baixa. Shireen, a prima deles, do lado da loira, tentava puxar o assunto, mas a garota ignorava. Atrás de todos, Tommen ouvia música em seu fone de ouvido enquanto mexia no celular, sem se importar com nada.
Todos os Baratheons estavam lá, menos Mya — a garota que tinha se mudado antes dos Starks terem chegado — e Edric. Esperava que Edric melhorasse logo.
— Tô indo! — alegou o ruivo, abrindo a porta e saindo do carro.
— Ei! Me espera! — gritou Bran, na exata hora que viu os irmãos Reed saindo do carro, e saiu do carro também.
— Não se preocupe Robb, vou ficar bem. — disse Sansa ao irmão, dando um minímo sorriso de lado, tentando parecer corajosa.
— Tem certeza? — ele perguntou, mas não parecia querer saber. Encarava freneticamente a família Baratheon, mesmo sem Jon entender, com pressa.
— Tenho, pode ir. — ela disse e, na hora, Robb saiu do carro.
— Ei, Robb! Não vai estacionar o carro!? — gritou Jon, mas a única coisa que Robb fez foi jogar a chave pra ele e correr para a escola. Jon sabia que Robb gostava do curso de administração que fazia lá, mas não a essa ponto. — Idiota. — ele resmungou, passando para a cadeira do motorista. — Ok garotas, podem sair, só vou estacionar o carro.
Tanto Arya quanto Sansa ficaram exitantes para sair do carro, e Jon pensou que fosse ter que ter "aquela" conversa com as duas. Mas, quando os Tyrell se aproximaram — o melhor amigo de Arya, Willas, e a melhor amiga de Sansa, Margaery — elas sairam do carro e foram falar com eles. Depois, cada uma seguiu seu caminho.
Jon foi seguindo o carro até o afastado estacionamento da escola e foi procurando uma vaga para achar. Minutos depois achou uma afastada, e estacionou o carro lá. Pegou sua mochila e as pastas de Robb que ele tinha esquecido — o ruivo com certeza iria explicar pra ele o que tinha acontecido — e trancou o carro.
— Carro novo, Snow?
Jo não precisou se virar para saber quem estava falando com ele. Reconheceria aquela voz em qualquer lugar, sem falar que ela era a única que lhe chamava por aquele apelido, que ela mesma tinha inventado.
— Já te disse que não gosto desse apelido. — ele disse, passando por ela e seguindo para a escola, a ignorando.
Ainda não setisfeita, Ygritte foi atrás dele.
— Não é minha culpa se você meresse esse apelido.
E Jon merecia. Ygritte era o tipo de pessoa que sai destruindo tudo que vê pela frente, tanto emocional quanto físicamente. Suas botas pretas de couro batiam até seu joelho, e o barulho de seus saltos quando andava atormentava os sonhos de Jon. Seus shorts curtos e rasgados, suas blusas de bandas estranhas que só cobriam até a cintura, os braceletes, aneis e colares de prata que insistia em colocar, o batom vermelho que sempre usava...
Como se não fosse suficiente, ainda tinha o jeito como ela era. Atrevida, provocadora, irônica, sexy... Todos caim de joelhos perante a Ygritte, menos Jon. "A muralha de gelo" ela costumava chama-lo antes de apelida-lo de, simplemente, Snow.
Talvez o fato dele ser o único que não lhe idolatrava tenha deixado o ego de Ygritte ferido, então por isso ela o perseguia diariamente.
— Não está atrasada para sua aula? — ele perguntou, tentando despista-la.
— Você também, não? Quem diria, Jon Targaryen atrasado para alguma coisa.
— Ainda faltam seis minutos para a minha aula começar. — ele disse, como impulso.
— Então eu ainda tenho seis minutos até a aula começar. — ela disse, e se sentou no capô de um carro qualquer, cruzando as pernas e sorrindo para ele. O que ela queria, enlouquece-lo? Jon tinha certeza que sim.
Ela bufou, se virando para encarar a garota, que continuava a sorrir para ele. Os olhos castanhos eram brilhantes, e combinavam com seu rosto. Os cabelos vermelhos eram como o fogo, e ela tinha sardas na região do nariz. Parecia uma Stark, ele percebeu, mas era extremamente inconveniente.
— O que você quer, Ygritte? — ele perguntou, já cançado.
A menina sorriu enquanto enrolava o cabelo no dedo.
— Sabe Jon, você é sempre tão amável comigo. — ela disse, com ironia. — Não entendo porque continuo sendo sua amiga.
— Você não é minha amiga. — ele disse, incomodado, tentando achar um jeito de tira-la de cima dele.
— Deve ser porque você não tem amigos. — ela disse, dando de ombros, ignorando o que o moreno disse.
— Eu tenho amigos. — ele disse, e tinha mesmo. Tinha poucos, tirando seus irmãos e primos, como Pyp, Grenn e Sam. Na verdade, só tinha esses, mas tinha.
— De qualquer forma, só estou aqui pra te chamar pra uma festa que vai rolar lá em casa. — ela disse, ignorando ele de novo. — Meu pai vai viajar, então eu e minha irmã vamos fazer uma festinha. E como você é anti-sócial e nunca é convidado pra nada, fiquei com pena de você. Pode levar seus amiguinhos, se quiser.
Em outras palavras, Ygritte o estava chamando para sair. De novo. Jon suspirou, pensando o que tinha feito para merecer aquilo. Ela era linda, divertida, e qualquer menino mataria para estar em seu lugar, mas Jon sabia o que vinha depois. Eles ficariam juntos, talvez por uma noite ou mais, e depois ela ia esquecer dele. E não, Jon não precisa de outro coração partido.
— Não sabia que você tinha irmã.
— Val. Ela é meio que adotiva, irmã mais nova da ex-mulher do meu pai, mas quando ela morreu, Val foi morar com a gente. — ela disse. — E ai, vai?
— Não vai dar, eu tô muito ocupado.
— Você nem sabe quando vai ser. — ela disse, e Jon se amaldiçou por esquecer disso.
— Nem adianta, vou ficar a semana toda ocupado.
— Não tem problema, a gente adia a festa. — ela disse, é sorriu.
Jon xingou mentalmente, pensando seriamente em fingir um infarto ou sair correndo. Um salvaria sua dignidade e outro, seria mais eficaz. Resolveu, por fim, apelar pro lado sentimental.
— Ygritte, serio, minha família não está bem. — ele disse. — Minha prima está abalada por que a amiga dela se matou, e o namorado da irmã dela tentou fazer o mesmo. Graças aos Deuses Edric está bem e a tentativa não deu certo, mas Arya está um caco. Elas são... bem próximas de mim.
Na verdade, só Arya era. Sansa meio que ignorava Jon a maior parte do tempo, ou simplesmente dizia palavras curtas. Arya sim, ela era como sua irmãzinha, mas Ygritte não precisa saber disso.
— A garota Royce e o garoto Baratheon, é, tô sabendo. — ela disse, ainda enrolando o cabelo, mas não sorria mais.
— Pois é, não sei se eu devo ir.
Ygritte fez um biquinho e levantou as sombrancelhas, em um sinal que não se importava, e saiu do carro.
— De qualquer forma, a festa vai ser sábado que vem, as 7. — ela disse, e sorriu. — Caso suas irmãs não precisem de tanta ajuda assim
Sorrindo mais uma vez, deu as costas para Jon, entrando dentro de Harrenhal. Jon soltou a respiração, se apoiando no carro onde Ygritte estava sentada, meio tonto. A quanto tempo ele segurava a respiração?
[X]
— Sua irmã faz jornalismo, não? — perguntou Robb, do lado dele, na hora do almoço.
Jon acompanhou o olhar do primo. Rhaenys estava em uma mesa afastada, comendo e rindo com as primas Obella, Obara, Arianne, entre outras que ele tinha esquecido o nome. Rhae era tão parecida com os Martells, nem parecia uma Targaryen. Mas era brava como uma.
— Rhaenys? Segundo ano, porque?
— Sei lá, ela só conversa com as pessoas do ensino médio. — ele disse, dando de ombros, mordendo seu sanduiche.
— De acordo com ela, "a emoção e as notícias estão lá". — ele disse, e ambos riram. — Greyjoy também só conversa com as pessoas de lá.
— É diferente, Theon quer Jeyne. — disse Robb, rindo com Jon.
Quando o Greyjoy, na frente deles, tirou os olhos do celular e o encarou, ele não entendeu nada.
— O que? — ele perguntou, mas eles só riram. Ele deu de ombros e voltou pro celular. Graças aos Deuses ele não tinha ouvido, ou daria um soco em Robb ali mesmo.
— E Aegon? O que ele quer fazer?
— Sei lá. Na verdade, acho que nem ele sabe. — disse o Targaryen. — Deve ser por isso que repitiu de ano.
Os dois riram, e até o Greyjoy soltou uma risadinha, ainda com a cara no celular.
— Como está Sansa? — perguntou Jon, levando o garfo até a boca.
Robb suspirou. Jon já esperava por isso.
— Ela dorme o dia todo, nem toca na comida, isso quando desce pro jantar. — Robb balançou a cabeça; ele não aguentava mais aquela situação. Ninguém aguentava mais. — Eu não sei o que fazer, Jon. Não posso dizer que vai melhorar. Não posso dizer que é só ela arranjar uma amiga melhor, do mesmo jeito que fiz quando ela terminou com Joffrey, isso séria muito crúel. Myranda vive dentro dela, e agora que ela morreu...
... Sansa morreu também. Jon balançou a cabeça, e Robb não precisou terminar a frase. O mesmo estava acontecendo com Arya, ela morria por dentro. Jon percebeu que estava falando demais em Arya, pensando demais em Arya, se preocupando demais com ela. Arya não era a única que sofria, ele não precisava se preocupar tanto com ela.
Não, ele se censurou, precisava sim. Ninguém mais se preocupava com ela, só Jon. Pensou no dia que Edric foi parar no hospital, e em como aquela notícia foi chegar até ela. Os dois brincavam no vídeo game, na sala da morena, quando o telefone tocou. Catelyn foi quem atendeu, e foi ela quem deixou um copo cair. Eddard também estava na sala, lendo jornal, e Cat foi direto até ele. Ela sussurrou algo em seu ouvido e Ned foi direto a Arya.
Arya, que estava em pé, desmaiou. Fez a mensão de cair, mas Jon a segurou antes que ela fizesse o mesmo, e ela ficou desacordada em seus braços. Chamaram sua mãe, Lyanna, que era enfermeira e ela examinou Arya. Quando acordou, Arya falou com Lya e com seus pais, cançada, porém forte.
Sr e Sra. Stark ficaram preocupados, até o momento que Sansa chegou em casa. Lyanna já tinha ido em bora, Jon já tinha dito que ia dormir lá, e quando a ruiva chegou, Cat e Ned esqueceram completamente de Arya. "Sansa, querida, como está?" "Teve um bom dia? Falou com os pais de Myranda?" "Está tudo bem querida, pode subir, não precisa jantar se quiser". Isso quando Edric ainda estava entre a vida e a morte.
Foi deitada no peito de Jon, com os dois deitados na cama dela, que Arya chorou a noite toda. Silênciosa, em alguns momentos soltando soluços, mas nunca mais que isso. Foi ele que a abraçou, beijou sua cabeça e disse que tudo ia ficar bem. Foi ele que acordou com dores nas costas e com marcas nas mãos porque Arya agarrou seu braço e dormiu os poucos minutos que conseguiu em cima dele.
E se Jon não estivesse lá, quem iria fazer isso?
— Você acha que eles vão fazer a sessão de esportes esse ano no... — começou o Greyjoy, mas foi atrapalhado por um grito fino do outro lado do campus.
"Me larga sua selvagem!" o grito era fino e estridente. O prédio do ensino fundamental e médio e o prédio das universidades eram separados por uma enorme quadra com duas arquibancadas, um campo de futebol inteiro e uma piscina. Ainda sim, foi possivél ouvir o grito da garota.
O grito era estridentemente fino, e parecia já ser conhecido por Jon. Pela voz fina e enjoada, não duvidava nada que fosse uma Lannister. Haviam milhões de Lannister em Harrenhal, ele tentou contar mentalmente, mas tinha esquecido metade. Jon parou para pensar. Qual Lannister séria tão odiada a ponto de ser atacada por uma "selvagem", e quem seria essa selvagem?
Jon não precisou de muito tempo para saber.
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