Gélido
1 Gélido
Notas iniciais
Ele bateu pela quarta vez na porta de madeira grossa. Ela estava trancada no pequeno apartamento que acomodava tantas lembranças calorosas; segurava a foto dele, e lembrava com certa tristeza dos momentos felizes que tiveram juntos. Voltou a bater, esmurrava a porta com cada vez mais força. Ele era insistente, mas aquela porta era segura, sabia ela, ele nunca conseguiria derrubá-la, e ela não queria falar com ele.
O nome dela é Tania, mas não será conhecimento útil aqui saber seu nome, nem idade, nem qualquer coisa. O único fato que deve ser lembrado é este: Ela o amava. Sim, amava, no passado, não porque não o amava mais, ela o amava mais que a si mesma, mas porque ele não a amava mais.
Aquela semana fora a mais complicadas de sua vida. O fim de um relacionamento tão longo como fora aquele e o desemprego, destroçaram-na. Ela nunca quis terminar com ele, nunca quis ferí-lo, magoá-lo, mas acabou acontecendo. Chegou o fim. O pior de tudo é que doía como uma queimadura em seu coração provocada pelo gelo das palavras dele e, ainda por cima, não conseguia livrar-se do sorriso em seus lábios quando lembrava-se dos bons momentos. Ah! Que saudade dos bons momentos. Se pudesse congelá-los e vivê-los para sempre... Tania, no entanto, sabia que a vida não é assim. Precisamos passar por momentos bons e ruins e, quando atravessamos dias difíceis deveríamos lembrar que logo depois viriam dias felizes. Sua mãe lhe dizia aquilo, mas agora já duvidava de tudo; parecia que a dor não iria passar nunca. Pelo contrário, o aperto em seu peito aumentava cada vez mais e, para piorar toda a situação, conhecia também o remédio: Ele.
Mas ele não estava lá, e nunca estaria. Ainda não compreendia como tudo acontecera. Apenas aceite, a vida não é mesmo justa. Não! Devemos lutar pelos nossos interesses e nunca desistir. A vida é feita a partir das nossas escolhas, nada está escrito, se você ficar acomodada nunca deixará essa situação. Enquanto não tiver coragem de tomar as rédeas da própria vida, não conseguirá ser plenamente feliz.
Sorriu a lembrar das besteiras que ele fazia. Tinha um ótimo senso de humor, não era possível estar ao lado dele e não gargalhar até ter dor na barriga. Ele bateu novamente na porta que estremeceu ao receber a pancada. Ela já nem ligava para o que estava a seu redor, queria apenas ficar só, só com seus pensamentos. Olhou a foto dele e a apertou entre suas mãos suadas. Levou-a aos lábios e a beijou levemente enquanto uma lágrima despencava. Porque aquilo doía tanto? Queria ficar apenas com as lembranças boas e excluir as ruins, mas se bem conhecia sua cabeça, era mais provável que ela esquecesse as boas e ficasse apenas com as outras. O mal nos acompanha desde nosso nascimento e não deixará de ser assim numa desilusão amorosa. Aliás, aquilo tudo fora amor?
Analisando com atenção, talvez tudo não tivesse passado de uma grande mentira. Claro! Ela deveria ter percebido quando ele começou a se envolver com a Marcinha – aquela víbora destruidora de lares -, ela deve ter sido sua primeira amante. Espera! Se teve uma primeira, logicamente existiram outras. Quem foram as vadias? A Roberta? Cláudia? Milena? Ele deve ter tido um caso com todas as suas amigas enquanto fazia Tania de besta. Queria matá-lo agora por todas as traições, mas sabia que já não podia. Não acreditava que conseguira ser tão idiota por cinco anos. Ela merecia ganhar o troféu “Idiota do ano”. Como ele pôde fazer tudo aquilo com ela?
Lembrou das semanas, dos meses, dos anos que passaram juntos. As segundas-feira que amava pois o veria na faculdade, as sextas que odiava, pois sabia que passaria o fim de semana sem vê-lo. O sorriso, o jeito, a timidez, a leve inocência misturada com conversas sobre sexo e afins. Riu de si mesma por lembrar daquilo. Não tinha como esquecer aquilo, não tinha como esquecê-lo.
Sentiu a temperatura do apartamento diminuir, parecia que acontecia uma nevasca ali, mas sabia que a nevasca que ocorria estava dentro dela, uma avalanche de lembranças que dominavam sua mente e feriam sua alma.
Voltou a bater na porta. Esmurrava com força e gritava, sabia que alguém estava em casa. Ela observou com calma o balançar da porta com as batidas. Jogou-se no sofá. Olhou a foto dele contra a luz e pôde ler também a escritura atrás da imagem: “te amarei para todo o sempre”.
Mentiroso maldito! Como ele fez tudo aquilo com ela? Como ele pôde? Raça imprestável é essa dos homens. Levantou confiante. “Nunca mais me envolverei com um homem.”, disse a si mesma. Homens não prestam, são rudes demais, não conseguem entender as mulheres e usam isso como desculpa por todos os seus erros. Raça imprestável! Morra! Vá ao inferno!
A foto dele escapou de seus dedos. Ela apanhou apressada; não podia perder a última lembrança que restou dele. Ela queria tê-lo por perto, queria sentir seu abraço mais uma vez, só mais uma vez, só para dizer que fora o último abraço, o último beijo. É uma droga não sabermos quando será a última vez, se soubesse, teria feito diferente, teria o tratado bem, não teria gritado na última conversa, não teria dito que o odiava e que para ela, ele estava morto. Queria voltar à última vez, queria viver só mais uma vez a última vez.
As últimas palavras que dissera ao amado ecoavam em seu pensamento agora:
— Você está morto!
Morto? Ele não estava morto, não poderia estar. Nunca morreria, ele sempre estaria vivo. Desde que eles se amassem, estariam vivos. Como prometeram uma tarde qualquer sob um pôr-do-sol: “um sempre carregaria o outro”. E ela o carregava, Tania tinha certeza que o carregava. Ele não poderia estar morto! Ele não estava morto.
Ele voltou a bater. Esmurrava e gritava barbáries, dizia que arrombaria se fosse preciso. Ela não ouvia mais o que o homem dizia, ela só queria continuar ali. Para sempre com ele, para sempre ligada a ele, para sempre viva nele.
Olhou para ele. Os olhos vívidos traziam uma frieza doída, a pele branca gélida sem vida, o vermelho tomava seu peito. Ele a amava, agora sabia disso.
Ouviu-se um estrondo. O homem de roupa azul entrou, agarrou-a com vigor.
— Tania Ribeiro, a senhorita está presa por assassinato.
Notas finais
Até a próxima! õ/
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