Für Arthur

7 Parte VII - La La Land


Notas iniciais
notei que nunca postei, de uns 4/5 anos atrás. Fim.

VERÃO.


10...9...8.... Eu lutava para abrir a garrafa de espumante.
7...6...5.... Todo mundo estava conseguindo abrir suas garrafas, minha roupa branca já estava encharcada e pessoas gritando enquanto chacoalhavam a bebida já estavam aos montes.
4... MEU DEUS, QUE GARRAFA DIFÍCIL!
3... Eu vou perder para um Cereser? É assim que vou começar esse ano?
Uau, se esse é o começo...
2... Fogos já começando, bebida voando, pessoas se abraçando e se beijando. Ah, e eu? Garrafa barata 1 x 0 Euzinho frustrado.
1.
Assim como as explosões no céu dos fogos, tudo ao meu redor explodiu. Miguel me puxou para um beijo apaixonado. Não eram mais só os fogos que estavam explodindo, o espumante explodiu, as reações químicas em meu cérebro (além das biológicas em minha bermuda, risos), as pessoas estavam explodindo de alegria com seus entes queridos.
— Feliz ano novo, Art! – O loiro desejou em minhas orelhas, antes de correr ao mar para pular as ondas. É, acho que empatei o placar contra aquela garrafa barata.
Fui atrás de Miguel, recolhendo o sapa tênis e a camiseta que ele jogou na areia antes de entrar. Eu nunca segui nenhuma religião, acho que construí meu credo pegando pedaços de diversas matrizes que já vi ou tive contato. Os meus olhos são diferentes uns dos outros, acho que isso se aplica à minha visão também (longe de ser o famoso “diferentão”, o pernalonga com cropped e batom). Acho que uma das maiores lições espirituais se deu graças ao desenho da Nickleodeon, Avatar: A lenda de Aang (not a kid show), e os ótimos momentos de sabedoria do Tio Iroh. Também tem aquela música de Kesha, onde ela diz que não passa de poeira estrelar reciclada e energia emprestada
Talvez, todos esses meus pensamentos não se conectam e não fazem sentidos. E, acho que esse seja o ponto: não precisa fazer sentido, não precisa fazer uma declaração incontestável... Só precisa estar ali, presente, quietinho, num rumo de pensamentos e outras coisas.
1... Que meus pais vivam muito e sejam felizes.
2... Como será que a Margot tá reagindo aos fogos? Eita, isso não foi um
pedido.
3... Miguel é lindo e me faz feliz. Também não foi um pedido, mas era uma afirmação que eu queria fazer para os sete mares.
5... Ou era a 4?
Depois disso perdi as contas da quantidade de ondas puladas, mas não importava. O loiro estava vindo em minha direção e me deu um abraço apertado, daqueles que você ouve os batimentos cardíacos da pessoa. Um beijo salgado veio depois, o menino passava a mão por meus cabelos que estavam ensopados.
Ficamos mais um pouco na praia, o tempo foi preenchido com troca de beijos, cheiros, abraços e uma pequena facada quando pagamos dez reais em cada latinha de Heineken. No caminho da casa que estávamos ficando tivemos uma conversa onde somente o luar era testemunha.
— A gente vai ter que morar em uma casa, para Margot ter espaço. – Miguel falou sorridente, estávamos fazendo planos e juras de amor.
— Eu vou sempre fazer uma janta legal para quando você chegar cansado do trabalho – Comecei. – Se não tiver pronta, eu sou a janta.

Continuamos nesse ritmo, aquele caminho de 5 minutos pareceu ter durado horas. Combinamos que aos domingos íamos almoçar na casa do pai dele, pois estaríamos com preguiça para fazer qualquer coisa. Miguel falou que minha mãe iria dedicar uma canção no piano para nós, em nosso casamento. Falamos também que nosso amor seria eterno, inesgotável e atemporal. Um desses três estava certo.
Nossas roupas já estavam no chão antes de trancarmos a porta da casa, beijos e prensadas na parede aconteciam a cada passo. Miguel girou meu corpo, fazendo eu ficar de costas para ele e prensado contra a parede. Os beijos quentes do garoto começaram em meu pescoço e iam descendo por minhas costas, da mesma maneira que suas mãos grandes e firmes percorriam meu pescoço e deslizavam entre meu peito e barriga. Ele colocou uma mão dentro de minha bermuda subitamente, através de um gemido rouco foi como consegui expressar alguma reação. Minha bermuda desceu até a altura dos meus joelhos, já era o suficiente. Miguel me penetrou, suas mãos correram para minha boca quando dei meu primeiro gemido, esse não tinha sido rouco e sim alto. Aquelas mãos firmes percorrendo por cada extremidade do meu corpo, o suor de nossos dois corpos, a respiração pesada, os gemidos que cada um exaltavam, o jeito que ele pegava meu cabelo molhado e puxava para beijos ardentes.
Todos esses eram elementos de um grande ato artístico, assim como um pintor coloca a tinta em um pincel e agita-o rapidamente em frente a uma tela, fazendo a tinta pingar e se espalhar sem um padrão. A diferença era que a parede era minha tela, e meu pincel outro. Miguel deu um grito abafado enquanto seus movimentos ficavam mais frenéticos, sua tinta havia encontrado minha tela. Foi concluída a primeira obra das várias que iriamos fazer durante a madrugada, na manhã e no restante do primeiro dia do ano.
Ficamos mais alguns dias na praia, eu poderia me acostumar com a vida de caiçara.
E então, voltamos para a cidade. O carnaval foi ótimo, pulamos muito! Também ficamos ilhados em uma das tempestades doidas de março, valeu Elis Regina! Nossa rotina começou a ficar um pouco mais adulta com o término da escola, Miguel passava seus dias da semana se dedicando aos estudos para atingir seu objetivo repentino de ser médico. Os finais de semana eram nossos, uma vitória. Ufa!
Em um desses finais de semana fomos ao show de Angélica, namorada do meu primo, e rolou um after onde Miguel deu um pt gigantesco. Em outro final de semana fomos ajudar a irmã dele com a mudança, e na seguinte fomos ajudar a pintar as paredes. Teve aquela vez que fizemos um churrasco com todos aqui em casa, Manu até fez topless na piscina para o desespero de Enzo.
As estações foram passando, e parecia que nossa história estava sendo definida por elas.


OUTONO


Miguel estava focado em seu curso, não tinha muito tempo para mim ultimamente. Eu entendia o quão importante era aquilo para ele, não seria egoísta de fazer sobre mim. Entretanto, estaria mentindo se falasse que não sentia falta.
Em uma dessas manhãs frias de outono eu estava passeando com Margot e tive a sensação que tudo estava mudando. As cores daquele quadro estavam ficando menos vívidas e dando lugar à tons crus. Ainda era bonito, ainda estava lá


INVERNO

O frio chegou, tanto em São Paulo quanto em Miguel. Durante esse período ficamos mais distantes. O loiro havia entrado em um grupo de estudos com alguns amigos do cursinho, então seus finais de semana se resumiam a isso.
Ah, teve aquela vez que ele me deu um bolo no dia que combinamos de sair para jantar e discutimos. “Putz! Eu esqueci de avisar... Tenho um simulado amanhã, vou dormir na casa do Felipe! É que aí não preciso acordar de madrugada e cruzar a cidade.” E, tcharam. Uma discussão feia iniciou e ficamos cerca de uma semana sem nos falarmos.
Talvez você pode estar achando tudo isso sucinto, e é. Mas foi o que eu vivi com ele nesse período. Já não era bonito, ainda estava lá?


PRIMAVERA


A primavera chegou, ufa! Parece que tudo tinha se transformado, renascido. Os dias voltaram a ser quentes, longos e divertidos ao lado do loiro. As flores de cores vibrantes que iam nascendo no topo das árvores entoavam com esse período do nosso relacionamento.
Em um desses feriados prolongados decidimos viajar para a região serrana do Rio de Janeiro, foi uma aventura e tanto.
— E se tiver uma cobra na trilha, Arthur? – O garoto perguntou preocupado.
— Você tem um histórico em lidar com cobras, amor. – Falei dando uma risada maliciosa. Miguel riu também e depois me deu um soco leve no braço.
Nós acordamos de madrugada para fazer uma trilha de uns 15km em uma mata fechada, cheia de insetos, chão com lama e um calor infernal...

eu juro que o destino valeu a pena. Depois de trancos, barrancos e tombos, chegamos em uma cachoeira enorme, e, quando a contornávamos tínhamos uma vista de toda a serra que nos cercava.
— Miguel! – Gritei animado, ele estava tomando sol em uma pedra. – Olha o que eu achei! – Eu parecia uma criança com um brinquedo novo, só que no lugar de brinquedo era aquelas aranhas que ficavam nas pedras. Só que ela não era uma aranha normal, era uma aranha descolada! Tipo, as pernas eram enormes e finas e ela só comia pequenos insetos, totalmente inofensivas.
— Cê tá louco?! – O garoto tomou um susto com o bicho e recuou para trás. Em seguida ele tacou o resto da maçã que tinha comido na minha mão (a mira dele foi pau a pau com a do Legolas), e meu amiguinho saiu arrastado pela água. – E se ele fosse venenoso? Eu não consegui carregar meu peso nessas 5 horas de caminhada, imagina te arrastando também! – E foi open de sermão.
Mas, eu sou muito irresistível e depois de alguns minutos já estávamos no maior love ao ar livre. Quando voltamos para a pousada nós decidimos fumar um e ficar vendo as estrelas, a era hippie chegou muito forte.
— ... e, ali está a estrela de Sirius. Tá vendo? – Ele guiou minha mão na direção do corpo celeste.
— Sirius? Igual ao do Harry Potter? – Ele riu e assentiu.
— Ela é a estrela mais brilhante do céu noturno, Art. – Ele falou.
— Não é não, Miguel. – Retruquei.
— Ei, claro que é! Eu vi esses dias no cursin... – Eu calei ele com um beijo.
— É nada, você que é. – E ele riu bobo, eu também.

Foi uma madrugada boba, com conversas, como: “se você tivesse que escolher um nome com três letras, qual seria?” e “qual seria seu time Pokémon se eles fossem reais?”.
Esse papo, inclusive, levou a gente a se fantasiar de Gengar e Clefable na festa de halloween que Manu deu. Também andamos de Kart com o pai do loiro, e ele me ensinou a trocar uma resistência do chuveiro. Teve uma semana que eu surtei e comprei pinceis, telas e tintas para usar uma vez e nunca mais. Miguel teve catapora, eu não conseguia acreditar que alguém conseguiu a proeza de não pegar quando criança. Fomos ao show do Rubel, onde eu chorei descontroladamente.
Mais para o final da primavera o loiro estava cada vez mais ansioso com as provas que ele logo iria prestar, já eu estava curtindo o final do meu ano sabático. Era lindo, estava lá.


VERÃO – de novo


É incrível como o ano passa cada vez mais rápido conforme vamos crescendo, já era natal de novo!
— Eu tenho certeza que você foi bem, Miguel. Você é muito inteligente e esforçado, menino de ouro. Art, tem sorte em ter você. – Meu pai falou enquanto dava tapinhas de encorajamento nas costas do menino que estava preocupado com os resultados das provas.
Ainda era cedo, só estava minha família e a de Miguel arrumando a casa para a ceia. Eu aproveitei para subir e tomar um banho antes da galera chegar.
— Amor, empresta seu celular para eu ouvir música? O meu tá carregando. – O garoto hesitou por um instante, mas logo cedeu.

Talvez fosse achismo meu, mas ele estava meio aéreo nesses últimos dias. Sempre alerta, preocupado e agitado. E as provas já tinham passado, não tinha como usar essa desculpa.
Bigodin finin, cabelin na régua. Eu estava só colocando minha roupa pós banho para descer e interagir com os convidados, a casa já estava barulhenta com parentes. No meio do meu flow de thrift shop o celular vibrou com uma mensagem, por instinto eu cliquei na notificação. Era uma mensagem de Felipe, o amigo do cursinho.
“amorzinho, você esqueceu sua carteira aqui ontem.”
Eu fiquei paralisado, tentando entender a mensagem. Amorzinho? Com certeza era para outra pessoa. Ainda mais que ontem Miguel dormiu na casa da Júlia, sua irmã. Esse moleque era sem noção. Felipe é aquela pessoa que sempre tá com um olhar esnobe e um sorrisinho como se soubesse algo que você não sabe, sempre que ele saia com a gente era um saco.
A noite foi ótima, formou-se um complô entre mim, Miguel, sua irmã e o namorado e meu primo e a namorada. Diversas risadas e conversas jogadas fora.
Eu me forçava a estar presente, mas a mensagem de Felipe as vezes me arrebatava. Aproveitei quando o namorado de Júlia, Léo, foi até a geladeira buscar mais uma cerveja e o segui.
— E aí, espero que Miguel não tenha atrapalhado vocês ontem. – O garoto me lançou um olhar confuso, eu torcia para isso ser consequência do álcool apenas.
— Ele ficou de ir para lá ontem, mas nem tchum. – Ele comentou brevemente antes de deixar a cozinha.
Era por volta das 4 da manhã quando o último convidado foi embora, esse ano não teve declaração romântica ao som de Für Arthur. Margot, a

husky, estava mantendo minha mente ocupada enquanto Miguel tomava banho antes de dormir.
O loiro saiu do banheiro e estava em pé se vestindo, seu sorriso contagiante nunca saia do rosto. Não era possível que aquela mensagem significasse algo, era só um engano.
— Miguel – Comecei, ele terminou de se vestir e me encarou.
— Oi, amor. – Aqueles olhos de Golden Retriever me encaravam, uma pessoa com aquele olhar nunca faria nada desse tipo.
— Cadê sua carteira? – O olhar doce se transformou em um assustado.
— Ah... n-não sei, Art. Deve estar jogada em algum canto da casa. – Ele se jogou na cama e me puxou para um beijo, o afastei.
— Ah sim... na casa do Felipe?
Miguel riu nervoso e fez aquela clássica jogada “Que cê tá falando? Tá doido!” e me puxou para carícias de novo, eu logo levantei e me afastei do garoto.
— Eu sei de tudo, Miguel. – Joguei o verde para ver se o garoto admitia.
O loiro começou a chorar e gaguejar, de alguma forma ele buscava palavras para se defender ou justificar a situação. Eu comecei a chorar junto e me afastar toda vez que ele chegava mais perto, que sorte que meus pais tinham ido para a casa dos meus avós depois da ceia.
— Eu te amo! Você sabe disso, você é a pessoa que eu escolhi ficar... ele foi só um erro. – As lágrimas do garoto encharcavam sua camiseta.
Miguel contou que o cursinho estava tomando a maior parte do tempo dele, e que eu não dava mais atenção para ele – tipo, o quê? Tentou jogar pro meu lado, tá de sacanagem! E, que no grupo de estudos o “Fer”

sempre estava lá por ele e uma noite eles ficaram bêbados e rolou. Só que esse lance de uma vez se tornou um passatempo, e ele não sabia como acabar.
Eu também não sabia como acabar aquilo, eu queria sumir daquela conversa, eu não queria lidar com nada daquilo. Queria que fosse apenas um pesadelo e que quando eu acordasse tudo estaria normal, eu teria o meu Miguel ao meu lado. Aquilo não podia estar acontecendo, eu devo estar imaginando... O garoto que me salvou quando eu apanhei, que me ensinou o que era amar e ser amado, não era possível ele ter feito isso.
O que aconteceu depois são flashs em minha memória; a gente começou a discutir, gritar e chorar muito. Ele pedia perdão e fazia mil juras de amor, que timing péssimo. Eu peguei a mochila dele e a joguei em suas mãos, depois gritei para ele sair. Margot assistia toda a cena assustada debaixo da cama. Depois de muita insistência Miguel saiu da casa, e, finalmente, eu pude deixar meus sentimentos me invadirem e tomar conta. Raiva, tristeza, indignação e muito mais, meus divertidamente estavam pirando.
...
Era ano novo, eu estava com meus pais na praia. A contagem regressiva tinha começado.
10...9...8... No dia seguinte da briga o garoto tentou me contatar de diversas formas, eu o ignorei por completo. Ainda estava tentando entender meus sentimentos.
7... 6... 5... Isso se repetiu até a véspera do ano novo, era demais para processar.
4... Eu aceitei o convite dele para conversar, fui de carro até a casa dele com todos os seus pertences em uma caixa.
3... Ele pedia desculpas, fazia promessas e juras que deixariam Romeu e Julieta no chinelo.

Um dos meus filmes favoritos da vida são os da Trilogia Before, a melhor história de romance já produzida. No último filme, na cena final, depois que Jesse admitiu ter traído Celine e que tenta reconquista-la, ela faz um gesto de pegar a bolsa e ir embora dali, dele. Eu sempre achei que eu seria o Jesse, faria a cagada e teria que consertar; entretanto, eu fui Celine. Mas, diferente da protagonista que hesitou, ficou naquela mesa, voltou para aquele quarto e para ele... eu não hesitei.
2... Entreguei a aliança para o garoto e me despedi.
1... Os fogos explodiram ao meu redor, as pessoas felizes e eufóricas. Beijos, abraços e promessas que não seriam cumpridas por todo o lado. Essa página em branco iria cair bem para começar o ano.
Eu logo voltei para o hotel, caminhei acompanhado apenas da lua e dos meus pensamentos. Lembrei da minha conversa no ano novo passado com Miguel, onde falamos que que nosso amor seria eterno, inesgotável e atemporal.
Eterno, bem... Não foi.
Inesgotável? Eu ainda amava muito o garoto. Afinal, não era um sentimento fácil de esquecer e desapegar. Mas o amor é como se fosse um copo transbordando a todo instante, eu já não transbordava. Em algum momento, o copo iria diminuir e secar, mas só o tempo saberia disso.
Atemporal? Esse foi. A vivência desse primeiro amor nunca seria esquecida, ninguém esquece o primeiro amor. Talvez eu iria lembrar dele olhando o céu e vendo a estrela de Sirius, passando por algum restaurante que a gente gostava ou quando tocasse a música do gás (essa seria impossível de esquecer, o garoto mandou muito bem).
Ser jovem e achar que vai morrer de coração partido, ah! Se fosse tão fácil assim lidar com esse problema.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.