Fênix

2 Extraordinário


Estou sentada ao lado de minha cama. Meus olhos fixos no meu exemplar de "Extraordinário". Esse é meu livro favorito. Possivelmente, é a 13° vez que o leio. É como se a autora do livro tivesse se baseado na minha vida para escrever os sentimentos do personagem. A única diferença é que minha vida ainda não me deu motivos para ser feliz. Não tenho mãe, ela foi assassinada por meu pai quando eu tinha seis anos de idade. E é só o que sei, não consigo recordar do que acontecera na noite em que ela se foi, porém, às vezes sonho com a cena, que se esvazia da minha mente na mesma velocidade que entrou.

Nunca soube o porquê do meu pai matar minha mãe. E isso é uma das coisas que me assombram, porém acredito que nunca saberei as respostas. Está escurecendo, me levanto para acender as luzes e aproveito para olhar na janela. O sol está se pondo e cores laranja e amarelo enfeitam o céu deixando aquela cor ardente. Queria poder caminhar pelo mundo lá fora, com um sorriso no rosto e não ter nada com o que me preocupar. Mas a única coisa que consigo é ficar confinada em minha casa, em meu quarto, pensando no passado, sofrendo com medo do futuro, lamentando por não aproveitar o presente. Aos poucos as cores vão desaparecendo e um azul escuro se espalhar por todo o mundo, além de onde meus olhos podem ver. Sempre me perguntei o que fiz para merecer essa vida. Se fiz algo errado no passado, não me lembro.

Meu nome é Megan. Não sou como qualquer outra garota de 16 anos, que frequenta uma escola, tem amigos e é viciada em redes sociais. A uns 3 anos atrás, meu pai havia criado um tal de "Orkut" para mim. Ele sempre me falava que não gostava da ideia de me socializar com alguém, que sempre teria alguém para me levar para um mal caminho, por isso queria que eu tivesse amizades virtuais — acho que foi esse o nome que ele disse se referindo a amigos que conhecemos na internet — pois, se tivesse algo errado, eu deletaria essa pessoa da minha vida com apenas um clique. O que não aconteceria tão fácil com amizades na vida real. Não lembro mais como se usa, nem sei se alguém ainda usa. Na verdade, nem sei se isso ainda existe.

Tenho cabelos pretos ondulados e olhos de mesma cor. Não sou gorda, mas também não sou magra demais. Umas poucas curvas traçam meu corpo e eu não o considero tanto assim. Antes a aparência significava algo, mas agora que tudo está perdido, considero só um substantivo vazio. Desde que minha mãe morreu, todos os dias são sempre obscuros. Tudo que eu acreditava, amava e confiava, se foi quando minha única esperança morreu. Minha mãe. Eu daria tudo para tê-la de volta. Ás vezes penso que poderia me juntar a ela, mas também penso que ela queria me ver lutando para alcançar a felicidade.

Mas a felicidade não é algo que se pode ter nas mãos. Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho. Não há uma estrada real para isso, mas caminhos diferentes. Talvez haja uma pontinha de esperança dentro de mim. Talvez algo possa mudar tudo isso. Talvez tenha que seguir assim.

Enquanto nada muda, procurarei forças e esperanças dentro de mim.

Balanço a cabeça de um lado para o outro, querendo me livrar de todos esses pensamentos. Levanto-me e passo pela porta do meu quarto, fechando-a. Estou descendo a escada em direção a cozinha querendo saber se meu pai chegara do trabalho, mas lembro que hoje é quarta-feira, o dia em que ele sai para trabalhar e só retorna na tarde do dia seguinte. Então, decido voltar para meu quarto, contudo, desvio o olhar que acaba fixando na porta do quarto de Natalie, minha madrasta. Ela está retirando algumas de suas caixas de sapato do guarda roupa, revirando-os na cama, como se procurasse algo, enquanto fala ao telefone. Observo sem fazer barulho, para que não seja notada. De repente, algo me assusta. Uma arma. Natalie tirara uma arma de uma caixa de sapato. Me pergunto a quanto tempo ela tem isso guardada — o que não deve ser muito, porque nunca vira a arma no quarto dela, considerando que sou também a doméstica da casa e que arrumo-o todo, como todos os outros cômodos — e martela em minha cabeça os motivos para ela ter tal objeto guardado em sigilo.

— Vitor? — ouço Natalie perguntar enquanto fala ao telefone.

Recuo mais um pouco.

Não consigo ouvir o que a pessoa que conversa com ela fala, por isso tenho que tentar ligar a resposta dada por ela a uma possivel pergunta feita pela pessoa no outro lado da linha.

— Não, não. Ah, da para calar a boca? Eu não seria burra a ponto de te chamar para minha casa se aquele idiota estivesse aqui.

Silêncio.

— Ah, pelo amor de Deus, a garota só vive trancada naquele quarto, só sai dali para ir ao banheiro e comer. Não! Shhh! Ela já fez a última refeição que costuma fazer. Então, não tem problemas.

Mais silêncio.

— Em 30 minutos? Tudo bem. Não demora.

Natalie desliga e joga o telefone sobre a cama e dá uma risada que não consigo interpretar o que pode significar. Ela está guardando a arma na mesma caixa que a tirara. Estou assustada, me virando lentamente na esperança de não ser vista quando sinto que Natalie deu meia-volta. Não sei quanto meu coração batia, mas naquele momento só sei que duplicou. Triplicou. Continuo a andar e abro a porta de meu quarto, que fica aproximadamente a dois metros do quarto de Natalie.

Suspiro aliviada, acreditando na hipótese de que tudo acabou bem, desconsiderando o fato que descobri que Natalie tem uma arma em seu quarto, o mesmo em que meu pai dorme, e que ela o está traindo.

Mas uma mão me puxa me derrubando sob o capacho na frente de meu quarto.