Férias Inesperadas

1 A ignorância NÃO é uma benção


Notas iniciais
Espero que gostem da leitura, e agradeço qualquer opinião ou crítica construtiva que tenham para dar.

Um pouco da minha cerveja se espalha quando brindamos as nossas férias antecipadas, um presente de Deus! Já é minha terceira latinha, e o cheiro de frango e linguiça enche meus pulmões, sei que Roberto é bom de grelha, mas a ocasião especial o inspirou a caprichar.

A casa está cheia, e vejo meus bons amigos dançando e cambaleando de bêbados, já estamos de férias a quase uma semana agora. O dia passa e só vamos embora da casa de Mikael quando está escurecendo.

As ruas estão praticamente desertas essa hora, o ar fresco da noite bate no meu rosto trazendo o cheiro da chuva que as nuvens no céu já anunciam a alguns minutos. O caminho para casa é curto, e recebo mensagens de meus colegas de trabalho alertando sobre a tal nova gripe que chegou no Brasil. Besteira essa histeria toda por uma gripezinha. Nem respondo.

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Aslam pula em mim assim que chego, sempre ansioso pra me ver, posto um foto nossa no insta. “Nada como o afeto puro e sincero de quem só quer um carinho”. Dou um pouco mais de ração para ele e vou deitar.

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Férias abençoadas vieram em boa hora, dou graças a Deus pela frescura das pessoas, a rua está tão vazia que não preciso mais ter medo de correr com Aslam sem a corrente, então já criei minha rotina de exercícios para substituir a academia, que acabou fechando. De manhã eu corro com Aslam e faço algumas flexões e abdominais quando chego em casa, tomo um banho e almoço navegando pelos canais de TV.

Me irrito com a insistência da mídia em culpar o presidente por falta de responsabilidade, como se fosse culpa dele que as pessoas ficaram doentes! Se a pessoa já está velha, então vai acabar morrendo mesmo, foi fazer o que na rua?

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Agora até meus parentes estão sendo contaminados com essa histeria, e enviaram nossa avó junto com aquela irmã dela pra casa de campo, vê se tem cabimento, leva minha avó pra longe sem nem me consultar, eu que sou neto dela só fiquei sabendo desse absurdo por telefone, ela já foi a 3 dias!

Vou no boteco do seu Jorge beber umas e desabafar, o velho é bom de conversa, e tem a cabeça no lugar, é um dos últimos a manter o barzinho aberto.

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Já estou a quase 3 semanas de férias, e agora tem uns 3 dias que o seu Jorge não abre o barzinho, parece que gripou também. Praticamente não tem mais o que fazer na rua, a não ser minha corrida matinal com Aslam, então dou uma passada na casa da minha mãe, ver meu irmãozinho. Mesmo dirigindo devagar, Aslam enjoa no caminho e vomita no banco traseiro, me obrigando a parar no meio da estrada para dar uma geral antes de continuar.

Chego na hora do almoço, mato a saudade da família. Meu irmãozinho besta da chilique, como sempre, mas abraço ele mesmo assim. Coisa de criança mesmo, acredita em tudo que vê na TV e agora não quer nem encostar na família. Mãe conta que o mercado tá muito caro e por isso tem pouca comida pro almoço, e ela está com medo de ir comprar mais por causa da gripe. Só rio dela.

— Só você mesmo mãe, por isso que precisa ter um homem em casa pra colocar noção na sua cabeça, tem nada a ver não. Dexa que eu vo no mercado pra você, essa semana ainda te trago.

Passo toda a tarde com eles, a volta pra casa também é calma e tranquila, sem ninguém no trânsito, além de um ou dois gatos pingados. Como Aslam continua enjoando no carro, o melhor mesmo é ir no mercado outro dia.

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O mercado está lotado agora, e é uma correria pra pegar os itens das prateleiras, mas consigo o suficiente para minha mãe. Só o supermercado vai acabar falindo muita gente, principalmente agora que começaram a demitir o povo, o meu emprego ta seguro por que o chefe é meu parça, mas essas fake news estão passando dos limites. O caminho pra casa de minha mãe é mais rápido hoje, que não tenho que me preocupar com o estômago de Aslam.

Chego em casa e minha mãe está desesperada, banhada em lágrimas, e enfia meu irmão vermelho de febre no carro assim que eu chego, se joga no banco ao lado dele e me manda ir pro hospital.

Corro o máximo que posso, meu irmão não para de chorar de dor e de tossir como se fosse cuspir o próprio pulmão.

Passo por um, dois, três sinais vermelhos.

O hospital está lotado, o atendimento é lento, e meu medo só aumenta.

Meu irmão consegue uma vaga e fica internado, minha mãe vem comigo pra minha casa, que é mais perto, e chora a noite toda. Acordamos já com a notícia, meu irmãozinho pegou o corona vírus, e seu estado é grave por conta da asma.

Se possível, minha mãe chora mais, e meu coração aperta de angústia enquanto recebo uma notificação no meu telefone.

Um email do trabalho.

Estou demitido.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!