Futuro Negro
8 Capítulo 7: Abrigo.
--Meu senhor, temos de nos apressar. Falta menos de uma hora para o nascer do sol. – disse Linus.
--Sim, é verdade... Vamos parar na pousada no caminho. É onde passaremos o dia.
Linus assentiu silenciosamente.
--E quanto a vocês, insurgentes... Irão esconder esta Nosferatu. Amanhã, na primeira hora do anoitecer, quero que a entreguem em minha mansão. Façam isso, e ignoro sua displicência para com a Máscara.
--Pare de ser teatral, homenzinho covarde. Só quer fugir, porque sabe que seu Xerife não conseguirá me vencer em combate. Coloque seu rabo entre as pernas, e rasteje para seu esconderijo vulgar. – respondeu Sir Eric.
Senti a aura de Linus, de uma cor cinzenta pálida e morta, criar um brilho escarlate que durou um centésimo de segundo.
--Diga o que quiser. Amanhã, às sete horas da noite, em minha mansão. E espero não ter de dizer para não levarem o corpo abertamente, cubram ele. Ou coloquem em um porta-malas. – respondeu o senhor Knox.
O príncipe virou-se e deixou o hospital pela porta da frente, e Linus o seguiu. Sir Eric virou-se para mim e Heather, e falou.
--Vocês dois estão bem? Precisamos correr para um abrigo... Normalmente, poderia receber os dois, mas não acho que na pousada onde resido, aceitariam uma Nosferatu impalada.
--Sei pra onde podemos ir. – disse Heather. –A sede de minha gangue de motocicletas... acho que não precisamos mais dela, de qualquer forma. Fica a menos de um quilômetro daqui, no subsolo de um estacionamento público.
--Parece ótimo. Leve-nos até lá. – Respondeu Sir Eric.
Heather assentiu. Caminhamos os três, silenciosamente, vez ou outra ouvindo um osso deformado da Nosferatu estalar, saindo ou voltando para seu lugar. Sir Eric a cobriu com seu casaco, para esconder a perna de cadeira que atravessava seu peito.
Em pouco tempo, chegamos ao tal estacionamento. Era perto de um shopping center antigo, que ficava onde quase vinte anos atrás era o centro da cidade. Hoje em dia, com o centro reposicionado a mais de cinco quilômetros, o centro comercial tornou-se frequentado apenas pelos residentes locais.
Heather nos conduziu até uma rampa, onde havia uma placa com os dizeres “Apenas funcionários”, e pichada com símbolos de gangues. Pela rampa podiam passar dois carros lado a lado, e ela fazia duas voltas sob o chão antes de apresentar uma grande área coberta.
--Bem vindos ao paraíso – disse Heather, entre dentes.
O estacionamento subterrâneo era amplo, e parecia ter sido palco de conflitos da segunda guerra mundial. Haviam armas de fogo de baixo calibre espalhadas por toda a área, assim como munição. Haviam também duas espingardas sobre uma mesa de madeira. Várias motocicletas adornavam o teto, penduradas por correntes, e muitas caixas de peças para reposição ficavam em uma das paredes. Vinte colchões ficavam no meio do refúgio, a maioria suja e furada. O lugar todo era uma mistura de oficina, albergue e arsenal.
--Pois bem, repousaremos aqui hoje. Mas quero saber porquê está sendo tão grata e prestativa, jovem Brujah. – disse Sir Eric.
--Não acredita em pessoas boas e inocentes? – disse Heather, sorrindo. – nem devia. Mas eu estou sozinha agora, e... queria ajudar.
--Não me convence.
--Porque não era a você que eu queria ajudar.
--Oh? Interessada em meu pupilo, anarquista?
--Não estou interessada nele. Preferia, de fato, que ele morresse, empalado e abandonado ao sol. Mas... ao mesmo tempo... não. Não sei o que faria caso isso acontecesse... ou o que eu faria, para impedir que acontecesse.
Sir Eric pareceu entender algo que eu não. Ele perguntou:
--Jovem rebelde. Bebeste do sangue de meu aprendiz?
--Sim. – respondeu Heather, com a cabeça baixa.
--Pois não o faças uma segunda vez. Pode ser perigoso para você. Agora... repousemos.
Caso ainda pudesse, teria engolido em seco. Heather já tinha bebido meu sangue duas vezes, e ela praguejou quando o ofereci para salvá-la... Por quê?
Sir Eric acorrentou a mulher Nosferatu em pé, presa ao teto, para não arriscar que ela caísse e a estaca se soltasse. Feito isso, ele sentou-se em um dos colchões, e pareceu entrar em transe.
--É um homem muito estranho, seu senhor. – disse Heather, olhando para mim.
Por um momento, não soube o que dizer. E não queria mesmo dizer nada, para não demonstrar minha estupidez. Acabei apenas concordando com a cabeça. A motociclista continuou.
--Amanhã, vou precisar beber muito sangue... Essa rata do esgoto me deixou quase esgotada. Hum... eu realmente não sei como agradecer a vocês.
A mudança no modo que ela falou me deixou surpreso.
--Mas você já fez o bastante. Estamos seguros aqui, não? – respondi.
--Sim, é claro. Mas vocês se arriscaram pra me ajudar... e eu não tenho nada. Nem mesmo meus amigos.
--Acredito que... Sir Eric lhe salvou, porque era o certo a se fazer.
--Não se iluda, Matthew. Ninguém faz nada, nem os menores atos, por bondade. Sempre há interesse.
--Sir Eric é um bom homem. Confio nele.
Ela olhou fixamente em meus olhos.
--Então, eu também confio. Bom descanso, Matthew.
Ela passou por mim, e deixou-se cair sobre um dos colchões. Pareceu dormir.
Não me sentia cansado. Caminhei pelo estacionamento, examinando tudo. Armas, motocicletas, correntes, tudo para mim era muito estranho. Eu havia mergulhado de cabeça em um mundo muito confuso. De repente, eu, um estudante de medicina, estava em um esconderijo de gangue com uma motociclista e um velho capaz de parar balas com as mãos. E os dois estavam mortos, pra melhorar a situação. E eu tinha certeza de que a Nosferatu me observava, enquanto eu caminhava. Sem dúvida, ela era feita de pesadelos.
Achei melhor descansar. Logo o doce torpor viria, e me abraçaria como a morte. Queria lembrar como era dormir, para comparar a sensação. Pelo menos não haviam pesadelos. Nem haviam sonhos, tampouco. Mas tudo bem. Eu não lembrava como era sonhar, mesmo.
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