Notas iniciais
Um capítulo mais curtinho, preparando o terreno para o horror que virá.

O sangue... Ah, o sangue...

Com a mente ainda turva após sofrer tantos golpes, Lenin mal conseguia registar a dor lancinante que vinha de seu braço direito, apenas a informação visual de todo o sangue espalhado pelo local ocupava sua mente.

Isso e a preocupação com seus dois companheiros.

O esforço foi descomunal, mas ele conseguiu erguer o corpo o suficiente para se recostar numa parede próxima, algo viscoso molhou sua camisa de tecido sintético, mas ele ignorou o fato de que, provavelmente, fosse sangue, tentando focar o único olho bom, o outro estava inchado e fechado, tentando achar seus companheiros.

Para seu desespero conseguiu discernir, em meio a uma pilha de corpos dos agentes do Globo Ocular, seu amigo de infância jazendo de costas no chão extremamente limpo da galeria.

Não havia sinal algum que indicasse se estava vivo ou morto.

Com um agonizante mover da cabeça, Lenin tinha a impressão de não estar sentindo as pernas, uma fratura na coluna talvez, finalmente sua visão turva localizou o responsável por aquela chacina.

Legião. O assassino serial cuja perseguição fora rápida, certeira e, infelizmente para os agentes destacados para aquela missão, mal planejada e antecipada.

— Bem minha querida... — as palavras chegavam com dificuldade para os ouvidos de Lenin, mas seu significado era de fácil compreensão. — Só precisamos escolher um cantinho mais confortável para nos deitarmos... O que me diz dessa pilha de corpos? Garanto que não há sensação melhor do que festejar um final de combate em meio às suas vítimas...

O agente tentou se erguer, mas logo bateu violentamente as costas de volta à parede, sentindo um jorro quente emergindo de seu flanco direito, ensopando a calça e boa parte do chão.

— É... Vai ser aqui mesmo...

Disposta a não dar a satisfação ao monstro de ouvir os gritos que clamavam por se libertar se sua garganta, Canina ainda tentava se libertar, enterrando garras de policarbono extremamente afiadas no antebraço de Legião.

Aquilo pareceu apenas estimulá-lo ainda mais.

Acho que está na hora da sua apólice de seguro... uma voz, rouca como a de um amante, pareceu explodir a mente de Lenin Lembre-se de que não há volta...

— A... Apenas... Fa-faça...

E então aconteceu.

Poucos segundos depois um urro animalesco tomou conta do local.

— Ora, ora, ora... — Legião voltou seu olhar por sobre os ombros e com um sorriso ainda mais animalesco, levou sua prisioneira até uma parede próxima e usando um fêmur que retirara de uma de suas vítimas, empalou Canina, mas de forma que ela ficasse viva para ver o que ia acontecer. — Agora as coisas ficaram mesmo interessantes...

XXX

Algumas horas antes.

— Tenham em mente que essa criatura não é um ser humano com transtornos de personalidade, que acabou violento e começou a matar metodicamente por causa de uma doença mental...

Canina parecia à vontade diante da equipe de mais de vinte agentes do Globo Ocular, realizando um briefing da missão que os aguardava.

Alek e Lenin ficaram à parte da reunião, cada um se preparando para a invasão do covil do assassino, uma renomada galeria de arte localizada no Primeiro Andar de Nova Sampa.

— Acho que vou até o arsenal... — Alek ia saindo de fininho da sala de reunião. — Se até ela tá assustada com o tal de Legião quero estar preparado para tudo... Quer algo de lá?

— Valeu... — o outro agente apenas deu de ombros e começou a seguir na direção oposta de seu parceiro. — Vou me preparar também, mas de outro jeito...

Sem saber do que o amigo falava, Alek seguiu seu caminho e, ao sair da sala onde era guardado todo tipo de arma, parecia uns trinta quilos mais pesado.

Nem isso o fazia se sentir mais seguro no entanto.

Cerca de duas horas se passaram quando finalmente Canina se aproximou.

— Estamos prontos, ou o mais prontos que poderíamos estar.

— O negócio é tão feio assim?

— Você me conhece... Já me viu com medo?

— Não, claro que não... Acho você a criatura mais corajosa de todo esse prédio...

— Pois é... Mas confesso que tô toda cagada de medo do que vamos enfrentar hoje... Se a gente sair dessa vivo, pode acreditar que vou me converter a alguma religião no dia seguinte.

Antes de Alek pensar em uma resposta, a conversa foi interrompida pela chegada de Lenin que, com cara de poucos amigos, foi até o arsenal e pegou apenas quatro pistolas Magnun 78 com munição de ponta oca.

— Vai levar só isso? — o espanto dos colegas se traduziu numa frase dita em uníssono.

— Acreditem, não vou precisar de mais do que isso... Podemos ir?

Canina e Alek estranharam os modos do colega, mas diante do que os esperava, deixaram de lado essas preocupações, afinal todos poderiam conversar quando o Legião estivesse fora do jogo.

Mal sabiam eles que aquela foi a última chance de uma conversa normal do trio.

Notas finais
Espero que gostem de mais esse capítulo pessoal! E não esqueçam de fazer um escritor feliz, comentando!